questões policiais

Um crime célebre

Como o assassinato de Marcos Matsunaga caiu em domínio público

Paula Scarpin
Em qualquer crime, há um núcleo duro de personagens: criminoso e vítima, e por vezes policiais, peritos e testemunhas. Acusação, defesa, juiz. Nos crimes célebres, há a imprensa
Em qualquer crime, há um núcleo duro de personagens: criminoso e vítima, e por vezes policiais, peritos e testemunhas. Acusação, defesa, juiz. Nos crimes célebres, há a imprensa FOTO: NILTON FUKUDA_ESTADÃO CONTEÚDO

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A câmera do sistema interno de segurança capta uma mulher jovem, magra e de cabelos descoloridos que puxa a porta do elevador, mantendo-a aberta com uma das três malas pesadas de viagem que traz consigo. Depois de empurrar as outras duas para dentro, ela entra e puxa a terceira, liberando a porta. A cena trivial foi exaustivamente exibida na televisão, e a probabilidade de que alguém, vivendo no Brasil neste começo de século, não saiba do que se trata é pequena. Conhecemos o conteúdo daquelas malas, quem é aquela mulher e por que, apesar de não ter traços orientais, seu sobrenome mais conhecido é de origem japonesa.

O assassinato de Marcos Matsunaga pela esposa Elize, em 19 de maio de 2012, um sábado, é um crime sem testemunhas. Sabe-se que ela voltara de viagem naquela tarde, depois de três dias visitando a avó doente na minúscula Chopinzinho, no Paraná, onde nasceu. Queria que a senhora conhecesse sua filhinha, Helena, que havia acabado de completar um ano. A babá, Mauricéia dos Santos, tinha ido junto. Marcos foi buscá-las no aeroporto, e, por imagens do sistema de segurança, sabemos que os quatro chegaram ao apartamento no final da tarde. Também por cenas gravadas sabemos que Mauricéia foi embora pouco depois, assim que, segundo relato próprio, deu banho na criança e a colocou no berço. Pela câmera interna, fomos informados de que o casal pediu uma pizza, que Marcos desceu sozinho para buscá-la, que estava irritado, pois chutou o elevador.

O que aconteceu entre essa imagem e aquela em que Elize Matsunaga entra no elevador carregando três malas só é do conhecimento de Elize. Como a ré é confessa, alguns pontos são pacíficos: houve tiro, houve esquartejamento. Na versão dela, Marcos chegou com a pizza, os dois sentaram para comer, começaram a discutir e ele lhe deu um tapa. Ato contínuo, ela foi até um móvel onde o casal guardava uma das várias armas que espalhavam pela casa por temerem ser reféns de algum sequestrador. O marido a seguiu, xingando-a, ameaçando tirar a guarda da filha. Ela atirou.

Ainda segundo o relato de Elize, ela arrastou o corpo do marido até o quarto de hóspedes e o deixou trancado durante a madrugada. Pensou em ligar para a polícia, para a tia que a criou, para a sogra. Mas não o fez. Não queria pagar pelo crime, não queria ficar longe da filha. Queria que o corpo sumisse. Na manhã do domingo, a babá folguista chegou. Enquanto a funcionária cuidava da criança, no 2º andar do duplex, Elize pegou uma faca e, ali mesmo, no chão do quarto de hóspedes, seccionou o corpo em sete partes: as duas pernas, na altura dos joelhos, o quadril, o peito, os dois braços e a cabeça. Acondicionou cada uma delas em sacos de lixo, que distribuiu por três malas. Limpou tudo com Veja e um pano de chão. O passo seguinte foi pegar o elevador – a primeira cena testemunhada após o crime. Testemunhada por todos nós.

A acusação, valendo-se de laudos de medicina legal e perícia criminal, produziu outras versões para o ocorrido. A mais reiterada é a de que Elize teria desferido o tiro de surpresa, assim que Marcos chegou com a pizza – e de que teria cortado seu pescoço quando ele ainda respirava.

Cada detalhe é esmiuçado e sopesado pela acusação e pela defesa, com o objetivo de pedir, respectivamente, o agravamento e o abrandamento da pena. E – apesar de a doutrina afirmar que o que está em julgamento “não é a pessoa, mas a conduta” – não só os acontecimentos da noite do crime são sujeitos a escrutínio. A vida pregressa do casal, suas relações interpessoais, gostos, manias, tudo é matéria para formação de juízo.

 

Em qualquer crime, há um núcleo duro de personagens indispensáveis: criminoso e vítima, e por vezes policiais, peritos e testemunhas, oculares ou não. Acusação, defesa, juiz. O Código Penal brasileiro, assim como o de vários países, entende que crimes contra a vida são graves demais para serem julgados apenas pelo magistrado. Nesses casos, convoca-se um corpo de jurados, pessoas comuns que – depois de lerem um resumo do processo, assistirem aos interrogatórios de testemunhas e réu e ouvirem os debates entre acusação e defesa – respondem a uma série de perguntas elaboradas pelo juiz que preside a sessão. Com base nessas respostas ele deliberará sobre a pena. No caso de um crime célebre, os jurados já chegam ao plenário sabendo mais do que deveriam e com o juízo parcialmente formado.

Crimes célebres marcam gerações e são identificados pelo nome do criminoso ou da vítima, ou mesmo do local onde ocorreram. Os mais velhos se lembram da Fera da Penha, da Pantera de Minas, do Crime da Rua Cuba. Quem lia os jornais ou via os noticiários na década de 90 acompanhou os depoimentos de Guilherme de Pádua e do Maníaco do Parque. Neste começo de século XXI, seguimos o desenlace dos processos contra Suzane von Richthofen, Alexandre Nardoni e Anna Carolina Jatobá. E contra Elize Matsunaga. Costuma-se dizer que a diferença entre o crime célebre e o comum está na conta bancária da vítima. Ainda que nisso exista um fundo de verdade, creditar o interesse popular apenas ao dinheiro é desmerecer o gosto das pessoas pelas tramas mórbidas.

No caso de crimes célebres, o trabalho dos advogados é tentar desqualificar o que saiu na imprensa. Antes de Elize Matsunaga ir a júri, já sabíamos que Marcos Matsunaga, a vítima, era diretor e herdeiro de uma grande empresa da área de alimentos fundada por seu avô, Yoshizo Kitano, cujas sílabas iniciais do nome e sobrenome formam “Yoki”. Que aquele não era seu primeiro casamento – fora casado com uma funcionária de uma das fábricas da família no Rio Grande do Sul, com quem teve uma filha. Que traiu a mulher com Elize, que conheceu num site de garotas de programa, o M.Class, no qual ela se apresentava como Kelly, uma loirinha carinhosa. Que os dois viveram como amantes por três anos antes de Marcos se separar e eles se casarem em comunhão parcial de bens. Que ele colecionava vinhos e armas, tinha uma jiboia de estimação chamada Gigi, gostava de caçar e as cabeças dos animais abatidos decoravam sua casa.

