vozes do rap

Soco, sufoco e fogo no gogó de GOG

A polícia perversa pega pretos, pobres e prostitutas, os políticos prometem em palanques praias e piscinas, pura palhaçada em proveito próprio, mas o poeta da periferia prevê populares portando pistolas, pólvora, pescoço, peito e pulmões perfurados

Luiz Maklouf Carvalho
“É a mexerica do quilombo!”, proclamou GOG depois de três horas subindo e descendo a serra da Barriga, em Alagoas. “É a nossa santa ceia com Zumbi dos Palmares!”
“É a mexerica do quilombo!”, proclamou GOG depois de três horas subindo e descendo a serra da Barriga, em Alagoas. “É a nossa santa ceia com Zumbi dos Palmares!” FOTO: MARCOS CAVICCIOLI

Genival Oliveira Gonçalves tirou a mala do bagageiro do carro, levou-a para a entrada do prédio e abriu-a no chão de cimento: CDs, DVDs e camisetas promocionais chamativas ficaram à mostra. Numa delas, lia-se: “O estudo é o escudo.” Àquela hora, seis da tarde, a Secretaria Municipal de Cultura de União dos Palmares, na zona da mata alagoana, deveria estar fechando as portas. Mas, com a autorização do secretário, Gonçalves expôs seus produtos para uma dúzia de possíveis compradores.

“Gente, se não puder pagar à vista, eu divido em trinta, sessenta e até noventa dias”, dizia, animado. Apareceu um sujeito que, desinteressado, atravessou o burburinho – um evento, afinal, na pacata Palmares – ignorando-o por completo. Gonçalves se eriçou. “Seu Genésio me batizou com nome de caixeiro-viajante e me ensinou a vender”, disse. Carlos Roberto da Silva, o desinteressado, foi interceptado ao descer a pequena escada que levava ao portão e à rua. Guia turístico de 34 anos, Silva ruborizou levemente quando o grandalhão desconhecido – 1,80 metro e 85 quilos – abordou-o, com jeito, mas incisivo: “E aí, velho, não quer dar uma olhada nas camisetas? É o nosso trabalho de autogestão.” Silva não queria. Tinha pressa.

– Você compra uma camisa se eu falar rapidamente vinte palavras seguidas só com a letra “P”, tudo fazendo sentido? – propôs Gonçalves.

Antes que o rapaz pudesse responder, aumentou a oferta:

– Trinta palavras, todas com “P”. Trinta, velho. Topa?

– Trinta só com “P”? Não pode! – disse Silva.

– Quarenta. Topa? – aumentou Gonçalves.

– Posso anotar uma por uma?

– Pode.

Uma caneta materializou-se na mão de Silva. Mas ele regateou e só topou a aposta quando Gonçalves colocou no pano verde sessenta palavras com “P”. No meio da roda que se formou, disparou as primeiras:

 

Preferencialmente

Preto pobre prostituta

Pra polícia prender

Pare pense por quê?

 

Silva rabiscou treze “pês” numa folha de papel. E Gonçalves disparou mais dezenove:

 

Prossigo

Pelas periferias praticam perversidades PMs

Pelos palanques políticos prometem prometem

Pura palhaçada

Proveito próprio

Praias programas piscinas palmas

 

Como o rapaz não conseguia grafar o “P” no mesmo ritmo do rap, Gonçalves parou e sugeriu que marcasse com tracinhos, formando um quadrado cruzado a cada cinco palavras. Silva gostou. E, com o desafio virando festa, encheu uma folha de quadradinhos:

 

Pra periferia

Pânico pólvora pá pá pá

Primeira página

Preço pago

Pescoço peitos pulmões perfurados

Parece pouco

 

Pedro Paulo

Profissão pedreiro

Passatempo predileto

Pandeiro

Preso portando pó

Passou pelos piores pesadelos

Presídio porões problemas pessoais

Psicológicos perdeu parceiros passado presente

Pais parentes principais pertences
O rapaz se atrapalhava na contagem, mas foi até o fim:

 

PC [o tesoureiro de Fernando Collor]

Político privilegiado preso parecia piada

Pagou propina pro plantão policial

Passou pela porta principal

Posso parecer psicopata

Pivô pra perseguição

Prevejo populares portando pistolas

Pronunciando palavrões

Promotores públicos pedindo prisões

Pecado pena prisão perpétua

Palavras pronunciadas

Pelo poeta periferia

 

Na última estrofe, Silva começou a ouvir mais alguém fazendo um dueto com Gonçalves. Era o próprio. O som, ligado por um fã que o acompanhava, vinha do carro que o trouxera, estacionado ali próximo. Era a mais recente gravação de Brasil com P, uma das quinze faixas do CD GOG ao Vivo – Cartão Postal Bomba!, à venda em poucas lojas, na internet e na mala que ele carrega nas viagens. Nessa versão, o solfejo que pontua a sucessão de “pês” é da cantora Maria Rita.

