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A queda

Um incêndio em Teerã
Alexandre Rodrigues
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

A longa coluna de fumaça escura rasgou o céu de Teerã e, por muito tempo, se fez visível. Mesmo quem estivesse bem longe do edifício Plasco podia enxergá-la com nitidez. Desde o começo daquela manhã, o prédio lendário ardia em chamas e monopolizava a atenção de todo o país. Após queimar por quatro horas, a construção de dezessete andares desabou, sob a incredulidade dos iranianos. Difícil não associar a cena à queda do World Trade Center nova-iorquino em setembro de 2001.

O incêndio ocorreu no último dia 19 de janeiro. Nas semanas seguintes, o Irã amargaria um drama que passou quase despercebido pelo resto do mundo. O edifício abrigava dezenas de confecções e um shopping center. Seus ocupantes conseguiram escapar do fogo, que irrompeu no 9º andar e se alastrou até o 15º, mas dezesseis bombeiros morreram soterrados quando o Plasco ruiu. No mínimo, outros setenta se feriram. Durante o moroso resgate dos corpos, metade do Centro de Teerã permaneceu isolada. Inúmeras pessoas faziam vigília a distância enquanto as buscas prosseguiam. Nos hospitais, voluntários perfilavam-se por horas para doar sangue. O funeral das vítimas, sepultadas como mártires, atraiu uma multidão. “Foi trágico. Todos ficamos realmente tristes”, resumiu Farhan Mahdavi, artista plástico que acompanhou o desastre pela televisão.

De atletas famosos ao líder supremo dos iranianos, o aiatolá Ali Khamenei, muita gente saudou o heroísmo dos bombeiros na internet. Para uma parcela significativa da população, o desabamento também trouxe de volta a lembrança de como se vivia no Irã antes da revolução muçulmana de 1979.

 

Quando o Plasco surgiu, em 1962, não existia nenhum edifício tão alto no país. Por isso, o prédio logo se tornou símbolo de modernidade e um imponente cartão de visitas para o xá Mohammad Reza Pahlevi, que reinou entre 1941 e 1979. Mal o depuseram, os revolucionários substituíram a monarquia por uma república islâmica teocrática, que perseguia a oposição e combatia hábitos considerados impuros. Até então, Teerã exibia traços ocidentais e bastante indignos sob o prisma da nova ordem: boates e bares que comercializavam bebidas alcoólicas, casas de show fervilhantes e mulheres de minissaia. Em 1970, o Santos de Pelé jogou um amistoso no país e, seis anos depois, a atriz Elizabeth Taylor o visitou com certo estardalhaço.

Na década de 60, o xá – amigo dos Estados Unidos e escudado por uma sanguinária polícia secreta – deflagrou a chamada Revolução Branca, que almejava modernizar rapidamente o Irã. O projeto previa a construção de aeroportos, estradas e portos. Filho de um alfaiate judeu, o empresário persa Habib Elghanian vislumbrou nos planos governamentais uma imensa oportunidade. Ele começara a vida negociando chapéus e relógios importados no Grande Bazar de Teerã, tradicional mercado da cidade. Tempos depois, no fim dos anos 40, resolveu produzir botões e pentes com os irmãos, atividade que se expandiu para outros itens e originou a fábrica de plásticos Plascokar. Quando o programa de Reza Pahlevi deslanchou, o industrial passou a vender tubos de PVC para as obras públicas, e não apenas criou um império como virou uma figura emblemática do regime.

Foi Elghanian quem construiu o Plasco numa região onde ainda hoje predominam edifícios pequenos. O nome do prédio aludia à fábrica de plásticos. Nos andares mais altos, instalaram-se escritórios. No térreo, inaugurou-se um shopping center em que havia enormes tanques com peixes, ornamento que os iranianos adoram.

À época da construção, o aiatolá Mahmoud Taleghani, um dos líderes espirituais do país, reclamou que tivesse sido um judeu e não um muçulmano a erguer o edifício mais alto. Muitos também acusaram Elghanian de corrupção e de promover a aproximação do Irã com Israel, cujas empresas forneciam insumos para a Revolução Branca. “A rixa atual entre os dois países decorre não apenas de questões religiosas, mas também da ideia de que os israelenses se envolveram em negociatas naquele período”, diz Ali Ebrahim, empresário que mora em Teerã.

Quando a revolução dos aiatolás eclodiu, Elghanian se achava nos Estados Unidos, para onde despachara a família, já prevendo a reviravolta política. Apesar dos riscos, decidiu retornar. Foi preso assim que chegou, sob a acusação de espionagem, sionismo e proximidade excessiva com o xá. Pediu clemência, mas uma corte islâmica o condenou à morte por fuzilamento. Sua execução acabou motivando a fuga em massa de judeus. Dos 100 mil que habitavam o Irã na década de 70, restam cerca de 20 mil.

Embora já não pertencesse a Elghanian, que o vendera em 1975, o Plasco sofreu as consequências da revolução. O governo recém-empossado o confiscou do novo dono. A expropriação, comum naquela fase, deu início à decadência do prédio. Aos poucos, os escritórios cederam lugar para as confecções, que abarrotavam os andares de tecidos. Armazenavam as peças inclusive nas escadas. De acordo com os bombeiros, o fogo se propagou rapidamente por causa desse acúmulo irregular de material inflamável.

 

“Ver o incêndio pela televisão fez meu coração derreter. Parte da história iraniana e da minha própria se perdeu”, escreveu Shahrzad Elghanayan, neta de Elghanian, no site da CNN. Natural do Irã, a jornalista se transferiu ainda criança para os Estados Unidos, quando os parentes fugiram da revolução.

Alguns comentaristas de tevê e uma campanha no Twitter culparam as autoridades pelo ocorrido, principalmente o prefeito de Teerã, Mohammad Bagher Ghalibaf. Ele teria negligenciado a fiscalização do edifício. Também houve quem recordasse que o Plasco, desde o confisco, estava sob os cuidados da Fundação dos Oprimidos e Deficientes, ligada à Guarda Revolucionária, a temível milícia do ainda pouco democrático regime islâmico. Não por acaso, as coisas se resolveram à moda iraniana: instados a moderar suas posições, os críticos recuaram e as denúncias desapareceram. Um mês após a queda do Plasco, ninguém do governo havia perdido o cargo.

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