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Trumplândia

Uma nova atração em Washington
Daniela Pinheiro
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Na primeira quinzena de novembro, dois dias após Donald Trump se eleger presidente, não havia sofás ou poltronas vagas no lobby do hotel recém-inaugurado pelo magnata em Washington. A noite estava começando, e um punhado de gente disputava cada milímetro do átrio imenso, que conjuga bar, café e restaurante. A romaria se repete desde setembro, quando o Trump International abriu as portas na avenida Pensilvânia, a poucos minutos da Casa Branca e do Capitólio. O esfuziante cinco estrelas logo se tornou um concorrido ponto turístico da capital americana.

Abrigado sob vigas de ferro entrelaçadas, como se um grande salão se aninhasse embaixo da Torre Eiffel, o lobby exibe estofados de veludo cinza ou azul, tapetes salpicados de desenhos geométricos, vasos gigantescos de flores e, claro, uma festança de dourados. Nas paredes, no chão e no teto, a quantidade de mármore rivaliza com a do Panteão romano. Já a dezena de luminárias de cristal que pende das vigas metálicas confere ao espaço um quê de Las Vegas. Das quatro tevês enormes que se posicionam em frente a uma das paredes, três sintonizavam a conservadora Fox News.

Com torre de relógio, bandeiras e uma infinidade de arcos, a fachada do hotel se iguala à de um castelo europeu. O prédio de 1899 – que agora dispõe de 263 apartamentos – sediou os Correios até o início do século XX. Depois de passar por uma reforma que consumiu dois anos e 212 milhões de dólares, transformou-se num negócio superlativo. Reza a propaganda que o Trump International tem o maior salão de baile e os maiores quartos da cidade. A diária mais barata sai por 900 dólares. A mais cara, por 20 mil.

Naquele começo de noite, mulheres magras de trajes curtos se multiplicavam pelo ambiente, bebericando drinques coloridos, enquanto homens engravatados saboreavam ostras. Um casal com abrigo de ginástica atravessou o salão carregando copos descartáveis do Starbucks. Uma família de ascendência escandinava tirou zilhões de selfies em diferentes pontos do átrio. Uma dupla de brasileiros sacou os celulares e, com certa sofreguidão, converteu-os imediatamente em filmadoras. À semelhança deles, boa parte dos visitantes explorava cada detalhe do lobby como se estivesse num museu.

 

Vestida inteiramente de preto, a garçonete do Benjamin Bar & Lounge se aproximou e sugeriu um vinho cultivado no estado da Virgínia. “Muito bom. Ganhou 91 pontos na Wine Advocate”, apressou-se em informar, referindo-se à revista que serve de guia para enófilos do mundo inteiro (no ranking da publicação, a nota máxima é 100 e a mínima, cinquenta). A bebida indicada leva o sobrenome do proprietário da vinícola: Trump Blanc de Noir 2009. Custava 26 dólares, uma ninharia perto de outros itens oferecidos por lá. Entre os destaques do cardápio, há um coquetel de 100 dólares que agrega bourbon, vodca, ostras e caviar. Outra gracinha é o vinho húngaro Tokaji, servido em colheres de cristal. O preço da colherada oscila conforme o tipo e a safra do produto: a do Royal Tokaji 2007 vale 140 dólares. A garrafa, por sua vez, custa 2 250 dólares.

Diariamente, ao cair da tarde, um sommelier protagoniza um espetáculo quase circense no bar. Cheio de firulas, abre champanhes de primeira linha cortando a boca das garrafas com um golpe de sabre.

A possibilidade de encontrar os Trump atiça os curiosos – os filhos do bilionário avisaram que se hospedarão no hotel quando estiverem em Washington. “Na semana passada, a senhora Ivanka passou por aqui”, revelou um garçom de origem romena, aludindo à filha mais velha do próximo presidente. “O senhor Trump, sempre que vem, janta no salão de baixo”, continuou. Indagado se as declarações ultrajantes do patrão contra imigrantes o incomodavam, o rapaz sorriu. “Acho que ele fala dos ilegais, não? No hotel, todos ganhamos mais que a média do mercado e temos plano de saúde, o que é uma raridade.”

Para a burocracia política, frequentar o Trump International virou um modo de se aproximar do presidente eleito. Não à toa, também em novembro, mais de 100 diplomatas estrangeiros lotaram um dos salões de eventos para escutar platitudes a respeito do hotel, que já suscita discussões sobre conflito de interesses. Tocava uma música suave no Benjamin Bar quando o Trump Blanc de Noir 2009 finalmente chegou. Entre o parecer adocicado da Wine Advocate e o do enólogo americano Steve Heimoff, mais ácido, acabou prevalecendo o segundo. “A vinícola Trump faz espumantes decentes, mas seus vinhos ainda estão na faixa do o.k. para o medíocre”, escreveu o especialista em seu blog.

 

Sair do hotel pela entrada principal significava se defrontar com um clima bem diferente do desfrutado pelos comensais. A polícia procurava intimidar uma centena de jovens que se manifestava pacificamente na avenida Pensilvânia. “Black Lives Matter!”, “Nosso apoio aos gays!”, “Estamos com os imigrantes latinos”, diziam os cartazes dos ativistas.

Uma mulher que acabara de deixar o lobby tentou atravessar a pequena multidão de opositores, mas não conseguiu. Foi agarrada pelo braço por uma policial, que a empurrou de volta para o hotel. “Vá para dentro, vá para dentro!” Um porteiro de fraque e cartola, que já cuidava de cinco hóspedes, acolheu-a: “A senhora ficará segura aqui.”

“Abaixo o racismo!”, gritavam os manifestantes. Eram saudados por carros que passavam buzinando. Uma moça botou a cabeça para fora de um deles e berrou: “Hillary!” Zeloso, o porteiro avisou que conduziria as seis pessoas até outra saída: “Vai dar na rua 12, bem mais tranquila.” Enquanto cruzava o átrio junto do grupo, um homem alto, de cabelo branco e cachecol de seda, comentou: “Ah, a democracia. Eles ainda não entenderam que perderam?”

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