Filho de uma enfermeira e um militar, o britânico Robert Cox dirigiu o Herald nos anos de chumbo: “Não éramos corajosos. Éramos determinados”
Ver dados da foto Filho de uma enfermeira e um militar, o britânico Robert Cox dirigiu o Herald nos anos de chumbo: “Não éramos corajosos. Éramos determinados” FOTO: RODRIGO MENDOZA E ALEJANDRO GUYOT_2017

Um jornal inconveniente

O fim do centenário Buenos Aires Herald, que combateu a ditadura argentina em inglês
Josefina Licitra
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Filho de uma enfermeira e um militar, o britânico Robert Cox dirigiu o Herald nos anos de chumbo: “Não éramos corajosos. Éramos determinados” FOTO: RODRIGO MENDOZA E ALEJANDRO GUYOT_2017

Alguma novidade?” É assim que Robert Cox me cumprimenta. Quer dizer, primeiro diz “olá”, “muito prazer”, e dá um beijo carinhoso. Mas a frase seguinte é uma pergunta sobre uma possível notícia. São dez da manhã de uma quinta-feira e Cox tem cara de quem acabou de acordar. Seus olhos parecem não ter saído da cama, os cabelos brancos apenas ajeitados com os dedos.

“Não sei se tem alguma novidade”, respondo.

Cox prepara um café na cozinha e o leva até a sala: um espaço agradável no qual se distribuem quadros, fotos de família e enfeites. Ele mora com a mulher, Maud Daverio, em Charleston, nos Estados Unidos, mas conserva em Buenos Aires este apartamento elegante e antigo que visita todos os anos. Veio morar aqui quando se casou, em 1961. Aqui nasceram seus cinco filhos. Aqui ele viveu os anos em que o Buenos Aires Herald, o jornal em inglês que dirigiu entre 1968 e 1979, se transformou no veículo argentino que noticiava as violações dos direitos humanos durante a última ditadura militar, quando nenhuma outra empresa jornalística fazia isso. E daqui ele teve que sair quando uma série de ameaças – extensivas a sua mulher e a um de seus filhos – obrigou a família a se exilar.

Ele olha através da cortina de voile. Do outro lado da janela, vê-se uma rua estreita, ladeada pelos arrogantes edifícios da Recoleta, um dos bairros mais europeus de Buenos Aires. “Não entendo o que aconteceu com Santiago Maldonado…”, diz, e faz um estalido com a língua, contrariado. “Ainda não se sabe de nada? Que estranho.”

Santiago Maldonado é – era? – um artesão que apoiava as reivindicações dos grupos indígenas radicais em sua luta pela terra na Patagônia. No dia 1º de agosto deste ano, depois de participar de um protesto que incluía o bloqueio de uma estrada, o rapaz desapareceu durante uma investida da polícia. Uns dizem que foi levado pelos guardas e que teria sucumbido a uma violência que saiu do controle, não planejada de todo. Outros sustentam não haver provas de que ele tenha sido vítima do Estado – de fato, ainda não há nenhuma –, mas não conseguem oferecer uma alternativa para seu paradeiro. Desde então, os protestos pelo aparecimento com vida – ou o simples aparecimento – de Maldonado voltaram a aprofundar o fosso entre governistas e oposição. Enquanto o governo fala de Maldonado como um “artesão”, os kirchneristas e os partidos de esquerda se referem a ele como “desaparecido”. Esse termo, na Argentina, carrega uma história da qual Robert Cox fez parte.

 

São três horas da tarde de sexta-feira, 8 de setembro, Dia Internacional do Jornalista. Cox está na Radio Nacional. A emissora pública o convidou para falar de sua vida, um pouco em função da data, mas também por causa de um fato recente e inesperado: em julho deste ano, o Buenos Aires Herald fechou suas portas, depois de 140 anos de existência. A crise geral dos jornais impressos, somada às tramas políticas da Argentina – na última década, o Herald foi comprado e vendido por vários grupos kirchneristas que acabaram por esvaziá-lo –, liquidaram um símbolo da imprensa independente.

