Na noite em que se conheceram, e depois de fingir que não o notava, o chihuahua passou o jantar olhando o Rato, como se exercitasse 

técnicas desenvolvidas no laboratório de neurociência. Naquele contato, Rato sentiu a presença de um organismo nocivo, contra o qual não 

tinha defesa
Ver dados da foto Na noite em que se conheceram, e depois de fingir que não o notava, o chihuahua passou o jantar olhando o Rato, como se exercitasse técnicas desenvolvidas no laboratório de neurociência. Naquele contato, Rato sentiu a presença de um organismo nocivo, contra o qual não tinha defesa ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2016

Simpatia pelo demônio

Preparado profissionalmente para as guerras, o Rato era um amador nas questões amorosas
Bernardo Carvalho
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Na noite em que se conheceram, e depois de fingir que não o notava, o chihuahua passou o jantar olhando o Rato, como se exercitasse técnicas desenvolvidas no laboratório de neurociência. Naquele contato, Rato sentiu a presença de um organismo nocivo, contra o qual não tinha defesa ILUSTRAÇÃO: PEDRO FRANZ_2016

Contar é uma forma de se duplicar. Enquanto fala ao homem caído no chão, no quarto de hotel, numa língua que o homem não entende; enquanto ouve a própria voz e o que diz ao homem, o Rato se vê saindo do apartamento onde se hospedara três anos antes, em Kreuzberg, na noite do encontro no teatro, e segue o homem que é ele mesmo até a estação de metrô mais próxima, Schlesisches Tor. Ele se vê subindo as escadas, passando por um mendigo, correndo para não perder o trem que acaba de entrar na estação suspensa e em curva. Lembra-se de que era uma noite espetacular, com o céu variando entre as últimas luzes do dia no horizonte incandescente e os planetas e as estrelas cintilando no azul profundo do zênite. Poderia dizer a si mesmo, gritar a si mesmo (ao homem que corre na plataforma, para pegar o trem), como a voz de Deus ou de um anjo da guarda, se fosse possível voltar ao passado: “Pare enquanto é tempo!” Daria tudo para saber na época o que sabe agora. Porque então teria podido parar e voltar atrás enquanto ainda tinha essa chance. Agora, diante do homem ferido no chão, com um colete de explosivos não detonados, ele tenta acreditar, porque é o que lhe resta, embora cada vez com menos convicção, que os mortos, os seus mortos, todos os que ele tentou salvar ao longo de sua vida, empurraram-no para aquele encontro em Berlim, de propósito, para o seu bem, para que se fortalecesse diante de uma nova provação. Desde aquela noite, ele vem tentando acreditar, cada vez com menos convicção, que pudesse haver outro sentido a não ser a própria morte naquele encontro num teatro de Berlim. É o que se chama pensamento positivo.

A professora universitária estava hospedada a poucas quadras dele. Tinham combinado se encontrar na plataforma do metrô e seguir juntos para o teatro. Na última hora, ela ligou para dizer que se atrasara, já estava com o ingresso, só conseguiria sair de casa em cima da hora, ia de táxi. O Rato ainda tinha de retirar o ingresso na bilheteria. Não queria arriscar. Foi na frente, sozinho.

Melhor teria sido não ir ou chegar atrasado e perder a peça. O que aconteceu na antessala do teatro poderia ter sido evitado se naquela época ele soubesse que também a morte e a violência se combinam onde menos se espera, das maneiras mais oportunistas, como num processo de esgotamento que se instala quando o guerreiro, de volta ao lar, se distrai e abre o flanco, quando se sente mais vivo e feliz, incapaz de acreditar que sua alma cheia de desejos e planos para o futuro, tendo vencido a batalha, possa se esvair ali mesmo até não sobrar mais nada. Para os vencedores, morrer deve ser um pesadelo ultrapassado, um filme de época, uma coisa fora de propósito. Para o Rato, acostumado às piores visões, toda morte era consequência de algum tipo de violência – que ali, para sua infelicidade, ele não podia reconhecer.

