"Estou incrivelmente exausto de tanto trabalhar", escreveu Nabokov à mulher, na mesma carta em que se dizia "pronto a ser submetido à tortura chinesa para encontrar o adjetivo exato"
Ver dados da foto "Estou incrivelmente exausto de tanto trabalhar", escreveu Nabokov à mulher, na mesma carta em que se dizia "pronto a ser submetido à tortura chinesa para encontrar o adjetivo exato" FOTO: PHILIPPE HALSMAN_MAGNUM PHOTOS_LATINSTOCK

Só a arte me interessa, mas amo você

Estou pronto a ser submetido à tortura chinesa para encontrar o adjetivo exato. Sou um homem chato e desagradável, mergulhado na literatura
Vladimir Nabokov
Tamanho da letra
A- A+ A
"Estou incrivelmente exausto de tanto trabalhar", escreveu Nabokov à mulher, na mesma carta em que se dizia "pronto a ser submetido à tortura chinesa para encontrar o adjetivo exato" FOTO: PHILIPPE HALSMAN_MAGNUM PHOTOS_LATINSTOCK

VAR, FRANÇA → BERLIM

26 DE JULHO DE 1923_Não vou esconder: estou tão desacostumado a que… me compreendam, talvez… tão desacostumado que, nos primeiros minutos de nosso encontro, pensei: isso é uma piada, alguma brincadeira num baile a fantasia. Mas então… E há coisas difíceis de serem ditas – o maravilhoso pólen que as envolve se desfaz ao toque de uma palavra. Recebo cartas de onde venho que falam de flores misteriosas. Você é encantadora. E todas as suas cartas também são encantadoras, como as noites de nevasca – mesmo aquela em que você sublinhou tão resoluta diversas palavras. Eu a encontrei, juntamente com a anterior, quando voltei de Marselha, onde trabalhei no porto. Foi anteontem, e resolvi não responder até que você me escrevesse mais. Estou brincando… Sim, preciso de você, meu conto de fadas. Porque é a única pessoa com quem posso conversar sobre a sombra de uma nuvem, a melodia de um pensamento – e sobre como hoje, ao sair de casa para trabalhar, dei de cara com um girassol bem alto e ele sorriu para mim com todas as suas sementes. Há um restaurantezinho russo na região mais suja de Marselha. Comi por lá, com marinheiros russos – e ninguém ficou sabendo quem eu era ou de onde vinha, e me surpreendi por estar de gravata e meias finas. Moscas voejavam ao redor da sopa de beterraba e do vinho que haviam sido derramados, da rua chegava um ventinho fresco trazendo o cheiro meio acre e o burburinho distante das noites no cais. E, vendo e ouvindo aquilo, me dei conta de que sabia de cor os poemas de Ronsard e os nomes dos ossos do crânio, de bactérias e seivas de plantas. Foi estranho. A África e a Ásia me atraem muito: me ofereceram um emprego de foguista num vapor que vai para a Indochina. Mas duas coisas estão me forçando a voltar para Berlim por algum tempo: a primeira é que mamãe deve estar muito só – a segunda… um mistério – ou melhor, um mistério que desejo desesperadamente resolver. Parto dia 6, mas vou ficar alguns dias em Nice e em Paris – na casa de um sujeito com quem estudei em Cambridge. Você provavelmente o conhece. Assim, chego a Berlim no dia 10 ou 11. E, se você não estiver lá, vou procurá-la e encontrá-la. Nos vemos em breve, minha estranha alegria, minha noite terna.

 