No final da performance, Silva ficou sabendo que o camelô tem o nome artístico de GOG, as iniciais de seu nome. Ele as pronuncia como um monossílabo, enquanto fãs preferem chamá-lo de Gê Ó Gê. Silva terminou de marcar os “pês” com trilha sonora, visivelmente maravilhado. Desculpou-se por não conhecê-lo, e pagou a aposta comprando três camisetas e um DVD. Não tinha dinheiro para pagar à vista, então o rapper aceitou a metade e deu ao rapaz o número de sua conta, para que depositasse o resto no dia combinado. De boca, simplesmente.

GOG é um dos rappers mais premiados do hip-hop brasileiro. Em dezembro passado esteve entre os cinco primeiros do Prêmio Hutúz, junto com Racionais MC’s, MV Bill, Rappin’Hood e o falecido Sabotage. No show de entrega, incendiou a plateia com Brasil com P – premiado como um dos quatro melhores clipes da década.

O rapper faz 45 anos (ou “4.5 turbinado”, como prefere) em março. Seu primeiro disco de rap, ainda nos tempos do vinil, foi Peso Pesado, em 1992. O nono é de 2007, Cartão Postal Bomba!. Dois deles – CPI da Favela, no qual está a aliterativa Brasil com P, e Tarja Preta – entram em qualquer coletânea do rap nacional. O décimo, previsto para este ano, trará um rap calcado em Construção, de Chico Buarque, de quem GOG é admirador. “O Chico construiu, e eu vou desconstruir”, disse.

Numa entrevista a Fernando de Barros e Silva, publicada na Folha de S.Paulo em dezembro de 2004, Chico Buarque afirmou: “Quando você vê um fenômeno como o rap, isso é de certa forma uma negação da canção tal como a conhecemos. Talvez seja o sinal mais evidente de que a canção já foi, passou. Estou dizendo tudo isso e pensando ao mesmo tempo que talvez seja uma certa defesa diante do desafio de continuar a compor. Tenho muitas dúvidas a respeito. Esse pessoal [do rap] junta uma multidão. Tem algo aí. Eu não seria capaz de escrever um rap e nem acho que deveria.”

 

Às 6h30, GOG estava na esquina combinada, na cidade-satétite Guará II, onde mora numa casa térrea sem maiores confortos. Rogéria, com quem está casado há mais de vinte anos e tem dois filhos adolescentes, fazia o café enquanto esperava o pão que ele fora comprar. Ele tem ainda uma filha, de um namoro anterior, hoje com 22 anos. A moça mora com a mãe e ajuda na divulgação dos discos do pai.

De bermudão, camiseta e chinelo, o rapper tem uma aparência séria, quase carrancuda. Sua primeira tarefa no dia era levar o filho Guilherme à escola, pública, que fica no Plano Piloto. Foram num Golf prata 2001, cuja marca estampada na traseira foi alterada para “GOG”. O segundo compromisso foi cumprido a pé: visitar um amigo que passava por uma crise de depressão. O rapper foi levá-lo ao hospital onde tinha consulta.

Enquanto caminhava a passos largos e rápidos pela W-3, lembrou que a avenida está presente em algumas das 140 letras que compôs: contando que a média é de oitenta linhas por música, são quase 12 mil versos. Ele entoou a quilométrica letra na rua e no hospital, sem se importar com os passantes que viravam a cabeça para olhá-lo.

Era véspera de uma turnê de shows pelo Nordeste e GOG acertava, pelo celular, outros dois shows – um na praça da Sé, em São Paulo, por 15 mil reais, e outro em Jaú, no interior paulista, por 8 mil. Os telefonemas não paravam. Ele falou enquanto dirigia, esperava na fila de bancos e nas três horas que permaneceu em uma agência de viagens, atrás de passagens mais baratas. Quando se empolga, toca em vários assuntos simultaneamente, ou abandona um raciocínio para retomá-lo depois de dezenas de interpolações: parece um Eduardo Suplicy superacelerado.

Uma pergunta sobre a sua barba rala gera respostas assim: “Eu tenho orgulho, porque tem horas que eu pareço com o Che, né? Essa irmandade aí é uma coisa que eu gosto. Mas não busco. Talvez introspectivamente, não diretamente. Essa barba mostra um rosto muitas vezes jovem, mas também a maturidade da barba, do cabelo ficando branco. Surpreender e quebrar o paradigma é uma estratégia. Superar o prato feito que as pessoas pensaram que você era – e aí você passa a ser não só um bandejão.”

Também vai ao ponto quando quer: “Essa fita de aliança com o Bigode ninguém aguenta”, disse, referindo-se ao apoio do presidente Lula ao senador José (“Bigode”) Sarney. “Foi muito pesada. Então eu vou ter que voltar a esse tema no próximo disco, porque eu não posso jamais deixar isso passar batido. O pessoal espera isso do GOG.”

