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Sopa quente

Noite fria na Cracolândia
Tiago Coelho
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IMAGEM: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Vagando pela rua, um homem sujo, sem dentes e com um cobertor sobre a cabeça começou a gritar: “Aquele desgraçado roubou o meu travesseiro!” Pouca gente ouviu. No fim da tarde do dia 2 de junho não havia quase ninguém circulando pela rua Helvétia, no Centro antigo da cidade de São Paulo. A via, antes uma das mais movimentadas da Cracolândia, agora era ocupada quase que exclusivamente por carros de polícia, estacionados nas esquinas.

Um dos poucos sinais de vida vinha de uma portinhola, por onde mal passava uma pessoa, aberta no meio de uma grade de metal arriada. Diante do prédio de dois andares, acenei para dentro do ambiente de pouca luz. Quem apareceu foi um homem branco, corpulento, com algumas tatuagens no braço e uma voz grave e imperativa. “Entra aí, mano”, convidou José Roberto Floriano, o Betão, de 43 anos.

Aquela prometia ser a sexta-feira mais fria do ano até então. Era um alívio estar ali dentro. Dos fundos do estabelecimento vinha um vapor quente e o cheiro de legumes cozidos. O que no passado fora um bar, agora era a sede do projeto social “Da Pedra para a Rocha, Jesus”, de uma ONG ligada à Bola de Neve Church, de Ribeirão Pires. O lugar era pequeno e estreito, com algumas poucas cadeiras de plástico e um tablado de madeira. Sobre ele, uma mesa em que uma prancha de surfe fazia as vezes de tampo – símbolo inequívoco dos templos da congregação fundada em São Paulo há quase vinte anos por um pastor empresário do mercado de surfwear.

Logo atrás do altar ficava o depósito de roupas e alimentos doados por fiéis da Bola de Neve e, mais ao fundo, uma cozinha equipada com um fogão industrial. Três panelas de 20 litros ferviam cheias de sopa, naquele momento. Quem as operava era Francisco Neto, um mulato magro e baixo de 30 anos. Da cozinha se tinha acesso a um banheiro precário, onde alguém havia escrito com batom, no espelho, que “Jesus te ama”.

“É aqui que a gente recebe há dois anos o povo todo da Cracolândia”, explicou Betão.

Um carro buzinou do lado de fora. Quem chegava era Rony Cardoso, 22 anos, olhos verdes, algumas espinhas no rosto. Trazia no bagageiro quilos de alimentos. Descarregou-os com rapidez, levando tudo para dentro da igrejinha.

Por volta das sete da noite, a temperatura havia caído ainda mais lá fora. Um homem negro pôs a cabeça na portinhola, os olhos vidrados e a boca sem dentes: “Glória a Deus, irmãos!”, saudou. Betão, Cardoso e Neto retribuíram o aceno. Os três são voluntários do projeto que oferece apoio a dependentes químicos e famílias pobres que moram em prédios abandonados na região.

Sentado numa cadeira de plástico, Betão contou que foi na cadeia de Pinheiros que se converteu ao evangelho. Aconteceu quando notou o olhar de decepção no rosto da mulher e do filho, num dia de visitas. A família tinha ido vê-lo na prisão, e ele os recebeu “louco de cocaína”, disse. Após o relato, se levantou, botou a cabeça para fora da portinhola, esfregou as mãos e rogou: “Senhor, segura esse frio, senão ninguém aparece hoje.”

 

Minutos depois, uma mulher surgiu no contorno da portinhola. Um xale marrom lhe cobria a cabeça. Trazia pela mão uma menina pequena, com os cabelos castanhos cacheados. Não devia ter mais de 6 anos e estava bem agasalhada. “Vai ter culto hoje?”, perguntou a mulher, aflita ao notar o templo vazio. Betão respondeu que a cerimônia começaria dali a duas horas. A mulher lamentou, ficaria tarde para voltar para o abrigo em que dormia com a filha, no bairro do Pari. Ele insistiu para que ficassem. Depois dariam um jeito, garantiu.

Mãe e filha entraram e se sentaram na última fila de cadeiras. A mulher tinha os olhos inchados e avermelhados. Ela abaixou o rosto, como se estivesse cansada, apoiando-o no encosto da cadeira da frente. A menina de certa forma repetiu o gesto, aninhando a cabeça junto da mãe – e assim permaneceram as duas, por um longo tempo. A mulher reclamava de uma forte dor de cabeça. Rony Cardoso foi até uma caixinha de papelão, tirou um analgésico lá de dentro e o trouxe com um copo d’água. A mulher agradeceu.