BERLIM → BERLIM

8 DE NOVEMBRO DE 1923_Como lhe explicar, minha felicidade, minha dourada e gloriosa felicidade, o quanto sou todo seu – com todas as minhas recordações, meus poemas, arrebatamentos, turbilhões internos? Ou explicar que não posso escrever uma só palavra sem ouvir como você vai pronunciá-la – e não consigo lembrar sem tristeza nenhuma bobagenzinha que eu tenha vivido – tão intensa! – se não a vivenciamos juntos, desde a mais pessoal e intransmissível até um simples pôr do sol na curva da estrada? Entende o que eu quero dizer, minha felicidade? E sei que não posso lhe dizer nada com palavras – e, quando o faço ao telefone, sai tudo, tudo errado. Porque com você é preciso conversar de um modo maravilhoso, como quando falamos com os que se foram há muito, você me entende, em termos de pureza, leveza e precisão espiritual; mas eu – je patauge[1] terrivelmente. Posso arranhá-la com um diminutivo feioso porque você é tão absolutamente ressoante quanto a água do mar, minha adorada. Juro – e a mancha de tinta não tem nada a ver com isso –, juro por tudo que me é sagrado, tudo em que acredito, juro que nunca amei como amo você, com tal ternura, a ponto de chorar, e com tal sensação de esplendor. E acima de tudo quero que você seja feliz, e me parece que eu poderia lhe dar essa felicidade – uma felicidade ensolarada e simples, mas em nada corriqueira. E você deveria me desculpar por minha mesquinhez, pois estou pensando com ódio que, por razões práticas, só levarei esta carta ao correio amanhã – e, entretanto, estou pronto a lhe dar todo o meu sangue, se necessário; é difícil explicar, soa banal, mas é verdade. Pois bem: com meu amor eu poderia ter preenchido dez séculos de fogo, canções e bravura – dez séculos inteiros, enormes e alados, repletos de cavaleiros subindo a galope colinas em brasas, e lendas sobre gigantes, e Troias ferozes, e velas cor de laranja, e piratas – e poetas. E isso não é literatura porque, se você reler cuidadosamente o que escrevi, verá que os cavaleiros eram gordos. Não, só quero lhe dizer que, de certa forma, não consigo imaginar a vida sem você, embora você pense que “me divirto” ao não vê-la por dois dias. E, você sabe, aprendi que não foi Edison quem inventou o telefone, e sim outro americano, um homenzinho modesto de cujo nome ninguém se lembra. Pior para ele. Ouça, minha felicidade, não vá dizer outra vez que estou te torturando. Como eu gostaria de te levar para algum lugar – tal qual faziam os assaltantes de estrada antigamente: com um chapéu de abas largas, máscara preta e um mosquetão com o cano em forma de sino. Amo você, quero você, preciso de você insuportavelmente. Seus olhos – que brilham com tamanha intensidade quando, com a cabeça jogada para trás, você diz algo engraçado –, seus olhos, sua voz, seus lábios, seus ombros – tão leves, tão cheios de luz… Você entrou em minha vida não como quem vem de visita (você sabe, “sem nem tirar o chapéu”), mas como quem penetra um reino em que todos os rios esperavam para refletir seu rosto, todas as estradas aguardavam seus passos. O destino queria corrigir seu erro – como se me pedisse desculpas por seus logros anteriores. Por isso, como posso me afastar de você, meu conto de fadas, meu sol? Veja bem, se te amasse menos, então teria de me afastar. Mas, assim, não faz sentido. E também não quero morrer. Há dois tipos de “aconteça o que acontecer”. O involuntário e o deliberado. Me perdoe, mas vivo com base no segundo. E você não pode tirar de mim a fé no que temo pensar – seria uma tal felicidade! Estou escrevendo tudo isso deitado na cama, apoiando a folha num livrão. Quando trabalho até tarde da noite, os olhos de um dos retratos pendurados na parede (alguma bisavó do dono da casa) se animam e o ambiente fica muito desagradável. Meu amor, boa noite. Não sei se você compreenderá esta carta mal escrita. Mas não faz mal, eu amo você. Vou esperar até as onze da noite – se não der, me telefone amanhã depois das nove.

 

