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Tortura nunca mais

O resgate de uma galinha
Roberto Kaz
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Três galinhas já lutavam contra a morte, no banco de trás do carro, quando o ambientalista Paulo Maia recebeu uma nova chamada. Ouviu o relato e pisou no acelerador rumo à sede da Petrobras, no Centro do Rio de Janeiro. Para a ave que ali padecia, cada minuto perdido naquela madrugada de agosto era um passo em direção ao abismo.

“Ela agonizava dentro de um alguidar com velas pretas, em frente à entrada da garagem”, lembrou Maia. “Uma cena terrível. As pernas tinham sido quebradas. Os olhos, furados com alfinetes. E as pálpebras coladas com Super Bonder.” Ao pegar a galinha – uma poedeira branca –, reparou que o animal trazia dois pedaços de tecido amarrados ao corpo. Num deles, negro, estava anotado o nome Pedro. No outro, vermelho, o sobrenome Parente. Pedro Parente, o economista recém-nomeado pelo governo de Michel Temer para comandar a combalida estatal. “Escreveram o nome do cara com sangue humano”, continuou. “Eu, se fosse ele, contrataria segurança. Quem chega a um nível desses está disposto a qualquer coisa.”

Presidente da ONG SOS Aves e Companhia, Paulo Maia tem 52 anos e, há seis, vem resgatando todo tipo de bicho sacrificado em rituais religiosos. “Chamam meu carro de Arca de Noé”, disse, com orgulho. “Nele, já entraram bodes, carneiros e muitas galinhas. Só não entrou elefante.” Para justificar o que faz, costuma mencionar a lei federal 9605, de 1998, que proíbe maus-tratos aos animais. “Não tenho nada contra macumbeiro e vuduzeiro, mas um bicho sacrificado numa encruzilhada não é religião. É crime, e crime precisa ser combatido.”

Magro, grisalho e vegetariano, Maia se descobriu ambientalista ainda na infância, quando abriu a gaiola de um amigo do pai e libertou um bando de aves raras (a transgressão acabou repreendida). Aos 17 anos, morou na Amazônia, onde trabalhou com o ativista Chico Mendes e lutou pela preservação do boto cor-de-rosa. Na volta ao Rio, estudou jornalismo. Depois, fundou uma assessoria de imprensa, mas permaneceu ligado às causas ambientais. Em 2010, passou a dirigir a ONG, especializada no resgate de animais domésticos e selvagens.

No mesmo ano, avistou um bode ensanguentado numa encruzilhada a caminho de Petrópolis. “Eu, minha mulher e minha filha íamos para um casamento, todos a rigor. Parei o carro, chutei o alguidar, tirei a estaca que perfurava o pescoço do bode e tapei a ferida com gaze.” Colocou o bicho moribundo no banco traseiro – ao lado da filha – e tocou para o abrigo da ONG, no município de Saquarema, litoral fluminense. O bode sobreviveu e ganhou o nome de Francisco. A ida ao casamento foi abortada.

 

Constatada a triste recorrência de casos como o de Francisco, Maia achou por bem criar o projeto Bicho Sagrado, que busca salvar animais torturados em manifestações religiosas. “Enfrentei resistência no começo”, contou, relembrando que muita gente se negava a ajudá-lo por temer as consequências de mexer nos feitiços. Para driblar o receio alheio, ele repetia um mantra a quem se interessava em colaborar: “Não pense na macumba. Pense que está salvando um animal.” Hoje a ONG dispõe de 22 mil voluntários, espalhados pelo estado do Rio, e sobrevive graças a doações.

Naquela madrugada de domingo, Maia já havia resgatado três galinhas: no Cemitério de São João Batista, localizado no bairro carioca de Botafogo; em Del Castilho, na Zona Norte da cidade; e em Duque de Caxias, município da Baixada Fluminense. Ele dirigia para o abrigo da ONG, acompanhado de dois voluntários, quando soube do galináceo em frente ao edifício da Petrobras.

Chegando lá, agiu com rapidez. “Sempre carrego um kit de primeiros socorros no carro. Mal peguei o bicho no colo, lhe apliquei uma injeção de antibiótico. Depois, massageei o coração dele e fiz respiração boca a boca ao menos quinze vezes.” Pela violência impingida à ave, concluiu que o ritual era de magia negra. “O bicho agonizou por horas para que aquele homem também agonizasse.”

 

Levada ao abrigo, a galinha passou uma semana numa incubadora até terminar o tratamento alopático. Em seguida, puseram-na num recinto de 1 metro quadrado, protegida de outros animais, com ração à vontade e espaço para banho de sol. “É uma espécie de unidade semi-intensiva”, explicou Maia. Em breve, o bicho irá se juntar ao contingente de 150 galinhas, galos, marrecos e patos resgatados. Duas das outras três aves socorridas naquela noite morreram.

“A galinha da Petrobras deu sorte”, disse o ambientalista. “O voluntário teve coragem de me ligar, eu estava por perto, ainda havia antibiótico no carro e cheguei ao abrigo a tempo.” Ele acredita que o animal deverá se recuperar, embora vá ficar cego e com pouca mobilidade. Os alfinetes foram retirados dos olhos, mas as pálpebras permanecem coladas, e não há como engessar as pernas quebradas. “Lá no abrigo tem galinha sem asa, macaco sem braço. Tem uma fêmea de mico que amputou três patas e mesmo assim engravidou. Enquanto houver vida, vamos lutando.”

A ave ainda não foi batizada: “Soube que o Pedro Parente quer falar comigo, mas não arranjei tempo de ligar para o homem.” Quando o fizer, espera que o próprio presidente da Petrobras escolha o nome do bicho: “Essa galinha tem algo de especial. Não era para ter sobrevivido e sobreviveu. Nunca vi coisa assim…”

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