questões lítero-biográficas

Uma casa para Elizabeth

O refúgio e os amigos que a poeta americana encontrou em Ouro Preto

Roberto Pompeu de Toledo
Os irmãos José Alberto e Linda Nemer, a Casa Mariana e Elizabeth Bishop na mesma cadeira: os mineiros, que eram seus melhores amigos em Ouro Preto, compraram a casa que a poeta chamou de “a mais bonita do mundo”, a primeira realmente sua, e buscam conservá-la como ela a deixou. O jardim, que a americana reservara para o talento de Lota, acabou sendo trabalhado por Linda
Os irmãos José Alberto e Linda Nemer, a Casa Mariana e Elizabeth Bishop na mesma cadeira: os mineiros, que eram seus melhores amigos em Ouro Preto, compraram a casa que a poeta chamou de “a mais bonita do mundo”, a primeira realmente sua, e buscam conservá-la como ela a deixou. O jardim, que a americana reservara para o talento de Lota, acabou sendo trabalhado por Linda FOTOS: RAFAEL MOTTA/SOTHEBY’S REALTY (A CASA ESTÁ À VENDA)/DARCY TRIGO_O CRUZEIRO_D.A. PRESS

José Alberto Nemer calculou em 70 anos, talvez mais, a idade daquela senhora miúda, cabelos grisalhos penteados para trás, contraída como bicho torcido para dentro de si mesmo. O ano era 1968, a cidade Ouro Preto, a ocasião um dos almoços que aos sábados o pintor Carlos Scliar costumava oferecer em sua casa. A senhora era americana, o sotaque não deixava mentir. Quem era? Uma poeta famosa, Elizabeth Bishop, não conhece? Não, ele nunca tinha ouvido falar. Aproximou-se dela. A conversa fluiu como costuma ocorrer com pessoas sintonizadas na mesma faixa existencial de ondas. E tal era a agilidade mental daquela mulher, tal o senso de humor e capacidade de observação que, à medida que a conversa progredia, Nemer ia lhe abatendo os anos. Sessenta talvez? Cinquenta? Quarenta e alguma coisa? A certa altura, ela até parecia uma companheira da mesma idade – e, no entanto, Elizabeth Bishop contava 57 anos, contra os tenros 23 de Nemer.

Ao término do almoço de Scliar ainda sobrava vontade de conversar. Bishop convidou-o para uma esticada em sua casa. Ela morava, na época, numa casa alugada da amiga Lili Correia de Araújo. Ficava na mesma rua, só um pouco mais adiante. Foram a pé Nemer, Bishop e a companheira da poeta,uma jovem americana de longos cabelos louros. Chegaram e Bishop recolheu-se à cozinha para fazer um café. Nemer ficou só na sala. Ou melhor, na companhia dos dois gatos da casa, Suzuki e Tobias. Quando a poeta voltou, os gatos estavam aninhados em seu colo. “Você gosta de gatos?”, ela perguntou. Ele hesitou: “Não especialmente.” Ela comentou: “Esses gatos sempre gostam de experimentar o colo de certas visitas.”

José Alberto Nemer e, um pouco depois, sua irmã Linda iriam se tornar os melhores amigos de Elizabeth Bishop, em Ouro Preto. Ouro Preto é, digamos, a fase dois da permanência de Bishop no Brasil. A fase um desenvolve-se entre Rio de Janeiro e Petrópolis. É o período entre 1951 e 1967 em que a poeta viveu com Lota Macedo Soares, conhecida primeiro por ser de ilustre família, em seguida por ter emprestado seu talento de arquiteta e urbanista sem diploma à montagem do Parque do Flamengo, e hoje em dia, sobretudo, por ter sido amante de Bishop. O romance entre as duas, que começa com arrebatamento duplicado pela voraz carência de uma e outra, alimenta-se da coincidência dos temperamentos artísticos, entra em declínio com as recíprocas crises de insegurança e depressão, e termina em tragédia, com o suicídio de Lota em Nova York, já suscitou livros (o mais recente dos quais a ficção A Arte de Perder, do americano Michael Sledge), peças de teatro (Um Porto para Elizabeth Bishop, de Marta Góes, monólogo interpretado por Regina Braga) e filme (do diretor Bruno Barreto, em preparação). E mais ainda continua a suscitar nos simpósios e publicações que vêm se sucedendo este ano, o do centenário do nascimento da poeta.