Da mesma forma, a opinião pública e, por conseguinte, os jurados já sabiam que Elize, a ré, Araújo em solteira, veio de uma família pobre no interior do Paraná e morava numa casa de madeira que nem banheiro tinha. Que aos 3 anos foi abandonada pelo pai, e a mãe se mudou para Curitiba para trabalhar como faxineira. Que, separada da mãe, ficou com os avós e a tia, a quem considera sua mãe de verdade. Que, aos 10 anos, reencontrou a mãe, que voltou da capital com um novo marido. Que foi abusada pelo padrasto e a mãe não acreditou. Que fugiu de casa aos 15 anos e, localizada, pediu para morar com a tia. A qual, três anos mais tarde, convenceu a sobrinha a fazer um curso técnico de enfermagem em Curitiba, pago por ela, a tia, com seu dinheiro contado. Que, depois de ter trabalhado por poucos meses como enfermeira, Elize quis ser advogada. Que, tendo tomado conhecimento que uma amiga pagava a faculdade com dinheiro da prostituição, seguiu seu exemplo. Que, por intermédio de uma aliciadora e junto com outras três garotas de programa, mudou-se para São Paulo. Que logo no primeiro mês conheceu Marcos, o qual se dispôs a pagar-lhe por um relacionamento exclusivo. Que os dois se apaixonaram e se casaram na Igreja Anglicana, cujos preceitos não rejeitam a união de divorciados. Que juraram começar a vida a partir dali, sem jamais contar como se conheceram. Que faziam tudo juntos – viagens, cursos de tiro, caçadas – e estavam se especializando em leilão de vinhos. Que ela fez tratamento para engravidar. Que depois que a filha nasceu o relacionamento não era mais o mesmo. E que Marcos a traía.

 

Luiz Carlos Lózio era funcionário de carreira da Yoki, onde trabalhava havia 23 de seus 49 anos. Homem de confiança do presidente da empresa, Mitsuo Matsunaga, não pensou duas vezes antes de atender o pedido pessoal do patrão na terça-feira, 22 de maio de 2012: acompanhar o filho caçula a uma delegacia para registrar o desaparecimento do primogênito. Como de costume, Lózio não fez muitas perguntas, supondo que se o chefe o encarregara de missão tão delicada era porque estava especialmente ocupado naquela semana. Depois de meses de negociações, seria fechada a venda da empresa para a gigante americana General Mills – dona de marcas como o sorvete Häagen-Dasz –, por 1,75 bilhão de reais.

O filho desaparecido costumava falar diariamente com a mãe. Misako Kitano, filha mais velha de um imigrante japonês que fizera fortuna no Brasil, nunca escondeu que Marcos era o predileto. Na manhã de segunda-feira, estranhando o silêncio desde o sábado, o casal telefonou para Elize, que disse que ele saíra na manhã anterior, de táxi, levando poucas peças de roupa e algo entre 15 e 20 mil reais em dinheiro. A nora adiantou que suspeitava o motivo do sumiço e convocou uma reunião para aquela noite, na casa dos sogros.

Na hora marcada, ela apareceu com um DVD que confirmava suas suspeitas: Marcos a vinha traindo. No vídeo, filmado por um detetive contratado por ela, o marido beijava uma morena de cabelos lisos em frente a um dos restaurantes preferidos do casal. O sogro Mitsuo, o cunhado Mauro e, sobretudo, a sogra se mostraram surpresos e solidários.

Por outro lado, a notícia do affaire trouxe alívio para a família. Como a venda da Yoki fora ventilada pela imprensa quando Marcos desapareceu, todos pensaram em sequestro. Tanto que Mitsuo Matsunaga já havia consultado o advogado da empresa, Braz Martins Neto, que pediu consultoria ao amigo Luiz Flávio D’Urso. “Põe a polícia já nisso”, disse o criminalista D’Urso.

Na manhã seguinte, ainda que mais tranquilo, o presidente da empresa pediu ao caçula que registrasse um boletim de ocorrência, mas preferia que ele não fosse sozinho: Mauro sofre de um caso grave de arritmia cardíaca, e aos 39 anos estava em fase de recuperação da segunda cirurgia. Dois anos mais jovem que Marcos, ele já não era tão próximo do irmão como na adolescência. Mais apegado ao pai e ao “chão da fábrica”, atuava como diretor industrial na sede da empresa, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo, enquanto Marcos administrava o setor de exportações no escritório em Pinheiros, bairro rico da capital.

Os irmãos eram diametralmente opostos, e àquela altura mal se conheciam. Mauro é tímido e tem a aparência frágil. Não bebe, não sai à noite, continua casado com a namorada da juventude. Não tinha ideia de que Marcos, além da adega estimada em 2 milhões de reais, tinha uma coleção de quase trinta armas, dentre as quais uma submetralhadora Thompson e uma pistola PPK. Não sabia da existência da jiboia, tampouco estava a par de seu apreço por garotas de programa. E, é claro, ignorava como ele conhecera Elize.

Para acompanhar o caçula, Mitsuo Matsunaga logo pensou em seu braço direito, Lózio – além de expedito e leal aos Matsunaga, tinha amigos na polícia. Mal recebeu a incumbência, o funcionário ligou para Valter Sérgio de Abreu, delegado e amigo de longa data que topou recebê-los naquela mesma manhã na sede do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, o DHPP. Embora o caso não fosse da sua alçada, Abreu fazia questão de apresentá-los ao delegado de Pessoas Desaparecidas, na Divisão Antissequestro, onde registraram o boletim de ocorrência.

 

Sempre que conhece um novo agente de segurança, o repórter Lucas Martins passa o número de seu celular e pede que ele o contate toda vez que souber de um caso. “A cobertura de crimes do Brasil Urgente é bem ampla, e é um interesse mútuo: os policiais também adoram aparecer no Datena”, contou, referindo-se ao programa vespertino de tevê com grande audiência em São Paulo. Quando nos encontramos, ele estava num intervalo de trabalho no café da Rede Bandeirantes, no bairro do Morumbi. Nascido em Santos, o repórter tem ares de surfista e, mesmo hoje, com quase dez anos de programa, não perdeu o entusiasmo de calouro. Em 2012, já com uma rede considerável de contatos, Martins recebeu o telefonema do guarda municipal Domingues, que tinha conhecido por acaso numa matéria sem grande repercussão perto de sua casa, em Cotia. E Domingues passou a contatá-lo sempre que um caso novo lhe parecia palpitante.

A oferta daquele 22 de maio não despertou grande interesse: uma perna dentro de um saco plástico encontrado nas imediações da Estrada dos Pires, em Caucaia do Alto. “Esquartejamentos geralmente têm relação com crime organizado, e o público do Brasil Urgente prefere casos com enredo de novela, envolvendo família, por exemplo”, explicou Martins. Mas Domingues insistiu: não lhe parecia obra do Primeiro Comando da Capital. A precisão no corte do joelho, as unhas bem-feitas e, principalmente, a pele alva levaram os guardas, num primeiro momento, a acreditar que se tratasse de um boneco. O argumento foi mais do que suficiente para despertar o faro de Lucas Martins. Quando chegou à delegacia, descobriu que junto da perna havia sido encontrado um saco plástico idêntico ao que embalara o membro decepado, com roupas que provavelmente pertenceram à vítima. O saco, apesar do azul comum, tinha uma fita vermelha para facilitar o fechamento. Não é exatamente raro, mas só costuma ser encontrado em redes de supermercado que atendem à população de maior poder aquisitivo. “O que me chamou a atenção foi uma calça da marca Diesel. Joguei no Google: custava mais de 600 reais!”, contou. “Pensei: esse cara tinha grana, essa história vai render.” Seu editor não pareceu tão convencido do potencial da notícia e deixou o vídeo dormir na gaveta.

