esquina

Socialismo de mercado

Vendem-se bótons políticos

Julia Duailibi
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

O estudante de biologia chegou atrasado à Casa de Portugal, espaço de eventos no bairro paulistano da Liberdade. A ex-presidente Dilma Rousseff e a ex-mandatária argentina Cristina Kirchner – que estavam ali para participar de uma conferência sobre a América Latina – já haviam discursado, sob aplausos entusiasmados do público. Naquela noite de dezembro, as duas denunciaram o “golpe parlamentar, judicial e midiático” que teria assaltado o Brasil.

Alheio às manifestações do auditório, João Pedro Barbosa Militão, de 24 anos, instalou-se no hall de entrada. Enquanto escutava o rock progressivo da banda inglesa Jethro Tull nos fones de ouvido, pendurou uma toalha amarela e puída numa estrutura retangular de PVC. Do tecido, pendiam cerca de 300 bótons coloridos, todos exibindo mensagens engajadas: “Por uma vida sem catraca”, “Não ao novo Código Florestal”, “Black is beautiful”, “Não à PEC” e, claro, “Fora, Temer”.

“A gente pertence a uma organização política”, disse o estudante, referindo-se a si mesmo no plural. “Vendemos os bótons como parte de uma campanha financeira que tem o objetivo de nos sustentar.” A organização é a LSR – Liberdade, Socialismo e Revolução, uma corrente do PSOL. Já a campanha atende pela sigla de BLC – Bottons, Broches e Brindes de Luta e Cultura.

A LSR prega “a necessidade da resistência” contra a “propaganda triunfalista em defesa do mercado” e ataca tanto o governo de Dilma quanto o de Lula: “As velhas direções políticas e sindicais dos trabalhadores falharam diante do seu mais importante teste histórico. Passaram-se para o lado do capital.” Por isso, Militão faz questão de frisar que a organização só comercializa bótons com slogans em que acredita. “Não tem essa de apoiar as bandeiras do PT.” Filho de um ativista do movimento negro, o rapaz ingressou na LSR em 2012.

Segundo ele, desde que a crise política brasileira recrudesceu, a demanda pelos bótons aumentou. Hoje, a organização confecciona entre 15 mil e 20 mil botõezinhos por mês. Para tanto, se utiliza de uma prensa adquirida há alguns anos. Cada bóton custa 2 ou 3 reais, dependendo do tamanho, mas o valor pode chegar a 50 centavos se a encomenda for grande.

Gentil, ainda que desconfiado, Militão falava pouco. De vez em quando, ajeitava a pochete que trazia sobre a calça cáqui. “Em nossos bótons, a gente usa um papel de 120 gramas, que aumenta a qualidade das imagens”, propagandeou, à moda dos capitalistas. Quanto aos clientes, a LSR não discrimina ninguém. Oferece seus produtos até em manifestações de coxinhas. Nelas, o bóton “Fora, Temer” costuma ser um hit, desde que não tenha fundo vermelho. “O jeito foi fazê-lo em diversas cores, né?”

 

O movimento na Casa de Portugal ainda estava fraco, mas o estudante parecia não se importar. Retirava a mercadoria de quatro sacolinhas plásticas e a ajeitava na toalha gasta. Experiente, sabia que os fregueses chegariam. E chegaram.

Mal a conferência terminou, formou-se em torno do pano uma meia-lua de interessados. Um garoto mastigando batatinhas Ruffles, moças de turbantes e brincos, rapazes de dread-locks, meninas de mãos dadas com meninas e duas mulheres ostentando imagens de Lula e Dilma em camisetas integravam o grupo. “Peguei um roxo e três vermelhos”, avisou um jovem de coque, barba e mochila Nike. Os quatro bótons exigiam a queda do presidente Michel Temer. Militão, que só aceitava pagamento em cash, caçava trocos na pochete à medida que a clientela aumentava. Moedas caíam no chão, mas o negociante, um tanto atrapalhado, não perdia a calma.

