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Trump para bater

Um infiltrado entre os democratas
Roberto Kaz
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Eram cinco da tarde quando o artista Kalan Sherrard chegou ao comício do senador democrata Bernie Sanders em Manhattan. Vestia terno, gravata e botas – tudo rigorosamente esculhambado. Carregava ainda uma mochila, de onde sacou um casaco de pele e uma máscara com a cara do empresário Donald Trump. Amarfanhou o casaco sob a roupa para simular uma pança acentuada. Depois colocou a máscara – e passou a insultar toda e qualquer alma que lhe cruzasse o caminho. “As pessoas gostam de ser agredidas por ele”, contou.

Esquerdista, anarquista e entusiasta de Sanders, Sherrard dedica ao menos um dia da semana a incorporar o pré-candidato republicano à Presidência dos Estados Unidos. Bilionário excêntrico de ideias politicamente incorretas, Trump lançou seu nome à Casa Branca no ano passado e, embalado por comentários machistas e xenófobos, passou de azarão a carta certa no baralho eleitoral, para horror dos democratas (e de alguns republicanos).

Conversando com um amigo, Sherrard aventou quão terrível seria o futuro caso Trump viesse de fato a ganhar a corrida eleitoral. “Alguém teria que voltar no tempo para matá-lo”, concluiu. Como as viagens ao passado ainda pertencem ao domínio da ficção científica e a solução do extermínio puro e simples não seria de bom-tom, Sherrard pensou numa alternativa. Comprou a máscara, produziu um bastão acolchoado e propôs saciar ao menos a gana de quem quisesse espancar o empresário. Surgiu o Beat up Trump, personagem que é metade pastiche, metade saco de pancadas.

A primeira aparição pública ocorreu no dia 12 de março, na Union Square, uma praça que reúne hippies, mendigos e enxadristas no sul de Manhattan. Por falta de dinheiro, a indumentária teve de ser improvisada. “Eu já tinha o terno e a bota”, explicou. Um amigo deu-lhe a gravata – da grife do próprio Trump. Sherrard passou também a carregar um rádio – onde toca raps, rocks e jingles de campanha – e um cartaz com o tarifário dos serviços oferecidos pelo personagem. Cobra 3 dólares para levar uma paulada, 5 para tomar um soco na barriga e 10 para fingir ser sodomizado. A lógica financista da transação pareceu-lhe coerente com o político retratado. “Se eu não pedisse dinheiro, estaria desrespeitando o personagem”, justificou. A tabela contempla todos os bolsos e taras. Quem se dispuser a desembolsar 2 500 dólares tem o direito de usar o republicano como fiel depositário de fetiches coprofílicos. “Ainda quero fazer um filme pornô com pessoas mijando em vários Trumps”, sonha, determinado.

 

Naquela quarta-feira de abril, Sherrard iniciou a performance no chão, ajoelhado frente a uma dezena de soldadinhos de plástico. Brincou com eles como se fosse uma criança (ou um presidente republicano), depois os guardou na mochila e se embrenhou pela massa de democratas. Estava acompanhado de Alice Aster, uma artista de 23 anos a quem cabia atiçar o público e recolher eventuais notas e moedas num copo de plástico.

Havia jovens segurando cartazes, hippies tocando violão e um judeu de meia-idade distribuindo quipás com o nome do candidato. Sherrard tirou o iPhone do bolso, colocou o rap Gangsta’s Paradise e passou a estender o dedo médio a crianças, adolescentes, velhos e adultos com quem esbarrava. Um cachorro rosnou – e ganhou um dedo na cara ele também.

O rádio passou a tocar Born in the USA, de Bruce Springsteen, e o hino dos Estados Unidos na versão de Jimi Hendrix em Woodstock. Embalado pela trilha ufanista, Sherrard tentou apertar a mão de alguns militantes. Um homem consentiu. O falso Trump apontou então para o cartaz, cobrando-lhe 1 dólar. A contragosto, o homem pagou e ganhou um abraço (para depois descobrir que o afago custava o triplo). “Aperto a mão das pessoas e depois cobro por algo que elas nem queriam fazer”, justificou. “Isso tem tudo a ver com o Trump.”

Aos 28 anos, Sherrard é um rapaz bonito, de olhos azuis e pele clara. Filho de professores, formou-se em literatura, mas acabou se especializando na arte de ser inconveniente. Adolescente, passou a comer o que encontrava no lixo. “Sou punk. No começo achei que salvaria o mundo por viver à margem do capitalismo”, contou. “Depois percebi que eu queria estar no mundo. Gosto dele, até vejo Game of Thrones.” Ainda assim por conveniência – ou por gosto – manteve o velho hábito alimentar. “Você aprende muito sobre um lugar quando come do lixo”, continuou. “Mas claro, moro em Nova York, onde o lixo é seguro.” Por vezes, veste terno e gravata para revirar as lixeiras do distrito financeiro: “Gosto de ver a cara das pessoas.”

Já foi preso mais de dez vezes – algumas delas por fazer shows niilistas com marionetes grotescas em estações do metrô. “Acho que homens brancos como eu deveriam ser presos ao menos uma vez para entender o sistema por dentro”, disse. “As pessoas têm medo de ficar sem casa, sem comida e sem arbítrio. Mas experimentar essas coisas tem seu valor.” Mora por 400 dólares num quarto atulhado de livros, papéis, ferramentas e marionetes localizado nos fundos de um brechó no Brooklyn. O aluguel é pago, em parte, com o valor que arrecada incorporando o magnata. “Como trabalho na rua, vivo sendo explorado”, contou. “Então tenho certo prazer em ser o Trump, me sinto mais masculino.” O único problema, apontou, é a dificuldade que tem em retomar sua índole natural quando deixa o personagem. “Levo um tempo para entender que não posso mais xingar um bebê, um cachorro ou uma ambulância.”

Já passavam das seis quando Sherrard tirou a máscara. Com a cara suada, comemorou as pancadas levadas: “Adolescentes costumam bater mais forte, o que acho ótimo.” Empolgado, ele voltou ao personagem, dessa vez com a calça arriada, para ostentar uma cueca com a bandeira dos Estados Unidos. Enquanto ele dançava, xingava e tomava um café achado no lixo, a assistente continuava a agenciar pessoas que quisessem espancá-lo. “Você odeia o Trump, do fundo do coração!”, ela incitava, aos gritos. “Desce o couro nesse fascista!” Terminaram a noite 120 dólares mais ricos.

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