Menos celebrado é o período de Ouro Preto. E, no entanto, Bishop manifestou desde cedo atração pela cidade mineira. “Estamos planejando uma viagem a Ouro Preto”, escreve ela a um de seus numerosos correspondentes, logo no primeiro mês da estada no Brasil, em dezembro de 1951. Em carta à poeta Marianne Moore, sua amiga e mentora literária, de abril de 1953, anuncia que enfim fará a planejada viagem, na companhia de Lota, e vai além: “Era o único lugar no Brasil que eu realmente pretendia conhecer.” A viagem teve os inconvenientes de estradas péssimas, pneus furados e hotéis sofríveis, mas valeu a pena. “Não faço turismo há tanto tempo que provavelmente o superestimo”, escreveu, em outra carta, “mas as igrejas e capelas – brancas com enfeites de pedra-sabão de um cinza avermelhado – são excelentes, a meu ver.” Outras idas a Ouro Preto se sucederam, com passagens por Tiradentes (Toothpuller, traduz ela aos amigos americanos), “uma cidadezinha perfeita”. Em Ouro Preto, vai se consolidando a amizade com a dinamarquesa Lili Ebba Correia de Araújo, que ao enviuvar do artista pernambucano Pedro Correia de Araújo radicou-se na cidade mineira e ali criou o Pouso do Chico Rei, destinado a se tornar a hospedaria de eleição de artistas e intelectuais.

Bishop ora se hospedava no Chico Rei, ora na casa de Lili no bairro das Lajes, aquela em que Nemer foi recepcionado pelos gatos. Esta casa ofereceu-lhe as cenas presentes no poema “Under the Window: Ouro Preto” (“Pela janela: Ouro Preto”), assim traduzido por Paulo Henriques Britto:

Conversas singelas: fala-se de comida,
ou: “Quando minha mãe me penteia,
machuca.”
“Mulheres.” “Mulheres!” Mulheres
com vestidos

vermelhos, sandálias plásticas, e bebês
quase invisíveis – agasalhados, só os
olhos
de fora, no calorão – que elas
desembrulham

e levam até a água, e dão de beber
com mãos sujas e amorosas, aqui
onde antes
havia uma fonte, e onde todos passam.

Ao lado da casa, sobre as “lajes” – as encostas de pedra do morro em que se assenta todo o bairro –, desce uma corrente de água que lá embaixo, na rua, vai ser aproveitada pelos passantes para matar a sede ou para se lavar. O poema, dedicado a Lili Correia de Araújo, continua por mais catorze estrofes, descrevendo o que a poeta via ou ouvia da janela: o motorista do caminhão Mercedes-Benz que lava o rosto, o peito e o pescoço; a tropa de burros que se encaminha mecanicamente para a água; as exclamações de “está fria”, “gelada”, com que “todos concordam há séculos”. Menos relevante para a literatura, mas bem mais para a vida pessoal de Bishop, foi outra vista que ela tinha da mesma janela: a de uma casa, do outro lado da rua, um pouco mais para a direita, que observada do alto, como ela o fazia, exibia “um enorme jardim murado e o telhado mais bonito de Ouro Preto”. A família proprietária pensava em vendê-la. Bishop acabou comprando-a. “Vim passar uns dias aqui e acabei comprando uma casa”, anunciou ao crítico literário e amigo Ashley Brown, numa carta escrita em Ouro Preto, em setembro de 1965. O compromisso da poeta com a cidade mineira mudava de patamar.

 

A casa, datada de fins do século XVII e início do XVIII, era pouco mais que uma ruína. Os três anos seguintes seriam dedicados à restauração. Bishop continuava morando entre Rio e Petrópolis e vinha vez ou outra a Ouro Preto. Da direção das obras encarregou a amiga Lili. Não haveria pessoa mais indicada. Lili, que conhecera o marido Pedro Correia de Araújo em Paris, ao procurá-lo para tomar aulas de pintura, era ela também dotada para o desenho e o artesanato, e, como o marido, tomou gosto pelas antiguidades e pelo preservacionismo. Testemunha de seus talentos é o Pouso do Chico Rei, decorado com um bom gosto até então desconhecido em Ouro Preto, e saudado em versos pelos hóspedes poetas, como Vinicius de Moraes:

Amiga, só quero pouso
No Pouso do Chico Rei

Ou Elizabeth Bishop:

Let Shakespeare and Milton
Stay at a Hilton.
I will stay
at Chico Rei.
[1]

O trabalho de restauro, além de longo, foi caro. “Para mim a casa já está lindíssima, embora ainda haja muita coisa a fazer e meu dinheiro tenha acabado, pelo menos por ora”, escreveu Bishop numa carta de maio de 1967. Mais adiante: “A casa foi uma extravagância um tanto impensada, ao que parece, mas do jeito que os trabalhadores estão fazendo a reforma ela vai ficar em forma por mais três séculos. Tem um velho bem velhinho sentado no chão trançando lascas finas de bambu para refazer o teto – é como trabalho de cesteiro –, depois tudo é pintado de branco exatamente como se fazia no século XVIII.”