Sentado num canto do estúdio, Cox espera sua vez de ir ao ar. Chegou meia hora adiantado, por medo de ficar preso num engarrafamento. É a primeira vez que um convidado dá tamanha mostra de respeito pela pontualidade. Cox aguarda sua hora enquanto observa a sala com olhos vivos, sempre a meio caminho entre a ponderação e a perplexidade.

“Este trabalho nos dá a chance de conhecer pessoas maravilhosas”, diz por fim o apresentador, que faz um bom resumo do convidado: “Estamos com um dos jornalistas mais importantes que passaram por nosso país. Alguém que, além do enorme reconhecimento internacional, conta com nosso carinho porque, sem ser argentino, num momento terrível da nossa história, ele se mobilizou e se expôs, quando era muito difícil fazer isso. Enquanto todo mundo se acovardava, Robert Cox, no Buenos Aires Herald, disse o que ninguém dizia. Boa tarde, Bob.”

Cox o cumprimenta com tranquilidade.

O que se segue, entre outras coisas, é o relato de uma vida.

Cox nasceu na Grã-Bretanha em 1933. Filho de uma enfermeira e de um militar que lutou na Primeira Guerra Mundial, começou entregando jornal de bicicleta até que, aos 17 anos, findo o ensino médio, se ofereceu para trabalhar de graça no jornal do subúrbio londrino em que morava. Aos 26 anos, lendo os classificados do World’s Press News, deu de cara com a notícia de que um diário argentino voltado à comunidade britânica que vivia em Buenos Aires estava procurando jornalistas. Como queria conhecer o mundo, Cox se candidatou. Ganhou a vaga e se preparou para viajar, estudando espanhol em casa, por meio de um curso que vinha em discos de 78 rotações. Depois, empacotou roupa, livros e um smoking – naquela época, traje obrigatório a jornalistas que cobriam eventos sociais – e, em 1959, carregando sua bagagem num pequeno baú de metal e levando uma raquete de tênis, embarcou num navio que o deixou em Buenos Aires. Pensava ficar quatro anos e, então, seguir trabalhando em outros países. Mas, passados dois anos de sua chegada, conheceu aquela que seria sua mulher, Maud Daverio. E isso mudou seus planos.

A foto de casamento está sobre um aparador na sala do apartamento na Recoleta – comprado pelo pai de Daverio, como presente de núpcias. Na imagem, ela exibe um sorriso franco e profundo. Cox também parece feliz, dono de seu futuro. Nos anos seguintes, a família cresceu – foram cinco filhos – e também cresceu o Buenos Aires Herald, que, de um jornal para a comunidade britânica, com informações sobre comércio marítimo e certos aspectos da política internacional – notícias sobre as eleições na Suécia ou o críquete na Índia, por exemplo –, passou a ser uma publicação generalista lida pelos ingleses que já tinham filhos e até netos no país.

O próprio Cox saía à rua em busca de novidades, fazendo com que o Herald veiculasse reportagens locais. O impresso pôs-se, assim, a divulgar informações incômodas para o governo da vez. “O Buenos Aires Herald publica em inglês o que os jornais argentinos silenciam”, chegou a dizer o jornalista e político Rogelio Frigerio, funcionário do governo de Arturo Frondizi (1958–62) e diretor da revista Qué!. O comentário era uma referência à atuação do jornal durante o terceiro mandato de Juan Domingo Perón: o presidente assumiu em 1973, mas morreu em 1974, o que fez de sua viúva e vice-presidente, María Estela Martínez de Perón, a primeira mandatária. No tempo de Isabelita – nome pelo qual é lembrada –, pela mão da Aliança Anticomunista Argentina, conhecida como Triple A, teve início o terrorismo de Estado que desembocaria no golpe de 24 de março de 1976.

Cox recebeu a notícia do golpe como diretor do Herald, que na época pertencia à Evening Post Publishing Company, grupo americano com veículos na Carolina do Sul. Se é verdade que, num primeiro momento, o Herald e outros jornais aprovaram a intervenção militar, já que o governo de Isabelita se tornara inviável, Cox logo entendeu que a tal “revolução de veludo” de que se falava não tinha nada de suave.