PRAGA  BERLIM

30 DE DEZEMBRO DE 1923_Minha querida felicidade, quão encantadora, adorável e leve você estava naquela gare formigando de gente, não tive tempo de lhe dizer nada, minha felicidade. Mas podia vê-la através da janela do trem; e, por alguma razão, enquanto a via lá de pé, apertando o casaco de couro contra o corpo ao encolher os ombros, as mãos bem cobertas pelas mangas – olhando para você, para o vidro amarelo na janela da estação, para suas botinhas cinzentas – uma de perfil, a outra en trois quarts –, não sei por que foi precisamente então que me dei conta de quanto a amava, e então você me deu um sorriso tão bonito quando o trem começou a deslizar. Mas, você sabe, nossa viagem foi absolutamente, excepcionalmente pavorosa. Nossas coisas ficaram espalhadas por todo o vagão, e tivemos de nos agarrar, de pé, expostos às correntes de ar, até a fronteira. Queria tanto lhe mostrar como era engraçada a neve congelada, parecia grãos de milho prateados presos no verso daquelas abas de couro que conectam os vagões. Você teria gostado. Imagine três quartinhos: móveis, uma mesa de jogo de cartas, umas doze cadeiras sem farpas aparentes, sete camas – todas de madeira, sem colchões, com ripas de um lado ao outro em vez de um fundo único – e um sofá, trazido por acaso. Isso é tudo. Um colchonete bem fino cobre as ripas, mas, como dá para sentir aquelas vértebras de madeira por baixo dele, pela manhã o corpo está todo dolorido. Percevejos habitam o sofá. Eles tinham quase desaparecido depois de uma ofensiva de terebintina, mas hoje reapareceram no teto, de onde, à noite, como cotovias, vão cair em cima dos que dormem – em cima de Kirill e de mim. Some a isso o frio furioso nos aposentos e os dois aquecedores revestidos de ladrilhos que se recusam a emitir calor (o que, obviamente, lhes seria desagradável), e você tem uma ideia de nossa vida aqui. Dinheiro nenhum, também nenhum garfo – por isso temos que subsistir à base de sanduíches. Na primeira oportunidade levarei mamãe de volta a Berlim, onde estarei em 5 de abril menos 85 dias (calculou a data?). Ainda não vi Praga – e em geral nossas relações não andam boas. Amo muito você. Amo de uma forma má (não fique zangada, minha felicidade). Amo de uma forma boa. Amo seus dentes. Tenho trabalhado. Morn[2] está sentado aqui comigo. Ele pede que lhe envie “saudações cordiais”. Sabe, meu amor, estou simplesmente muito entediado sem você. Tenho a sensação de que você ainda continua de pé na gare como a vi naquele último momento – e você provavelmente ainda pensa que estou junto à janela do vagão, com meu chapéu-coco. Até a cena da corte, seu romance espanhol é encantador; depois disso fica ruim. Vou entregar o pacote a eles amanhã. Como eu desejaria que você estivesse dizendo, neste exato instante e com toda a força: “Mas você me prometeu!” Eu amo você, meu sol, minha vida, amo seus olhos – cerrados –, todos os rabichos de seus pensamentos, suas vogais bem esticadas, toda sua alma da cabeça aos pés. Estou cansado, vou para a cama. Amo você.

31 DE DEZEMBRO_Nem uma palavra sua, meu amor – provavelmente amanhã. E se não chegar? Sabe, não pensei que fosse sentir tanta saudade (“Ah, não sabia, é?!”). Não, isso é apenas uma maneira de lhe dizer, minha adorada, minha felicidade, como sinto saudades de você (como preciso de você). Mas só sairei daqui no dia 17, quero acabar meu Morn, se houvesse alguma outra mudança ele se partiria em pedacinhos. Trata-se de um homem que não pode de modo algum suportar o sentimento de ser relocado. Ontem só escrevi duas linhas o dia inteiro, e mesmo essas hoje eu risquei. Agora a coisa está indo excepcionalmente bem, por isso amanhã termino a primeira cena do terceiro ato. Por alguma razão, sou muito sensível a respeito deste trabalho. No entanto, foi um prazer lê-lo para duas pessoas – você e, outro dia, mamãe. A terceira pessoa que entendia todas as vírgulas e apreciava as besteirinhas que me são caras era papai. Mamãe sempre me lembra disso quando leio algo para ela – e dói. E até agora eis o que reparei em Praga: um incontável número de carroças puxadas por cavalos, e nas lojas tabuletas como quando um francês, querendo se exibir, emprega palavras russas em seus romances – e com isso só exibe sua ignorância. Aqui também há um largo rio – coberto de gelo. Algumas áreas foram limpas para os patinadores. Um único garoto patina, caindo a cada minuto. Pedestres sem pressa o observam do alto da grande e velha ponte, ao longo da qual os cavalos puxam suas carroças, uma atrás da outra. Um homem gordo, de uniforme, está a postos em uma das extremidades da ponte, e cada passante deve lhe pagar alguns centavos pelo direito de atravessar para o outro lado. É um antigo costume feudal. Os bondes são pequenos, com as laterais pintadas de um castanho-avermelhado; no interior, o público pode desfrutar de revistas atuais, que ficam penduradas em ganchos. Grande cidade? Amanhã às sete vou tentar “chamar” você. Provavelmente vai ser doloroso, mas quero ouvir ao menos um tantinho de sua voz. E como será em Berlim, meu amor? Você vai comigo para os Estados Unidos? Ah, se você soubesse como me repugna esta vida de pobreza, a luta por dinheiro, as traduções nojentas que sou forçado a fazer – e contando os centavos, cada um deles… Mas sou burguês nas coisas de todos os dias. Os carros de Kramárˇ,[3] seu banheiro de mármore, seus criados me enfurecem… Buffon[4] envergava punhos de renda ao sentar para escrever. Preciso de confortos, você entende, não pelo que representam em si, mas para não ter de pensar sobre eles – e para que possa simplesmente escrever, escrever, abrir minhas asas, explodir… Mas afinal, quem sabe, talvez porque esteja escrevendo o “sr. Morn” vestindo um casaco e sentado num catre de presídio, iluminado por um toco de vela (isto está ficando quase poético), vai sair ainda melhor. Estou doido para ler a quinta cena para você. Beijo você, minha felicidade – e você não pode me frear…

