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Tudo o que não aconteceu

Francesca Angiolillo
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ILUSTRAÇÃO: PINGEBAT

AS JOIAS DA COROA

Como quase toda menina eu queria
ser princesa eu já não era
loura como Cinderela
minha irmã sim e espevitada
chegara ao mundo resolvida
eu não sabia o que fazer
daquela massa castanha
nem lisa nem crespa sobre a cabeça
e acreditava que talvez a cobiçada coroa
de strass
de miss
operasse um pequeno milagre ao encimar
minhas incertezas infantis
então a cada carnaval a cada ida
às lojas de fantasias no centro da cidade
dava-se uma renovada decepção
a diminuta coroa ficava ali
na mesa envidraçada
com seu brilho de mentira

Um dia
numa celebração de aniversário talvez
meu pai nos fez umas coroas
eram de papel-cartão preto
adornadas com purpurina no lugar
das pedras e com volutas douradas
feitas a caneta

A caneta era especial
importada só ele usava
e tudo na coroa traía o traço
que era dele totalmente
que era o mesmo
de seus quadros nas paredes
era a marca de sua mão

Eu não sabia quanto aquela coroa
que levei tristemente à minha
cabeça castanha
era real
tão mais real que o diadema prateado
com pequeninas pedras
esquecido na vitrina

No círculo de papel preto
se encerrava o futuro
não o lar imaculado mas a aranha
pequenina se escondendo
num canto do armário
as meias cobrindo os pés
na hora de dormir numa casa
não aquecida
em mais um inverno austral
ao lado de um homem
o herdeiro
mais legítimo
daquela ideia
de príncipe
que fora possível encontrar
e que me dera um descendente
louro de olhos azuis
repetindo no rosto
seus traços castanhos

O cartão escuro era o que fazia
as joias da coroa luzirem mais

 

UMA CARTA NÃO ENVIADA DE TEERÃ

Tendo que me haver
com a dor
pergunto-me se existiria
a dor
em Teerã
existiria
em Teerã
a dor da sua perda
a dor dos dias azuis
que se foram
– tão azuis sobre
a rua vazia
tão vazia
a não ser por
você e eu
você a quem
dirijo estas palavras
viverá para sempre
quem a gente ama
não cessa nunca
de viver aqui
ou em Teerã
existiria em Teerã
a melodia confusa
do idioma farsi
a falar de ogivas
de reatores
de urânio
de água pesada
de minas escondidas
de explosões
nas montanhas
há montanhas em Teerã
e picos nevados
há inverno em Teerã
e há carros
muitos carros
que pronunciam sua pressa
sobre viadutos
ao redor de monumentos
através de túneis enormes
em Teerã
igualmente poderia falar
de um doce de
mel de
rosas
de gazelas
tudo seria indistinto
em Teerã
o vendedor diria
laranjas
e não saberíamos como se diz
laranjas
diria nozes melões tangerinas
diria cerejas pêssegos uvas
diria romãs de Teerã
e nada disso saberíamos dizer
ouviríamos nomes
terminados em
i
e em nenhum deles caberia
a redondilha menor
do seu nome
as ascendentes e descendentes
do seu nome
não marcariam página alguma
em Teerã
quiçá
não existisse
a marca que é
a falta do meu pai
em Teerã
imersa estaria eu
no balbucio
murmurejante
no acalanto
do sem sentido
em Teerã
até que me viesse pescar
um nítido
um claro
mérci
recordando o gesto
importado
de outra civilização tomado
de empréstimo
pela diplomacia persa
aquela que
fere
com um elogio
tão discretamente como quem
toma devagar seu café
num café da manhã
em Teerã.

 

TIMELINE

Você me diz que em Samoa todos
os habitantes nascidos até
dois mil e onze
perderam um dia de vida
por motivos econômicos
um dia a menos
para ficar à toa para
ler uma epopeia para
dormir na rede para
andar na praia para
conversar com alguém que teve todos os dias
que lhe eram cabidos
preservados pelo calendário local.

Será que o dia que perderam
os samoanos
valeu mais
ou menos
que o dia que você passou
perambulando
por uma cidade que não era sua
em mil novecentos e noventa e oito?

Ou talvez tivesse sido um
benefício saltar bem
aquele outro despendido
numa briga terá sido
perdido justo aquele
reservado a rever um amigo
ou a descobrir o assombro
num coro final
de Eurípedes ou aquele em que
por perder-se o ônibus
tomou-se o metrô e
atrás da porta estava
quem fez parada
no coração do passageiro?

Conversando aquela tarde
fantasiamos sobre
viajar sempre contra o fuso
transformando em hoje eterno
o ontem
rejuvenescendo na
geografia
que marca o ritmo
dos dias numa
linha.

Meu hoje deve ser mais
plano que o ontem de alguém
no Havaí
mesmo se esse alguém tem que
correr para
responder e-mails
de outro alguém
que já vive no amanhã.

Digo brincando a S.
Que sorte
você dorme no avião
e acorda lá
três horas mais moço
do que eu
Que sorte ele diz
nunca
tinha pensado nisso mas
amanhã
eu terei pensado nisso
ontem.

Amanhã
era a palavra que
eu escrevia
sempre
que numa loja testava
uma caneta nova.
Hoje
já não.

 

SAINT-DENIS

Aos vinte anos queria
uma casa
lilás
quis mesmo
e muito
a casa lilás
da rue Saint-Denis,
em Montreal,
Canadá.
(Dizem que a casa
continua lá
e lilás.)
Queria
instalar na casa uma comunidade
de amigos,
a vida seria uma festa
e eu teria sempre vinte anos.
Podia ser que pintasse
maus quadros,
escrevesse
maus livros,
virasse ecologista
e tivesse três filhos
loirinhos.
Os filhinhos seriam
remelentos e
se esconderiam
detrás das voltas
da saia
indiana
– um brandindo seu
hipopótamo
de pelúcia;
outro arrastando
a fronha
de dormir;
o terceiro,
o benjamim,
um postal amassado
de uma rua de Berlim –
seriam todos de pais
diferentes,
pais que não
pagariam pensão
mas que levariam todos
juntos
a passear no parque
no fim de semana.
Os quadros e livros maus
não dariam dinheiro
(da ecologia nem se fala),
mas dinheiro
não seria problema:
viveríamos tranquilos,
equilibrando poucos desejos
sobre o cheque
da previdência social.
Já faz muito tempo
que nada disso
aconteceu.

ASSINANTE PIAUÍ

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