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Som nas caixas

Uma orquestra de 52 alto-falantes
Cláudio Goldberg Rabin
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Em matéria de estética, Flo Menezes é intransigente: não vê séries de televisão e só ouve música erudita. Faz concessões apenas em algumas datas festivas. “Uma vez por ano, no Natal, com vinte pessoas em casa, quando tem peru no forno, escuto jazz.” Já os sons que o compositor paulistano costuma produzir não fazem nenhuma concessão. “Devem ser apreciados no teatro, em silêncio total”, recomenda.

Com óculos aro de tartaruga, paletó de veludo e cabelos bagunçados, Menezes lembra um dos intelectuais que povoam as comédias de Woody Allen. Numa tarde de outubro, ele se preparava para a estreia mundial da peça Fond d’Erreurs. A apresentação ocorreria à noite, durante a 11ª Bienal Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo, que iria oferecer dezessete concertos ao longo de doze dias.

Em vez de instrumentistas, uma orquestra de 52 alto-falantes executaria a obra do compositor. No teatro da Universidade Estadual Paulista, a Unesp, os aparelhos se distribuíam não somente pelo palco. Também havia oito caixas de som penduradas por cabos de aço nas laterais da plateia e outras quatro no meio dela. A disposição irregular dos alto-falantes permitiria às notas transitar pela sala de acordo com a trajetória definida por Menezes, mais ou menos como se os músicos de uma orquestra convencional se deslocassem pelo auditório enquanto tocam. “Vai parecer que alguns sons estão passando nas mãos do ouvinte”, descreveu o autor. Com a ajuda de um software que ele mesmo concebeu, o compositor é capaz de determinar se certa nota ecoará por cima do público, por baixo, pelos flancos ou pela frente.

 

Florivaldo Menezes Filho nasceu há 54 anos e, na juventude, encurtou o nome para se diferenciar do pai, um poeta concretista. Travou os primeiros contatos com os gêneros de vanguarda ainda criança, como castigo. “Se me comportava mal, meu pai dizia: ‘Olha que vou colocar a música da louca.’” Era Visage, peça de Luciano Berio que, à semelhança de outras criações eletroacústicas, lança mão de sons não propriamente musicais. Nela, uma mulher ri, grunhe, geme, gagueja e pronuncia palavras desconexas, sob um fundo sonoro caótico, que por vezes evoca o chiado de um rádio. Aos 5 anos, o pequeno Florivaldo escutava aquilo com um misto de curiosidade e medo.

Hoje, muitos o consideram o principal representante da música eletroacústica no Brasil. Menezes faz turnê pela Europa todos os anos e é professor visitante em Colônia, na Alemanha, onde estudou. Também leciona composição na Unesp. Foi lá que construiu o Studio panaroma, seu bunker de pesquisa. Situado no campus da Barra Funda, Zona Oeste de São Paulo, o laboratório custou 2 milhões de reais e exibe as condições ideais para a apreciação de peças como as que o compositor assina. “Não existe nada igual na América Latina. Eu o criei do zero.”

 

Quando o público da bienal chegou, Flo Menezes o aguardava na porta do teatro. Compareceram alunos novos e antigos, familiares e o homem que o anfitrião apontou como seu maior fã, o militar da reserva Nilton Costa. Ele circulava pelo auditório de boina e com protetores de ouvido. “Fui da artilharia. Tenho os tímpanos destruídos”, contou.

Fond d’Erreurs encerraria a programação da noite. Antes, outras três composições seriam executadas. Ao final de cada uma, os cerca de 150 espectadores só aplaudiam depois de esperar uns segundos, talvez para se certificar de que a estranha combinação sonora havia mesmo terminado.

No momento de se apresentar, Menezes aproximou-se do palco e tentou explicar o que a plateia iria escutar: “É uma camada de sons que me veio à cabeça como se fosse o próprio universo. Algo que nasce de uma indistinção e, após o Big Bang, se expande até sofrer uma contração, passível de nos tragar novamente para um fundo de errâncias.” O teatro escureceu por completo, tornando visíveis dezenas de pontos luminosos verdes, que denunciavam a localização dos alto-falantes. Quando a música estava prestes a começar, um refletor jogou uma luz vermelha suave sobre as caixas. O compositor andou até a mesa de mixagem instalada em meio à plateia, e um facho delicadamente amarelo o iluminou. Parecia que Menezes iria sacar uma batuta para conduzir a orquestra inanimada, mas limitou-se a pôr as mãos nos controles e apertar o play.

O início de Fond d’Erreurs revelou-se lento e calmo, com sons metálicos que oscilavam em volume e intensidade. À medida que avançava, a obra transmitia aos ouvintes a sensação de que uma bolinha de gude percorria um labirinto de metal em alta velocidade.

Após vinte minutos e 27 segundos, a peça acabou. As luzes acenderam e o autor se levantou para receber os aplausos. Humberto Braga, presidente da Fundação Nacional de Artes, a Funarte, acompanhou a performance logo depois de visitar o estúdio de Menezes e bateu palmas curtas. Indagado sobre o que achou do espetáculo, respondeu: “Foi bom…” Fez uma breve pausa e acrescentou: “É diferente, né?”

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