 

No estúdio, o britânico recorda como se deu conta do perigo em que a Argentina estava mergulhada: “Um dia, chegou uma carta dirigida a Andrew Graham-Yooll, chefe de redação do Herald. Tinha sido enviada por um velho casal anglo-argentino, que relatava a morte do genro.” Cox e Graham-Yooll resolveram apurar a história pessoalmente. Viajaram até Zárate, a 100 quilômetros de Buenos Aires, e receberam em primeira mão o relato de um crime. A vítima era um homem de 40 anos, diretor de um laboratório, que tinha voltado à universidade para completar seus estudos em química. Por isso se reunia no laboratório com alunos mais jovens. E também por isso fora considerado suspeito.

Uma noite tocaram a campainha de sua casa. Do lado de dentro, a família viu uns vultos de policiais, e todos pensaram que poderia ter havido algum problema na empresa. Abriram a porta. Entraram uns sujeitos de botas pesadas, que não se identificaram; com modos bruscos, embora sem violência, levaram consigo o químico. A família imaginou que ele estaria de volta dali a poucas horas, mas o homem só apareceu três dias depois, numa sarjeta, agonizando. Morreu algumas horas mais tarde, num hospital de freiras. No seu enterro, um carro passou a distância, atirando panfletos que diziam “executamos o traidor”, como se o assassinato tivesse sido obra dos montoneros, os membros da guerrilha peronista.

“Mas os carros eram Ford Falcons”, lembra Cox. O Ford Falcon verde foi o veículo emblemático do terrorismo de Estado: os pistoleiros que sequestravam as pessoas utilizavam esses automóveis. “Nunca vi uma marca de carro ficar ligada a uma coisa dessas”, acrescenta. Os olhos de Cox parecem longe. Quando ele era pequeno, ficou sabendo que a Segunda Guerra Mundial havia sido deflagrada ao ver um avião alemão cruzar o céu, rachando ao meio o silêncio do subúrbio londrino em que vivia. Desde então, Cox espera outra guerra: por isso não joga comida fora, por isso conserva os alimentos em frascos. Por isso, talvez, olhe desse jeito. A fascinação e o pavor com que observou aquele avião parecem tomar-lhe o semblante toda vez que ele recorda algo ruim.

“O senhor contou essa história no Herald?”, pergunta o apresentador na rádio.

“Não, porque aquela família corria perigo, começou a receber ameaças. Mas eu a publiquei no Washington Post, do qual era correspondente. Apenas mudei os nomes. Escrevi que aquela não era uma revolução de veludo como se dizia, que estava correndo muito sangue. Também fiz um artigo dizendo que não havia liberdade de imprensa, que havia um acordo de cavalheiros entre os grandes jornais para não noticiar o que estava acontecendo.”

“Por que o senhor acha que havia esse acordo?”

“Imagino que os jornalistas argentinos estivessem tão habituados aos golpes militares que, de início, aceitaram a situação. Além disso, antes do golpe, houve uma violência que as pessoas não queriam enxergar”, diz Cox, referindo-se à guerrilha trotskista dos montoneros e do Exército Revolucionário do Povo, o ERP. “É preciso olhar para isso com honestidade. Explicar todos os tipos de violência que existiram naquele momento. Embora, obviamente, o que os militares fizeram foi tão abominável que não devemos buscar equivalências.”

Depois desse episódio, Cox passou a publicar, já no Herald, notícias que não saíam na mídia local. Falou do massacre dos palotinos: três padres e dois seminaristas que pertenciam ao Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo e que foram assassinados a sangue-frio em julho de 1976, numa igreja de Buenos Aires. Enquanto os demais jornais repetiam a versão oficial, que responsabilizava os montoneros por aquelas mortes, o Herald culpou forças de choque estatais e com isso inaugurou uma linha editorial que foi se consolidando ao longo dos meses e que fez da publicação um veículo imprescindível. Muita gente comprava o Herald só para ler o editorial – que por lei devia ser publicado em espanhol –, e as mães da Plaza de Mayo iam à redação para denunciar o desaparecimento de seus filhos.

