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Só uma vaga

Em busca de um estágio com Moro
Débora Sögur Hous
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Outubro mal iniciava quando Erika Souza Felix da Silva leu no Facebook um anúncio que a instigou. O “Excelentíssimo Senhor Doutor Sérgio Fernando Moro” tornava públicos o prazo de inscrição e as regras de um concurso muito cobiçado: o de estagiário para a 13ª Vara Criminal Federal de Curitiba, justamente aquela onde o célebre juiz da Operação Lava Jato é titular. Moradora de Quixeramobim, no sertão do Ceará, Silva tem 20 anos e cursa o sétimo período de direito na Universidade Regional do Cariri. Não se considera propriamente fã de Sérgio Moro nem sabe ainda em que área pretende se especializar, mas valoriza “o combate aos crimes de corrupção”. Daí o interesse que o anúncio lhe despertou: se aprovada na seleção, anteviu, iria passar doze meses junto do magistrado paranaense, o inimigo número 1 dos ladrões de colarinho branco. Não bastasse, as quatro horas diárias de trabalho lhe renderiam um salário de 833 reais com vale-transporte. Nada mal para quem faz um estágio voluntário na Defensoria Pública de Iguatu.

Embora também não morram de amores pelo juiz, os pais da jovem – um dono de autoescola e uma estudante de moda – concordaram que se tratava de uma oportunidade imperdível e prometeram: caso a filha única lograsse êxito na disputa, complementariam a minguada renda mensal que a Justiça lhe reservava. Na noite de 19 de outubro, uma quarta-feira, Silva deixou Quixeramobim de ônibus e, depois de três horas, desembarcou no aeroporto de Fortaleza. Um voo de mais oito horas a levou até Curitiba.

À semelhança da garota, outros 285 universitários resolveram participar do concurso. A maioria era do Paraná. Somente quatro, além da cearense, se originavam de fora: dois de Roraima, um de Minas Gerais e um de Santa Catarina. Todos tinham plena consciência da pedreira que enfrentariam: havia apenas uma vaga disponível.

 

“Quais as minhas chances? Não são das maiores, mas só conquista as coisas difíceis quem ousa dar o primeiro passo”, explicou Erika Silva na quinta-feira, logo depois de sair do hotel, como se tivesse decorado um livro de autoajuda. Em trinta minutos, adentrou a avenida Anita Garibaldi, no bairro do Ahú, e se deparou com o edifício imponente da Justiça Federal. Um acampamento sobressaía na praça que fica bem diante do prédio. Foi instalado há oito meses por ativistas verde-amarelos que se proclamam guardiões da Lava Jato. O grupo se reveza dia e noite para manter a ocupação funcionando. Uma das militantes se aproximou de alguns candidatos assim que os avistou nas redondezas. “Eu conheço o Moro”, pavoneou-se. “Ele tem uma fala tão mansa… Quando conversa com a gente, até esquecemos que é juiz.” Em seguida, abraçou uma das pretendentes à vaga e pediu: “Lá dentro, diga ao Moro que sou doida por ele.”

No interior do edifício, um funcionário observava a chegada dos estudantes com uma ponta de decepção. Lotado na Sala da Memória, estava ansioso para lhes contar a história da Justiça Federal no Paraná. Mas poucos pareciam dispostos a ouvi-lo. “O falecido juiz Milton Luiz Pereira se destacava entre seus pares”, relembrou. “Homem admirável, não se comportava como uma estrela. Guiou o mesmo Fusca durante 39 anos. Era bem diferente de uns e outros por aqui…”

Perto da sala, também no hall de entrada, podia-se ver uma exposição peculiar, a Mostrinha de Talentos, que reunia cinquenta pinturas e desenhos assinados por crianças, filhas de servidores públicos. Ursos, flores, barcos, casas, monstros e super-heróis espalhavam-se pelo saguão. Um dos concursandos procurou o Super-Moro. Não encontrou.

 

A prova começou às 14h15. Foram trinta questões do tipo verdadeiro ou falso, que abordavam o arroz com feijão do direito penal. Os candidatos ainda tinham de escrever um ensaio curto sobre uma recente decisão do Supremo Tribunal Federal: a que permite o início das penas logo após a condenação dos réus em segunda instância e não somente quando os processos se encerram. Os oito melhores colocados nessa fase iriam para a última etapa, uma prova oral. Se ocorresse empate na oitava posição, todos os concorrentes com a mesma nota seriam convocados.

Erika Silva terminou a prova em noventa minutos. Enquanto atravessava a Mostrinha de Talentos, pensando no próprio desempenho (“razoável”), notou que Sérgio Moro sacava dinheiro do caixa eletrônico. Sem cerimônia, pediu-lhe uma foto. “Vou ficar devendo”, respondeu o magistrado, com simpatia.

No prédio, correm inúmeras histórias sobre o juiz. “Ele demonstra imenso ciúme das ações que estão sob sua responsabilidade”, afirmam uns. “É centralizador”, reiteram outros. Uma funcionária evocou um assessor que gostava muito de auxiliar Moro porque não precisava fazer absolutamente nada.

 

A lista dos aprovados para a fase seguinte saiu no dia 28 de outubro. Entre os doze nomes, não constava o de Silva. “Tudo bem… Bola pra frente”, me disse a jovem pelo WhatsApp, já de volta a Quixeramobim.

O edital que anunciava o estágio se dividia em oito itens. No último, dava uma informação essencial, que passou despercebida para vários candidatos e boa parte da mídia que noticiou o concurso. O estagiário escolhido iria trabalhar com o juiz titular da 13ª Vara (Moro) e/ou com a juíza substituta (Gabriela Hardt). Em outras palavras: não existe nenhuma garantia de que o novato prestará serviços diretos ao paladino da Lava Jato. O mais provável, inclusive, é que não preste. “Você sabia disso?”, indaguei à cearense, ainda pelo WhatsApp. Ela mostrou surpresa: “Não!” Contou que havia lido o edital inteiro, mas que não percebera “o detalhe”. “Se você tivesse percebido, viajaria onze horas para encarar uma prova em Curitiba?”, insisti. Desconcertada, a universitária hesitou um instante e respondeu: “Vixe, nem sei o que lhe dizer…”

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