Martins brigou “até não poder mais” para emplacar a pauta e sua empolgação acabou vencendo. No dia seguinte, quarta-feira, 23, quatro dias depois do crime, os telespectadores da Band viam a perna, eletronicamente desfocada para não chocar demais, enquanto a voz anasalada do repórter narrava: “Um quebra-cabeça macabro: pedaços de uma vida abandonados em estradas de terra em Cotia, na Grande São Paulo, formando um grande mistério.” Para dar a dimensão de que a vítima era rica, Martins descreveu as peças de roupa que estavam no saco plástico similar. Além da calça Diesel, listou: “A camiseta polo de manga comprida da Ralph Lauren também é cara, cerca de 300 reais no mercado formal. Cueca branca, nova, também de marca.” Conforme novas peças do corpo apareciam, os policiais contatavam Martins, e o repórter chegou a fazer uma segunda reportagem mais longa no dia seguinte.

 

Na manhã de quinta-feira, 24, a empresa da qual Marcos Matsunaga era um dos herdeiros foi vendida. A família não teve ânimo para comemorar. Embora se pudesse conjecturar que Marcos estivesse nos braços da amante, a hipótese de sequestro não fora descartada. Neste caso, a notícia da concretização do negócio bilionário seria a peça que faltava para os sequestradores se manifestarem.

Na sexta-feira, seis dias depois do crime, ainda sem pista do paradeiro do irmão mais velho, Mauro, acompanhado de Lózio, voltou ao DHPP. A investigação não tinha avançado.

Naquele mesmo dia, o diretor do mesmo DHPP, Jorge Carrasco, chamou o delegado Mauro Gomes Dias para avaliar um caso que, a despeito de não pertencer à comarca da cidade de São Paulo, lhe fora encaminhado pela Secretaria de Segurança Pública do estado, tendo em vista a potencial repercussão na imprensa. Partes de um corpo esquartejado vinham aparecendo em Cotia. Ao ver no computador do chefe fotos das pernas e do quadril da vítima, Dias arriscou: “Isso tá com cara de crime passional. E quem fez os cortes entende de anatomia.”

No dia seguinte, sábado, 26 de maio, uma semana depois do crime, Mauro Matsunaga e Luiz Carlos Lózio foram ao prédio em que Marcos morava, atrás de alguma pista no circuito interno de câmeras. Haviam chamado Paolo Boria, subordinado de Marcos no setor de exportações da Yoki, única pessoa com quem ele mantinha uma relação de amizade fora da empresa. Com os cabelos à altura dos ombros e sempre vestindo ternos bem cortados, Boria dividia com o patrão o gosto por vinhos e mulheres. Do trio, fora o último a conversar com o desaparecido, havia exatamente uma semana.

Boria sabia que, após uma fase monogâmica, o amigo tinha voltado a trair a Elize, cuja “cara feia” depois do nascimento da filha ele não aguentava mais. Por que sua mulher reclamava tanto, com dinheiro, babá e empregada à disposição? Marcos não compreendia, e por isso já tinha “ligado o foda-se”. Boria também sabia que, durante a ausência da mulher, em visita à avó no Paraná, o amigo tinha se sentido muito bem, fumando seus charutos à beira da piscina e saindo quando bem entendesse para encontrar a jovem amante. No sábado anterior, pouco antes de ir ao aeroporto, o executivo lhe mandou uma mensagem: “Vou lá pegar a louca.”

Elize Matsunaga foi gentil com as visitas, conseguindo que o subsíndico do prédio os autorizasse a ver as imagens das câmeras dos elevadores e da portaria. De início, eles se concentraram nas gravações entre nove e onze da manhã de domingo, faixa de horário em que Marcos teria saído de casa. Nenhum registro. Como ela pudesse estar se confundindo, eles foram empurrando as margens para mais e para menos, até que a fita correu por todo o domingo. Nada de Marcos. Viram, contudo, a babá chegar pela manhã e Elize descer com as três malas por volta de 11 horas – e voltar sem nenhuma delas, quase doze horas mais tarde. Ela disse ter ido entregar uma encomenda grande de vinhos.

Às tantas, o subsíndico, que acompanhava o visionamento, inconformado com a credulidade dos visitantes, desafiou: “A senhora tem que explicar por que a gente encontra as imagens da senhora e não as do seu marido!” Elize começou a chorar e o cunhado Mauro botou panos quentes. Haveria uma explicação, com certeza. Para diminuir a tensão, sugeriu que pedissem uma pizza. Já era tarde, estavam com fome e cansados.

Despediram-se do subsíndico e subiram ao apartamento. Lózio lembra que Elize, perturbada com as insinuações, passou o jantar em silêncio e acabou por explodir quando Paolo Boria elevou o tom de voz. O clima, que já não era de descontração, ficou insustentável. Lózio levou os pratos para a cozinha. Ao jogar os restos de pizza na lixeira, notou que o saco plástico, azul, como tantos, tinha um fitilho vermelho.

 

Na segunda-feira, dia 28 de maio, nove dias depois do crime, Lucas Martins entrava no ar com sua terceira matéria sobre o corpo esquartejado de Cotia. Logo no começo do Brasil Urgente, o repórter dizia que a cabeça havia sido encontrada e aparentemente a vítima tinha ascendência japonesa. Do estúdio, o apresentador José Luiz Datena esbravejou: “Crimes lamentáveis e horrendos, e a gente continua passando a mão na cabeça de bandido.”

Luiz Carlos Lózio telefonou para o delegado Valter de Abreu, aflito: tinha visto uma reportagem sobre um descendente de japoneses esquartejado em Cotia. O amigo falou com a delegada do município, que prontamente lhe remeteu por e-mail a foto da cabeça encontrada na véspera. Abreu chamou o amigo ao DHPP, para que ele e Mauro Matsunaga vissem a imagem.

Logo depois os dois chegaram. Lózio foi o primeiro a ver a fotografia e não teve dúvidas. A deterioração já manchava a pele, mas ele reconheceu de imediato as feições do filho mais velho do patrão. Disfarçando a convicção, direcionou a tela para Mauro. “O que você acha?”, ele perguntou. “Acho que não é ele”, respondeu o caçula, sacando da bolsa um iPad com uma foto do irmão. Seus olhos saltavam da tela do computador para o iPad. A foto daquela cabeça desfigurada sobre a mesa de inox não podia ser de Marcos, sorridente no retrato de divulgação da Yoki. “Não é ele, é? O que você acha?”, perguntava a Lózio, ao delegado e aos policiais que haviam entrado na sala. Ninguém ousou dizer o que todos pensavam. A dupla seguiu direto para o Instituto Médico Legal de Cotia.

De novo, Mauro não identificava a cabeça decepada à sua frente e tornou a pegar o iPad. Silêncio mais uma vez. “Acho que é o Marcos, Mauro. Noventa e nove por cento de chance”, disse Lózio, pesaroso. À medida que a incredulidade se transformava em desespero, Mauro pediu para ver as mãos do cadáver. “Meu irmão tem as unhas iguais às minhas”, explicou. O único braço que a diligência policial havia recuperado era a peça mais deteriorada de todas – fora encontrada na boca de um cachorro, cujo dono não pôde evitar que o animal comesse um pedaço da carne. O funcionário do IML perguntou se ele tinha mesmo certeza de que queria ser exposto ao membro desencorpado. Queria. E continuou em dúvida. Só ao ver os pés reconheceu que os destroços eram mesmo de seu irmão. Ao telefonar para o pai, catatônico, repetiu a expressão de Lózio: “Noventa e nove por cento de certeza.”

