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Torcendo pelo Zimbábue

Um jogo da Copa Africana
Gisele Lobato
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Ben Breekveldt, um holandês de 22 anos, e Manuel Siegel, alemão de 26, se conheceram no início deste ano diante de uma tela de tevê, em Harare, capital do Zimbábue. Mochileiros em aventura pela África, por acaso se hospedaram no mesmo albergue – Breekveldt chegara ao país vindo da Zâmbia; Siegel, de Moçambique – e todas as noites acompanhavam, no bar da recepção, a transmissão de algum jogo de futebol europeu. Uma vez constatado o interesse em comum, pareceu natural aos dois sujeitos compridos, de pele e cabelos claros, a aventura de se misturarem à torcida do Zimbábue numa partida local. Dias depois, embarcavam num táxi que os levaria ao portentoso Estádio Nacional de Harare, com capacidade para 60 mil espectadores, onde a equipe da casa enfrentaria a seleção da Suazilândia em jogo pelas eliminatórias da Copa Africana de Nações 2017.

No torneio classificatório, a Suazilândia, que nunca conseguiu participar da principal competição de futebol do continente, era a zebra do Grupo L, do qual também faziam parte Guiné e Maláui. Com cinco pontos, dividia a primeira colocação com a equipe anfitriã, já há dez anos sem conseguir vaga para a Copa Africana. Era, portanto, um jogo importante.

Breekveldt e Siegel desembarcaram no palco do confronto três horas antes do início da partida. Os torcedores ainda não haviam chegado, mas uma pequena multidão já se aglomerava perto da entrada, balançando notas de dinheiro por entre as grades na direção dos fiscais, na expectativa de obter licenças – concedidas ali mesmo, antes da disputa – para fazerem o seu comércio nas arquibancadas. Um dos ambulantes vendia bandeiras do Zimbábue. Breekveldt quis uma, a fim de demonstrar, comme il faut, seu apoio à seleção local. O gesto atraiu a simpatia dos torcedores que começavam a chegar. Muitos pediam para tirar fotos com a dupla – até um bebê os visitantes tiveram que segurar nos braços, enquanto posavam para os cliques. Promovidos a celebridades, cruzaram a roleta confiantes, empunhando o estandarte local.

Lá dentro não havia cadeiras numeradas, apenas arquibancadas de cimento. O público era predominantemente familiar. Mulheres de vestidos estampados e crianças com trancinhas se espalhavam por toda parte. Mas um setor, animado, barulhento, destoava. Atraídos pela batucada, foi para lá que se dirigiram os europeus. Um dos torcedores vestia uma segunda pele com estampas de leopardo. Outro, um uniforme completo de Fórmula 1, com direito a capacete, nas cores da bandeira zimbabuana. Quando as cabeças loiras despontaram na “desorganizada”, a torcida celebrou como se fosse um gol: cornetas tocaram, bandeiras se agitaram e, em poucos segundos, os forasteiros já eram puxados pelas mãos e instalados no meio da multidão. Não apenas eram os únicos brancos por ali como, muito provavelmente, os únicos não zimbabuanos, já que não havia nem sinal da torcida da Suazilândia.

 

Breekveldt e Siegel sentaram-se numa espécie de fronteira imaginária entre o pessoal da algazarra, nos degraus de cima, e um pequeno grupo que parecia disposto a acompanhar o jogo, mais próximo ao gramado. Logo ao lado dos europeus, uma outra dupla: dois torcedores zimbabuanos aparentemente preocupados com o conteúdo de uma garrafa plástica, à qual um deles se abraçava. O que vestia um chapéu listrado, estilo seu Madruga, vibrou de braços erguidos e olhos vermelhos de pileque quando as duas seleções entraram em campo para o aquecimento.

Não demorou muito e a bola começou a rolar. Bastava um jogador de amarelo esboçar um avanço para a torcida responder com entusiasmo. Palmas. Trenzinho. A festa alimentava-se da própria festa, fato perfeitamente justificável diante do marasmo do primeiro tempo, com os dois times disputando para ver quem perdia a bola mais rápido. No intervalo, o homem com chapéu de seu Madruga levantou-se de repente, com a intenção de dar uma volta. Suas pernas, no entanto, falharam, levando-o de volta à posição original, de onde não saiu mais. Quando a partida recomeçou, já dormia profundamente, com o queixo afundado no peito. Não acordou nem quando o amigo ao lado roubou seu chapéu para celebrar o primeiro gol do Zimbábue, marcado aos sete minutos do segundo tempo, de pênalti – mas se manteve vigilante o suficiente para impedir que a garrafa que segurava tivesse o mesmo destino.

O gol que abriu o placar injetou ânimo nos donos da casa. Era uma nova equipe. Foram necessários apenas mais sete minutos para que o Zimbábue voltasse a balançar a rede. A torcida foi ao delírio – exceto o seu Madruga, que roncava sem pudor. Nas arquibancadas, homens dançavam balançando os cotovelos dobrados. Uma ola começou a circundar o estádio. Quando a coreografia estava chegando perto, o novo proprietário do chapéu deu um tapa nas costas do colega, que dormia. Em vão.

O Zimbábue ainda alcançou a meta mais duas vezes, fechando a goleada em 4 a 0. O juiz determinou o fim da partida, e foi então que o alambrado a separar a torcida do campo demonstrou que estava ali exercendo uma nobre função decorativo-psicológica, já que podia ser facilmente ultrapassado – como de fato foi. No campo, homens corriam, dançavam e batiam bola. Houve até quem achasse por bem, na empolgação, começar a se despir. Breekveldt e Siegel ensaiaram um gesto de ousadia, aproximando-se da grade com a intenção de aderir à festa no gramado, mas ficaram intimidados com os policiais que tentavam conter a multidão. “De que adianta proibir aqui se estão entrando por todos os lados?”, disse o holandês, tentando entender a lógica da segurança do estádio.

Sem o chapéu, ainda com a garrafa entre as mãos e os cotovelos sobre os joelhos, o torcedor que perdeu os quatro gols mirava um horizonte imaginário com seus olhos vermelhos. Seu amigo voltou-se na direção de onde estavam os dois europeus. “Dois a zero! Dois a zero!”, comemorou. Talvez porque parecesse tão feliz, Breekveldt e Siegel acharam melhor não tentar corrigi-lo.

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