Na ocasião, Bishop encontrava-se em Ouro Preto com Lota, e animada. A amiga parecia sair da crise de depressão, tanto que se entretinha em medir o terreno da casa, para planejar o novo jardim. (Era ilusão: quatro meses depois Lota se mataria.) No ano seguinte, quando José Alberto Nemer a conheceu, a casa ainda não estava pronta, tanto que ela ainda se hospedava na casa de Lili. Mas estava quase.

 

O escriba que vos fala conheceu José Alberto e Linda Nemer num evento em São Paulo, no começo de maio, às vésperas da reestreia da peça Um Porto para Elizabeth Bishop. Quem convidava eram a autora Marta Góes e a atriz Regina Braga; além delas, do diretor José Possi e de outros responsáveis pela montagem, compareceu um pequeno grupo de jornalistas e amigos. O local era uma casinha de entrada quase imperceptível na rua Lopes Chaves, de literária notoriedade (é a rua onde morou Mário de Andrade), em que a irmã de Regina, Bia Braga, montou o restaurante Feijoada da Bia. Os e-mails aos convidados afirmavam que o encontro se daria “em torno de Linda e José Alberto Nemer”. Foram servidas bebidas e salgadinhos, formaram-se rodinhas, até que a alturas tantas os presentes foram instados a se agrupar junto à mesa mais próxima da entrada, onde os Nemer acabavam de se instalar. Agora sim, estávamos “em torno” dos dois irmãos. E distraídos de raciocínio lento, como o já mencionado escriba, se deram conta de que estávamos ali para escutar histórias de quem conviveu com Bishop muito intensamente, na fase Ouro Preto da vida da poeta.

De certa forma, a convivência continua. Pois a casa que Elizabeth Bishop tão cuidadosamente pôs em ordem, e à qual dedicou tanta afeição, a casa “mais bonita do mundo”, como a chamou numa carta ao poeta e grande amigo Robert Lowell, agora é de propriedade de Linda Nemer, e de usufruto de José Alberto e de toda a numerosa família Nemer. Linda comprou-a em 1982. Os irmãos falaram da casa e contaram histórias. Linda leu uma carta da poeta. Em português?, estranharam. Sim, aos dois irmãos, que não dominavam o inglês, ela escrevia em português.

José Alberto contou, entre muitas outras, a história do dia em que Zenite, uma vizinha que prestava pequenos serviços a Bishop, levou a mãe para visitá-la. Sentaram-se, a poeta no meio, Zenite de um lado, a mãe de Zenite do outro. A mãe achava que aquela estrangeira seria incapaz de entendê-la. Dizia então à filha: “Pergunta se ela gosta de Ouro Preto.” A filha perguntava: “A senhora gosta de Ouro Preto?” Bishop respondia: “Gosto.” A filha traduzia: “Ela disse que gosta.” A mãe repicava: “Pergunta se ela sabe de cozinhar.” A filha: “Ela perguntou se a senhora sabe de cozinhar.” Bishop: “Sei, e gosto muito.” A filha: “Ela disse que sabe e que gosta muito de cozinhar.” E assim transcorreu a visita, com Zenite investida no papel de intérprete do português para o português e vice-versa.


*Close close all night/ the lovers keep./ They turn together/ in their sleep,/ close as two pages/ in a book/ that read each other/ in the dark./ Each knows all/ the other knows,/ learned by heart/ from head to toes.

O clima no sobrado da Lopes Chaves era de serão familiar; a pequena plateia guardava uma atenção reverente. Ao encerrar-se o evento, dois insistentes pensamentos me ocupavam a mente. O primeiro era a impressão de que Elizabeth Bishop vai se transformando num culto, até com algo de… religioso? Cabe dizer religioso? Vá lá: religioso… em certos círculos brasileiros. O interesse com que escutávamos os Nemer era indício disso. O ambiente de poucas pessoas num espaço restrito como o restaurante da Bia quase nos conferia ares de catecúmenos. O culto tem a ver em primeiro lugar, é evidente, com a alta qualidade da literatura da poeta.