O rapper defende o governo Lula e integra o Conselho Nacional de Política Cultural. O presidente conhece GOG de eventos culturais. Num deles, pediu aos presentes, gente do hip-hop, que encaminhassem suas reivindicações “aqui para o nosso GOG”. Nas letras, ele atacou os Fernandos Collor e Henrique, este chamado de “sociólogo nojento”. Raposas da política brasiliense – como Joaquim Roriz ou José Roberto Arruda – também já foram para o seu paredão.

O vídeo do mensalão de Arruda, com os maços de dinheiro nos bolsos, meias e cuecas, levou GOG a participar de manifestações de protesto. O episódio também serviu de mote para uma terceira maratona das letras com “P” – “a última”, ele garante, “porque nem eu aguento mais”. Chama-se Ponto phinal. Somada a Brasil com P e a Próxima parte, são 542 palavras com “P”.

Em Ponto phinal, GOG pegou leve. Para não atrapalhar sua relação com o governo e com os políticos locais que o contratam para shows, fez uma crítica genérica, sem citar nomes, exceto o de Arruda. Nos últimos versos, ele defende:

 

Punição pros patifes!

Pena para Arruda?

Pega palmatória, pega palmatória!

 

“Não considero a palmatória instrumento de tortura, ela é mais lembrada como um corretivo”, esclareceu. “Foi a forma mais branda que encontrei para não chegar a:

 

Pena pro Arruda?

Pega pente, pistola

Pelotão! Preparar… pá, pá, pá!

 

A sala da casa de GOG fica fechada nas primeiras horas da manhã. É ali que ele instalou sua mãe, dona Sebastiana, personagem recorrente de suas letras. Piauiense de 77 anos, ela quebrou o fêmur numa queda na cozinha, em janeiro de 2007. Operou e voltou para casa. Recuperava-se, quando uma embolia pulmonar e dois derrames a levaram a uma unidade de terapia intensiva, onde ficou um ano internada. As sequelas a obrigam a ficar na cama, imobilizada. GOG transformou a sala num quarto de hospital e contratou uma enfermeira que fica de plantão. “Essa é a minha mãezinha, guerreira, que me deu tudo de importante”, apresentou-a, emocionado, na beira da cama. Dona Sebastiana não fala, mas tem os olhos abertos e, segundo o filho, se expressa por eles. Genival passou a mão pelos cabelos grisalhos, beijou o rosto e contou para ela que viajaria no dia seguinte para uma turnê.

 

Dona Sebastiana saiu de Gilbués, no extremo sul do Piauí, há 45 anos. Com Genival na barriga, foi morar na cidade-satélite de Ceilândia. Com quinze dias, ele nasceu. Genésio, o pai, hoje falecido, veio depois. Em Gilbués, cuidavam da terra e do gado dos outros. Genésio atravessava boi, a nado, no rio Gurgueia. Gostava de beber, às vezes além da conta, e era mulherengo. Até noivo ficava, se precisasse. “O pai não era envolvido com estudo, mas tinha uma linda caligrafia”, disse o filho. “Cuidou muito da minha educação. Com 5 anos eu já estava alfabetizado. O pai lia Cecília Meireles, tinha interesse em literatura. Sabia que era importante pra nós.”

Genésio trabalhou numa recauchutadora de pneus em Ceilândia. Dona Sebastiana virou professora concursada, primeiro de comunidade rural e depois em Brasília. A família melhorou de vida e comprou casa própria. Genival e seus irmãos – o bancário Sanderson e a funcionária pública Karlla Soraya – foram educados com rédea curta.

GOG estudou em escola pública, no Guará II, para onde a família se mudou quando tinha 8 anos. Foi trabalhar com 16 anos, como contínuo em um consultório de dentistas. Aos 12, quando começou a ir a festas nas cidades-satélites e a gostar de dançar, a música entrou na sua vida. “Minha trilha sonora era James Brown, Paulo Diniz, Roberto Carlos, Gerson King Combo”, disse. No final dos anos 70, a dança levou-o a formar o primeiro grupo, Os Magrello’s, com mais uma dezena de garotos do Guará II. Eles dançavam funk e soul, mas acabaram no break, que, com seus voos de braços, pernas e cabeças girando (referência à guerra do Vietnã e seus helicópteros), é característica do hip-hop.

Foi com Os Magrello’s que GOG viveu a primeira das muitas encrencas que teria com os parceiros: não deixou que os companheiros entrassem no Fusquinha usado que acabara de comprar. “Eles estavam suados”, explicou, sugerindo arrependimento, num banco de hospital, à espera do amigo depressivo. Saiu de Os Magrello’s com fama de metido, ou de “cheio de querer ser”, para usar um verso de Mano Brown, dos Racionais.