A antessala do teatro tinha sido concebida por um arquiteto modernista famoso, que planejara um corredor em forma de U ao redor da sala de espetáculos. As saídas para a rua ficavam nas duas extremidades do U. Num dos lados havia um guarda-volumes e a bilheteria; no outro, um bar rodeado de mesas, onde os espectadores aproveitavam para comer e beber antes da peça e nos intervalos. A sala de espetáculos ficava no meio, envolvida pela antessala. A porta de entrada, localizada bem no vértice do U, entre a bilheteria e o bar, continuava fechada. Ainda não tinha soado o primeiro sinal, mas para o Rato, sem que ele soubesse, o espetáculo já começara, antes de qualquer sinal. No seu caso, o espetáculo ocorria do lado de fora da sala, nas mesas ao redor do bar.

 

Diante do homem ferido, caído no chão do quarto de hotel, com a perna ensanguentada e o colete de explosivos, o Rato revê cada passo daquela noite em Berlim, em câmera lenta, como na hora da morte. Revê o instante em que entrou no teatro pela porta ao lado da bilheteria, quando pegou o ingresso e depois quando deu a volta até o bar, passando em frente à porta fechada da sala de espetáculos. A primeira coisa que viu do outro lado, entre os espectadores que esperavam nas mesas ao redor do bar, foram os dois, sentados num canto, ao lado de uma coluna, como se um holofote os destacasse do resto. Ele diz ao homem ferido, caído no chão do quarto de hotel, que naquela noite ele estava condenado a encontrá-los. Não podia garantir que não o tivessem visto, porque agiam com calculada indiferença. E foi ali que o Rato começou a morrer, pela dúvida. Era provável que o mais velho (a princípio, o Rato decide chamá-lo assim, como se pudesse fazer o homem ferido distinguir entre os dois homens, pela aparência, antes de lhes dar nomes, embora, caído no chão do quarto de hotel, assustado com o ferimento na perna, o homem não compreenda nada do que o Rato está dizendo na língua da sua juventude), em todo caso, era possível, se não provável, que o mais velho – em aparência pelo menos, já que os dois tinham a mesma idade – o tivesse visto chegando ao bar e que por pouco não o tivesse cumprimentado de longe, mesmo sem o conhecer, por um automatismo ingênuo, pondo em risco o plano do mais moço. O mais velho era um homem careca, com a barba por fazer. Tinha uma expressão simpática. E não seria de todo absurdo dizer que sorriu para o Rato assim que o viu chegando ao bar, embora nada ali fosse certo. O mais moço, por sua vez, tendo tudo planejado, zelava com rigor por sua estratégia e por sua imagem, fazendo o impossível para parecer natural e indiferente ao movimento ao redor. Não era preciso muita perspicácia para entender que naquilo só podia haver algum tipo de encenação ou de capricho, tão conspícua era sua indiferença em relação ao burburinho dos espectadores ao redor. Lia com o rosto enfiado num livro do qual nada parecia capaz de distraí-lo, nem mesmo a presença, a poucos metros, de um observador insistente como o Rato. Porque também seria preciso dizer – e é o que o Rato diz ao homem ferido, caído no chão do quarto de hotel – que bastou chegar ao bar do teatro e deparar com o mais moço, lendo, com a cabeça enfiada no livro, para entender que nunca mais se libertaria dele.

O homem mais moço usava a leitura como dissimulação, embora depois tenha jurado ao Rato que não o esperava e que não o percebera entrando na antessala do teatro. Quando o Rato revê a cena, entretanto, quando conta a história ao homem ferido, fica evidente que o mais moço estava no comando desde o início e que impedira o mais velho de cumprimentá-lo. Enquanto lia ou fingia ler, também discutia entredentes com o mais velho. E o censurava. Era tão constrangedor quanto uma briga de casal em público, só que dissimulada. Nada escapava ao Rato, que sentara a poucos metros dos dois e também tentava dissimular seu interesse com um livro que trouxera no bolso e que agora tentava ler, em vão. Entre uma página e outra de uma teoria literária complicadíssima, podia entrever que o mais moço seguia amuado, com o rosto enfiado no livro, o que não o impedia de reprimir o mais velho, sempre que necessário, com rispidez e sem levantar os olhos. A julgar pela expressão sorridente, o mais velho se mantinha incólume às reprimendas e ao mau humor do mais moço. Continuava alegre e indiferente, olhando para os outros espectadores e de vez em quando para o Rato. Foi o suficiente para depois, retrospectivamente, acirrar sua suspeita de que os dois já tivessem falado dele, mesmo se àquela altura ainda não houvesse nenhum indício de que o conhecessem e menos ainda de que o esperassem. A princípio, nada devia indicar que ele fazia parte dos planos do mais moço e de sua estratégia de não demonstrar interesse antes da hora.