Em segundo lugar tem a ver, também é evidente, com o longo tempo em que ela viveu no Brasil – cerca de duas décadas, somados os períodos de permanência contínua com aqueles em que ia e vinha.

Em terceiro lugar, tem a ver com o quanto o Brasil colou na pele da poeta. Aqui começam as razões mais fecundas do fenômeno. Outros escritores estrangeiros viveram no Brasil, e muitos escreveram sobre o país. Nenhum, até onde a vista alcança, durante tão longo período, e ocupando lugar tão importante em sua obra.

O Brasil está presente mesmo quando não é citado, como no poema “Crusoé na Inglaterra”. O personagem do título descreve, entre saudoso e aliviado, a terra que deixou para trás, onde teve de se adaptar a uma natureza exótica, sofreu e foi feliz. Na superfície é Robinson, agora de volta à pátria, a lembrar de sua ilha. Um nível abaixo é Bishop, de volta aos Estados Unidos, a lembrar do Brasil. Nas cartas, as numerosas cartas da poeta, que juntas compõem vultosíssimo repertório, ela ama e detesta o Brasil, faz juízos pertinentes e comete erros de estrangeira, desfere certeiras estocadas e exibe preconceitos – mas como o assunto a ocupou! Bishop pratica a antropofagia de Oswald de Andrade ao inverso. Deglutiu o Brasil e o expele em forma de alta literatura ou, nas cartas, de comentário casual.

Por último, o culto tem a ver com martírio. Religião que se preza há de ter mártir. O martírio de Lota é também o martírio de Bishop. Os sofrimentos já vinham de longe. O pai morreu quando tinha 8 meses e, quando tinha 5 anos, a mãe, portadora de transtorno mental, foi internada para nunca mais voltar. A poeta nunca mais a viu. O Brasil, que lhe oferecera um lar, a ela que só tivera o dos avós quando criança, e um porto, a ela que desde cedo elegeu a itinerância como sistema de vida, agora lhe oferecia a ferida incicatrizável do suicídio da companheira brasileira.

O segundo pensamento era a tentação de pôr no papel a história da poeta em Ouro Preto e de sua convivência com os Nemer. Enviei-lhes a proposta, eles concordaram. Um mês depois, eis-me em Ouro Preto, recebido com o calor característico dos lares mineiros na casa que Elizabeth Bishop, em homenagem a Marianne Moore, chamou de Casa Mariana. Durante três dias, além de muitas horas de entrevistas gravadas com os irmãos, tive oportunidade de vasculhar-lhes os papéis e conhecer o ambiente da poeta. José Alberto Nemer, aos 66 anos, é um artista plástico de currículo rico e obra consolidada. Naqueles dias mesmo, primeira quinzena de junho, estava inaugurando em Ouro Preto uma exposição das produções mais recentes, belas aquarelas em que combina formas abstratas e geométricas. A maior originalidade está nas dimensões dos trabalhos. As aquarelas, quase sinônimo de formato miúdo no universo das artes plásticas, em suas mãos se agigantam: medem 1,30 por 2 metros. O crítico Olívio Tavares de Araújo afirma, na apresentação da exposição, não ter notícia de artista que produza aquarelas de semelhantes proporções. Bishop reconhecia o talento do jovem amigo. Tentou, por mais de uma via, conseguir-lhe uma bolsa nos Estados Unidos. Acabou saindo primeiro a bolsa que Nemer pleiteara em Paris. Na França, na década de 70, começou estudante e acabou professor na Sorbonne.

 

Linda Nemer, que completou 80 anosno dia 13 de julho, também estudou na França. É economista e socióloga. Exerceu funções no INSS e no Ministério da Educação, em Brasília, e deu aulas na Universidade Federal de Minas Gerais. Os irmãos nasceram em Ouro Preto, filhos de pais libaneses, e moram em Belo Horizonte. A casa de Ouro Preto é para férias ou fins de semana. Linda é solteira, José Alberto casado com a francesa Annie Rottenstein, também artista plástica. Tanto Linda quanto José Alberto não falam “Bishop”, e muito menos “Elizabeth Bishop”. Falam “Elizabeth”, de forma que se impõe a este texto, agora que adentrou a intimidade desta casa e desta família, chamar a amiga dos Nemer de “Elizabeth”, rogando ao leitor que o traduza por Elizabéti, à moda brasileira, e de preferência por Elizabétchi, com capricho no tchi final, à boa moda mineira.