“Foi bom encontrar a militância”, comentou vinte minutos depois, quando os compradores se dispersaram. “Vendi uns 100 bótons”, calculou. Em seguida, guardou os produtos nas sacolas, dobrou a toalha e colocou novamente os fones de ouvido. Perguntei para onde iria. “Para a organização”, respondeu, salientando que havia duas sedes, uma oficial e outra clandestina. “Questão de segurança”, justificou. Antes que partisse, indaguei por que não aderia à maquininha de cartão. Poderia dar um boom nas vendas, argumentei. Ele sorriu, balançou a cabeça em sinal de desa-provação e, descartando os restos de um Burger King que acabara de devorar, seguiu rumo à célula socialista.

Julia Duailibi

Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

Leia também

Últimas Mais Lidas

Deputados do PSL na China mandam recado para Bolsonaro sobre Previdência

Integrante da comitiva diz que presidente deveria defender grupo das críticas de Olavo de Carvalho e avisa: “FHC perdeu sua reforma por um voto. Quantos votos o governo tem aqui na China?”

Olavo lidera insurgência entre bolsonaristas

Guru da extrema direita ataca comitiva do PSL na China, deputada responde e briga provoca racha em grupos pró-Bolsonaro no WhatsApp

Novo cargo, novo trampolim para Doria no Facebook

Depois de quase dois anos de queda, interações no perfil do tucano mais que dobram após a posse; movimento é atípico em relação a outros governadores

Foro de Teresina #35: O decreto das armas, o teatro de Witzel e a prisão de Battisti

Podcast da piauí discute os fatos da semana na política nacional

Meu Querido Filho – riscos da obsessão paterna

Filme tunisiano reflete sobre a relação entre pais extremados e seus rebentos

“Despetização” de Onyx tem só 1% de petistas

Em uma semana, governo Bolsonaro exonera 293 de cargos de confiança para eliminar quem "tem marca ideológica clara”, mas só 35 são filiados a partidos, dos quais três, ao PT

Foro de Teresina #34: O bate-cabeça de Bolsonaro, os novos escândalos do governo e a crise no Ceará

Podcast da piauí analisa os fatos mais recentes da política nacional

Mourão não deixou filho desistir de promoção

Vice-presidente insistiu para Antônio Rossell Mourão aceitar cargo no BB, mesmo após a repercussão negativa: "Isso lhe pertence"

Sem médico, até repórter vira “doutor” para indígena na Amazônia

No Alto Solimões, onde 229 aldeias abrigam 70 mil índios de sete etnias, nenhum brasileiro apareceu para as vagas deixadas pelos cubanos

Espanto e incredulidade entre nós

Cultivar o passado ou lidar com a realidade: formas de reagir a novos tempos na política

Mais textos
1

Olavo lidera insurgência entre bolsonaristas

Guru da extrema direita ataca comitiva do PSL na China, deputada responde e briga provoca racha em grupos pró-Bolsonaro no WhatsApp

2

“Despetização” de Onyx tem só 1% de petistas

Em uma semana, governo Bolsonaro exonera 293 de cargos de confiança para eliminar quem "tem marca ideológica clara”, mas só 35 são filiados a partidos, dos quais três, ao PT

3

Excelentíssima Fux

Como a filha do ministro do STF se tornou desembargadora no Rio

5

The BolsozApp Herald

A rede social mais patriótica do Brasil

6

Deputados do PSL na China mandam recado para Bolsonaro sobre Previdência

Integrante da comitiva diz que presidente deveria defender grupo das críticas de Olavo de Carvalho e avisa: “FHC perdeu sua reforma por um voto. Quantos votos o governo tem aqui na China?”

7

Genocídio

Em reportagem de 1969, o extermínio sem fim dos índios no Brasil

9

Povos da megadiversidade

O que mudou na política indigenista no último meio século