Montou outro grupo, o SOS Rap, que não foi adiante. Virou bancário, prestou vestibular e foi aprovado no curso de economia de uma faculdade particular. Mas o rap o pegara de vez. Os colegas do banco cansaram de vê-lo às voltas com letras enormes, que fazia no horário de trabalho. Abandonou a faculdade um ano antes de se formar. Fez gravações amadoras e as mostrou em shows e concursos nas cidades-satélites. Em 1989, conquistou o quarto lugar num torneio, com um rap que rimava “Brasília” com “oitava maravilha”.

Em 1990, em São Paulo, saiu o primeiro disco dos Racionais, Holocausto Urbano, com o sucesso Pânico na zona sul. Foi o sinal de que o rhythm and poetry, ou rap, era bem mais que a importação de um ritmo americano. Referindo-se aos Racionais, o músico e ensaísta José Miguel Wisnik escreveu, em 1997, que o rap de São Paulo era “o mais marcante fato novo da música no Brasil desde muito tempo, como expressão social, como linguagem, como fenômeno de produção, distribuição e criação do público”.

Para Fernando de Barros e Silva, o rap implodiu “o mito de nossa utopia cordial” e se constitui, “como expressão cultural e fato social, num sintoma furioso de um fim de linha histórico”. O músico e ensaísta Luiz Tatit não concorda que a canção venha cedendo espaço para o rap. “Nada é mais radical como canção do que uma fala explícita que neutraliza as oscilações ‘românticas’ da melodia e conserva a entonação crua, sua matéria-prima”, escreveu. “A existência do rap e outros gêneros atuais só confirma a vitalidade da canção.”

Para GOG, Pânico na zona sul provocou “o mesmo deslumbre que os americanos tiveram quando ouviram Malcolm X. Esse rap é uma convocação de guerra, com liderança, texto e personalidade”. Os Racionais prestaram uma homenagem a GOG ao citar um de seus mantras – “periferia é periferia em qualquer lugar” – numa das músicas de Sobrevivendo no Inferno. O brasiliense também os citou, em mais de uma letra. E também fez uma música na qual se comparou ao líder negro americano, assassinado em 1965: Malcolm X foi à Meca e GOG ao Nordeste.

Seguindo a trilha dos Racionais, o Distrito Federal, que já dera frutos no pop, como Legião Urbana e Raimundos, tornou-se uma referência do rap nacional. Ceilândia foi um dos berços do rap brasiliense. Um dos bebês daquela época, hoje com 42 anos e monumentais 170 quilos, é o DJ Jamaika. Ele não gosta que lhe perguntem o nome verdadeiro – “Pra quê?”, retrucou logo, de cara feia –, mas acabou concedendo: chama-se Jefferson Alves. Dois de seus raps, Síndrome de Caim e Chegando devagar, estão na trilha sonora de um filme com Arnold Schwarzenegger, Efeito Colateral. Jamaika tem dez discos gravados e estima já ter vendido 500 mil unidades. Naquele começo dos anos 90, ele e Alexandre Tadeu Silva, o rapper X, formaram o Câmbio Negro. Rendeu um único disco porque tiveram uma briga que persiste até hoje. A faixa Sub-raça alude ao faux pas cometido por Lula na campanha presidencial de 1989, quando disse que o Nordeste, se continuasse na miséria, poderia dar origem a uma sub-raça. “Sub-raça é a puta que o pariu”, grita X no refrão.

Nessa mesma época, Genival Oliveira Gonçalves, por sugestão de dois amigos, passou a se chamar GOG. Jamaika, ele e X tornaram-se amigos e parceiros musicais por alguns anos. Um dia se estranharam. Jamaika não quis falar sobre os motivos e X se recusou a dar entrevista. “Não vou falar porra nenhuma”, disse ao telefone. “O rap virou essa merda que está aí.”

GOG contou que a gota d’água da briga foi um comentário “infeliz” que ele fez referente a uma suposta superioridade de Guará II sobre Ceilândia – ou CI, como eles falam –, no quesito break. “Uma bobagem que custou dez anos de muita tensão”, disse o rapper. “Teve dia de eu sair com o ferro porque fui informado que eles iriam me acertar”, disse. (“Ferro”, no caso, é revólver.) “O acerto ia ser no Quarentão, um salão de festas de Ceilândia. Eles estavam lá, tudo ferrado, tudo maquinado, velho. Eu cheguei de boa, entrei, eles ficaram tudo me olhando, mas eu ignorei a provocação e fui-me embora. Mas eu me perguntava: qual das mães vai chorar? E respondia: a minha não vai.”

Jamaika, X e outros desafetos que GOG coleciona – “eu tenho essa sina” – levaram a polêmica para letras e discos. Uma das mais sulfúricas chama-se Falsa malandragem, e foi feita por Jamaika e Rei, outro rapper de Ceilândia. Nela, GOG é chamado de “girinão”, “gangstar”, “babão”, “otário”, “barrabás” e “safado”. Ele nunca respondeu. “É que eu sempre fui um cara da caminhada, velho”, explicou. “O problema é que eu tinha 2º grau, estava fazendo faculdade e tinha um bom emprego. Agora, se eu me desprovi da sua amizade, eu não vou falar mal de você e nem ficar caminhando com você. Só que eu vou crescer, cara, e crescer muitas vezes irrita o adversário.”