Estavam brigando, mas era uma briga das mais estranhas, na qual um dos lados fingia não brigar, enquanto o outro o ignorava. De repente, depois de alguma deliberação, o mais velho se levantou e entrou na fila que se formava diante da porta da sala de espetáculos, já que os assentos não eram marcados. O mais moço continuou entretido com a leitura e indiferente ao olhar do Rato. Afinal, não tinha sido a presença do mais velho que o impedira de corresponder ao interesse do Rato. Era ele, o mais moço, quem ditava as regras, quem estava no controle, quem havia traçado toda a estratégia. Quando afinal a professora entrou na antessala do teatro e o Rato se levantou para cumprimentá-la, uma coisa impensável aconteceu. Antes mesmo de ela poder lhe retribuir o aceno de longe, depois de já tê-lo reconhecido com um sorriso, foi obrigada a interromper o movimento que fazia em sua direção para cumprimentar alguém que havia se interposto no caminho entre ela e o Rato. O mesmo homem, o mais moço, com quem àquela altura o Rato já estava disposto a passar o resto de seus dias sem nem ao menos ter trocado com ele uma única palavra, beijava a professora no rosto, como um velho amigo. O homem mais moço, que até então nada fora capaz de distrair, nem mesmo a insensatez e o desejo de um obstinado a observá-lo a poucos metros, abandonou a leitura assim que a viu entrar na antessala do teatro, como se estivesse desde sempre atento a tudo, e se adiantou para cumprimentá-la antes do Rato. Era um oximoro ambulante, um descarado da dissimulação. Descrente do que ainda lhe parecia um milagre, pura obra do acaso, o Rato se aproximou com cautela e, nessa hora, pela primeira vez, como se tivesse ensaiado cada gesto e estivesse ali só para encontrá-lo, o mais moço – era, além do mais, um homem de baixíssima estatura – se postou diante do Rato e, com os braços caídos ao longo do corpo tísico e indefeso, como quem se rende (um gesto que reforçava o aspecto infantil da sua sedução), abriu um sorriso franco e encantador. Foi quando o Rato, paralisado como se tivesse sido atingido por um raio, sentiu que estava perdido, era um homem morto. O que ele não podia entender, como uma criança, é que a morte é irreversível.

 

O Rato havia se preparado profissionalmente para as guerras, mas era um amador nas questões amorosas. Uma coisa estava ligada à outra. Teve poucas namoradas antes de conhecer a mulher. Também conhecera um ou outro homem, casualmente, na juventude, mas nada digno de nota, ao que se soubesse. Sua bissexualidade nunca foi explícita. Não era de falar de seus encontros e de suas relações afetivas. Essencialmente monogâmico, passava a imagem extemporânea do romântico inocente. O casamento, a par do trabalho humanitário em zonas de conflito, lhe trouxe a paz de espírito de que precisava para sobreviver num mundo contra o qual não tinha defesas. A valentia na guerra encobria uma vulnerabilidade íntima e irremediavelmente imatura. Corria menos riscos na guerra do que na vida amorosa.

A peça sobre a violência era na verdade sobre o amor. Como não havia lugares marcados, os quatro puderam sentar juntos na mesma fileira, com o mais moço e o Rato nas duas extremidades, providencialmente separados pelo mais velho e pela professora. Na saída, o mais moço propôs que jantassem juntos e o Rato acabou dividindo a mesa com a professora e o casal que horas antes o havia ignorado, sem que ele soubesse, deliberadamente. Àquela altura, ainda tentava crer que não fossem um casal, que fossem apenas amigos. Mas não demorou a entender que viviam juntos fazia anos. O mais velho era ator, com formação numa escola de palhaços de Londres. Era a ovelha negra de uma família de advogados tributaristas de Nova York. Tinha sido enviado a Londres para estudar economia, mas para horror dos pais acabou trocando o mestrado na London School of Economics pelo curso de palhaço. No último ano do curso, fora para Berlim, com o pretexto de conhecer a cidade onde viveram os avós antes de serem deportados para Auschwitz, e nunca mais saiu de lá. Dizia que era o lugar perfeito para os palhaços. Trabalhava com performances e projetos de teatro alternativo. Encenava suas origens. Estava ensaiando um monólogo, com o título A Última Reencarnação de Hitler, que, segundo ele, causaria grande alvoroço entre os alemães.

