esquina

Tucanaram a ditadura

A novidade verde-oliva no Ceará

Fabio Victor
Andrés Sandoval_2018

N a eleição para o governo do Ceará, a novidade vem da caserna e define o golpe militar como uma “contrarrevolução democrática”. Acha um exagero dizer que o regime de 1964 a 1985 tenha sido uma ditadura. A novidade se chama Guilherme Cals Theophilo Gaspar de Oliveira, ou apenas general Theophilo.

Num evento em 21 de maio, o senador tucano Tasso Jereissati lançou o militar como pré-candidato do PSDB à disputa pelo governo do estado. Governador do Ceará por três mandatos, Tasso seria o único nome de peso da oposição que poderia competir com o petista Camilo Santana, favorito à reeleição. O cacique tucano não topou: o partido precisava apresentar algo novo, alegou.

Theophilo é o único general de quatro estrelas – posto mais alto na carreira do Exército – entre as dezenas de militares que devem enfrentar as urnas este ano, estimulados pelo apoio que as Forças Armadas têm recebido da opinião pública. Nasceu no Rio de Janeiro há 63 anos, mas se considera cearense. Tanto sua família paterna como a materna são do Ceará, onde ele morou até o final da adolescência. 

Por todos os lados, as raízes do general esbarram em quartéis. César Cals, ministro das Minas e Energia no governo Figueiredo e um dos coronéis que comandaram a política cearense na ditadura, era irmão de sua mãe. Seu bisavô, seu avô e seu pai foram oficiais do Exército. Ele tem cinco irmãos – todos militares – e duas irmãs.

“Na minha casa fomos criados com os valores do Exército: não se podia sentar à mesa sem camisa, meu pai era o primeiro a se servir e a última palavra era a dele”, contou Theophilo à piauí, numa sala envidraçada com vista para o Parque do Cocó, o principal de Fortaleza. O general deu entrevista na cobertura que abriga o escritório político e a sede das empresas de Tasso Jereissati, acompanhado de um assessor de confiança do ex-governador. Na mão direita, o pré-candidato ostenta um anel com uma pedra preta – “o anel de doutorado do meu pai na Escola de Comando e Estado-Maior do Exército”, esclareceu. No braço esquerdo, usa um relógio com uma bússola.

O general é um homem magro e lépido. Foi paraquedista, mas não salta desde 2004, quando passou mal ao treinar para disputar o Ironman, competição de triatlo de longas distâncias. Diz que não infartou, mas precisou fazer uma angioplastia e colocou quatro stents. Continua a praticar natação e a andar de moto – integra um clube de motoqueiros proprietários de modelos Harley-Davidson (recentemente, viajou numa delas de Brasília a Fortaleza).

Theophilo diz que espera compensar o fato de ser desconhecido dos eleitores com propostas na área de segurança pública, maior ponto fraco do atual governo. O Ceará viveu nos últimos meses uma onda de violência, com guerras entre facções criminosas e explosão nos índices de homicídios – em 2017 foram 5 134, um aumento de 50% em relação a 2016. “O que falta no Ceará é autoridade”, diz o militar. “O nome ‘general’ já traz em si alguém com essa autoridade.”

Até ir para a reserva, em 31 de março, Theophilo era comandante logístico do Exército. Antes, foi comandante militar da Amazônia. Não à toa, fala com desenvoltura sobre segurança nas fronteiras, rotas de tráfico de drogas e facções criminosas. “Fortaleza é um hub de distribuição de drogas da rota do Solimões”, pontificou.

Seu tom calmo só se altera quando o assunto é a ditadura militar e as violações dos direitos humanos pelas Forças Armadas no período. Para o general, o golpe de 1964 foi uma resposta democrática à revolução comunista que se preparava no país. “A ideia do Castello Branco era ajeitar as coisas e passar adiante, mas a conjuntura não permitiu, os grupos terroristas foram aparecendo. Durou mais do que devia, mas foi necessário.” E prossegue: “Nunca chegamos a ser uma ditadura. Foi um regime de exceção.”

E por que até hoje não houve uma autocrítica dos militares em relação às atrocidades que cometeram? A pergunta irrita Theophilo, que passa a suar, com o rosto vermelho. “Quero que você me responda quantos morreram do nosso lado. E os nossos estavam lutando pela liberdade, não para implantar um Estado comunista.”

O general questiona a autenticidade do documento da CIA revelado pelo pesquisador Matias Spektor, segundo o qual o general Ernesto Geisel, penúltimo dos ditadores militares, endossou a execução de opositores. Teria sido uma armação para atrapalhar a campanha de Jair Bolsonaro à Presidência. “O documento é uma montagem de segunda categoria. Quem conheceu Geisel sabe que ele era um democrata.” O pré-candidato diz que, quando o caso saiu na imprensa, ligou para o comandante do Exército, general Villas Bôas. “Ele concordou comigo, também acha que é um documento falso.” Procurado pela reportagem, o comandante não quis se manifestar sobre a declaração de Theophilo.

Tasso Jereissati, embora discorde das ideias do aliado sobre a ditadura, as relativiza. “Tenho plena consciência dos males do período militar. Mas entendo que ele tenha essa visão, porque os militares têm essa visão. Quando houve a revolução ele tinha 9 anos, não participou do processo. Tanto a formação dele é democrática que ele sai para a vida civil e vai disputar o voto.” O senador diz que optou pelo general porque “o sistema político no Brasil está falido” e “é preciso trazer alguém de fora da política, que possa enfrentar os problemas de maneira diferente”.

Segundo Tasso, sua estratégia para escolhê-lo consistiu em plantar notas na imprensa cearense com prováveis pré-candidatos. “Quando soltei um balão de ensaio com o nome de Theophilo, a receptividade foi a mais positiva de todas, sobretudo nas redes sociais”, diz. Mas o general não seduziu os partidos. Somente o Pros apoia o PSDB. O MDB e o SDD, aliados até pouco tempo atrás, devem migrar para a aliança governista, um balaio de gatos que já reúne PT, PDT, PSB, PCdoB, PTB, DEM, PSD, PSC, PV e PR, entre outros. No evento em que lançou Theophilo, Tasso estava desconsolado. “Na minha vida política desde 1986, nunca estive tão só”, queixou-se.

Fabio Victor

Fabio Victor é repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por 20 anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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