 

A Casa Mariana assenta-se sobre um terreno em declive. Tem um único patamar ao nível da rua e, abaixo, um porão em que são visíveis as colunas de sua sólida base de pedra. Da rua, o que se vê são três janelas e uma porta e, à direita, um muro alto que esconde o jardim, aquele que a poeta reservara para o talento de Lota (mas que acabou sendo trabalhado por Linda, com desvelo, ao longo dos anos). À esquerda, um muro menor cobre um trecho das lajes em que a água vinda lá de cima, depois de passar por baixo da rua, volta a correr a céu aberto. Esta casa foi a primeira que Elizabeth teve como realmente sua, seja nos Estados Unidos, seja no Brasil. Não lhe faltaram casas deslumbrantes no Brasil.

No Rio, morou em apartamento de cobertura no Leme e, em Petrópolis, na famosa casa de vidro incrustada na Mata Atlântica, no bairro de Samambaia, projeto de Sergio Bernardes. Mas eram de Lota. À casa de Ouro Preto, por ser o que era e por ser a primeira, dedicou uma afeição que persistia mesmo quando a afeição por Ouro Preto, ou pelo Brasil, afrouxava. Na mesma carta a Roberto Lowell em que diz que a casa é “a mais bonita do mundo”, acrescenta que, no entanto, não está certa de querer morar na cidade mineira. “Eu queria levar a casa ou a casa de Lota pelo ar – como aquela igreja na Itália –, milagrosamente, para Connecticut ou algum estado assim.”

O interior da casa conserva-se em grande parte tal qual a poeta o deixou. Na sala, a lareira de ferro que ela trouxe dos Estados Unidos, assim como o sofá. Nemer lembra-se do comentário de Elizabeth ao tentar em vão acender o fogo: “Não compreendo. Ponho madeira, papel, jogo álcool, acendo o fósforo, e nada acontece. E há prédios enormes que queimam inteiros sem ninguém pôr fogo.” Comprados em antiquários de Ouro Preto são o armário antigo, triangular, do tipo que se encaixa no ângulo entre duas paredes, e a queijeira rústica que, outrora destinada a secar os queijos, hoje serve de mesinha de centro. As poltronas não estavam aqui ao tempo de Elizabeth, mas ela as conheceu muito bem. Vieram de Petrópolis, da casa de Lota. Foram oferecidas a Linda pela atual proprietária, Zuleika Torrealba. A papeleira encostada na parede pertenceu ao pai de Lota. Na sala de jantar reinam uma mesa mineira antiga, do tipo cavalete, e um armário de farmácia, um dos três em que Elizabeth acomodava seus livros. Dali se acessa uma sacada que, nos fundos da casa, oferece vista de tirar o fôlego, primeiro de Ouro Preto, escorrendo pelas encostas, depois das montanhas, lá longe.

O cômodo seguinte é a cozinha, onde sobrevivem os mesmos armários de treliça mandados fazer por Elizabethe até alguns de seus utensílios, como uma pequena balança de fabricação americana. José Alberto conta que Elizabeth cozinhava – e bem – com métodos “hiper-rígidos, tudo medido e cortado”. A balança era para não dar chance ao azar. Algumas das especialidades da poeta de que José Alberto se recorda são abobrinha ao forno e lombinho de porco com maçã verde. Inesquecíveis eram a geleia de laranja amarga e a conserva de legumes em banho de mostarda. Linda lembra-se da torta de maçã. Um dia, ao chegar na casa, Elizabeth disse que estava mesmo a esperá-la. “Acabei de fazer uma torta de maçã e imaginava que, se você sentisse o cheiro, viria.” Em outra ocasião, a poeta pediu-lhe que escrevesse com a maquininha de rotular os nomes dos ingredientes – “Sal”, “Pimenta”, “Açúcar”, “Farinha” –, para bem orientar a empregada na manipulação dos potes.

Dos cinco quartos da casa, Elizabeth ocupava um dos menores. A janela dava para a face em que corre a água das lajes, e José Alberto descreve o ambiente como “monástico”; não havia ali mais que cama, cômoda e mesinha de cabeceira. Sobre a cômoda pendurava-se um quadro de Scliar, representando uma fruta. Por uma porta interna, o quarto dá acesso ao cômodo vizinho, do qual Elizabeth fazia seu escritório. Trabalhava de costas para a janela. À sua frente, uma estante de livros. Elizabeth tinha 3 mil livros na casa. A presença dos livros, em pessoas de sua índole, pode ser tomada como âncora. Significa que aquele é seu porto.