X também pegou pesado em Que irmão é você?, no qual ele diz do desafeto: “Ainda existem/ pessoas que por nós são consideradas/ e que depois de muito tempo mostram sua cara safada.” São águas passadas: Jamaika e Rei viraram evangélicos e pediram desculpas a GOG, que aceitou. Até cantaram juntos em shows.

 

Cláudio Raffaello Serzedello Corrêa Santoro – filho de maestro e bailarina famosos no Brasil e no exterior – é conhecido em Brasília como DJ Raffa. Tem 41 anos, é gordo de dar na vista e produziu, como músico e arranjador, discos marcantes do rap brasiliense. Tem quatro discos de ouro – acima de 100 mil cópias – como produtor. Sua história está contada no livro autobiográfico Trajetória de um Guerreiro, de 2007. GOG também encrencou com Raffa, ou vice-versa. Por causa de dinheiro. Em 1993, morando em São Paulo, Raffa não conseguiu cobrir um cheque que o rapper lhe emprestara. Pois GOG foi a São Paulo e simplesmente levou embora o teclado com que o amigo trabalhava, e só o devolveu quando o cheque foi coberto.

“Quem não errou nessa longa trajetória?”, perguntou o DJ, filosoficamente. “O GOG não tem papas na língua, não. Ele fala sem pensar, no calor da emoção. Mas é um cara do bem. Muito inteligente e bem informado. Suas letras são muito bem elaboradas, com boas rimas por dentro e por fora.” Raffa contou que uma vez, durante certa gravação em seu estúdio de Brasília, GOG, com o calor do desempenho, foi tirando e jogando peça por peça da roupa, sem parar de cantar. “Ficou só de cueca – o que é um bom exemplo da energia dele”, disse.

Desde o primeiro disco, na contracorrente do gênero, GOG não fala palavrões. Mas não lhe falta agressividade (o mau político “é sujo, é podre, é lixo”), nem versos inventivos (“não deixe o óbito se tornar lógico”). Ele explicou que não usa palavrões como “estratégia para que as músicas atinjam o máximo de pessoas. O rap nacional tem músicas com palavrões bem colocados, como Sub-raça, para citar só um exemplo. Outros forçam, são desnecessários e sem sentido”.

Ele começou a fazer sucesso em meados dos anos 90. Montou uma gravadora, lançou grupos novos e abriu meia dúzia de lojas no Distrito Federal para vender roupas e discos de rap. Rogéria é quem administra as lojas, hoje reduzidas a duas, uma delas no Shopping Conic. Ali também atende, em outra loja, o DJ Régis, de 35 anos, do grupo de rap evangélico Provérbio X. GOG foi convidado para fazer uma participação no show deles e topou. “Cada minuto com ele é um aprendizado, no rap e na vida”, disse Régis. “Pode escrever aí que eu amo o GOG do fundo do meu coração.”

Depois de onze anos como bancário, alternando terno e gravata com visual hip-hop, GOG pediu as contas. Já fazia muitos shows em São Paulo, num cansativo vai e volta. Chateado com as desavenças brasilienses – “era São Paulo me batendo palmas e Brasília me jogando pedra” –, mudou-se, em 1999, com Rogéria e as crianças, para Hortolândia, perto de Campinas. Ficaram quatro anos por lá e voltaram ao Guará II.

 

Num voo matinal Brasília-Maceió, primeiro destino de sua turnê de oito dias pelo Nordeste, GOG fez cara feia quando duvidei de sua capacidade de compor de improviso, como alardeava. “Me dá uma folha aí e escolhe um tema”, falou, ajeitando-se na poltrona desconfortável. Em pouco mais de um minuto, escreveu dezessete versos sobre o tema “A garota da Uniban”. Eles rimavam talibã com Uniban, vestir com sentir e opressão com liberdade de expressão.

Num restaurante da praia da Ponta Verde, em Maceió, onde comeu lagosta pela primeira vez na vida, encantou as professoras Ruth Vasconcelos e Fátima Albuquerque, da Universidade Federal de Alagoas, responsáveis por sua contratação, por 10 mil reais. Jamais haviam visto um músico tão articulado e provocador. Outro organizador do show era Carlos Martins, aluno da universidade. Ele viu um espetáculo de GOG em Salvador, se empolgou, entrou em contato com o rapper e convidou-o a se apresentar em Maceió. As professoras cogitaram convidar nomes consagrados da música popular, como Milton Nascimento ou mesmo Chico Buarque. Carlos Martins convenceu-as de que o negócio agora era o rap, e que o rap era GOG.

