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Sr. H vai ao Havaí

A mascote da primatóloga
Bernardo Esteves
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Jane Goodall anunciou que começaria com a saudação costumeira. Arregalou os olhos, fez um bico e pôs-se a imitar o grito dos chimpanzés selvagens. “Assim eles devem prestar atenção”, ironizou a senhora de 82 anos e longos cabelos brancos, com os óculos escuros apoiados no alto da cabeça. Não havia nenhum macaco por lá, mas a britânica logo conquistou o foco do público que se amontoava para vê-la em Honolulu, no Havaí, durante um congresso sobre conservação da natureza.

Pioneira no estudo dos chimpanzés em seu hábitat natural, Goodall conhece como ninguém os nossos parentes mais próximos. Conviveu por décadas com um grupo deles na floresta de Gombe Stream, às margens do lago Tanganica, na Tanzânia, hoje um parque nacional. Foi aceita pelos animais e fez observações que mudaram a forma como vemos esses primatas – e a nós próprios –, antes de se transformar numa estrela global do ambientalismo.

Ela não se dedica mais à pesquisa de campo, mas passa 300 dias por ano viajando para promover as atividades do instituto que leva seu nome. Aonde vai, carrega o Sr. H, um macaco de pelúcia cinzento que segura uma banana. Ganhou o boneco de aniversário há vinte anos. Em Honolulu, a mascote sentou de frente para os espectadores e a alguns metros do púlpito feito de cartão reciclado, atrás do qual estava a dona.

O Sr. H ainda não existia quando, em 1960, Goodall visitou pela primeira vez a floresta de Gombe Stream. Aos 26 anos, ela não tinha experiência de campo nem formação científica. Observando alguns chimpanzés, notou que cada um possuía uma personalidade única. Por isso, resolveu lhes dar nomes – como Flô, Golias e Paixão –, diferentemente do que faziam outros adeptos da primatologia, disciplina que começava a se consolidar.

À vontade na presença da jovem pesquisadora, Davi Barba Cinza foi o primeiro que ela flagrou usando um ramo de planta como vara para pescar cupins num buraco. “Naquela época, se considerava que apenas os humanos pudessem criar ferramentas”, relembrou a primatóloga em Honolulu. “Era o que definia a nossa espécie.”

Goodall só entrou na universidade após o trabalho de campo. Pulou a graduação e seguiu direto para o doutorado em Cambridge. “Os professores disseram que eu fizera tudo errado”, contou à plateia. A britânica devia ter atribuído números aos macacos em vez de nomes e não devia ter lhes associado emoções e personalidades, características que se acreditava serem exclusivas dos humanos. Mas Goodall está convicta de que agiu da maneira correta. “Quem tem qualquer bicho sabe que os professores estavam errados. Vocês não sabem?”, perguntou ao público. “Aprendi isso na infância, com meu cachorro Ferrugem.”

 

O telão atrás da cientista exibia imagens aéreas de Gombe Stream produzidas pela Nasa, a agência espacial dos Estados Unidos, com a qual o Instituto Jane Goodall colabora há três anos. A britânica fez questão de enfatizar um aspecto paradoxal: a parceria permite lançar mão de uma tecnologia muitíssimo sofisticada para estudar os chimpanzés, que confeccionam ferramentas bem rudimentares. “Essa justaposição é fascinante.”

Em seguida, Goodall chamou ao palco o pesquisador do instituto responsável pela associação com a Nasa: Lilian Pintea, um americano de 45 anos, nascido na Moldávia, que se especializou no uso do sensoriamento remoto para proteger o meio ambiente. Sob aplausos, ela deixou o púlpito e sentou no chão, diante do Sr. H.

As imagens de satélite mostravam recantos inacessíveis da floresta onde vivem os chimpanzés. Pintea disse que as cenas ajudaram a compreender como a alimentação e os costumes dos macacos estavam sendo afetados pela pressão cada vez maior sobre seu hábitat. No telão, uma animação passou a retratar a evolução da paisagem num vilarejo à beira do lago Tanganica, entre 2005 e 2014. Ali, com base nas imagens de satélite e informações colhidas in loco, os moradores redefiniram o modo de usar a terra. O resultado não poderia ser mais palpável: as áreas com erosão diminuíram e a cobertura vegetal aumentou. “Incrível, não?”, comentou Pintea. Apenas o Sr. H não aplaudiu.

 

A palavra “esperança” aparece no título dos três últimos livros que Jane Goodall lançou. Nas conferências que dá pelo mundo, costuma enumerar as razões de seu otimismo. De uns anos para cá, vem incluindo na lista as redes sociais. “Usadas do jeito certo, podem unir milhões de pessoas em torno de uma mesma causa”, afirmou para jornalistas no dia seguinte à palestra. “Nos velhos tempos, precisávamos telefonar, escrever cartas. Agora as mudanças tendem a acontecer muito mais rápido.”

Com o Sr. H no colo e um colar havaiano no pescoço, a britânica aproveitou a presença da imprensa internacional para narrar a história da mascote. O macaco de pelúcia foi batizado em homenagem a Gary Haun, ex-oficial da Marinha americana que perdeu a visão num acidente de helicóptero. Quando o ofereceu à pesquisadora, o militar acreditava se tratar de um chimpanzé. “Fiz com que ele pegasse no rabo do bichinho para perceber que não era”, contou Goodall. O boneco acabou se tornando seu companheiro de viagem para lembrá-la sempre de Haun, que depois do acidente praticou esportes radicais e virou mágico – as crianças só descobrem que ele é cego ao fim dos shows. “O Sr. H conhece 62 países e deve ter sido tocado por uns 4 milhões de pessoas.”

Assim que a palestra terminou, o público fez fila para tirar selfies com a cientista ou simplesmente vê-la mais de perto. Naquela tarde, o Sr. H passou pela mão de outras duas ou três dezenas de admiradores

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