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Tio Paulo na web

A obra de Maluf na era da reprodutibilidade técnica

Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

No último dia 15 de março, os fãs do deputado federal Paulo Salim Maluf foram agraciados com mais uma frase de sua vetusta lavra. “Não só não estou na Lava Jato e na lista do Janot”, dizia o parlamentar, em seu perfil no Facebook, “como não estou no mensalão.” Era verdade. Mas proferida assim, do nada, pelo único político brasileiro a constar na lista de procurados da Interpol, a declaração ganhava um tom inevitável de chacota. Espalhou-se pela internet com a velocidade de um carro esportivo a cruzar a rodovia Ayrton Senna (que, aliás, foi Maluf quem fez).

O deputado de 85 anos já despontara outras vezes como um fenômeno das redes sociais. Em agosto passado, causara frisson ao postar, também no Facebook, um apanhado de fotos suas devorando pastel, coxinha e churrasquinho de gato. “Enquanto tem políticos que comem a contragosto nas campanhas, eu em todas as campanhas sempre fiz tudo com prazer e muito gosto”, escreveu, em referência a uma imagem do então prefeiturável João Doria se esforçando para engolir um café pingado. Compartilhado à exaustão, o post chegou a 2 milhões de visualizações. Nos comentários, um homem lamentou que Maluf não concorresse mais à prefeitura paulistana. Outro o convidou para almoçar comida árabe em sua casa. Um terceiro avisou que tomaria uma cerveja com os amigos no dia em que o político completasse mais um aniversário. Em meio à cacofonia de elogios, uma jovem tratou de lembrar o trabalho de um sujeito algo oculto naquela história. “Quem faz mídia social pro Maluf sempre tem essas tiradas! Adoro! Parabéns!” Ela se referia, sem saber, ao trabalho de Alberto Haddad.

 

Haddad é um empresário gordo e alto que aparenta ter menos do que seus 30 anos. Conheceu Maluf – a quem só chama de Tio Paulo – por ligações familiares. “Minha bisavó era prima do pai dele.” Como frequenta a casa do deputado desde que se entende por gente, tomou gosto, ainda pequeno, por comícios e carreatas. “Eu pedia a ele para distribuir santinho, camiseta e boné na escola”, recordou. O malufismo precoce rendeu-lhe aprendizados (“Tio Paulo me ensinou o que é democracia”), tristezas (“Quando foi preso, fiquei emocionalmente abalado”) e inimizades (“Dei um murro num menino que falou mal dele”). O parlamentar também se revelou importante na luta de Haddad contra o sobrepeso. “Ele insistiu muito para que eu emagrecesse. No início, não gostei. Mas, depois, entendi que falava de forma carinhosa, como um pai que dá conselho ao filho.” Perdeu 20 quilos. “Agora preciso emagrecer outros 30.”

O empresário mora com os pais e o irmão num apartamento em Higienópolis, bairro rico de São Paulo. Na sala, em cima de uma mesa, há um porta-retratos com três fotos de Maluf, além de uma caixinha dourada, em formato de coração, que guarda um pequeno rosário. “É uma recordação das bodas de ouro do Tio Paulo”, explicou. “Eu costumo ir a todos os casamentos da família e aniversários dos netos.” Para atestar a intimidade, mostrou seu perfil no Instagram, em que publicou uma foto sua, bebê, no colo de Maluf.

Haddad ainda cursava a universidade, em 2009, quando teve a ideia de criar contas virtuais para o político. Primeiro, abriu uma no Twitter. Dois anos depois, aderiu ao Facebook. O Instagram veio durante a última campanha legislativa, em 2014. “O pessoal pedia muita foto do Tio Paulo.” A partir de então, o parlamentar pôde disseminar sua lábia por terra, céu e mar. Se o assunto eram as ciclofaixas instaladas pelo prefeito petista Fernando Haddad, Maluf fazia questão de contar que ele mesmo implantara uma ciclovia duas décadas atrás. Se o tema era a aterrissagem do maior avião do mundo em São Paulo, lembrava que nada daquilo ocorreria se ele não houvesse construído o aeroporto de Guarulhos. No Dia Internacional da Mulher, postou uma foto ao lado da esposa, Sylvia. No Dia das Crianças, presenteou o público com um nude de corpo inteiro, aos 7 meses de idade. E no dia em que lhe pediram uma selfie, publicou uma, não sem antes descrevê-la com um pleonasmo genial: “Selfie que Maluf que fez.”

Todas as postagens tiveram o dedo de Haddad, inclusive a de maior sucesso, publicada em agosto de 2014. A moda na internet, naquele mês, era o “desafio do balde de gelo” – uma campanha nonsense em que as pessoas se submetiam a um banho-relâmpago de água com gelo a fim de chamar a atenção para uma doença degenerativa. “Fiquei sabendo da grande e importante campanha em razão da esclerose lateral amiotrófica”, escreveu Maluf, no Facebook. “Participarei de uma forma diferente, mas espero que ajude na divulgação dessa campanha. Posto uma foto minha em uma piscina com água bem fria.” A imagem atingiu 5 milhões de visualizações. “Ele estava resfriado”, esclareceu Haddad. “Eu não ia pedir que jogasse gelo em si mesmo.”

 

Apesar do sucesso nas redes, Maluf não tem tempo de usar a internet. “Vou lhe ser sincero”, disse, numa conversa recente na sala de sua casa, em São Paulo. “O Albertinho é mais malufista que meus filhos. Ele me liga de manhã, eu dou os palpites, ele vai em frente. Acompanho de longe, dez minutos por dia. Ele tem toda a liberdade até quebrar a cara.” O trabalho é voluntário. “Dinheiro não move os malufistas”, sentenciou o deputado. Sócio numa importadora de canetas-tinteiro, Haddad dá uma explicação, digamos, mais técnica: “É como se eu estivesse ajudando meu pai a usar o celular.”

Assim foi em 15 de março, quando Maluf fez questão de entrar nas redes sociais para reiterar sua idoneidade. “Ele escreveu a frase no Facebook, mas se esqueceu de publicar”, contou Haddad. “Eu só precisei apertar o enter.” Assim, às 9h13 daquela quarta-feira, os milhares de seguidores do deputado puderam ser lembrados de que ele não estava nas listas do procurador-geral da República, Rodrigo Janot, nem nas investigações do mensalão e da Lava Jato. “E a frase é incompleta”, enfatizou Haddad. “Porque ele também não está no Panama Papers.” Em minutos, pipocaram comentários de entusiasmo: “Orgulho do senhor!”, “Não teve governador melhor em São Paulo!”, “Maluf para a presidência da Mooca!” E também de sarcasmo: “Já não se respeita mais nada, deputado! Como pode um esquema desse tamanho e o senhor de fora? […] Força, deputado!” Por coincidência ou não, no dia seguinte o ministro Edson Fachin, do stf, deu andamento a um processo que corria no tribunal desde 2006 (é um dos três, no Supremo, contra o parlamentar).

Republicano que é, Maluf zelou para que elogios e ataques permanecessem na página. “Eu era favorável a apagar comentários grosseiros”, confessou Haddad. “Mas o Tio Paulo diz que é para manter.” Entre mortos e feridos, o empresário acredita que seu trabalho no mundo virtual há de deixar um legado: “Daqui a cinquenta, sessenta anos, vou falar para meus netos: ‘Tá vendo o Tio Paulo? Ele foi para São Paulo o que JK foi para o Brasil. E eu não me omiti em ajudá-lo.’”

Roberto Kaz

Roberto Kaz, repórter da piauí, é autor do Livro dos Bichos, pela Companhia das Letras

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