Cox dava espaço para essas histórias porque era corajoso – embora ele relute em falar nesses termos – e por contar com dois fatores a seu favor: o apoio da embaixada americana (que seguia as diretrizes do presidente Jimmy Carter) e a dificuldade dos militares para entender inglês. Mesmo assim, o jornalista não se limitou a noticiar os crimes. Começou a participar de encontros com funcionários do governo – entre eles Albano Harguindeguy, ministro do Interior da ditadura –, munido de listas de nomes. “Vejam o que está acontecendo, não há lei na Argentina. Essas pessoas sumiram”, ele dizia.

Até que alguém se cansou dessas pressões.

 

Uma tarde Cox estava em sua sala no Herald, fechando umas páginas sobre o Dia da Independência da Holanda, quando a secretária veio lhe dizer que tinha visita. Ele foi até a janela: queria averiguar se lá embaixo havia um Ford Falcon. O que viu foi um Peugeot com um homem que parecia um bandoleiro mexicano. Outros dois, usando jaquetas de couro pretas que deixavam entrever pistolas sob a roupa, subiram até seu escritório. Enquanto os esperava, Cox passou em revista os livros de aventuras que lia quando pequeno, na Inglaterra, especialmente um tal de Bulldog Drummond, em que o protagonista se desvencilhava das situações mais difíceis com elegância britânica. Tendo esse modelo em mente, o jornalista encarnou seu papel. “Um minutinho, já vou acompanhá-los”, disse, enquanto apanhava o paletó. Depois saiu para a rua muito aprumado e entrou no carro, no banco de trás. Os dois sujeitos de jaqueta de couro também entraram, cada um de um lado, e ao longo do trajeto se divertiram contando quantas pessoas haviam matado naquele dia.

Cox só respirou quando viu que estavam estacionando num anexo do departamento de polícia: um local oficial. Uma vez lá dentro, depois de atravessar um salão decorado com uma suástica, foi encaminhado a um porão, onde teve que tirar a roupa – pendurou o paletó com cuidado, como imaginou que fariam no Bulldog Drummond –, e foi trancado numa cela estreita e alta.

“Assim que me acostumei com o escuro, comecei a enxergar os escritos nas paredes”, lembra. “Eram pedidos a Jesus, mensagens ‘à minha mãe’… Não havia lemas políticos, a não ser um que dizia ‘Até a vitória, sempre’. Foi um grande choque ver aqueles gritos na parede. Eu vinha de uma família de pai militar, o tio da minha mulher tinha sido general do Perón… Para mim, era inconcebível que homens das Forças Armadas fossem capazes de fazer algo de ruim comigo ou com minha família. Não entrava na minha cabeça que os militares pudessem não zelar por nós. Mas, infelizmente, eram homens que haviam se transformado em monstros.”

Durante três dias, aqueles homens quiseram saber – sem torturá-lo – qual era a linha editorial do Buenos Aires Herald. Cox dizia que era um jornal liberal, no sentido clássico da palavra, que punha em prática os ideais da Revolução Francesa. Mas nenhum policial entendia isso. Queriam saber se Cox era comunista, se era judeu, como os donos do New York Times. Se, como todo judeu – era assim que os militares entendiam a história internacional –, ele era marxista. Até que Cox foi salvo desses interrogatórios e de qualquer destino pior graças à movimentação de sua mulher, que acionou seus contatos assim que soube da detenção do marido.

Dias depois, já em liberdade, Cox – longe de se calar – retomou as denúncias de violações dos direitos humanos e continuou a publicar as listas de vítimas do terrorismo de Estado. Com a divulgação dos nomes, aumentava a pressão internacional para que aquelas pessoas aparecessem com vida.

“Portanto, o mundo pôde saber o que estava acontecendo graças ao senhor”, diz o apresentador na rádio.

Cox se cala. Vê-se que está num diálogo interior com sua própria vaidade, ou com a ausência dela.