Dois rapazes negros também tinham vindo participar do culto. Um vestia bermuda e camiseta; o outro, calça jeans e uma camisa surrada. Lá fora podia-se ouvir o ronco de um motor: às vezes parecia bem próximo, às vezes mais distante. “Está saindo a última Kombi da prefeitura para os abrigos”, informou o que vestia bermuda. “Não vai dar para ouvir a palavra hoje”, lamentou. O de calça jeans disse então que ficaria ali, de todo jeito, mesmo correndo o risco de ter que dormir na rua. “Olha o frio que tá, tio. Cê é louco?”, alertou o colega. Os dois rapazes se olharam pensativos, hesitantes. “Firmão! Cola aqui sempre que quiserem”, tranquilizou-os Betão, entregando um casaco e um edredom para cada um. Saíram satisfeitos. A roupa de cama dos abrigos, eles disseram, não costuma cheirar muito bem.

Fazia poucos dias que a prefeitura e o governo do estado haviam empreendido a ação que, mobilizando 900 policiais, buscara expulsar usuários e traficantes daquela região da cidade. O fluxo, como é conhecido o intenso movimento de compra e venda de drogas, porém, não se desfez: apenas migrou para a praça Princesa Isabel, a algumas dezenas de metros da rua Helvétia.

Desde os anos 90, quem se reúne naquela região da cidade busca alguma segurança para poder vender, comprar e consumir droga. Se permanecem nas periferias da cidade, os usuários são estigmatizados e acabam sendo, muitas vezes, alvo de grupos de extermínio.

Neto, que naquele momento cuidava da sopa, era um adolescente da Zona Norte da cidade quando começou a usar cocaína e maconha. Foi parar na Cracolândia, e ali passou a vender crack para comprar pó. Vivia nos hotéis da redondeza, onde o pernoite pode custar cerca de 10 reais. Só resolveu pedir ajuda e tentar mudar de vida no dia em que acordou com um rato sobre o peito. “Vim até essa igreja, e eles me acolheram. Estou limpo faz tempo”, contou.

Vez ou outra entrava uma lufada de ar frio pela portinhola. Cardoso se aproximou da mulher do xale marrom e perguntou se já se sentia melhor. Ela balançou a cabeça positivamente. Depois conseguiu até fazer graça. “Se na hora do culto vocês precisarem de uma cantora, tem uma aqui”, disse, apontando para a filha.

Mais gente ia chegando. Quem entrava trazia o corpo encolhido de frio. Uma família com duas meninas pequenas, depois um senhor negro que usava luvas e uma mulher de meia-idade com traços orientais.

Às nove em ponto começou a celebração. Rony Cardoso foi o primeiro a falar: “Essa obra não é nossa. É de Deus. Quem entrar aqui essa noite, que possa sair diferente, renovado. E que o Espírito Santo aja sobre nós.” As luzes diminuíram. Um grupo musical atacou os primeiros acordes.

No meio da liturgia, um jovem de cabelos cacheados e desgrenhados, as roupas rotas, entrou na igreja, percorreu toda a extensão da plateia e se dirigiu ao banheiro nos fundos. Mancava da perna direita e parecia desorientado. Dez minutos depois, saiu com os cachos molhados, vestindo roupas limpas e cheirando a sabonete. Sentou-se ao lado de um jovem negro de bermuda e camiseta, que segurava, firme, uma Bíblia nas mãos.

“Dê um boa-noite ao irmão ao seu lado e diga que o ama”, exortou um rapaz gorducho, também da igreja, que havia assumido o microfone. O garoto de cabelos cacheados de banho recém-tomado atendeu imediatamente ao pedido, abraçando e beijando o rosto do rapaz negro, que continuava atracado à Bíblia.

Na hora das oferendas, Rony Cardoso levantou um baldinho colorido diante dos fiéis. Explicou que a arrecadação serviria para pagar a gasolina e cobrir outros custos do transporte de usuários de drogas para as clínicas de reabilitação. O rapaz de cabelos cacheados vasculhou a mochila e tirou lá de dentro uma nota de 2 reais amassada.