 

Elizabeth mudou-se para a casa no segundo semestre de 1969. Com ela veio aquela jovem americana de longos e louros cabelos que José Alberto conhecia desde o almoço na casa de Scliar. Era sua nova companheira. X. Y. será seu nome neste relato, por razões que adiante ficarão claras. Elizabeth conhecera X. Y. em Seattle, em 1965, durante o período em que deu aulas nessa cidade. Ela estava grávida, na ocasião. Agora tinha um filho pequeno, que iria compor com o casal de mulheres a família da casa. X. Y. chegou esbanjando autoridade, segundo José Alberto. Desembarcou “como a dona do galinheiro”. Assumiu, entre outras responsabilidades, a supervisão dos trabalhos que ainda restavam fazer na casa, e uma das consequências disso foi bater de frente com Lili. X. Y. encontrou erros, ou julgou que os encontrou, nas prestações de contas de Lili, e induziu Elizabeth a processar a amiga. A poeta conta numa carta a cena “muito engraçada” que protagonizou um dia em que se viu a sós com Lili. “Os olhos dela se encheram de lágrimas e ela disse: ‘Mas você está me processando.’ E eu disse: ‘Estou sim’, provavelmente com os olhos cheios de lágrimas também.”

Elizabeth tinha em X. Y. também uma ajudante, que cuidava da correspondência comercial e profissional. Nas cartas, é frequente se referir a ela como “minha secretária”. X. Y. encarregava-se de mandar de Ouro Preto a Belo Horizonte convites para ocasiões festivas. Telegrama a José Alberto, 6 de fevereiro de 1970: “Venha festinha domingo três da tarde aniversário Elizabeth, olhar Carnaval conosco depois, seu quarto está pronto.” O aniversário da poeta era no dia 8 de fevereiro, e “olhar o Carnaval”, isto é, assistir ao desfile dos blocos ou das escolas de samba, era um prazer que Elizabeth adquirira no Rio. Já era costume de José Alberto, a essa altura, hospedar-se na Casa Mariana.

Outro telegrama da mesma época, guardado por José Alberto, convida-o para “festa sábado, 20 horas, aqui, honorar Elizabeth”. “Honorar” quer dizer “honrar”, ou “em honra de”, mas, fora o deslize, é de admirar como, em pouco tempo, X. Y. já conseguia manejar o português. Ela era “inteligentíssima”, segundo José Alberto. A festa para “honorar” Elizabeth celebraria o National Book Award que ela ganhou em 1970, um dos mais importantes prêmios literários americanos.

A Casa Mariana escondia um mistério. Ouro Preto e casa de quase 300 anos já em si induzem ao mistério. O mistério aumenta quando se tem um mapa indicando que naquela casa foi enterrado um tesouro. Os Nemer ainda guardam uma cópia do mapa, entregue a Elizabeth, quando comprou a casa, por um especialista carioca em antigos tesouros. Não é propriamente um mapa. Não tem desenhos. É uma descrição em palavras do lugar onde estaria enterrado “um costal com 6 mil moedas”.

O texto, na boa linguagem dos enterradores de tesouro, começa com “deixo tudo o que tenho para as mãos do senhor para a felicidade de todo o povo da vila”, para a seguir referir-se a “dois paus de jacarandá”, “pau oitavado”, “canelo enfiado no paredão”, “calçamento de estrela”, e outras desconcertantes indicações da localização da fortuna. Numa carta à colega de escola e antiga companheira Louise Crane, Elizabeth aborda o assunto. “Já lhe contei a história do ouro que estaria enterrado em minha casa de Ouro Preto, ou no jardim? Mandei até escavar o porão e abrir buracos nas paredes e nos assoalhos, talvez esta fosse a solução para todos os meus problemas – encontrar um tesouro escondido. Tem até mesmo um mapa, mas imagino que, se houvesse de fato ouro escondido ali, já o levaram há muito tempo.” Elizabeth teria levado o tesouro a sério? Os irmãos divergem. José Alberto assegura que Elizabeth tratava a história como “folclore”. Linda retruca: “Ô, José Alberto, ela ironizava, mas, no íntimo… Você acha que alguém, tendo notícia de um tesouro em casa, não vai pesquisar? Mandaram escavar.” Escavar, para José Alberto, foi “loucura da X. Y.”.

 

Se todos os problemas em Ouro Preto se resumissem à falta de um tesouro enterrado, estaria tudo azul no horizonte das duas mulheres. Elizabeth relata que um vizinho certa vez jogou uma pedra em X. Y. Talvez fosse reação da vizinhança de bons e cristãos hábitos a duas mulheres vivendo abertamente uma relação homossexual. No Rio, Elizabeth conhecera o cordão protetor da fortuna e dos amigos de mente aberta, ou que se faziam de mente aberta, de Lota. Numa pequena cidade do interior do Brasil a conversa era outra.