“E aos meus colegas do Buenos Aires Herald, Andrew Graham-Yooll, James Neilson…”

“Eram corajosos ou inconscientes?”

“Não éramos corajosos, mas determinados”, diz e balança a cabeça, como se estivesse falando de um destino. “Eu tentava salvar vidas, é verdade. E penso que jornalismo é sinônimo de direitos humanos. Eu acredito nisso. Depois da minha experiência aqui, sei que um país sem jornalismo é a coisa mais terrível que se pode imaginar.”

Em seguida, Cox ainda responde a outras perguntas. Diz que a ex-presidente Cristina Kirchner foi “antidemocrática” e que o atual presidente Mauricio Macri “não se importa com os direitos humanos”. Também fala de Barack Obama, que, numa visita à Argentina, homenageou Cox por sua “coragem”. Até que o programa é momentaneamente interrompido para o costumeiro boletim informativo: uma breve pausa em que um locutor, em outro estúdio, lê as últimas notícias.

“O senhor tem a postura de um jornalista clássico, sempre crítico ao poder”, diz o apresentador, fora do ar.

“Sim… Eu sempre ficava contente quando recebia ataques dos dois lados”, responde Cox, educado, mas com a atenção em outro lugar. Na verdade, ele está atento ao boletim. E por isso pergunta, finalmente: “Alguma notícia de Santiago Maldonado?”

 

Maud Daverio é uma mulher corpulenta, de olhos claros e felinos. Está na sala de seu apartamento em Buenos Aires e ajuda o marido, mais do que a lembrar, a completar suas recordações em espanhol. Spanish is scaping from me, repete Cox de quando em quando, e olha para as próprias mãos como se a língua estivesse escorrendo por seus dedos. Apesar de ter morado na Argentina por várias décadas, o jornalista tem um sotaque carregado e fala espanhol com a lenta tenacidade de um andarilho subindo uma montanha.

Nesses momentos, quando percebe sua aflição ou seu cansaço, Daverio – sem alarde – completa as ideias que Cox inicia. Revela uma presença poderosa e ao mesmo tempo discreta, que a torna uma companheira não apenas amorosa, mas também moral. Já faz quase seis décadas que ela trilha os mesmos caminhos do marido. Durante a ditadura, acompanhava-o às recepções diplomáticas para falar com embaixadores e adidos culturais, pedindo que ajudassem a divulgar as violações dos direitos humanos que assolavam a Argentina. Também o acompanhou, de madrugada, ao crematório de La Chacarita para descobrir se havia fumaça, o que confirmaria o boato de que ali se queimavam corpos clandestinamente.

Nos anos 70, Daverio era tão incômoda para o poder quanto o marido. Por isso, ela se habituou a caminhar prestando atenção, olhando sempre para os dois lados da rua, ciente da possibilidade de um sequestro: podiam atacá-la por ser “imperialista” ou por ser “comunista”. A segunda opção acabou prevalecendo. Certa manhã, quando ia às compras, a poucos metros deste mesmo apartamento, foi encurralada por dois Ford Falcons que surgiram de ambos os lados da rua: um no sentido do trânsito, outro na contramão. Daverio ouviu o guincho dos freios, viu os homens saindo dos carros e escutou o ruído mecânico de fuzis sendo carregados.

Think positive, pensou. Isso foi tudo.

“Olhei para eles com a maior calma do mundo e falei: ‘Ai, desculpem, fiquei bem na frente de vocês.’ Então passei devagarinho entre os dois carros e me afastei, como se não estivesse com medo”, conta. “Os sujeitos ficaram tão desconcertados que acharam que tinham errado de pessoa. Depois, entrei na quitanda, pedi que me deixassem ficar lá um pouco e telefonei para o Bob.”

Cox assente com a cabeça. Os dois já devem ter perdido a conta do número de vezes que contaram essa história, mas percebe-se que ela ressurge em ondas frescas quando invocada pelas palavras. Até aquele dia, Cox agira como um homem sem medo: fazer jornalismo durante a ditadura era como voar de avião. Da primeira vez foi difícil, mas depois virou uma rotina que só exigia permanecer alerta e celebrar cada dia como quem comemora o sucesso de um pouso forçado. O britânico comparecia às rondas das mães na Plaza de Mayo, levava listas de nomes às entrevistas oficiais e chegou a pressionar o próprio presidente da Junta Militar, Jorge Rafael Videla.