 

Naquela mesma segunda-feira, depois de pôr no ar a reportagem sobre o caso, Lucas Martins se dedicou a dar continuidade à apuração. Haviam se passado treze dias do crime. O programa era longo, ele esperava revelar a identidade do corpo ainda naquela tarde. Suas fontes na delegacia de Cotia garantiam que a vítima do esquartejamento fora identificada: era um dos herdeiros da Yoki. Um par de telefonemas depois, conseguiu o contato de Luiz Flávio D’Urso, que já começava a falar em nome da família. Antes do final do programa, o advogado confirmou a informação. Com um sorriso de orgulho, Lucas Martins contou que deu a notícia em primeira mão, ao vivo, com Datena. “Assim que a gente soltou, começaram a pipocar as notícias na Folha Online, no G1… todo mundo já estava com o texto pronto, só esperando a confirmação para dar enter. Mas a gente deu primeiro.”

Naquela tarde, Martins não foi o único a receber a informação dos funcionários da delegacia de Cotia. O delegado Mauro Gomes Dias, do DHPP, havia contatado o pessoal dias antes: acompanhava o caso a distância e queria ser avisado de qualquer novidade. Assim que soube da notícia, ordenou que a pessoa responsável pelo reconhecimento do corpo fosse prestar depoimento imediatamente. Mauro Matsunaga, sempre acompanhado de Lózio, voltou ao DHPP. Até o final da semana, seriam ouvidos em outras três ocasiões.

Na semana que se seguiu à identificação de Marcos Matsunaga, Dias se encarregou de interrogar todas as pessoas mencionadas pelo irmão da vítima e por Lózio. Para não perder tempo, mobilizou seus investigadores, enviando-os a Cotia, ao prédio da vítima, ao escritório do detetive contratado por Elize e ao hotel onde Marcos havia sido flagrado com a amante às vésperas de ser assassinado. Ao ouvir de Mauro que a cunhada trabalhara como enfermeira, o delegado encaminhou um ofício ao juiz de Cotia solicitando um mandado de busca e apreensão no apartamento do casal, bem como a quebra do sigilo telefônico da viúva.

Na manhã de segunda-feira, 4 de junho, já com o mandado em mãos, Dias acordou com uma bomba: uma reportagem da Folha de S.Paulo dizia que as investigações apontavam para um grupo de policiais militares que “fariam parte da escolta particular do empresário”. Era assinada por André Caramante, um dos mais experientes repórteres investigativos do país, especialmente atento ao trabalho da polícia. Se o crime já demandava atenção por ter vitimado um empresário, a urgência se redobrava agora, quando o caso começava a respingar na já combalida imagem da Polícia Militar paulista.

Com o mandado de busca e apreensão em mãos, o delegado telefonou para o Instituto de Criminalística (IC) e pediu para deixar de sobreaviso uma equipe de peritos. Também minutou um pedido de prisão temporária, a ser encaminhado ao Ministério Público e ao juiz de Cotia naquele mesmo dia, se necessário. Ao chegar ao apartamento de Elize Matsunaga, ele tentou de pronto arrancar uma confissão. Mostrou-lhe as imagens da câmera, disse que sabia de tudo, mas ela negou. Pediu que ela lhe trouxesse as roupas que vestia no domingo. Num dado momento ela saiu para acudir a criança, que chorava. Ele pediu à empregada um saco para guardar as vestimentas. A moça trouxe um, de plástico azul, com um fitilho vermelho. Quando Elize voltou, Dias, num gesto teatral, puxou a fita vermelha e fechou o saco. “Isso daqui não te lembra nada?”, perguntou à viúva. Outra negativa.

Então, pelo telefone, o delegado orientou um investigador a encaminhar o pedido de prisão temporária e em seguida solicitou a presença da perícia. Dias contou que, ao desligar, disse para Elize: “Agora acabou a amizade. Você é investigada.” Ela pediu para chamar seu advogado.

 

Elize Matsunaga é bacharel em direito pela Universidade Paulista, a Unip. Poucos dias antes de a polícia bater à sua porta, sentindo que o cerco se fechava, ela telefonou a seu professor de direito penal, Luciano Santoro. No primeiro encontro, a ex-aluna disse que o marido estava desaparecido, que a família dele, muito rica, já tinha acionado um advogado, e que ela queria alguém para orientá-la. O advogado a preveniu de que a polícia provavelmente empreenderia uma busca e apreensão em sua casa, e que até lá não havia muito a fazer. Ao se despedirem, Santoro prometeu acompanhá-la assim que os investigadores chegassem.

Na tarde em que Elize foi informada de que passara a ser suspeita, o ex-professor cumpriu a palavra e chegou ao apartamento da viúva antes mesmo dos peritos. O delegado Dias recebeu o jovem advogado – que à época do crime tinha 34 anos – como se fosse o dono da casa, e adiantou que o pedido de prisão temporária de sua cliente estava a caminho. Quando o advogado pediu para conversar em particular com Elize, o delegado os deixou à vontade pelo tempo que quiseram – mas não sem antes sugerir a ela que confessasse. “Você vai se sentir mais leve.”

A perícia demoraria um pouco – ainda era dia e o reagente luminol, que revela vestígios de sangue, só pode ser observado no escuro. Luciano Santoro e Elize Matsunaga conversaram por quase duas horas. Nesse meio-tempo, Dias apreendeu mais de trinta armas no apartamento do casal, além de acessórios e munições. Quando a equipe do IC tocou a campainha, o delegado tinha uma ideia de por onde começar: a banheira do casal. Lembrou-se do cirurgião plástico Farah Jorge Farah, que em 2003 havia esquartejado uma paciente na banheira. “A investigação é uma ciência cumulativa, você reassocia casos semelhantes”, explicaria mais tarde. Elize saiu da conversa com o advogado mantendo a versão de que não sabia de nada, e os dois acompanharam a perícia. Quase todo o luminol foi gasto só no andar de cima do duplex, sem resultado. Nenhum vestígio na banheira, nada no quarto do casal.

Quando o dia começava a clarear, Elize Matsunaga foi encaminhada à penitenciária de Itapevi. Mauro Gomes Dias disse ter dormido não mais do que “duas horinhas” antes de voltar para o DHPP. O juiz de Cotia concedera apenas cinco dos trinta dias de prisão preventiva que ele havia solicitado. O tempo era escasso. Na terça-feira, Dias interrogou a tia de Elize, Roseli de Araújo, que viera do Paraná, e também a babá folguista. O delegado ainda enviou um investigador à operadora de celular da viúva, com o mandado de quebra de sigilo em regime de urgência. “Eles estavam vendo o caso na imprensa, todo mundo colaborou”, contou. Quando recebeu, no mesmo dia, o registro das coordenadas dos telefonemas no domingo, 20 de maio, o delegado comemorou: elas batiam com os locais em que as partes do corpo haviam sido encontradas: “Ela ligava o tempo todo para a babá querendo saber da filha.” Antes de ir para casa, enviou a Itapevi o pedido de encaminhamento de Elize para ser ouvida no dia seguinte.

Na tarde daquela terça-feira, quase vinte dias depois do crime, as partes do corpo de Marcos Matsunaga encontradas em Cotia – o braço direito nunca apareceu – foram enterradas no Cemitério São Paulo, em Pinheiros. Para evitar o assédio dos repórteres, quase nenhum parente compareceu. Só o pai, Mitsuo, e o irmão, Mauro, acompanhados do advogado, Luiz Flávio D’Urso, que desde o dia 1º de junho assumira o papel de porta-voz da família. Na mesma data, D’Urso estabeleceu oito advogados associados de seu escritório – três deles seus filhos – para pedirem vistas e cópias do processo sempre que achassem necessário.