Foram dois dias agitados. Já na primeira noite, GOG visitou a favela Sururu de Capote, à beira de uma lagoa fétida e poluída. Animado com um grupo de meninos que gostavam de rap, voltou aos tempos em que dançava, e improvisou um show-relâmpago. Na mesma noite, teve fôlego para uma reunião com grupos de hip-hop em um bairro periférico e para cantar Brasil com P à capela, só no GOGó. “Muita gente entra no rap por vaidade e para pegar as meninas, mas essa fita não vira”, disse aos 150 manos e minas que participaram do debate. “Nós temos que repensar e refundar o hip-hop.”

No outro dia, Carlos Martins levou-o ao Parque Memorial Quilombo dos Palmares, na serra da Barriga. Lá, GOG agiu como se Zumbi ainda estivesse vivo. No meio da caminhada pela estrada de terra que levava ao parque, puxou o celular. Ligou para um presidiário amigo e juntos fizeram uma oração. “Pedimos liberdade a esse irmão e sabedoria para conduzir o nosso dia a dia”, rezou. O rapper zanzou pela serra íngreme, sozinho, por umas três horas. Reapareceu suado, feliz e com as mãos, braços e bolsos cheios de mexericas e laranjas. “Elas foram banhadas pelo mesmo lençol freático dos tempos de Zumbi”, anunciou ao voltar.

Carlos Martins e as professoras haviam conseguido, em prol do sucesso do show, uma entrevista junto à repetidora local da Globo. Não sabiam, como os fãs do rapper sabem há muito, que GOG e Globo só combinam no G. Assim como não toma Coca-Cola e não calça tênis da Nike, ele não dá entrevista para a maior rede de televisão. Disse isso a Martins com a tranquilidade dos eleitos. O rapaz insistiu, argumentou universitariamente, rogou, se alterou um pouco, disse que a universidade estava pagando. GOG ignorou tudo olimpicamente, e Martins desmarcou a entrevista.

Na manhã seguinte, em outro bairro pobre, o rapper foi ao estúdio modestíssimo de um DJ iniciante, Paulo Henrique Leite da Silva, o PH, de 26 anos. Antes de subir a escada caracol, GOG deixou o celular para o filho de PH brincar. No estúdio, cercado de admiradores, pegou o microfone e fez um discurso falando sobre a serra da Barriga, Zumbi, a revolução e a verdade. Foram quatro minutos e meio de transe ininterrupto.

Na noite do show, na praia de Pajuçara, 1 500 pessoas assistiram a seu show, que se desenvolveu num crescendo de entusiasmo, até explodir perto do fim. “Parece que um preto velho baixa em mim”, ele explicou. Apresentou-se com uma camiseta preta com a frente tomada por uma foto do presidente Barack Obama. Abaixo da foto, em letras cheias, a palavra “Revolução”. Em uma de suas músicas, em vez de usar o clichê “o barato é louco”, ele canta “o Barack é louco”.

Ele foi acompanhado na turnê nordestina pelo DJ A, ou Alysson Lopes de Lima. Ele tem 30 anos, é forte, usa tatuagens, brinco, camiseta e boné. Mas, sobretudo, é calado. Talvez por isso tenha conseguido não se atritar com o rapper, ou vice-versa. O segredo é que só se veem minutos antes de começar o show. O resto do tempo é cada um na sua. No palco, o rapper GOG não fica parado e suas letras saem cristalinas. A plateia que está logo à frente do palco se esgoela com o refrão: “Revolucionários do Brasil/ Fogo no pavio!/ Fogo no pavio!”

O melhor momento foi Brasil com P: GOG saiu do palco e cantou todo o rap, misturado com o público, andando sem parar e às vezes correndo como um louco. Uma hora, encostou num carro da polícia parado no calçadão e cantou de lá. Como faz em todos os outros shows, o rapper ficou duas horas atendendo aos fãs, e vendendo as camisetas, CDs e DVDs numa banca improvisada. Como em outras ocasiões, aceitou que dezenas de fãs – ou “seguidores”, como prefere – pagassem depois as compras, depositando o valor combinado na sua conta. Pelo telefone, Rogéria repreendeu sua liberalidade. “Eu faço isso para eles confiarem que a autogestão é possível”, respondeu o rapper, depois de tentar apaziguá-la com palavras de carinho.

 

A ligação para o presidiário amigo, feita da serra da Barriga, não foi a primeira que GOG fez para o rapper Dexter. Ele se chama Marcos Fernandes de Omena, condenado a 38 anos de prisão por homicídio e assaltos à mão armada. Cumprindo pena há doze anos, foi o criador, junto com Afro-X, do grupo 509-E. O nome do grupo homenageia o número da cela em que Dexter e Afro-X estiveram presos no Carandiru. A história da dupla está contada no documentário Entre a Luz e a Sombra, de Luciana Burlamaqui, lançado no final do ano passado. Dexter continua a carreira solo e, de vez em quando, é liberado da cadeia para compromissos profissionais. Ele ganhou um Prêmio Hutúz em dezembro.