O mais moço vinha do norte do México, da região de Chihuahua, onde o avô malaguês tinha se instalado, no começo do século XX, com um pequeno comércio que sua mãe administrava desde a morte do marido, fazia quinze anos. Quando ele completou 11 anos, os pais o enviaram, por razões que ele não revelava mas que não eram difíceis de imaginar, para um colégio jesuíta na Cidade do México. Passou a adolescência no internato. Depois de cursar psicologia na Universidad Nacional Autónoma, conseguiu uma bolsa para estudar filosofia e psicanálise na Alemanha. Chegou a Berlim disposto a causar escândalo, com o projeto de alçar a hipnose à categoria filosófica, o que na época lhe parecia a coisa mais inovadora e revolucionária do mundo. Logo entendeu que seu interesse era outro, depois de um Réveillon em Paris, quando escapou de uma festa onde discípulos de Lacan se divertiam com jogos de salão, fazendo e desfazendo nós borromeanos, e terminou a noite desacordado na calçada diante da porta fechada de um clube sadomasoquista.

Na mesma viagem, descobriu e devorou os livros do antropólogo René Girard, o que contribuiu para que meses mais tarde transferisse seus estudos na faculdade de filosofia para um laboratório de neurociência, onde o nome do Rato acabaria se tornando objeto de chacota com a publicação de seu tratado.

Logo depois de defender o doutorado, na Universidade Columbia, em Nova York, o Rato entrou em crise e por pouco não recusou a proposta que lhe fazia uma prestigiosa editora universitária americana. De repente, se deu conta do quanto aquele texto teórico e impessoal o expunha pessoalmente. O surto de consciência durou o tempo de o convencerem de que estava louco, que um período de depressão era a coisa mais normal depois do esforço que o levara a escrever e defender a tese e que não podia perder, por conta de uma crise passageira, autodestrutiva, a oportunidade de ser publicado por uma das editoras acadêmicas mais respeitadas dos Estados Unidos. De fato, em poucos anos o livro se tornou leitura obrigatória entre universitários que estudavam a violência em zonas de conflito. Foi incluído na bibliografia dos melhores cursos de história contemporânea, relações internacionais e sociologia. Mas, se muita gente acabou se formando na sua leitura, o tratado também deixou um rastro de detratores.

Assim como os colegas neurocientistas, o mexicano havia lido a tese do Rato quando fora publicada e desde então passara a desprezar o autor, ao mesmo tempo que, não podendo ignorar sua contribuição para o trabalho humanitário em zonas de guerra, sentia um desejo incontido de contradizê-lo e derrubá-lo. Era o contrário do que lhe provocara a leitura de Girard, que ele havia descoberto na viagem a Paris e que o eximia da culpa da violência sem nome e sem objeto que desde criança o atormentava. Se, como defendia o antropólogo francês, não havia desejo original e pessoal (o desejo era sempre imitação do desejo do outro), a inveja era inevitável. A tese de Girard absolvia o mexicano de uma culpa pessoal e intransferível, do papel de predador por instinto.

A figura do bode expiatório completava o quadro. Era outro elemento central na teoria do antropólogo francês, o que permitia o sacrifício ritual, canalizando a violência coletiva para um único indivíduo e assim salvando o resto do grupo. Era possível que, inconscientemente, o mexicano tivesse projetado no sacrifício do Rato uma possibilidade mágica de realização. “Me tomaram para Cristo”, o Rato iria desabafar à mulher quando, três anos depois daquele encontro no teatro em Berlim, sentisse que lhe devia uma explicação. Para Girard, se a violência tinha tomado as proporções atuais, era porque a modernidade laica ignorava o sacrifício de Cristo. E, ao contrário desse humanismo cristão, o pragmatismo do Rato partia do entendimento (talvez tão religioso quanto) de que a violência tinha antes uma função: era a violência social e coletiva que regulava, assim como as doenças e as epidemias, a propagação desembestada da espécie sobre uma Terra que não a comportava. Para o Rato, o combate à violência devia passar necessariamente pelo controle da reprodução da espécie (o contrário daquilo a que exortava a religião) e da produção de armas de destruição cada vez mais poderosas. Ele não tinha a veleidade de extirpar a violência da face da Terra; procurava, antes, reencontrar um equilíbrio sustentável num momento em que, graças às dimensões da população mundial, à escassez de recursos e à potência cada vez mais devastadora das armas, ela tomara proporções suicidas, pondo em risco toda a vida no planeta. Contra esse “pragmatismo cínico” (que os neurocientistas do laboratório berlinense também chamavam de niilista), a pesquisa da qual participava o mexicano propunha encontrar técnicas positivas de persuasão e constrangimento da violência, muitas vezes pela simples força do olhar. Tinha ido a Berlim estudar a hipnose como categoria filosófica e acabara num laboratório de neurociência, defendendo o controle do mal pelo olhar. “O mal como influência, bem entendido”, o mexicano esclareceu no restaurante, como se quisesse dizer alguma coisa além do que estava dizendo, com os olhos pregados nos do Rato, que naturalmente tomou aquilo por sedução.