Noutra ocasião, X. Y. achou que a prefeitura não recolhia o lixo da casa, por perseguição a elas. Apanhou o lixo de vários dias e despejou-o na porta da prefeitura. O episódio da pedrada pode ser real. O do lixo prenuncia uma derrapada na saúde mental de X. Y., que logo assumiria graves proporções. Ao estado da jovem somavam-se as crises de Elizabeth. O alcoolismo que ela trazia já de muitos anos se manifestaria em repetidos episódios. José Alberto a socorrerá em vários deles, alguns graves a ponto de ser necessário interná-la. Numa dessas ocasiões, ele chamará Linda, que acabava de voltar da Europa, para ajudá-lo. É assim que a irmã mais velha conhece Elizabeth.

As duas tomavam muitos remédios – remédios para dormir, remédios para acordar. Bilhete de X. Y. guardado por José Alberto: “Faça o favor de falar com o doutor para ele receitar para nós mais quatro caixas de Anorexil e mais dois vidros de Nardil. Pode dizer a ele que nós estamos tomando cada uma entre um e meio e dois comprimidos de cada droga, cada dia. Talvez ele achará que é demais mas não podemos ficar com menos.” X. Y. acrescentará à história do lixo a suspeita de que operários estariam pondo veneno na caixa d’água da casa. Ou que estariam, à sua revelia, escavando o porão, em busca do tesouro. Um dia, em Belo Horizonte, José Alberto almoçava em casa quando bateram à porta dois fortes rapagões, cabelo escovinha, jeito de americanos, sotaque de americanos. Disseram que tinham ordens do cônsul dos Estados Unidos de levá-lo ao consulado. José Alberto respondeu que o.k., passaria lá mais tarde. Não, o assunto era urgente e tinham ordens de levá-lo de imediato. Ele foi. Chegou ao casarão do consulado, atravessou os jardins, subiu uma escadaria, passou pela varanda e, para seu grande espanto, quando lhe abriram a porta, deu com X. Y.

A moça atirou-se em seus braços. “Ô, José Alberto, que bom que você chegou, que bom que você veio!” O cônsul observava a cena com surpresa. Chamou José Alberto de lado, introduziu-o em seu escritório, fechou a porta. “Há aqui uma confusão”, disse. “Estava preparado para uma coisa e me deparo com outra.” A história começara de madrugada, em Ouro Preto. X. Y. pegou o filho, acordou o motorista de táxi que costumava servi-la, solicitou-lhe que os levasse, a ela e ao filho, a Belo Horizonte, dirigiu-se ao consulado e pediu asilo ao governo dos Estados Unidos da América. Uma conspiração, informou, estava em curso em Ouro Preto. O intuito era matar os americanos e José Alberto seria um dos cabeças.“O senhor me desculpe”, disse o cônsul. “Pelo jeito que ela o recebeu, percebo que a história não faz sentido.” Da parte da potência americana, o caso estava encerrado. O cônsul desculpou-se ainda uma vez e ao despedir-se perguntou: “E miss Bishop, como está?” José Alberto respondeu que, até onde sabia, miss Bishop estava bem, em Ouro Preto. Quem estava mal era X. Y. Chegara a um limite. Era caso de internação.

 

O episódio é de abril de 1970. José Alberto guarda o recibo do pagamento da Casa de Saúde Santa Clara, onde a jovem foi internada: “Recebi do senhor José Alberto Nemer a quantia de 500 cruzeiros, por conta da pensionista X. Y. Assinado, Sérgio Figueiredo Lacerda.” Lembre-se de que a ditadura no Brasil vivia o auge de sua fúria. Para uma pessoa acometida de surto psicótico, caracterizado por delírios paranoicos, o clima para imaginar conspirações era o ideal. A relação de X. Y. com Elizabeth trincara irremediavelmente. A poeta não queria mais a outra por perto. “Ela estava apavorada”, diz José Alberto. Dera-se conta de que estivera “dormindo com o inimigo”. Pediu que os amigos a ajudassem. José Alberto não tem certeza, mas lhe parece que Elizabeth achara um revólver em poder de X. Y.

