despedida

Um monarca de si mesmo

O intrépido fundador de Sealand morre numa casa de repouso, como um simples mortal

Marcela Donini 
Bates se autodeclarou príncipe do menor país do mundo e deu à mulher o título de princesa
Bates se autodeclarou príncipe do menor país do mundo e deu à mulher o título de princesa FOTO: GETTY IMAGES

O príncipe Roy de Sealand morreu no dia 9 de outubro, aos 91 anos. Diagnosticado com Alzheimer havia quatro anos, ele passou seus últimos dias como um mortal comum, em uma casa de repouso, no litoral britânico. Amigos e parentes despediram-se de Sua Alteza ao som de My Way, com Frank Sinatra, e Every Time We Say Goodbye, na voz de Ella Fitzgerald. O príncipe partiu certo de que cumpriu o destino que a mulher, a princesa Joan, imaginou para ambos, quando disse em uma entrevista à tevê: “Posso morrer rica, posso morrer pobre, mas jamais morrerei de tédio.”

Sealand nunca foi um país reconhecido e Roy era um monarca autonomeado, mas esses são detalhes que importavam pouco para Paddy Roy Bates. Único sobrevivente de cinco filhos (os irmãos morreram na primeira infância), dele não se pode dizer que viveu ao sabor do destino: construiu a própria trajetória, de rebelde intrépido e megalomaníaco.

Aos 15 anos, Roy Bates deixou o colégio para lutar como voluntário na Guerra Civil Espanhola. De volta à Inglaterra, apresentou-se para combater na Segunda Guerra. Sobreviveu a uma queda de avião, foi capturado duas vezes por forças inimigas, contraiu malária, foi mordido por uma cobra e teve parte do rosto desfigurada na explosão de uma granada alemã. Findo o conflito, bem que tentou aquietar-se como dono de uma pequena frota pesqueira. Mas a grande aventura de sua vida ainda estava por vir.

Nos anos 60, entusiasmado pelo fenômeno das rádios piratas – que surgiam em contraponto às estatais e suas parcas duas horas semanais de música pop –, Bates tomou posse de uma fortaleza inglesa abandonada, no mar do Norte. Dali lançou a rádio Essex, com a promessa de ser a primeira estação de pop 24 horas por dia. A proposta de liberdade musical esbarrou nas idiossincrasias do fã de Sinatra, que, afinal não tão libertário assim, se recusou a tocar a fita cassete de uns meninos ainda pouco conhecidos, Mick Jagger e sua trupe. Get those little butterflies out of my kitchen (“Tirem esses afrescalhados da minha cozinha”), gritou, ao expulsar os Rolling Stones de sua casa.

Não demorou muito para o governo fechar a rádio Essex. Como um soldado que não se rende na primeira derrota, Bates lançou-se mais uma vez mar adentro e tomou outra plataforma, esta em águas internacionais, a 11 quilômetros da costa. Abrir uma nova rádio pirata pareceu pouco para o veterano que acabava de pôr os pés em uma base antiaérea de 500 metros quadrados, construída para guardar o porto de Harwich durante a Segunda Guerra Mundial e depois desativada.

Michael Bates, o filho caçula, lembra-se bem das palavras do pai: “Eu tenho a ideia de declarar independência do Reino Unido. Um país separado. Um Estado independente.” Assim nasceu o menor país do mundo, Sealand. Baseado no jus gentium romano (o “direito dos povos”), Roy Bates intitulou-se príncipe de Sealand e, em 2 de setembro de 1967, deu à mulher, Joan, o título de princesa. Com os filhos Michael, então com 14 anos, e Penélope, 16, a família deixou o condado de Essex e passou a viver em um novo endereço: mar do Norte, latitude 51º53’ norte, longitude 01º28’ leste.

Por essa época, para evitar complôs de piratas e outros párias em alto-mar, o governo britânico começou a implodir todas as fortalezas abandonadas nas águas do Norte. Da janela da nova casa, a família Bates assistia às demolições e recebia ameaças vindas de barcos do governo, às quais revidava com tiros de advertência. O medo de perder a realeza levou a princesa Joan a dormir com um revólver debaixo do travesseiro.

 

Apesar de Sealand nunca ter sido reconhecida como país pelas Nações Unidas, Roy Bates atribuía a dois episódios da gloriosa história da micronação o seu reconhecimento de facto. Logo após a demolição das plataformas vizinhas, em novembro de 1968, ele foi intimado pela Justiça britânica a responder pelos tiros disparados contra uma embarcação do governo. O juiz concluiu que os tribunais ingleses não tinham jurisdição sobre o caso. Foi a deixa para Bates dar a Sealand tudo o que se espera de um país: hino, bandeira, passaporte, moeda própria e selos.

O segundo caso contado à exaustão por Bates para engrandecer seu principado pôs em risco a vida de seu filho. Em 1978, num dia em que Michael estava sozinho na plataforma, Sealand foi invadida, e o jovem foi feito refém por um grupo de holandeses e alemães que tinham negócios com a família. Os invasores liberaram Michael depois de três dias, mas continuaram em Sealand. Bates então, com a ajuda de um amigo, reconquistou o território, mantendo o grupo prisioneiro por cerca de dois meses. Na época, a embaixada alemã pediu intervenção do governo inglês, mas foi orientada a tratar com o senhor Bates. “Foi como se dissessem: inventaram a brincadeira, agora se virem. Isso foi um reconhecimento de facto”, contou Michael quando esteve no Brasil, em 2011, por ocasião da presença de Sealand na 8ª Bienal do Mercosul, em Porto Alegre.

A família morou na plataforma por mais de trinta anos e, no último verão, voltou a abrir as portas do principado para turistas, com direito a carimbo no passaporte. A antiga fortaleza só tinha então dois moradores fixos: pessoas de confiança da realeza, responsáveis pela manutenção e segurança de Sealand, a um custo de 420 mil reais por ano. O dinheiro sai principalmente da empresa pesqueira dirigida por Michael, que mora em Essex. Outra parte vem dos suvenires e títulos de nobreza vendidos a plebeus que simpatizem com o lema sealandês: E mare, libertas (Do mar, a liberdade).

A quem o questionava sobre suas motivações, Roy Bates costumava dizer que era um dissidente nato. “Eu não procuro os motivos pelos quais faço as coisas. A maioria das minhas ideias é fora do comum, e eu gosto do incomum. Coisas desse tipo me atraem como um ímã, e eu tenho que fazê-las, só isso”, disse ao repórter Graham Addicott, da Thames Television, que esteve no principado nos anos 80.

Nem a gata que viveu em Sealand até dezembro de 2011, quando morreu, escapou de virar uma lenda do micropaís. Conta-se que Cosmic salvou a vida de Mike Barrington, chefe de segurança de Sealand, ao arranhar a pele dele até que acordasse – a tempo de escapar ileso de um incêndio. O heroísmo da bichana lembrou o dia de 1962 em que Bates socorreu duas meninas que se afogavam na baía de Thorpe, em Essex. O feito rendeu-lhe uma distinção da Royal Humane Society da Inglaterra. Humano, intensamente humano.

Marcela Donini 

Marcela Donini é jornalista gaúcha.

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