Videla convocara a ele e a outros dois jornalistas para explicar se as notícias sobre os desaparecimentos faziam parte de uma “campanha anti-Argentina”. “Lembro que Videla estava em seu gabinete presidencial, de terno. Queria provar que era um homem moderado. Era muito gentil. E os outros jornalistas se mostravam tão… tão…”, Cox olha para a esposa.

“Temerosos?”, ajuda Maud.

“Não…”, e Cox encontra a palavra: “Respeitosos. Respeitosos demais. Porque aquela adulação toda não era necessária. No fim, eu disse: ‘Senhor presidente, por favor, os sequestros, os desaparecimentos continuam. Continuam os Ford Falcons sem placa…’ Nessa hora a feição dele se transformou completamente. E os jornalistas tentaram salvar a situação dizendo uma coisa inacreditável. Um deles falou: ‘Bom, devemos pensar que isto agora é como no tempo de Júlio César, e é preciso fazer coisas não muito agradáveis.’ Foi horrível. Nesse instante me dei conta de muita coisa.”

Cox confirmou suas ideias algum tempo depois, em junho de 1979, quando procurou o ministro Albano Harguindeguy para lhe apresentar uma série de perguntas que ficaram registradas e hoje fazem parte da história política argentina.

“Há sessenta jornalistas desaparecidos”, disse Cox a Harguindeguy.

“Sessenta? Pode haver alguns detidos, gente envolvida com a…”, tentou argumentar o ministro, mas Cox voltou à carga, até conseguir que o funcionário perdesse as estribeiras e respondesse com ironia feroz: “Só sessenta?”

Depois dessas entrevistas – que eram publicadas no Herald –, Cox voltava para casa como um piloto de avião que acabara de superar uma forte turbulência. Julgava-se capaz de suportar tudo, inclusive a própria prisão. Até que uma mensagem anônima enviada a seu filho adolescente (uma carta ameaçadora) e a tentativa de sequestro de Daverio o fizeram mudar de ideia.

“A que atribuem o fato de não terem sumido com vocês?”, pergunto.

Daverio ergue as sobrancelhas com elegância e desdém, como se descartasse qualquer resposta complexa.

“Na vida é tudo uma questão de sorte ou não”, diz, e olha para Bob. “Se bem que o zelador do edifício também nos protegeu muito. Mais tarde ficamos sabendo que costumavam perguntar a ele a que hora nós chegávamos, e ele sempre dizia que não sabia. Era testemunha de Jeová, e Bob tinha defendido as testemunhas de Jeová no jornal.”

“Por que o senhor as defendeu?”

Cox encolhe os ombros. “Porque essas pessoas estavam sendo perseguidas”, afirma. “Eram tratadas como criminosas, condenadas à prisão porque se negavam a fazer o serviço militar. Como é que eu não ia defendê-las? Depois, claro, fiquei sabendo que o zelador gostava de mim por causa disso. Você chega a essas conclusões bem mais tarde. Também acho que a relação com os Estados Unidos era muito importante para os militares, porque eles contavam com o apoio americano na grande batalha contra o comunismo internacional. Não queriam provocar maiores escândalos conosco e conseguiram o que desejavam: que fôssemos embora do país.”

 

Robert Cox e Maud Daverio deixaram a Argentina em 1979 e se estabeleceram em Charleston, uma cidadezinha tranquila no litoral da Carolina do Sul, onde as crianças podiam andar de bicicleta sem medo e onde a empresa proprietária do Herald publicava o Post and Courier. O cargo de editor do jornal foi oferecido a Cox, que cobriu as guerras de El Salvador e da Nicarágua, e pleiteou duas bolsas que lhe foram concedidas: uma no Wilson Centre, de Washington, outra em Harvard.