 

8 DE JANEIRO DE 1924_Não, não consegui telefonar para você ontem, meu amor. Mas então recebi hoje – finalmente – sua maravilhosa carta, estelar! Você sabe, somos terrivelmente parecidos. Por exemplo, nas cartas, ambos gostamos de: 1) encaixar sub-repticiamente algumas palavras estrangeiras; 2) fazer citações de nossos livros prediletos; 3) traduzir impressões de um sentido (visão, por exemplo) para outro (paladar, por exemplo); 4) pedir desculpas no final pela imaginária confusão mental – e muito mais. Você escreveu tão bem sobre sua pessoa, minha adorada: eu a vi. E queria despentear ainda mais seus cabelos. Quanto à máscara, não se atreva a usá-la. Você é minha máscara… Quer saber o que vejo da janela, já que ama a neve? Pois então: a larga brancura do Moldava e, ao longo dela, pequenas silhuetas negras de pessoas que atravessam de uma margem a outra, como notas musicais. Por exemplo, a figura de algum menininho que puxa atrás de si um ré sustenido: um trenó. Do outro lado do rio há telhados cobertos de neve num céu leve e distante, e à direita aquela ponte feudal de que já falei. Minha felicidade, você sabe, amanhã faz exatamente um ano que terminei com minha noiva. Lamento isso? Não. Tinha que acontecer assim para que eu pudesse te conhecer. Agora vou apagar a vela e me deitar. Não, vou ler mais um pouco. Amo você, minha adorada. Me escreva com mais frequência, caso contrário não vou suportar. E me encontre na estação no dia 17.

16 DE JANEIRO_Obrigado, meu amor, pelas duas cartas extraordinárias. Eis aqui um aforismo boboca que inventei: a mente escreve com uma pena, o coração, com um lápis. Minha felicidade, também não vou poder ir no dia 17. Além da tragédia, há outra razão secundária – que, infelizmente, é mais importante que a primeira. O fato, para ser direto, é que estou esperando o dinheiro de Berlim (por aquelas traduções). Eles prometeram me mandar no dia 7 – dez dias se passaram e continuo a esperar. Tão logo chegue, trato de partir – pode ser até amanhã. Dispunha de um pouco, mas ontem fui obrigado a gastar tudo para cobrir necessidades da casa; seria perigoso correr o risco de chegar aí com 5 marcos. Bem, o ano novo teve um começo bastante turbulento. Meu cérebro está desgrenhado – os grampos que o seguravam caíram; tem gente que perde o cabelo, eu estou perdendo meus miolos. Você entende? Vou esperar dois ou três dias, depois sigo a pé para Berlim. Quando o sol se levanta, você está aveludada. Ainda não sei o que farei com você quando voltar. Te amo de verdade, mais do que o sol te ama.