Na manhã de quarta-feira, 6 de junho, o advogado Luciano Santoro teve pela primeira vez a dimensão do caso que lhe caíra no colo. Ao chegar com a cliente ao DHPP atravessou uma excitada massa de jornalistas e tamanho foi o empurra-empurra que acabou por quebrar a catraca de acesso. O delegado os recebeu empunhando o mapa dos telefonemas sobreposto ao do descarte do corpo. Permitiu que conversassem a sós, e repetiu o conselho a Elize: “Você pode guardar isso dentro de você, e pode te fazer um mal maior.” Pouco tempo depois, Santoro foi procurá-lo fora da sala. “Ela vai confessar.” Dias fez questão de gravar o depoimento em vídeo: “Senão, depois vem a mídia aqui dizer que ela confessou sob tortura”, explicou.

O delegado solicitou ao IC a reprodução simulada dos fatos (novo termo para a “reconstituição do crime”). Enquanto isso, o diretor-geral do DHPP, Jorge Carrasco, convocou uma coletiva de imprensa em que vaticinou: “Ventilou-se que a escolta do casal era suspeita de participar do crime, mas isso não procede, pois marido e mulher não tinham segurança pessoal.” Um débito a menos na conta da PM.

 

Mauro Gomes Dias e Luciano Santoro acompanharam a reprodução simulada. No vídeo, filmado pelo IC, o advogado e o delegado aparecem conversando numa sala de fundo, enquanto Elize interpreta a si mesma na noite do crime, com um policial no papel de Marcos. O perito Ricardo Salada dirige a cena seguindo à risca o script da confissão que ela fizera no DHPP. No momento em que Elize aponta um simulacro de arma de madeira em direção ao policial/Marcos, Salada pergunta: “Você via ódio nos olhos dele?”, e, diante da afirmativa dela, insiste: “Porque, pra mim, se um japonês tá bravo ou tá dormindo, eu não sei diferenciar.”

Logo que reconstituíram a cena do tiro, o policial foi substituído por um boneco. Quando o deitaram no chão, o perito quis saber se a cabeça de Marcos teria caído sobre um tapete, no fim do corredor. Elize disse que não – portanto, a vítima provavelmente estava mais perto dela do que a reencenação sugerira. “Um pouco mais pra frente, um pouco mais pra trás, não faz diferença”, disse Salada, relevando a importância da distância entre Marcos e Elize – distância esta que seria causa de enorme controvérsia durante o processo. Em tese, quanto menor a distância do tiro, menor a possibilidade de defesa da vítima. Na sequência, o luminol cumpriu a sua função e denunciou vestígios de sangue ao longo de todo o trajeto descrito por Elize, mesmo depois da primeira limpeza feita por ela, e de dezoito dias consecutivos de faxina cotidiana efetuada pela empregada.

Elize Matsunaga pediu para não ser filmada encenando o esquartejamento do marido: alegou que não queria que, anos mais tarde, o filme pudesse ser visto por sua filha. O relatório técnico do IC e as fotos anexadas ao processo sugerem que detalhes com respeito à metodologia das secções não foram considerados: Elize aparece em pé, com um protótipo de faca também de madeira em mãos, indicando onde teria cortado.

Durante o processo, muito se falou a respeito da precisão dos cortes. Os dos joelhos pareciam ter sido feitos por um cirurgião; o do abdome demandava grande conhecimento de anatomia, uma vez que preservou os órgãos; por outro lado, os dos ombros e o do pescoço eram menos cirúrgicos e poderiam ter sido obra de um amador ou de alguém extremamente cansado.

A negligência da polícia quanto aos aspectos do esquartejamento deu margem a muita especulação. Em que ordem Elize cortou? Qual o instrumento de corte? Uma faca de cerâmica, que conservaria o fio por mais tempo? A serra elétrica que ela comprara pouco antes, na viagem ao Paraná, sob o argumento de que seria útil para abrir caixas de vinhos? E, sobretudo: como ela teria aprendido a cortar tão bem? No cursinho técnico de enfermagem? O relato incompleto de Elize culminaria na suspeita, por parte da acusação, de que haveria um terceiro elemento. Como as câmeras do elevador, analisadas à exaustão, não denunciaram a entrada de algum suposto cúmplice, chegou-se a cogitar que algum médico, morador do prédio, tivesse sido seu comparsa.

É curioso que, durante o período do inquérito, o fator talvez mais chocante aos olhos da opinião pública tenha recebido tão pouca atenção. Se Elize tivesse dado um tiro em Marcos e pronto, é pouco provável que a história repercutisse tanto. Mas, aos olhos da polícia e da Justiça, o esquartejamento é um delito menor: a pena prevista em lei para o crime de destruição e ocultação de cadáver é de um a três anos de reclusão. Uma vez resolvida a autoria do crime principal, o crime conexo já não parecia importar tanto. A parte da ocultação nem foi reencenada pela ré. A polícia tinha pressa.

 

Ainda na quarta-feira, 6 de junho, foi anexado ao inquérito o laudo do legista Jorge Pereira de Oliveira, com o resultado da necropsia efetuada no Instituto Médico Legal de Cotia. À época vice-diretor do IML de São Paulo, Oliveira, hoje com 71 anos, aposentado compulsoriamente há três, deve ter examinado mais de 5 mil cadáveres em tantos anos de profissão, mas até então seu trabalho jamais despertara tamanho interesse.

Quando a primeira perna de Marcos Matsunaga chegou às suas mãos, Oliveira não teria como saber se o restante do corpo seria encontrado e, portanto, assinou um laudo atestando causa mortis desconhecida. Procedeu da mesma forma com as partes subsequentes – quadril, braço esquerdo e segunda perna –, incluindo adendos ao laudo inicial. Quando se encontrou o peito, o legista observou vestígios de material hematoide nos pulmões da vítima e, considerando que o pescoço havia sido cortado, cravou: asfixia por aspiração de sangue. Dias mais tarde, quando a cabeça apareceu, Oliveira notou o orifício por onde havia entrado a bala disparada por Elize e fez um último adendo ao laudo, que incluía uma segunda causa mortis: traumatismo cranioencefálico por agente perfurocontundente. No caso, um tiro.

Sem muitos recursos na unidade do instituto, o legista procedeu com o material de que dispunha. A olho nu, identificou ao redor da marca do tiro uma “zona de tatuagem” – a marca de pólvora com penetração subcutânea verificada em disparos a curta distância. Muitas vezes o indício pode ser confundido com a “falsa tatuagem”, que não passa da epiderme e sinaliza um disparo a média distância. A distância exata, porém, só poderia ser atestada por meio de um exame microscópico das camadas da pele atingida, que não foi solicitado.

Para verificar o trajeto da bala, o legista empregou o “estilete” – técnica que consiste em enfiar um palito no orifício provocado pelo projétil –, e concluiu que o tiro fora disparado da esquerda para a direita, de frente para trás, e de cima para baixo. Isso poderia significar que Marcos estivesse sentado, ajoelhado, deitado (leia-se: subjugado) ou de cabeça baixa, numa reação instintiva de defesa. O método, que se fia na crença de que o túnel escavado pela bala se mantém intacto, é criticado há pelo menos trinta anos por pesquisadores que sustentam que as carnes se reacomodam na sequência do tiro. A alternativa seria um raio X, mas o aparelho se encontrava em manutenção e não ocorreu ao médico solicitar a transferência do corpo para outra unidade.

 

O promotor de Justiça José Carlos Cosenzo é um homem pequeno e careca, com uma voz que lembra os dubladores do seriado mexicano Chaves. Corintiano roxo, sua leitura dos jornais privilegia os esportes. Numa tarde de 2014, em sua sala no Ministério Público, contou que não sabia quase nada do caso Matsunaga até lhe ser atribuído. Pouco menos de uma semana antes de expirado o segundo prazo da prisão temporária de Elize, Cosenzo saía de uma aula de especialização na Fundação Getulio Vargas – de que era aluno – quando foi surpreendido pelos repórteres. Ao ser transferido de Cotia para São Paulo, o caso fora para a 5ª Vara do Júri e, na distribuição, coube a ele dar início ao processo.