 

Três semanas antes, o mexicano e seu companheiro foram apresentados à professora num jantar na casa de amigos comuns e ficaram sabendo que ela hesitava em acompanhar ao teatro um colega brasileiro que estava para chegar a Berlim. Desconfiava do gosto dele e da peça que ele lhe propusera para dali a dois sábados. Ele trabalhava para uma agência humanitária internacional, nada garantia que entendesse de teatro. E ela mal o conhecia, vira-o uma única vez. Foi o mexicano que, ao ouvir o nome do colega da professora, encorajou-a a comprar o ingresso o mais rápido possível, assegurando-lhe que não se arrependeria, aquela era de longe a melhor peça que ela podia ver em Berlim nos últimos anos. Foi uma surpresa para ela revê-los na antessala do teatro. Não tinham dito nada. Ela não esperava reencontrá-los ali.

O Rato conhecia um restaurante no bairro. Era um lugar simpático, que ele costumava frequentar quando vivera em Berlim com a mulher, muitos anos antes, contratado pela agência humanitária. Mal chegaram ao restaurante e o Rato teve de sair para atender a uma chamada. Era a mulher, justamente. Era como se ligasse por um sexto sentido, para alertá-lo de um perigo iminente. Eles tinham conversado horas antes, não havia razão para ela ligar de novo. “Fiquei com saudade”, ela explicou. Ele não sabia o que dizer. “Também estou com saudade”, disse, automático e sem graça, como se tivesse sido pego em flagrante. “Que voz é essa?”, a mulher lhe perguntou. “Como, que voz?”, ele respondeu, com uma ponta de irritação. “Não sei. Você está engraçado.” “Engraçado?”

Quando o Rato encontrou a mesa, no fundo do restaurante, os três já estavam sentados. O mexicano e o companheiro de um lado, a professora do outro. Tinham reservado o lugar ao lado dela para o Rato, em frente ao mexicano. Era como se conspirassem para que os dois se conhecessem melhor e pudessem conversar à vontade, como se fosse esse o objetivo da noite. (Meses depois, quando já não se falavam, o Rato passou a chamá-lo de “chihuahua”, à revelia, não só pela origem, mas também pela estatura. E sobretudo por vingança. O mexicano era um homem pequeno. Também passou a chamar o outro de “Palhaço”, por vingança e não pelas razões objetivas e profissionais cabíveis naquele caso.)

Assim que o Rato sentou, depois de se desculpar pelo telefonema, o chihuahua abriu a boca para comentar alguma coisa e, pela primeira vez, pela proximidade, o Rato sentiu o mau hálito que parecia vir das profundezas do inferno. Teve uma reação imediata e natural, de repulsa, erguendo as costas contra o encosto da cadeira, desviando o rosto e fechando os olhos. Foi uma única vez, como a primeira picada de uma anestesia. Daí em diante, nunca mais sentiu mau hálito nenhum na boca do chihuahua. Era como se alguma coisa em sua natureza o tivesse alertado, naquele primeiro contato, sobre a presença de um organismo estranho e nocivo, mas contra o qual em poucos minutos seu corpo perdera todas as defesas. De guarda baixa, o Rato seguiu pela vida depois daquela noite.

A infantilidade do chihuahua se manifestava nos menores detalhes e com uma transparência que não deixava de ter sua graça. Bastava o Rato se interessar pelo que dizia o Palhaço, por exemplo, ou conversar com o Palhaço de maneira naturalmente mais fluida do que com o chihuahua, para o chihuahua ficar enciumado. (Já no terceiro encontro, na semana seguinte, depois de o Rato lhe dizer que ele fedia – não como crítica, mas porque, ao contrário, o mau cheiro do chihuahua o atraía –, o chihuahua passou a usar desodorante. Não disfarçava a vaidade. Quando o Rato lhe disse que não se incomodaria de transar a três, com o Palhaço, se fosse essa a condição para ficarem juntos, o chihuahua imediatamente repudiou a proposta, balançando a cabeça e dizendo que o Palhaço nunca aceitaria, quando no fundo era ele que não podia suportar a ideia. Como uma criança, queria toda a atenção para si.)