24 DE JANEIRO_Chego a Berlim às cinco da tarde no domingo, dia 27, na estação de Anhalter. O atraso se deveu ao dinheiro. Além disso, mamãe adoeceu e eu também peguei um resfriado daqueles ao atravessar o Moldava por cima do gelo que derretia. Estou incrivelmente exausto de tanto trabalhar. À noite, meus sonhos rimam, e durante todo o dia sinto um ressaibo de insônia. Indiretamente, de um modo sinuoso… você me inspirou… a falar a linguagem das flores. Só posso falar sobre tudo isso com você. Estou cada vez mais convencido de que a arte é a única coisa que interessa na vida. Estou pronto a ser submetido à tortura chinesa para encontrar o adjetivo exato… e o que me excita e mobiliza no domínio da religião são as sombras e estrias de luz vermelha que percorrem a testa franzida e as mãos nodosas e trêmulas de Pedro ao se aquecer junto ao fogo na madrugada fria, enquanto os segundos galos cantam, ora mais perto, ora mais longe, e um vento forte varre os ciprestes que se curvam com dignidade. Verei você em breve. Meu amor, não fique zangada comigo. Sei que sou um homem muito chato e desagradável, mergulhado na literatura. Mas amo você.

 

BERLIM → SANATÓRIO EM SANKT BLASIEN, FLORESTA NEGRA

5 DE JUNHO DE 1926_Minha pequena gansa, voltei agora (sete da noite) e encontrei sua cartinha em cima do lavatório de mármore. Gansinha, o que é isso? Saia imediatamente de SB e vá para outro lugar mais quente. Fale com seu médico. Procure saber como estão as coisas em Todtmoos ou Titisee. Coitadinha… Você levou o casaco de pele? Quer que eu mande alguma coisa? Sabe, quando estive em SB em agosto do ano passado fazia um calor opressivo. Isso tudo é muito desagradável. E por que o idiota do seu médico a mandou logo para as montanhas? Está tudo errado. Hoje choveu o dia todo, só agora o céu limpou. Pela manhã fui saber do relógio – só na próxima semana poderão dizer quanto vai custar. Depois, sob uma garoa quente, fui até a livraria onde há livros de literatura soviética. Me inscrevi – custou 7 marcos (cinco de garantia) por mês, mas não havia outro jeito. Me disseram que já foram vendidos mais de 100 exemplares de Machenka. Peguei os contos imbecis de Zoshchenko[5] e os li durante o almoço. Que hoje não foi grande coisa: sopa com alguma espécie de sêmola, uma linguiça bege de pele dura e um bolo de arroz. Agora vão me trazer o jantar e depois vou visitar os Tatarinov (lá, a srta. Ioffe – nome agradável – falará sobre Freud – tópico agradável). Só me restam 5 marcos. Aqui servem leite numa garrafa grande e bem tampada – muito apetitoso. Na noite anterior os camundongos passearam um bocado. Minha alegria, minha felicidade, minha pequena gansa, me sinto tão infeliz de saber que você está com frio e desconfortável. Mas tudo vai acabar dando certo, há outros lugares nas cercanias. Bem, meu jantar está chegando. Até amanhã, minha adorada.

 

BERLIM → HÔTEL-PENSION SCHWARZWALDHAUS

10 DE JUNHO DE 1926_Ratinha, esta manhã me trouxeram sua terceira carta junto com o café da manhã. Ah, ratinha… O tempo está assim, assim: fechado, mas quente, um céu de leite fervido, com nata por cima e tudo – mas, se ela for afastada com a colher de chá, aparece um sol bem simpático, e por isso vesti minha calça branca. Fui à casa do Sack às onze, joguei bola com ele. Aí a nata engrossou de novo e começou a garoar. Quando entrei em casa chovia a cântaros e assim foi o resto do dia. Uma grande poça se formou no quintal, com círculos concêntricos se espraiando – alguns menores, outros maiores, tudo muito rápido –, o que provocou um efeito ondulatório em meus olhos; então, no lugar dos círculos, inúmeras linhas finas e ondulantes começaram a se espalhar e, sei lá como, tive de adaptar minha visão para enxergar outra vez os círculos sob os pingos da chuva. Por isso não saí o dia todo. O almoço não foi mal – uma costela de cordeiro e compota de groselha. Li mais um pouco e abri o tabuleiro de xadrez para armar um problema, mas logo desisti. Trouxeram o Rul’[6] e o jantar. (Não sei por que hoje está havendo tamanho rebuliço na cozinha. Provavelmente a dona da pensão está de mau humor.) A notícia no Rul’ sobre a soirée está pessimamente escrita: “V. Sirin recitou seu último poema sobre o país natal” (como se eu nunca mais fosse compor poemas!), “‘Som suave’, publicado ontem no Rul’, talentoso e especialmente íntimo em seus cenários específicos como pretexto [?!] para alcançar experiências profundas e fundamentais.” O jantar consistiu em um ovo e nos frios de sempre. Vou guardar o jornal para você, mas comi o jantar. Minha fabulosa ratinha. Vou ler um pouco e dormir.