Dexter tem ligações com o Primeiro Comando da Capital, o PCC, que controla boa parte dos presídios paulistas. GOG contou que Dexter o convidara, em nome do PCC, para que fizesse um show no dia de Natal, em um bairro da periferia de São Paulo, e lhe ofereceu 7 mil reais de cachê, em três prestações. “Aceitei porque eles fizeram uma consulta nas comunidades, e o escolhido fui eu”, disse. Sacou a primeira parcela, de 3 mil reais, de um caixa eletrônico em Maceió. “Está vendo como é? Eles pagam com antecedência e sem furo, como combinado”, disse, mostrando o extrato comprovando o depósito e reclamando da demora de outros contratantes.

Outro seu amigo e parceiro é o rapper Altino Jesus do Sacramento, o Gato Preto, condenado a dezenove anos de cadeia por sequestro e porte ilegal de arma. Está preso em Osasco. “Mesmo ele tendo dado essa desviada para o crime, o Gato Preto talvez seja o parceiro que eu mais ame nessa caminhada, que mais eu tenha orgulho”, disse.

O rapper chegou a visitar o cativeiro no qual Gato Preto guardava um refém, coreano. Ao saber do que se tratava, GOG não quis parceria. “Eu sou pelo certo”, falou. “Para mim, o crime não vira, o PCC não vira, o tráfico não vira.” São frases que ele também fala nos palcos – como disse nos shows de Olinda e de João Pessoa. Não é uma contradição para quem recebe dinheiro do PCC? “Pode até ser, mas eu não tenho medo da polêmica e da contradição”, respondeu. Gato Preto é um dos mandachuvas da favela do Jardim Colombo, na Zona Sul paulistana. Lá ele montou o Centro de Inclusão Digital Genival Oliveira Gonçalves. “Você chega e está lá aquela placona, com um monte de moleque no computador. É uma das maiores homenagens a mim”, disse GOG.

 

Autor de Bim Bom: A Contradição sem Conflitos de João Gilberto, livro de referência sobre o inventor da bossa nova, o professor e músico Walter Garcia, da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, é um dos poucos da área acadêmica a se interessar pelo rap – com foco na obra dos Racionais. “O GOG elabora uma crônica social, com o objetivo de conscientizar, visando uma modificação social e política profunda na sociedade”, disse Garcia. “Acho genial o uso do cujo na letra de Brasília periferia, quando ele se refere ao Roriz sem citar seu nome. É um jeito sofisticado de fazer poesia.” O trecho é este:

 

Daqui tô vendo luzes acesas

É Samambaia

Vários botecos abertos

Várias escolas vazias

Coisas inacreditáveis acontecem à luz do dia

Lá o vibrião da cólera seria epidemia

Reduto eleitoral bastante disputado

Hoje dominado por um infeliz

Cujo nome se rima não se diz

 

Walter Garcia definiu GOG como “um iluminista da periferia”. O rapper tem versos assim: “O raciocínio comanda meu punho”; “Atitude não é dedo no gatilho”; “Meu sonho um sorvete carregado em pleno sol”; “A verdadeira malandragem é viver”; “Ser preto é moda, concorda?/ Mas só no visual/ continua caso raro de ascensão social”; “Rap nacional é o terror que chegou”.

O rap começou a interessar Garcia em 1993, quando escutou Raio X Brasil, o terceiro disco dos Racionais. “Eu senti que ali tinha uma obra de arte, no mesmo nível de um disco do João Gilberto”, disse, citando um dos maiores sucessos do grupo, a música Fim de semana no parque.

A cantora Maria Rita ouviu falar de GOG quando gravava seu segundo CD. Foi Lenine quem lhe falou dele. “Quando ouvi Brasil com P, aquilo mexeu comigo demais”, disse ela. “Foi coisa de sentir raiva, de sentir lucidez, de sentir emoção. É uma obra-prima, uma coisa de gênio urbano.” Em 2007, GOG a convidou para participar do DVD ao vivo, gravado num teatro de Brasília. “A princípio, estranhei: por mais que ame rap, aquilo não era minha parada. Conversamos e sugeri que eu fizesse um vocalise mais sofrido, que coubesse dentro da narrativa dele e que tivesse mais a ver com o meu lance de intérprete. Ele topou ver como ficaria e, já na passagem de som, ficamos ambos arrepiados. O cara é inteligente, é articulado, é engajado, é preocupado.”

Maria Rita vê o rap como um “movimento urbano, contemporâneo, das massas oprimidas – e onde quer que seja, há opressão, há as minorias, há os Brasis com ‘P’. O nosso rap é retrato da nossa realidade, e, pelo que acompanho, não caiu na desgraça de ser diminutivo do sexo feminino, de esbanjar cifras, de fazer apologia à violência, como em algumas vertentes do rap americano. Eu acho que há muita consciência dentro do gênero no Brasil”.