A pequena banda no altarzinho improvisado perseverava, embalando um louvor atrás do outro. Rony Cardoso foi até a menina de cachinhos e a conduziu, pela mão, até o altar. A criança pegou o microfone e soltou sua vozinha aguda: “O vento balançou meu barco em alto-mar,/o medo me cercou e quis me afogar./Mas então eu clamei ao Filho de Davi,/ele me escutou, por isso estou aqui.” Entre um verso e outro, olhava para a mãe, que por sua vez a encorajava sorrindo e com jeito de quem ia chorar de emoção.

Quando o culto terminou, às dez e meia, os voluntários começaram a servir a sopa em canecas de plástico. Algumas famílias também receberam cestas básicas, roupas e ursinhos de pelúcia para as crianças. O jovem de cabelos cacheados ganhou um casaco de lã azul.

Neto ajudava a distribuir o caldo espesso e fumegante. Todos tomaram mais de uma porção. Depois que os fiéis haviam jantado, os voluntários da igreja conseguiram acomodar mãe e filha num hotel vizinho.

 

Antes da operação da polícia no final de maio, o pessoal da Bola de Neve costumava distribuir a sopa também na calçada diante do pequeno templo, mesmo para quem não tivesse participado do culto. Desde então mudaram de estratégia. Entenderam que corriam o risco de provocar a polícia se atraíssem usuários até a rua de onde tinham sido expulsos. Os panelões passaram então a ser levados até a praça Princesa Isabel, não muito longe dali.

O gesto foi repetido naquela noite, por volta das onze e meia. Os fiéis da igreja acomodaram as panelas em bancos de concreto, às margens do “fluxo” de dependentes que se concentrava no meio da praça. O aroma da sopa se misturava ao cheiro da fumaça dos cachimbos. Mas o odor que predominava, intenso, era mesmo o de fezes. Os jardins nas laterais do largo serviam de banheiro para quem o frequentava, e o cheiro que vinha de lá fazia arder as narinas. A neblina do início da madrugada se confundia com a fumaça dos cigarros e cachimbos, formando uma espécie de nuvem estática na altura das copas das árvores.

Centenas de pessoas se aglomeravam na “nova” Cracolândia. Um velho com os dois braços amputados precisou que levassem o cachimbo até sua boca. Um homem que tinha feridas pelo corpo procurava alucinado pela pedra da droga que havia tentado guardar num dos buracos do calçamento precário. Uma mulher de cabelos pretos longos e o rosto com cicatrizes abriu, na minha frente, o casaco que a cobria, exibindo os seios. “Sou mãe de um garoto de 19 anos. Há quinze ninguém toca meu corpo. Me diz se eu não estou inteira? Olha pro meu peito. Eu não sou bonita?” Um voluntário da Bola de Neve pediu para que ela fechasse o casaco. Contrariada, pegou uma porção de sopa e desapareceu na multidão.

O grupo da igreja Bola de Neve formou uma roda de música. Alguns usuários pediam canções. Vários cantavam. Outros pediam abraços aos voluntários da igreja. Não pediam, na verdade: aproximavam-se já de braços abertos, quase impondo o gesto de afeto. Os evangélicos nunca recusavam o contato.

Agachada aos pés de uma árvore, uma jovem branca de cabelos castanhos bem cuidados cheirava cocaína. Vestia um sobretudo que aparentava ser novo, botas pretas de cano alto e um lenço do Mickey Mouse amarrado ao pescoço. Havia outros dependentes que davam a impressão de pertencer à classe média. Um garoto louro de casaco da Nike passeava ao lado de uma menina de franjinha, vestida com uma jaqueta de couro preta e calça jeans. Depois de um tempo os dois tomaram um táxi na avenida Rio Branco e foram embora.

Pouco antes da uma da manhã, os panelões foram recolhidos.

Um homem negro alto, cabelo black power, se aproximou da roda de música quando a cantoria já ia acabando. “Então, vamos com a gente para a clínica?”, perguntou Betão para o recém-chegado. Os dois pareciam se conhecer. O homem comprido hesitou, depois olhou para o chão. “Agora não estou pronto”, disse. “Deixa para a próxima”, acrescentou, acanhado. Os voluntários estenderam as mãos para quem estava ao redor, despedindo-se, fizeram a última oração do dia e começaram a tomar o caminho de volta para a igreja. Quando olharam para trás, o negro alto os seguia. Betão e os demais acharam, por um instante, que ele tinha mudado de ideia, mas o rapaz só queria um cobertor novo. Ganhou.

Dias depois, o poder público expulsou os ocupantes da praça Princesa Isabel.

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