O riso é próprio do ser humano. O homem é o único animal que ri porque é o único que tem consciência de sua extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno
Ver dados da foto O riso é próprio do ser humano. O homem é o único animal que ri porque é o único que tem consciência de sua extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno ILUSTRAÇÃO: BIZARRO_DAN PIRARO_KING FEATURES E CARTOONIST GROUP

Últimas palavras

Todos os epitáfios, se proferidos pelo inquilino da sepultura, são uma piada
Ricardo Araújo Pereira
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O riso é próprio do ser humano. O homem é o único animal que ri porque é o único que tem consciência de sua extinção. Os animais desconhecem que vão morrer, e Deus sabe que é eterno ILUSTRAÇÃO: BIZARRO_DAN PIRARO_KING FEATURES E CARTOONIST GROUP

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Otúmulo de John Gay,[1] na Abadia de Westminster, tem uma inscrição que diz:

Life is a jest; and all things show it, 

I thought so once; but now I know it.

Uma possível tradução para português seria: “A vida é um chiste; e tudo o revela com clareza,/Pensei assim em tempos; mas agora tenho a certeza.” Como as memórias de um famoso defunto brasileiro, o epitáfio de Gay foi escrito “com a pena da galhofa e a tinta da melancolia”, programa estilístico que encontra muitos cultores entre os finados. Os versos exprimem uma espécie de angústia jovial, e é difícil saber se a jovialidade suaviza a angústia ou se a aprofunda, mas é possível que faça ambas as coisas: suaviza porque lhe retira peso, aprofunda porque lembra a sua razão de existir.

O epitáfio de Gay é uma piada em dois versos, e a piada começa pela circunstância de os versos serem apenas dois. Apresentar uma definição da vida costuma requerer um pouco mais de espaço. No meio de cada verso há uma pausa que transmite ao dístico uma cadência de lenga-lenga infantil, e essa puerilidade é reforçada pela pobreza da rima. A inocência do tom e a crueza do que é dito produzem um contraste simultaneamente aflitivo e cômico, como a ideia de uma criança velha. E há ainda a pequena maldade escondida naquele “mas”. Ao contrário do que se esperaria, a palavra não designa oposição, dado que confirma o sentido da primeira metade do verso. No entanto, há uma razão para Gay ter escrito “Pensei assim em tempos; mas agora tenho a certeza”, em vez de, por exemplo, “Pensei assim em tempos; e agora tenho a certeza”. É que, na verdade, ter uma certeza terrível é muito diferente de ter uma suspeita terrível. Talvez uma seja mesmo o oposto da outra.

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