GOG gastou 200 mil reais na produção do DVD Cartão Postal Bomba!. Além de Maria Rita, levou para um hotel de Brasília: Lenine, o cantor Paulo Diniz e o James Brown brasileiro, Gerson King Combo. Com 66 anos, Combo foi condecorado com a Ordem do Mérito Cultural pelo presidente Lula. GOG o aponta como uma de suas maiores influências musicais – e não esconde que defendeu a sua condecoração no Conselho Nacional de Política Cultural.

GOG explicou que Brasil com P surgiu da expressão made in Brazil. “Eu, moleque, me perguntava: por que com Z? Foi quando o KL Jay – e mais uma vez vem Racionais na minha vida – criou um selo e uma marca de roupa chamada 4P – Poder Para o Povo Preto. Mas tinha um O no meio. Então eu saí de duas indagações, o Brazil com Z e os quatro ‘Pês’ sem o O. Disse para mim mesmo: ‘Cara, eu vou fazer um Brasil não com S, mas com P.'”

E prosseguiu: “Depois que eu saquei, aí pronto. Quando a ideia louca surge, você não pode mais fugir dela. ‘Olha o tanto de escada que eu vou ter que subir’, pensei. Mas sabia que era uma grande obra, como construir uma ponte Rio-Niterói, e o nosso povo precisa.”

Ainda disse mais, mas chega. Na prática, escreveu um monte de palavras com “P”, fez um texto normal com a mensagem que queria passar, e foi substituindo todas as palavras por outras que começassem com P. “Aí você não perde a lógica, porque o texto já está ali”, contou.

 

No final do ano, a revista Rolling Stone publicou que Brown fechara um contrato de publicidade com a Nike. O rapper se justificou assim: “Não posso ser refém de nada, nem do rap. Vamos quebrar. Aquele Mano Brown virou sistema viciado.” Brown já havia dito, no programa Roda Viva, que passara a usar o tênis, mesmo já tendo xingado tanto a marca. “As contradições só acabam quando se morre”, argumentou. Resta discernir o que é responsa e o que é gogó, o que é real e o que é atitude.

GOG ainda não sabe direito como encarar os rappers iracundos que subitamente viraram garotos-propaganda das mercadorias que atacavam. Ele publicou uma carta de protesto, na internet, quando o rapper Emicida e a Nike assinaram um contrato que permitiu à empresa o lançamento de um tênis com a frase “A rua é nóiz”, da música Triunfo, de sua autoria. “A Nike não vira, o hip-hop tem que construir suas próprias alternativas”, disse GOG.

Mas quando a pergunta é sobre a mudança de Mano Brown, GOG embroma: “Ainda estou refletindo sobre as contribuições estruturais do MB, do seu surgimento. A repercussão é tão grande, profunda, que não gostaria de me concentrar nesse momento em mudanças, avanços, recentes.”

GOG diz que não usa drogas e bebe pouquíssimo. “Sou a favor da legalização do arroz com feijão”, repetiu algumas vezes. Nos oito dias da turnê, tomou quatro taças de vinho, duas antes e duas depois do show de Olinda. Ele e o DJ A foram de Maceió para Recife de ônibus. Ele mesmo comprara a passagem, na véspera.

O show de Olinda foi organizado pelas produtoras Iracema Abreu e Ilma Ferreira, que já o haviam levado em outra ocasião. A dupla já trabalhou com outras estrelas do rap, entre elas MV Bill. Deu trabalho encontrar, para Bill, uma camisinha tamanho GG, na alta madrugada. GOG, marido fiel até onde a vista alcança – “é, sim”, confirmou Rogéria –, não deu esse tipo de trabalho. Aceitou dar entrevista para uma rádio, não perdeu a calma quando a falta de luz provocou um atraso de três horas e ainda teve paciência para atender os fãs depois das três da madrugada, quando o show terminou.

No dia seguinte, às dez da manhã, estava ao volante de um carro alugado, que dirigiu até a capital da Paraíba. Havia outros motoristas no carro, mas GOG fez questão. Tirante uma ultrapassagem pela direita e uma invasão de sinal, dirigiu bem. Sua anfitriã e organizadora do show foi a rapper Kalyne Lima. Ela tem 28 anos, é casada, mãe, fez parte da dupla Afronordestinas e tenta carreira solo. Kalyne levou-o para um palco precário numa praça de João Pessoa – o lugar mais pobre em que se apresentou. O show começou às 23 horas, para 500 pessoas. Foi ali que ele tirou do bolso as mexericas banhadas pelo lençol freático da serra da Barriga. Tomou-as nas mãos, partiu-as, debulhou-as e deu os gomos aos fãs como se fossem hóstias. “É a mexerica do quilombo!”, proclamou. “É a nossa santa ceia com Zumbi dos Palmares!”

Luiz Maklouf Carvalho

Luiz Maklouf Carvalho, jornalista, é autor de "O Coronel Rompe o Silêncio", da Objetiva, e coautor de "Vultos da República", da Companhia das Letras.

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