“Eu sabia o pouco que tinha visto na televisão, na qual ela vendeu aquela imagem de mulher sofrida, vítima da história”, disse o promotor. Sua perspectiva mudou completamente ao ler, no laudo necroscópico, que uma das causas da morte era asfixia por aspiração de sangue. “Ela o degolou vivo!”, exclamou, de olhos arregalados. Ao telefonar para sua mãe para contar que seria o promotor do caso, recebeu um pito: “Você que vai acusar aquela coitada, eu vi na televisão que o japonês judiava dela!” Esse telefonema foi crucial para a elaboração da denúncia que ele ofereceria ao juiz dentro de três dias: “Eu podia ter feito uma denúncia de duas páginas, mas preferi fazer uma de 27. Eu ia tirar essa carapuça de pessoa sofrida dela.”

O promotor abre a denúncia dizendo que se trata de “um dos crimes de maior repercussão na história desta terra, não só pelo status social da vítima […], mas pelo requinte de crueldade, nunca experimentado, sequer pelos legistas”. Elize é descrita como “pessoa dissimulada”, “antiga garota de programa”, que agiu “de forma vil, ignóbil, nojenta, repugnante”, e “retalhou o corpo como se estivesse na faina diária de açougueiro”. Por fim, “era o tempo passar, não ser incriminada e ficar rica, com a filha. Dançou!”. A estratégia surtiu efeito. Por volta das 21 horas daquela terça-feira, Cosenzo recebeu um telefonema da mãe: “Desculpa, meu filho, você tinha razão. Eu ouvi o William Bonner falando que ela matou porque queria o dinheiro dele!”, lembrou o promotor com uma risada.

A denúncia de Cosenzo propõe a ação penal por “homicídio doloso triplamente qualificado, pelo motivo torpe, recurso que impossibilitou a defesa do ofendido, e meio cruel, além da destruição e ocultação do cadáver”. Enquanto a primeira qualificadora, “de motivo torpe”, foi embasada na retórica – além do pavor de perder a riqueza do marido, Elize teria agido por vingança –, as outras duas, mais técnicas, são baseadas nos laudos do legista e do perito: o tiro próximo impossibilitaria a defesa de Marcos, e a asfixia seria a fundamentação do meio cruel.

Pouco antes de José Carlos Cosenzo oferecer a denúncia ao juiz, D’Urso, formalmente assistente de acusação, já começara a mostrar seu poder de fogo. No dia 14 de junho, o vespertino Cidade Alerta, da Record, concorrente do Brasil Urgente, da Band, apresentou uma “reviravolta no caso Yoki”. O apresentador Marcelo Rezende anunciou: “Eu vou fazer o seguinte: em vez de falar, vou colocar o presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, seção São Paulo, e um dos maiores criminalistas do país, Luiz Flávio D’Urso, que é meu amigo, no ar, para ele explicar como Elize matou Marcos.” Rezende só esclareceu que D’Urso era advogado da família Matsunaga depois que o advogado discorreu sobre como a vítima teria sido degolada ainda viva. Foram seis minutos que abriram caminho para a denúncia-bomba de Cosenzo.

 

Luciano Santoro, o advogado de Elize Matsunaga, esperava defendê-la do crime de homicídio simples e ficou surpreso com o pedido das três qualificadoras. “A gente tem que reconhecer quando não é bom o suficiente em determinada matéria, que é o meu caso com a perícia”, disse, numa tarde de novembro do ano passado, no escritório que divide com a mulher nos Jardins. Santoro afirma não ser “um advogado de júri”, tendo direcionado a carreira para o ensino e a academia – está em fase de conclusão do doutorado na Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

Ao dar uma entrevista para Antonio Carlos Prado, editor executivo da revista IstoÉ, Santoro soube que o entrevistador poderia apresentá-lo a Roselle Soglio, advogada que compusera a defesa do casal Nardoni, acusado da morte da menina Isabella. Além de especialista em lidar com perícia criminal, Soglio estava calejada no trato com a imprensa, habilidade que Santoro ainda precisava desenvolver. (Dias antes, convidado a participar de A Tarde é Sua, programa apresentado ao vivo pela jornalista Sônia Abrão, ele tomou conhecimento, já nos estúdios da Redetv!, de que dividiria o sofá com um pai de santo que alegava ter sido consultado por Elize pouco antes do crime. Saiu de lá correndo, o que lhe valeu críticas de Abrão durante todo o programa.)

Antes de fechar com Roselle Soglio, Santoro ouviu muitos advogados que vieram lhe propor parceria. “Havia os que vinham dar conselho de como defender, outros que queriam falar direto com a Elize, para me passar a perna. Até um que dizia ter sido enviado pelo pai dela, que já tinha morrido!”, contou. Mais do que pela experiência de Soglio, ele acabou por escolhê-la ao se dar conta de que ambos estavam alinhados quanto à estratégia de defesa. Enquanto Santoro cuidaria de reforçar a imagem de Elize como boa esposa e mãe, alguém que cometera um crime num ato impensado depois de provocada pelo marido, Soglio se encarregaria de desmontar as qualificadoras técnicas.

Apesar de gratos ao editor da IstoÉ pela ponte que ele estabeleceu, os dois dizem não ter mais contato com o jornalista. Segundo Santoro, Prado teria se irritado quando ele cedeu um material inédito a outro veículo, e parou de ouvi-lo, dando espaço apenas para as declarações da promotoria.

Nenhum dos dois advogados quis entrar em detalhes quanto aos honorários na defesa de Elize Matsunaga. Não negam que a atuação na causa lhes tenha conferido visibilidade e que a exposição na imprensa opere como uma vitrine, mas sugeriram que a ré tem, sim, como pagar, pelo menos parte do serviço. “Ela possui bens, ganhava o dinheiro dela como leiloeira. Tem muitos vinhos”, disse Roselle Soglio numa tarde de novembro.

A especialidade de Soglio são crimes econômicos e acidentes de trânsito. Assim como Santoro, ela não se vê como uma advogada de júri – na sua conta mais recente, não esteve mais de dez vezes diante de um conselho de sentença. Com os casos Isabella e Elize, no entanto, seu nome ganhou projeção. Em setembro de 2013, ela foi entrevistada por Jô Soares, que não resistiu à piada sobre a cliente que fez “picadinho do marido”.

Pouco antes da entrevista, os advogados de Elize Matsunaga haviam entrado com um pedido de exumação do corpo, alegando problemas no laudo necroscópico. Um novo exame pericial, mesmo passado quase um ano, poderia reverter algumas conclusões – ou, pelo menos, plantar dúvidas – sobretudo quanto à distância do tiro e à possibilidade de Marcos ter sobrevivido a ele. O juiz deferiu o pedido e acompanhou o processo de perto, bem como Roselle Soglio e José Carlos Cosenzo. Além do diretor do IML, dois outros legistas participaram – um, assistente técnico da defesa; outro, da acusação.

Entusiasta da medicina legal, Soglio não se abala com as rotinas da prática. Já Cosenzo passou mal no necrotério, lembrou a advogada, às gargalhadas. “Fiquei muito impressionado. Mas o pior é o cheiro! Cheguei a cortar os pelos do nariz com uma tesourinha. Parecia entranhado”, disse o promotor. “Não sou como certas pessoas que têm amor à coisa”, alfinetou.