 

PARIS → BERLIM

1º DE FEVEREIRO DE 1937_Meu querido amor, jantei com os Kokoshkin-Guadanini e voltei pelos tristes e vazios bulevares às duas da madrugada – e Ilyusha tem falado com afeição sobre as moças russas que ganham a vida tosando cachorros. Minha querida, se apronte para partir! Não vou lhe falar sobre os sofrimentos insuportáveis que a psoríase está me causando; a coceira não me deixa dormir, e toda a roupa de cama está coberta de sangue – terrível. Minha querida, estou esperando tanto por você. E por ele.

4 DE FEVEREIRO_Meu amor, minha querida, como você está, o que você é, me sinto agoniadamente vazio sem você (e sem o menininho quente e portátil). Eu a amo, minha querida. A psoríase só faz piorar. Vou tomar alguma providência quando voltar de Londres. De tempos em tempos, tenho um sonho: me cobrir com pomadas da cabeça aos pés e ficar deitado num hospital durante um mês. Não fosse por isso, tudo em geral estaria maravilhoso. On me fête beaucoup,[7] estou cercado por centenas de pessoas muito simpáticas. Minha querida, estou começando a contar os dias para 15 de março. Escreva.

10 DE FEVEREIRO_Meu amor, minha querida. Não compreendo o que você escreve sobre o sul da França. Está absolutamente decidido que você partirá em meados de março (talvez nem passando por Paris, mas por Estrasburgo? Vamos pensar mais nisso) para o lugar escolhido (a escolha vai ser feita “no futuro próximo”, umas dez pessoas estão cuidando disso). Entenda por favor que, se isso não for resolvido agora, então nada acontecerá, vamos perder tempo, adiar – em outras palavras, convença-se que nossa vida em Berlim acabou –, e, por favor, apronte-se para partir. Não posso viver sem você e o menino. Aguento outro mês, não mais.

15 DE FEVEREIRO_Vejo milhares de pessoas – os Kokoshkin-Guadanini (não ouse ficar com ciúme), os Teffi.

 19 DE MARÇO_Minha querida, minha vida, meu amor adorado. Proíbo-a de se sentir miserável, eu amo você. Não há poder no mundo que possa terminar ou prejudicar nem um pouquinho esse amor eterno.

6 DE ABRIL_Minha querida, sua insistência está me matando. O que é que está acontecendo de fato? Me desculpe, minha felicidade, mas, francamente, assim não é possível. Não sei nem explicar como isso é totalmente deprimente (e, no entanto, você se queixa de que eu não tenho consideração). Nossa separação está se tornando uma tortura insuportável, e todas essas constantes mudanças de opinião, a ambivalência, as idas e vindas, a incerteza que você demonstra (quando tudo é maravilhosamente simples) só fazem intensificar a tortura. Eu amo você, que é toda minha – e por favor não fique com ciúme da vida social que levo aqui. As pessoas têm sido muito simpáticas comigo.

20 DE ABRIL_Meu único amor, os mesmos rumores chegaram a mim – e não duvidei que também iriam rastejar até Berlim. Que se arrebente o rosto dos pérfidos que os espalham! Ouvi outra versão: que sou amante da Berberova.[8] Na verdade, frequento muito a casa dos Kokoshkin – e ambos são muito agradáveis, e eu enfatizo “ambos”. Minha vida, meu amor, você é parte de mim e sabe disso perfeitamente bem. Beijo suas mãos, seus lábios doces, sua pequena têmpora azul.

 

LONDRES → PARIS

13 DE ABRIL DE 1939_Meu amor, meu anjo, parabéns: catorze anos! [De lá saio para a casa de] uma amiga do casal Sablin, a atriz Charova (velha e gorda – menciono isso só para constar, embora, mesmo se ela fosse jovem e esbelta, nada mudaria – estou interessado apenas numa mulher, você).