A intenção do britânico era voltar para a Argentina depois de alguns anos, mas dois fatores o fizeram desistir: a continuidade escolar dos filhos, que estudavam em Charleston, e as vicissitudes do próprio Herald, que entrou em crise financeira após a morte de seu mecenas, Peter Manigault, um membro da Evening Post Publishing Company que adorava a América Latina e que deu respaldo ao jornal por motivos sentimentais. Já sem Manigault, a direção do grupo decidiu não perder mais dinheiro com o Herald e, em 2007, acabou vendendo o veículo para Sergio Szpolski, um empresário da mídia kirchnerista que Cox define como “assassino de jornais”.

Depois de apenas um ano, fazendo jus ao epíteto, Szpolski vendeu o Herald praticamente esvaziado: sem prédio e sem gráfica. Com isso deu início a uma série de transferências – sempre entre empresários favoráveis ao governo – que terminou em 2015 com Cristóbal López, kirchnerista famoso por abarrotar a Argentina de cassinos, entre outros negócios. Ao longo desses anos, os funcionários do Herald se esforçaram para fazer bom jornalismo. Resgataram a postura de defesa dos direitos humanos – atentos a julgamentos de repressores, cobrindo casos em que a polícia primeiro atira e depois pergunta – e intercalaram seus artigos com colunas de opinião de Cox, James Neilson e Andrew Graham-Yooll. Mas o desmantelamento da empresa prosseguiu, e o jornal acabou afundando.

Recentemente, num bar, Sebastián Lacunza, o último diretor do Herald, contou como foi a morte de uma publicação com 140 anos de história. “Os prepostos de Cristóbal López não tinham a mínima noção de jornalismo. Eram pessoas a quem eu tinha que explicar quem era Cox. Um mês depois de comprarem o jornal, disseram: ‘Não nos parece viável.’ Em outubro de 2016, transformaram o Herald em semanal e demitiram 75% da equipe. Restaram só oito pessoas. No fim, ficamos sabendo pelo Clarín que o jornal ia ser fechado.”

Confirmada a notícia, diversas organizações de direitos humanos – entre elas as mães e avós da Plaza de Mayo – publicaram um carta aberta contra o fechamento do Herald. O empresário Jorge Fontevecchia, dono e diretor do jornal Perfil, tomou a dianteira e em poucos dias montou, com uma rapidez nunca vista, um projeto para compensar o desaparecimento da publicação. Desde 2 de setembro, todos os sábados, encartado no Perfil, sai o Buenos Aires Times, um jornal em inglês que resgata os grandes nomes que frequentaram o Herald.

Fontevecchia tem alguns motivos para lançar o BAT, e um deles é pessoal. Em 1979, ele foi detido ilegalmente por ordem do mesmo homem que detivera Cox dois anos antes: o comandante do I Exército argentino, Guillermo Suárez Mason, também conhecido como “o açougueiro do Olimpo”, em alusão a um campo de extermínio – “El Olimpo” –, onde 700 pessoas foram detidas, e quase todas assassinadas. A vida de Fontevecchia foi salva porque Cox denunciou seu desaparecimento nas páginas do Herald, fomentando uma pressão internacional que resultou na libertação do jovem jornalista.

É por isso, talvez, e porque acredita no faro analítico do britânico, que já há alguns anos Fontevecchia o convidou para assinar uma coluna no Perfil. Mais recentemente, o chamou para integrar o novo projeto.

“Estamos voltando”, diz Cox, em seu apartamento de Buenos Aires. Ele arqueia as sobrancelhas numa permanente curva de surpresa e acrescenta que tem vários outros projetos. Por um lado, vai organizar seus escritos sobre jornalismo e direitos humanos para arquivá-los, a pedido, na Universidade Duke. Por outro, fará parte do BAT. “Estamos todos lá: Andrew Graham-Yooll, James Neilson, eu… Todos juntos outra vez, começando de novo”, diz com o rosto iluminado, como se tivesse encontrado algo fresco, jovem, honesto. Um time de futebol perfeito, ou qualquer outra coisa igualmente fundamental.

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