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Tiro e traço

Pele mais clara? Nariz mais delgado? Alguma pinta?
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

O inspetor Raimundo Ferreira trabalha na Core (Coordenadoria de Recursos Especiais), um grupo (dito) de elite da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Aos 47 anos, ele já foi carcereiro e levou tiros. Hoje, só anda à paisana. Numa sexta-feira recente, por volta do meio-dia, Ferreira chegou à delegacia no seu Fusca 68 vermelho e, no estacionamento, lançou um olhar de indiferença para um camburão blindado. Também ignorou o latido dos cães farejadores.

Ao chegar ao gabinete, cumprimentou outro inspetor igualmente à paisana, esparramado em uma poltrona diante da escrivaninha. Alfredo Milagres, de 49 anos, estava desarmado. Sem pressa, enfiou a mão numa gaveta. Ali, guardado a sete chaves, estava o seu arsenal. “Prefiro Faber-Castell”, adianta. A mão reapareceu, munida de um estojo escolar. Milagres o abriu com cuidado. Sacou alguns lápis HB e 2B, “para delinear a boca”; outros, 4B e 6B, “para o sombreado”. A lapiseira de mina 0,9 milímetros estava ali “mais para fazer charme”. A borracha e o corretor líquido, para remediar o trabalho malfeito. As canetas Bic verde e preta, para dar o toque final, a assinatura.

Raimundo Ferreira e Alfredo Milagres trocaram a pistola pelo pincel. Há mais de dez anos, dedicam-se a retratar foragidos da polícia. As estrelas do quem-é-quem de Ferreira e Milagres são, na maioria, homens de cabelo curto e crespo. Vez por outra, podem se dar ao luxo de trazer um boné. Bigodes são raros; barbas, nem tanto. A imagem é sempre um portrait do pescoço para cima. Pouco importa se os dentes são brancos, amarelados ou inexistentes. A boca está sempre fechada. Retrato falado não ri.

A criação se processa em três etapas. Na primeira, o policial faz uma entrevista para levantar os dados básicos do criminoso – idade aproximada (em geral, entre 20 e 40 anos), altura, cor do cabelo, dos olhos e da pele – e passa em seguida a investigar detalhes como formato do rosto, do queixo, da sobrancelha, dos lábios, da orelha, do nariz e das bochechas. Marcas de nascença são bem-vindas, assim como olheiras, cicatrizes e verrugas.

Com os dados anotados na ficha, o retratista começa a montar a imagem no computador. É a segunda etapa. Usando um programa chamado Faces (o mesmo do FBI), que armazena mais de 4 mil características fisionômicas, ele pega um nariz aqui, uma testa acolá, uma boca adiante, numa espécie de quebra-cabeça da bandidagem. A vítima e/ou testemunha fica do lado, dando sugestões e aferindo a precisão da montagem.

Depois que o retrato é impresso, entra o talento do artista-policial. A imagem precisa ser retocada manualmente – é o terceiro passo – para ganhar expressividade. “O computador não é nada sem o homem, o retrato não é nada sem o artista”, ensina Ferreira. O processo todo dura cerca de uma hora. Pronto o desenho, ele é devolvido ao computador e fica disponível na rede das delegacias. De janeiro até o fim de junho, 400 retratos haviam sido confeccionados. A Polícia Civil (como era de se esperar) não tem o controle de quantos se converteram em detenção.

Há pelo menos dois desenhistas em serviço. A equipe completa, de oito retratistas, passou por provas de tiro e traço. Pegam no pincel três vezes por semana e ganham até 2 000 reais por mês. Atendem de cinco a dez pessoas por turno.

No tempo que sobra entre as ocorrências, Ferreira e Milagres se dedicam a aprimorar a técnica. Milagres, seguidor da escola realista, estudou três anos num curso técnico de desenho no centro do Rio. Sua obra, cujo suporte é papel A4, inclui um índio americano, zebras na savana, Santos Dumont diante do 14-Bis, um auto-retrato e o desenho de Viviane Araújo, a ex do pagodeiro Belo (preso há três anos por tráfico de drogas). Há também uma série completa inspirada no seriado mexicano Chaves. Por fim, Milagres mostra, com orgulho, dois desenhos mais elaborados. O primeiro é uma cópia da famosa imagem do holandês M. C. Escher na qual uma mão desenha a outra. A segunda criação é dele mesmo: um macaco usa o próprio rabo para surrar o traseiro de outro.

Ferreira é um homem de traços e temas mais simples. “Sou ligado em mecânica”, confessa. Sua produção artística se resume a veículos: BMW, Variant, Rolls-Royce, rabo-de-peixe, motoca, conversível e um fusca com canos de descarga que jorram fogo.

 

São 3 e meia da tarde. Duas vítimas de assalto esperam do lado de fora. Na sala, o inspetor Ferreira atende uma moça chamada Juliana, que viu o namorado ser baleado num posto de gasolina. “Vamos lá, Juliana, você tem condição de descrever o criminoso?” Insegura, ela confirma. Ferreira tenta explicar à testemunha o que se espera dela: “O retrato do meliante sai sempre de frente, de boca fechada. O olhar é a parte mais importante, representa 70% da figura. A cor eu coloco na arte-final”. A moça está nervosa – sua lembrança é vaga, o crime aconteceu há mais de um ano. Ferreira tenta acalmá-la: “A única interessada aqui é você. Fecha os olhos e tenta lembrar da cena”. Ela fecha. Na mesa ao lado, Milagres aperfeiçoa outro retrato. Ferreira se interessa pelo desenho do colega: “É estupro?”. Milagres concorda com a cabeça. “Empresta a borracha?”

Uma hora depois, o retrato feito por Raimundo Ferreira está pronto. “Esse é o homem”, ele afirma. Com a Bic, assina a imagem: ‘R. Ferreira 268670-7’ (seu número funcional na polícia). A moça parte, meio cética quanto à fidedignidade da obra. Ferreira reclama: “O guarda que prende bandido é promovido, o esquadrão antibombas ganha menção honrosa na Assembléia. Já o nosso grupo, que contribui para o trabalho de todo mundo, nunca recebeu elogio”. Ele abre a gaveta para mostrar uma de suas criações mais recentes: uma variação sobre o símbolo da Coordenadoria de Recursos Especiais. Na insígnia original, uma caveira é empalada por dois fuzis na diagonal e uma faca na vertical. No desenho de Ferreira, a caveira continua a mesma, mas as armas são substituídas por um lápis, uma caneta e um pincel. “Muita gente ignora que o policial tem um lado artístico, um dom.”

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