Há algo de infantil no modo como os dois se provocam. E também certa dose de teatro. Aos gritos, o promotor é capaz de chamá-la de “chata” em meio a uma audiência. Por sua vez, ela zomba da baixa estatura dele. Faltando mais de um ano para o julgamento, Cosenzo pediu, em tom galhofeiro, que ela não aparecesse no plenário de salto, para não humilhá-lo – Soglio mede 1,75 metro. “Vou cada dia com um Louboutin diferente. E o senhor só vai ver o meu solado vermelho passar para lá e para cá”, devolveu. Mais tarde, ela justificaria: “Com aquela toga cobrindo a roupa toda, a gente tem que caprichar nos acessórios e nos sapatos.”

O resultado da exumação foi inconclusivo. Enquanto o laudo técnico da acusação endossava o necroscópico, o da defesa sustentava que o tiro fora dado a “média distância” e que Marcos teve morte instantânea. Baseada neste último laudo, a defesa tentou, diversas vezes, excluir do processo o resultado da necropsia de Jorge Pereira de Oliveira, aquela que determinava que ele fora asfixiado. O juiz indeferiu: os jurados deveriam ter acesso a todos os estudos.

 

Nos quatro anos e meio que separaram o crime de seu julgamento, o nome de Elize Matsunaga não ficou muito tempo longe dos holofotes. Uma das razões foi a insistência de José Carlos Cosenzo em tentar provar que ela teria tido um cúmplice. Em fevereiro de 2014, foi aberto novo inquérito para procurar o possível comparsa. Por conta própria e sem a ré, Cosenzo resolveu encenar o trecho que a reprodução simulada dispensou, ou seja, a distribuição dos sacos de lixo. Mobilizou doze viaturas policiais – e, claro, convocou a imprensa – para percorrer a Estrada dos Pires, em Cotia, à procura de indícios que provassem que a ré não poderia ter se livrado do corpo sem a ajuda de alguém. Esse inquérito continua aberto.

Em outubro do mesmo ano, a Folha de S.Paulo publicou uma reportagem, assinada por Rogério Pagnan, dizendo que Suzane von Richthofen se casara na cadeia com Sandra Regina Gomes, que, por sua vez, já tinha sido casada com Elize Matsunaga. Suzane seria o pivô da separação pouco amigável. O enredo novelesco rendeu comparações com a série americana Orange Is the New Black e inspirou uma série de memes na internet. Mais tarde, em entrevista que marcou a estreia do programa de Gugu Liberato na Record, Suzane e Sandra confirmaram a apuração de Pagnan. Os advogados de Elize rebateram que, “embora não tenha nada contra relações homoafetivas”, sua cliente nega envolvimento com Sandra ou qualquer outra interna.

No final de setembro deste ano, o juiz Adilson Paukoski Simoni marcou o julgamento de Elize Matsunaga para dali a dois meses, na segunda-feira, 28 de novembro. O agendamento do júri, bem como a estimativa de que o processo duraria ao menos cinco dias, foi amplamente divulgado. Os jurados convocados receberam a recomendação de levar algumas mudas de roupa, já que, assim como as testemunhas, eles devem permanecer incomunicáveis e, por isso, passam as noites em dormitórios no próprio fórum.

 

Às oito da manhã do dia 28 de novembro, mais de 100 pessoas faziam fila na frente da portaria do Fórum Criminal Mário Guimarães, na Barra Funda. No entanto, à diferença dos júris de Suzane von Richthofen e do casal Nardoni, não eram curiosos nem se organizavam em torcidas a favor ou contra a ré. O público, em traje social, muitas vezes com um Código Penal embaixo do braço, era composto basicamente por estudantes de direito que, por conta própria ou indicação de professores, queriam acompanhar o julgamento.

Enquanto isso, equipes de todas as redes abertas de televisão já tinham se instalado no estacionamento do fórum e aguardavam os advogados para as primeiras coletivas. A equipe da Globo era a mais numerosa, com mais de dez componentes, entre produtores, repórteres e câmeras. Famoso por reportar a nata das notícias, o jornalista José Roberto Burnier foi o último a chegar, frustrando os outros repórteres da emissora que ambicionavam ir ao ar.

Já no credenciamento, os produtores tentavam negociar a transmissão ao vivo de pelo menos parte do julgamento. “A gente faz um pool de emissoras, como no caso do assassino da Mércia Nakashima”, argumentava um profissional da Globo, referindo-se a outro crime famoso. Propunha que uma única câmera captasse as imagens e as distribuísse para toda a imprensa. A assessoria do Fórum prometeu levar a solicitação ao juiz.

Antes da sessão, fotógrafos e cinegrafistas puderam registrar algumas imagens de Elize e do corpo jurídico. Com os cabelos mais longos e escuros presos num rabo de cavalo, a ré se mostrava envelhecida, acuada, de cabeça baixa. A despeito de protestos do promotor José Carlos Cosenzo, o juiz a liberou do uso de algemas e do uniforme de presidiária. Roselle Soglio levou sapatilhas pretas e um terninho comprado especialmente para a ocasião: “Ela engordou no Tremembé, não dava pra trazer a roupa dela”, contou mais tarde a advogada. Pouco tempo depois de divulgadas as fotos, já se liam no Twitter comentários de como a ré estava “acabada”, ou tinha engordado.

A plenária 10, a maior sala do complexo, tem capacidade para acomodar 270 pessoas na plateia em forma de semiarena, dividida em três grandes blocos. O da direita, posicionado bem em frente aos sete jurados, é reservado à imprensa e aos funcionários do tribunal; os outros dois são liberados para o público – à exceção das primeiras fileiras, destinadas a assistentes e convidados da acusação e da defesa, respectivamente ao centro e à esquerda.

Na fileira da defesa de Elize havia alguns estagiários de Roselle Soglio e Luciano Santoro, e só. O único familiar da ré, a tia Roseli, era testemunha e ficou em isolamento – assim como o irmão da vítima, Mauro. Corria o boato de que a família Matsunaga estaria acompanhando no exterior. A fileira central, no entanto, parecia a área vip da plenária: era lá que, quando iam, se acomodavam a esposa do juiz e a filha do promotor. Quem compareceu em peso, diariamente, foi a família D’Urso – além de, muito à vontade entre eles, sorridente e bem-vestido como um dândi moderno, Paolo Boria, o amigo de Marcos.

Na noite daquela segunda-feira, o acidente com o avião da Chapecoense alterou a cobertura do caso. Na manhã seguinte, as equipes de vários canais amanheceram reduzidas. José Roberto Burnier foi enviado a Chapecó. Valmir Salaro, repórter especial do Fantástico, foi acompanhar o caso que vinha cobrindo desde o início, embora não contasse encaixar uma reportagem no domingo. O programa provavelmente seria todo dedicado à tragédia aérea – como de fato ocorreu.

Além da tia de Elize e do irmão de Marcos, revezaram-se, no banco das testemunhas, personagens de maior ou menor importância na trama: dois amigos de faculdade da ré, as babás, a empregada e Luiz Carlos Lózio. Também testemunharam membros da equipe de investigação, como o legista Jorge Pereira de Oliveira e os outros dois que participaram da exumação do corpo – um deles, Sami El Jundi, representando a defesa, falou ao longo de onze horas e meia, expondo teses cientificamente convincentes e sob medida para a versão de que o tiro fora dado a longa distância e o corpo só fora seccionado horas depois.