 

HARTSVILLE, CAROLINA DO SUL → CAMBRIDGE, MASSACHUSETTS

2-3 DE OUTUBRO DE 1942_Minha amada, um milhão de borboletas e mil ovações (dando o desconto pela ardente expansividade sulista). Mas fiz uma péssima viagem. Quando entrei no vagão-dormitório em Nova York, descobri que meu leito estava ocupado por outro passageiro, a quem tinham vendido o mesmo assento. No entanto, ele levou a coisa com toda calma e tivemos uma conversa amistosa no átrio do lavatório enquanto o chefe do trem resolvia nosso probleminha. Por fim, ele foi mandado para outro vagão e subi para meu legítimo lugar – isso já por volta da meia-noite. Não consegui dormir nem um minuto devido aos violentos solavancos e estrondos quando os vagões eram engatados e desengatados a cada estação. Pela manhã, belas paisagens passaram correndo – grandes árvores numa profusão de formas – com seus verdes um tanto oleosos e iridescentes a me lembrar a imagem que guardo dos vales do Cáucaso ou a vegetação sublimada de Potter (com um toque de Corot). Nenhuma indicação de outono e, no entanto, o mais suave “encanto dos olhos”.[9] Quando desci em Florence, fui imediatamente surpreendido pelo calor e pelo sol, e pela graça das sombras – como a gente sente ao chegar à Riviera vindo de Paris. O trem estava atrasado uma hora e, naturalmente, o ônibus tinha partido fazia tempo. Telefonei para o Coker College, e me foi dito que telefonariam de volta informando sobre um carro. Esperei uma hora e meia num pequeno restaurante, junto à cabine telefônica, e num estado de crescente fadiga, barba por fazer e irritação. Finalmente, uma voz bem sonora me disse ao telefone que estava em Florence cuidando de afazeres particulares, que era professor da faculdade (não entendi seu nome), que estava a par da situação, e que por volta das seis voltaria comigo para Hartsville. A palestra estava marcada para as oito. Perguntei, com uma voz que deve ter soado muito pálida, como ele imaginava que eu poderia esperar lá (faltavam três horas para as seis), e então ele disse alegremente que viria me pegar no ato e me levaria a um hotel, cujo nome não declinou (e eu nem tinha certeza de que o havia entendido bem). Fui para a sala de espera, ali perto, e pus-me a aguardar por ele. Depois de algum tempo, tive a impressão de que um jovem chofer de táxi, que falava com alguém no telefone próximo à entrada (eu tinha ido para fora, entediado com os bancos duros e o ar abafado), havia pronunciado meu nome. Aproximei-me e perguntei se ele tinha falado meu nome. Comprovou-se ser um engano – ele recebera uma chamada de um Yellowater ou coisa parecida, algo remotamente similar a meu nome. No entanto, como gostava de conversar, contou que alguém de certo hotel tinha pedido a um amigo seu para pegar alguém na estação ferroviária, mas ele havia batido com o carro num caminhão e lhe pedira para fazer o serviço. Como o nome do hotel soou parecido com o que havia sido mencionado pela voz sonora, propus, para sua consideração algo lenta, a possibilidade de que talvez fosse eu a pessoa que ele supostamente deveria apanhar. Verificou-se que, de fato, a pessoa deveria ir para Hartsville, mas seu colega não lhe havia informado o nome do passageiro nem do homem que o contratara, e ele agora estava fora de alcance. Como ninguém viera me buscar e eu não tinha a menor ideia do que fazer (bem, podia sem dúvida gastar 10 dólares e ir direto para o Coker – mas temia que o dono da voz sonora passasse o resto da vida me procurando). Seja como for, decidi que eu era a pessoa em questão. Quando depositaram a mim e a minha mala no hotel Salmon, ficou claro que ninguém sabia nada sobre o assunto. Meu último e débil vínculo com Hartsville, representado pelo chofer que havia me trazido, desaparecera (eu tolamente o deixara ir embora), e agora eu zanzava pelo vestíbulo com a sensação, digna de um pesadelo, de que tudo era um tremendo mal-entendido, eu fora levado ao hotel no lugar de outra pessoa e a Voz me procurava em vão na estação ferroviária.

