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Tucano ameaçado

Publicitário quer sua mascote de volta

Consuelo Dieguez
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL

OPSDB está encrencado com a sua imagem. Não a imagem política, em crise permanente por causa das indefinições do partido sobre os rumos a tomar – se vai apoiar o governo ou ir para a oposição, defender ou não as reformas, expulsar ou não o senador Aécio Neves após ele ter sido flagrado pedindo dinheiro a Joesley Batista. Mas sim com a imagem que simboliza o partido: o tucano azul e amarelo.

O criador da mascote, o publicitário mineiro Chico Bastos, dono da agência Ação & Promoção, de Belo Horizonte, não se conforma com as mudanças feitas em sua obra, que vem sendo livremente adaptada nos últimos anos. Indignado, ele quer que o partido volte a usar o desenho original e não descarta proibir o uso do tucano caso não cheguem a um acordo.

A mascote de Bastos completa trinta anos em 2018, como o PSDB. O publicitário foi um dos profissionais convocados para criar uma imagem que identificasse a nova sigla – uma dissidência do PMDB capitaneada principalmente por políticos paulistas (como Fernando Henrique Cardoso e Mário Covas) e mineiros (caso de Pimenta da Veiga e Ziza Valadares), com a adesão de nomes de outros estados, dentre os quais Artur da Távola, do Rio de Janeiro, José Richa, do Paraná, e José Paulo Bisol, do Rio Grande do Sul.

Bastos contou que se inspirou nas mascotes dos grandes partidos americanos – o burro que representa os democratas e o elefante dos republicanos. “Pensei em criar um animal como símbolo, já que ele podia interagir com a população”, disse o publicitário, um homem roliço, grisalho e de cavanhaque. Além disso, continuou, colar um animal a uma marca era uma estratégia que funcionava bem. “Os maiores times de Minas são representados por bichos”, lembrou o publicitário. “O galo do Atlético Mineiro, a raposa do Cruzeiro e o coelho do América.”

O publicitário queria uma espécie representativa do Brasil, e o tucano logo lhe veio à mente. Desenhou a ave com o peito e o bico amarelo, cor da campanha das Diretas Já, apoiada pelos fundadores do PSDB. As asas azuis e os olhos brancos completaram o desenho com outras cores da bandeira brasileira.

As propostas de outros publicitários foram apresentadas ao paulista Franco Montoro, um dos líderes do futuro partido, que bateu o martelo em favor da criação de Bastos. Numa sexta-feira de junho de 1988, quando os integrantes da nova sigla se reuniram no auditório da Câmara dos Deputados para discutir as bases da agremiação, Bastos pendurou atrás da mesa três gigantescos cartazes com seus tucanos. No dia seguinte, os jornais estamparam a foto dos líderes ao lado da mascote alada. O nome da sigla – Partido da Social Democracia Brasileira – só seria escolhido naquele fim de semana, mas toda a imprensa já se referia a ela como “o partido dos tucanos”. Não poderia ter havido publicidade maior.

A ave desenhada por Bastos se tornou a imagem oficial do partido, que elaborou um manual de identidade visual com instruções para uso da mascote. O tucano inspirou charges e virou um boneco usado nos programas da sigla na tevê – “e isso quase dez anos antes que surgisse o Louro José”, notou o publicitário.

 

Mas o tucano já não é mais o mesmo. Suas asas foram encurtadas, e a mascote foi adaptada com liberalidade. Quem visita o site do PSDB pode conferir versões da ave de batom ou com penugem negra e visual afro, apadrinhando os movimentos que reúnem a militância feminina e negra, respectivamente. Chico Bastos não se conforma. “Imagina se o Atlético colocaria uma galinha para acompanhar o galo?”, protestou. Sua maior frustração, no fundo, é com os rumos do partido. “Esse psdb que está aí não tem nada a ver com o partido que apoiei no passado”, afirmou, desiludido.

A insatisfação do publicitário remonta a 2006, quando ele disse ter enviado uma carta registrada ao senador Tasso Jereissati, então presidente do PSDB, reclamando das intervenções na sua obra. O protesto não surtiu efeito, e Bastos voltou à carga em 2014, na campanha de Aécio Neves para a Presidência, quando as mudanças no personagem ficaram mais evidentes.

O publicitário disse que, na época, procurou o deputado Marcus Pestana, então presidente do PSDB mineiro, em seu gabinete, em Belo Horizonte, para reclamar do mau uso da imagem. Pestana, segundo ele, encaminhou-o para uma reunião na sede do partido, em Brasília. Lá, Bastos conversou com integrantes da sigla e pediu providências. De novo, nada foi feito.

Em 2018 – mais um ano eleitoral –, Bastos está novamente disposto a partir para a briga e exigir que o PSDB volte a adotar o tucano original. “Ou eles voltam ao que era ou passam a me remunerar pelo uso da imagem”, afirmou.

Marcus Pestana – hoje secretário-geral do PSDB nacional – se espantou quando soube, por um telefonema da piauí, da indignação de Chico Bastos. Num primeiro momento, disse em tom contrariado que nunca havia sido procurado para tratar do assunto, até que se lembrou da reunião que teve com o publicitário quatro anos atrás. “Não estou entendendo essa história”, afirmou. “Ele que venha conversar conosco.”

Pestana disse que, na época da criação do PSDB, Bastos cedeu a imagem para o partido. O criador da mascote, por sua vez, afirmou que o tucano está registrado em seu nome no Instituto Nacional da Propriedade Industrial e na Biblioteca Nacional, e enviou à piauí uma cópia do registro. O secretário-geral do PSDB reconheceu que, de fato, não houve uma cessão formal dos direitos de imagem. “Todos que colaboraram com a criação do partido o fizeram por solidariedade”, afirmou. “Não havia dinheiro envolvido.”

Ao ouvir os protestos de Bastos, Pestana afirmou ainda que ele estava tomando a atitude por estar com problemas financeiros. O publicitário também rechaçou essas insinuações. O que está em discussão, alegou, é a questão comercial, e não sua conta bancária. “É claro que as finanças do deputado devem estar muito melhores que as minhas.” Em seguida, provocou: “Se não tomarem providências, eles que inventem outra mascote. Um camaleão, quem sabe.”

Bastos ainda está analisando o melhor momento para tomar uma atitude em relação ao PSDB. Como bom tucano e bom mineiro, está em cima do muro.

Consuelo Dieguez

Consuelo Dieguez, repórter da piauí desde 2007, é autora da coletânea de perfis Bilhões e Lágrimas, da Companhia das Letras

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