Sempre que um técnico se sentava em frente ao juiz, a promotoria pedia que se projetassem imagens do corpo esquartejado. No primeiro dia, uma jurada passou mal e o juiz permitiu que ela saísse para usar o banheiro. No decorrer da semana, as fotos se tornariam corriqueiras e ninguém mais parecia se abalar – muitos dos presentes, temerosos de perder o lugar, faziam um lanchinho lá dentro mesmo, assistindo às imagens da necropsia ou da exumação.

Alguns estudantes de direito, mais empreendedores, davam um jeito de passar um cartão ou um bilhetinho com sugestão de argumento para alguém da acusação ou da defesa, na esperança de conseguir um estágio.

Uma estudante de letras, porém, não parecia interessada na performance do corpo jurídico. Fundadora da “Comunidade de Apoio a Elize Matsunaga” no Facebook, ela pediu para ter sua identidade preservada para não indispor a ré (com quem já chegara a trocar um par de cartas). Criada em setembro de 2012, a comunidade reúne 219 pessoas e praticamente todas as postagens, com menos de dez curtidas cada, são produzidas pela própria página. Em geral são fotos reproduzidas da imprensa, com algum recado motivacional, como “Siga em frente sempre, Elize”. A estudante, que conseguira dispensa do trabalho para acompanhar o julgamento, se diz feminista e considera a ré uma vítima da violência doméstica, que acabou por reagir.

Depois de seis horas de fila, a moderadora da comunidade entrou no plenário. Inquieta, tentava se aproximar da ré, mudando de lugar assim que alguém se levantava. “Não aguento mais ver ela sofrer”, disse pouco antes de sair para não perder o último ônibus. Mais tarde, mandou uma mensagem por WhatsApp: “Achei que ela ficou ainda mais bonita.”

 

No domingo, teve início o interrogatório de Elize Matsunaga, momento mais aguardado do julgamento. Depois de passar a semana cabisbaixa ouvindo sua vida ser esmiuçada pela defesa e pela acusação, a ré se mostrava ainda mais derrotada ao sentar em frente ao juiz. Sua voz, marcada pelo sotaque interiorano, saía fraca; quando gesticulava, suas mãos pareciam pequenas para as ações que dizia ter realizado sozinha. Algumas das falas soavam ensaiadas, como “Eu o amava” ou “Fui uma tola”. Uma das poucas novidades que vieram à tona foi a experiência com dissecação de animais, que ela e a vítima caçavam por esporte, dentro e fora do Brasil. “Porcos-do-mato, antílopes, catetos, alguns veados”, ela enumerou. Ficou subentendido que, mais do que o curso de enfermagem, essa prática a teria capacitado para esquartejar o marido.

No final da tarde do domingo, no sétimo dia do julgamento, começaram os debates entre acusação e defesa. Cosenzo e D’Urso foram contundentes em reforçar as qualificadoras e desmerecer o laudo do dr. Sami El Jundi, contratado pela defesa. Luciano Santoro, dizendo não ter a experiência do promotor nem a eloquência do assistente de acusação, preparara uma apresentação de slides para ilustrar sua sustentação oral: retratos de infância de Elize e Marcos se contrapunham a fotos de bancos de imagens de mulheres vítimas de violência doméstica.

Quando chegou a vez de Roselle Soglio, a advogada quase escorregou de ansiedade com seu Louboutin. Era o momento de exibir o ás que trazia na manga: um vídeo de animação reproduzindo a briga do casal no sábado fatídico. Uma semana antes do julgamento e com a condição de não revelar sua identidade, Soglio permitira que eu conversasse brevemente com o coordenador do projeto, à frente de uma equipe de onze pessoas. Matemático de formação e professor na área de inteligência artificial, ele contou ter no currículo parte da programação do primeiro filme da série Shrek, da Dream-Works, e que era especialista em mensagens subliminares. Reproduzido continuamente enquanto a advogada falava, o vídeo de menos de 1 minuto parte da discussão durante o jantar e vai até o tiro. A animação enfatiza as expressões faciais e corporais de Elize e Marcos: enquanto ele parece tomado pelo ódio e gesticula violentamente, ela age como se estivesse encurralada – e, quando atira, seu olhar é de terror.

A réplica e a tréplica lembravam um teatro de vaudeville. “Machista!”, gritava Roselle Soglio, referindo-se ao promotor que carregava nas tintas morais ao descrever a vida da ré. “Chata!”, devolvia o acusado, aos brados. O juiz parecia cansado e não interrompia o bate-boca. Ao tomar a palavra, Luciano Santoro disse, calmamente: “Dr. Cosenzo, eu tinha decidido ficar quieto, mas não resisti. Sabe quem o senhor me lembra? O personagem do filme Um Dia de Fúria, vivido pelo Michael Keaton.” “Michael Douglas! Por favor!”, rebateu o promotor, indignado. Uma gargalhada coletiva percorreu o plenário – só Elize não reagiu, mantendo-se cabisbaixa, as mãos sobre as pernas.

Ao final da tréplica, às 23 horas do domingo, jurados e corpo jurídico se reuniram. O público foi convidado a voltar ao plenário à 1h50 da madrugada. Nesse intervalo, na sala de imprensa, jornalistas dividiam petiscos e organizavam um bolão sobre a sentença – comovidos, vários cogitaram a pena de homicídio simples: seis anos, que subiriam para sete ou oito com o crime conexo de destruição e ocultação de cadáver. Alguns já bocejavam quando uma repórter lembrou que este era o último dos “crimes famosos” a ir a julgamento. A enumeração foi quase em tom de melancolia: Suzane von Richthofen, Gil Rugai, casal Nardoni… “Precisamos bombar um crime novo!”, ela propôs, com o apoio geral.

Na volta ao plenário, Elize Matsunaga aguardava a sentença já de uniforme de presidiária: camiseta branca, calça cáqui e chinelo de dedo. O juiz Simoni saudou todos os funcionários do tribunal, além de sua esposa, e ainda quis fazer dois registros: no primeiro, em referência ao Projeto de Lei nº 280 – De autoria de Renan Calheiros e relatado por Roberto Requião, que ampliaria o conceito de abuso de autoridade –, disse que “vivemos em épocas difíceis”, em que se tenta “amordaçar julgadores”; no segundo, em homenagem aos jogadores da Chapecoense, disse “lamentar a queda do avião”.

Só então revelou que os jurados afastaram duas das qualificadoras – motivo torpe e meio cruel. Enquanto a defesa não disfarçava a euforia, a acusação baixava a cabeça. Em sua sentença, o juiz deixou transparecer a pouca empatia em relação à ré: ela tivera “uma vida de princesa”, “nababesca”, ao lado do marido. Deu a sentença mais grave que poderia dar a partir das respostas dos jurados: dezoito anos e nove meses pelo crime de homicídio, e mais um ano, dois meses e um dia por destruição e ocultação de cadáver. Eram 2h10 quando os jornalistas mais resistentes deixaram o plenário. “O Fantástico já era”, disse uma produtora da Globo para Valmir Salaro. O programa acabara havia horas, não fora possível fazer nem uma inserção ao vivo. No domingo seguinte, a notícia seria velha. O veterano deu de ombros.

Fazia um frio incomum para dezembro do lado de fora quando acusação e defesa subiram para as últimas coletivas. Tremendo, mas sem abrir mão de aparecer na televisão com seu vestido Carolina Herrera vermelho, Roselle Soglio disse que a defesa recorreria da pena. Só o SBT deu a entrevista ao vivo.

Paula Scarpin

Paula Scarpin é repórter da revista desde 2007 e diretora dos podcasts da Rádio Piauí.

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