Refletindo melhor, resolvi telefonar de novo para a faculdade, quando nada para descobrir o nome da Voz; ao mesmo tempo, eu não tinha finalizado no trem minha principal necessidade fisiológica e senti uma súbita vontade. Quando estava me aproximando do escritório para solicitar a informação necessária, ouvi uma das numerosas pessoas presentes no vestíbulo dizer a outra que não entendia por que o táxi que ela enviara à estação não havia retornado. Intrometi-me e perguntei, com certo grau de desespero, se não era eu quem ele estava esperando. “Ah, não”, ele disse, “estou esperando por um professor russo.” “Mas eu sou o professor russo!” “Bom, não parece”, ele respondeu rindo, e então tudo se tornou claro e nos abraçamos. Ele se chamava Ingram, ensinava teologia, era bonachão e simplesmente muito simpático. Já eram quase quatro da tarde, e ele prometeu que, terminado o que precisava fazer, me apanharia por volta das cinco e me levaria (80 quilômetros!) até Coker. Percebendo que eu não teria tempo de me barbear antes da palestra (o jantar estava marcado para 18h15), me encaminhei (depois de ir ao banheiro, onde tive uma pavorosa diarreia) a uma barbearia. A coisa foi muito malfeita, deixando meu pomo de adão com os pelos eriçados. Na cadeira ao lado, um menino berrava como um possesso e brigava com o barbeiro que tentava acionar sua tesoura na parte detrás da cabeça do pequeno. Por isso, o velho que me servia ficou nervoso, mandou a criança se calar e finalmente me fez um pequeno corte debaixo do nariz.

Me escreva também sobre tudo, em detalhes. Penso em nossa vida juntos com grande prazer – espero que continue por muitos anos. Quero muito deixar entrar uma acidália pousada do lado de fora do vidro escuro como a noite, mas os mosquitos aqui são como os da Riviera, brutais. Lavaram uma muda das minhas roupas de baixo. Beijos, minha querida – e por favor não pense que estou correndo atrás das mulheres locais. Aqui elas são todas bem-comportadas, e as mais jovens têm maridos raivosos; mal vi qualquer aluna. Estão me alimentando muito bem. Vou mesmo deixar que ela entre.

 

TAORMINA, ITÁLIA → MONTREUX, SUÍÇA

7 DE ABRIL DE 1970_Meu amor, ontem não havia uma nuvem no céu e, malgrado o ar gélido, muitas borboletas voejavam nas ravinas e nas plantações de oliveiras protegidas do vento. Zanzei das oito da manhã até depois do meio-dia tentando pegar várias voadoras velozes, e já coletei algum material interessante. Comi um sanduíche num barzinho local. Fiquei sentado durante duas horas tomando sol no jardim paradisíaco de nosso hotel, e depois saí para comprar umas coisinhas. Vou tentar localizar nosso pequeno restaurante, não o encontrei ontem – embora me recordasse de uma porção de pequenos detalhes do passado, como se fosse coisa muito recente e não de dez anos atrás. Eu adoro você e te abraço.

[1] O verbo francês patauger significa patinhar, chafurdar, chapinhar e, por extensão, tentar fazer alguma coisa e não sair do lugar.

[2] Protagonista principal da peça em cinco atos intitulada A Tragédia do Sr. Morn, sem tradução em português.

[3] Karel Kramárˇ (1860–1937), estadista e primeiro-ministro da Tchecoslováquia. Russófilo e casado com uma russa, opunha-se fortemente aos bolcheviques e acolhia os emigrados no país, recebendo-os com frequência em sua própria casa.

[4] George-Louis Leclerc, conde de Buffon (1707–88), naturalista e escritor francês, precursor de Lamarck e Darwin.

[5] Mikhail Zoshchenko (1895–1958), conhecido por seus contos satíricos.

[6] Jornal liberal fundado em Berlim pelo pai de Nabokov e no qual ele publicou muitos de seus contos e poemas.

[7] As pessoas me prestigiam, me sinto festejado.

[8] A escritora russa Nina Berberova (1901–93), que em 1925 havia se fixado em Paris, com o marido.

[9] Citação extraída de um poema de Aleksandre Púchkin intitulado “O outono”.

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?