Enquanto examinavam o menu, o chihuahua perguntou ao Rato qual era a especialidade do restaurante. E o Rato, sem aquilatar o segundo sentido ou as consequências do que dizia, os aconselhou a pedir carne, de preferência caça. (Os animais e a caça teriam com efeito um papel singular nas relações que começavam a se esboçar naquela noite, sem que o Rato tivesse ainda total consciência delas. O apelido do chihuahua, por exemplo, concebido pelo Rato quando já não se falavam, meses depois do encontro, seria uma reação à alcunha que o próprio chihuahua se atribuíra na primeira vez que foram para a cama, uma semana depois de se conhecerem na antessala do teatro. Queria ser chamado de “raposinha” na cama. O Rato demorou a entender a abrangência semântica e o logro embutido naquele epíteto amoroso, embora estivesse na cara desde o início. Não é a raposa, ao mesmo tempo presa e predador, o bicho que melhor representa a astúcia e a traição? E quando se diz, em inglês, crazy like a fox, não é para se referir justamente a quem de louco não tem nada? Também demorou a perceber que, ao passar a chamá-lo de “Rato”, carinhosamente, o chihuahua apenas o designava como uma de suas presas ou cobaias. Afinal, não é o rato o animal de eleição das experiências em laboratório?)

 

Marcaram um encontro uma semana depois, quando o Palhaço viajou para Münster, para participar com uma de suas performances de um festival de teatro de rua. Na noite em que se conheceram na antessala do teatro, e depois de fingir conspicuamente que não o notava, o chihuahua passou o jantar a fitar o Rato, como se exercitasse com uma nova cobaia as técnicas desenvolvidas no laboratório de neurociência. Sua diretora, uma neurocientista famosa, acreditava que o mal pudesse ser banido da face da Terra pela influência da boa índole transmitida entre os homens através do olhar. Assim conseguia os fundos que pagavam sua pesquisa e o salário, entre outros, do chihuahua. Segundo ela, tudo era uma questão de intenção mas que também dependia da boa vontade do receptor – ou da vítima. O sucesso da técnica dependia de um olhar receptivo. Todo mundo sabe que é preciso se deixar hipnotizar para ser hipnotizado. Mas o olhar do chihuahua era persistente. Bastava que o Rato se distraísse e desviasse os olhos, passando a prestar atenção no que dizia outra pessoa, para que ele se amuasse. Foi o que aconteceu quando o Rato e o Palhaço começaram a conversar sobre o projeto da reencarnação de Hitler. O chihuahua não suportava ser contrariado ou deixado em segundo plano. Foi ele quem depois sugeriu ao Rato que se reencontrassem no café da estação desativada de Görlitzer Park, de onde partiam comboios carregados de judeus para os campos durante a guerra. O apartamento onde o Rato se hospedara ficava ali ao lado. E o chihuahua disse depois que tinha levado isso em conta ao propor aquele café e não outro.

Depois do café, era natural que subissem ao apartamento do Rato. Passaram quatro horas na cama, no fim das quais, exausto, o Rato gozou com o pau mole, pela primeira vez na vida. E é claro que isso o deixou abalado. “Você está exausto, gozou duas vezes, é normal”, o chihuahua lhe disse, pulando da cama e recolhendo as roupas no chão. No dia seguinte de manhã, pegava um trem para Münster, onde passaria o fim de semana com o Palhaço.

“Não quer dormir aqui?”, o Rato perguntou.

O chihuahua riu: “Que pressa é essa?”

“Quando é que a gente volta a se ver?”

“Você quer que a gente se reveja?”

“Você não?”

“Volto na segunda. A gente se fala.”

Antes de sair, o chihuahua deixou um exemplar de sua tese de presente para o Rato. Era estranho que a tivesse levado. Pensava em publicá-la. Disse que seria para ele uma grande alegria. Mas antes queria a opinião de um especialista.

 

Trecho do livro Simpatia pelo Demônio que a Companhia das Letras lança este mês.

 

ASSINANTE PIAUÍ

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