esquina

Um guarda-chuva na selva

Se o seu plano é descobrir uma nova espécie de pássaros, fale com o Jorge

José Roberto de Toledo
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2007

O guarda-chuva com uma das hastes entortadas tenta proteger do aguaceiro amazônico dois apetrechos estranhos ao cenário de mata cerrada: um gravador Sony TCM 5000-EV e uma luneta Kowa de 60 milímetros. Quem os carrega é uma figura miúda, de roupa camuflada e faca de caça no coldre. Jorge Lopes é um dos cinco guias profissionais do Cristalino Jungle Lodge. A clientela do hotel de selva tem poucos turistas e muitos pesquisadores. Em 2006, recebeu 560 estrangeiros. Eles viajam horas e horas de avião, de veículo 4 x 4 e finalmente de barco para chegar à Reserva Particular do Patrimônio Natural do Cristalino, no norte de Mato Grosso. Tudo para examinar aves exuberantes em seu habitat natural.

Nas bordas da Amazônia, a bacia do rio Cristalino está numa das poucas áreas remanescentes de floresta primária no estado. Ali foram registradas mais de 570 espécies de aves – no Pantanal todo, com área milhares de vezes maior, há 698 espécies – e o número continua a crescer. É dos raros lugares onde o observador, com um pouco de sorte, muita paciência e a ajuda de mateiros como Jorge Lopes, consegue identificar e descrever uma espécie ainda desconhecida pela ciência. O último a alcançar a façanha foi o ornitólogo britânico Andrew Whittaker, que confirmou a existência de um novo tipo de falcão de floresta, batizado Micrastur mintoni. Lopes, o guarda-chuva, a luneta e o gravador estavam lá no momento em que se avistou pela primeira vez o novo falcão.

Os erros de concordância de quem saiu da escola para ajudar na sobrevivência da família contrastam com a facilidade para declinar nomes científicos de aves identificadas por ele só pelo canto ou com um breve olhar. Aquele pássaro de bico comprido nunca é simplesmente um tucano. Não é nem mesmo um araçari-de-pescoço-vermelho, como é popularmente conhecido. Para Lopes, é um Pteroglossus bitorquatus. Não se trata de pedantismo. É precisão.

É com a mesma desenvoltura que ele esclarece as dúvidas dos desavisados. Por que as aves atendem ao canto reproduzido pelo gravador? Porque querem proteger seu território de rivais e vêm conferir a ameaça potencial. Qual a melhor época para ver uma anta (de quatro patas)? Agosto e setembro, quando as mutucas se multiplicam na mata e os grandes mamíferos fogem para o rio, protegendo-se das ferroadas.

Lopes freqüentou os cursos oferecidos pela Fundação Cristalino e aprendeu muito convivendo com pesquisadores de ponta. A isso, somou uma experiência de garimpeiro e acabou formulando sua própria teoria aplicada de biologia. Pergunte-lhe o que pensa sobre o manejo “sustentável” de madeira. Cortar apenas as árvores de grande porte, selecionadas ao longo de milhões de anos, e eliminar assim o repertório genético da selva equivale, na opinião do guia, a levar ao paredão apenas os recordistas olímpicos, os ganhadores do Prêmio Nobel, os excepcionalmente fortes e inteligentes. Uma espécie de eugenia ao contrário.

Se é verdade que os esquimós vêem mais branco, e que os paulistanos identificam incontáveis matizes de cinza, Lopes parece distinguir tonalidades de verde que nem um palmeirense é capaz de diferenciar. Onde um turista enxerga uma massa uniforme, os olhos dele testemunham sutilezas difíceis de traduzir: “Está vendo aquela árvore mais clara, do lado daquelas duas verde-escuras?” Ahn?.

 

A história de vida do guia se confunde com a da cidade onde vive, Alta Floresta, no norte do Mato Grosso, fronteira de expansão econômica do Brasil. A localidade foi fundada em 1976 a 830 quilômetros de Cuiabá, junto à divisa paraense. Era parte de um projeto de colonização capitaneado por Ariosto da Riva, a quem o jornalista David Nasser batizou de ‘o último bandeirante’. O empresário quis fixar ali colonos experientes, para cultivar café, cacau e guaraná. A maioria veio do Paraná. O pai de Lopes era um deles.

A floresta veio abaixo. No solo raso que restou, o cafezal não produzia mais do que duas ou três safras. O cacau bichou. O guaraná não tinha mercado. Por sorte ou azar, descobriu-se ouro por lá, o que promoveu uma corrida de garimpeiros à região. Colonos como Lopes se juntaram à nova turma e derrubaram mais mata, desviaram rios, espalharam a malária. O Plano Collor ajudou a liquidar a viabilidade econômica do garimpo. Sobraram duas opções de vida – a pecuária e o corte de madeira – e uma mesma conseqüência. O gado rumina o capim ralo com avidez e perseverança. Da floresta alta só ficou o nome. Hoje a cidade vive das quatro madeireiras e outros tantos frigoríficos.

Lopes ganha 720 reais por mês, fora gorjetas. Complementa a renda com a produção do sítio da família. Sustenta a filha, pagou o curso de biologia da mulher e ainda junta algum para ir de vez em quando ver o mar em Santa Catarina ou visitar parentes no Paraná.

Recomendação ao viajante: experimente fotografar debaixo de um toró na selva. Você verá o guarda-chuva sob um novo ângulo e descobrirá que casaco impermeável é o popular trambolho.

José Roberto de Toledo

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

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