Contatou-se a família da moça nos Estados Unidos e deu-se um jeito de enviá-la de volta para a terra natal. “Elizabeth literalmente despachou X. Y., quase à força”, conta José Alberto. Linda foi encarregada de levar a jovem e o filho ao aeroporto. Cuidou de apresentar as passagens e os passaportes no balcão da companhia aérea. Já com os cartões de embarque na mão, vira-se de lado e… “Que é de X. Y.?”, conta Linda. “Que é de X. Y.?” Procura daqui, procura dali e vão encontrá-la escondida atrás do balcão de uma das lojas do aeroporto. “Rápido, seu filho já embarcou”, diz-lhe Linda. Na verdade o menino não embarcara. Foi um estratagema para forçá-la a encaminhar-se ao portão de embarque.

“Lamento lhe dizer que tenho péssimas notícias. A X. Y. teve uma crise nervosa muito séria”, escreveu a poeta para sua médica de Nova York e confidente da vida inteira, doutora Anny Baumann. Na carta, de 11 de maio de 1970, o dia seguinte à partida da jovem, ela afirma, de permeio ao relato de várias estripulias protagonizadas pela ex-companheira: “Acho que, de algum modo, a X. Y. queria ser eu, e por isso no fundo queria mesmo me matar, ficar com a casa etc. só para ela. Sei que isso parece loucura, mas muitas e muitas coisas que ela fez provam que tenho razão e os poucos amigos que temos (que vinham aqui nos fins de semana) observaram a mesma coisa.”

X. Y. só reapareceria na vida de Elizabeth uma única vez, em novembro daquele ano. A poeta encontrava-se agora nos Estados Unidos, iniciando as funções de professora na Universidade Harvard. X. Y. surgiu sem aviso, para terror de Elizabeth, na porta da sala, quando ela acabava de dar uma aula, e encheu-lhe os ouvidos dos supostos horrores que sofrera no Brasil, inclusive da parte dos irmãos Nemer, que (1) tinham tentado expulsá-la de Ouro Preto, muito antes de ela efetivamente partir; (2) tinham tentado matá-la no hospital; e (3) tramavam ficar com o dinheiro e a casa dela, Elizabeth. O episódio também está narrado em carta da poeta e assinala o fim do capítulo X. Y. em sua vida. Nos anos seguintes, a moça reconstruiria a vida nos Estados Unidos, faria uma carreira profissional e ganharia na Justiça o direito de não figurar com o verdadeiro nome nos relatos sobre Elizabeth. Virou X. Y.

Os Nemer haviam se tornado protetores de Elizabeth, e não só contra os delírios de X. Y. Também contra ela própria. Ao ganhar o National Book Award de 1970, a poeta tinha todos os motivos para estar satisfeita consigo mesma. Seu editor, Robert Giroux, lhe dera a boa notícia pelo telefone. “Ele me abrrraçava tanto, tanto”, contou a José Alberto. “Ainda bem que os abrrraços eram pelo telefone.” (Os erres triplicados vêm para indicar que José Alberto, quando reproduz as falas de Elizabeth, imita-lhe o sotaque americano.) No entanto, dias depois, ao procurá-la em casa, Linda tocou a campainha, tocou de novo, bateu à porta – nada. Pulou então o muro. Foi encontrar Elizabeth estendida no chão da varanda, desacordada. Tinha bebido, caído e quebrado a costela. Menos mal que podia até perder o equilíbrio, mas não perdia o humor. Ao saber que quebrara a costela, José Alberto comentou com ela: “É mesmo, Elizabeth? E como foi isso?” Ela respondeu: “Acho que foram os abrrraços do meu editor.”

 

As recaídas no alcoolismo eram prolongadas, dramáticas, pungentes. José Alberto assistiu a algumas delas de perto, em períodos em que estava hospedado na casa. Ela nunca bebia na frente de outras pessoas. Nas reuniões que promovia, preparava os drinques, mas não os provava, e orgulhava-se disso. Bebia trancada no quarto – uísque, cachaça, mas também, na falta de alternativas, perfumes ou o álcool da lareira. Passava dias trancada no quarto. José Alberto ouvia os sons que vinham de lá. “Oh, no, no, no, impossible! Really??? Ha… Ha…Ha… My God!!” Ela falava alto, ria, chorava. Podia acontecer de – plaft! – vir do quarto também o som de algo despencando. José Alberto batia à porta: “Elizabeth, você está bem?” Batia de novo, até ela responder: “Yeeesss, estou bem.”

O padrão era que, depois de quatro, cinco ou até sete dias, ela saísse do quarto e pedisse: “Me ajuda.” Era sinal de que chegara ao fundo do poço. “Quer ser internada?” Ela respondia que sim. Se era noite, ia-se acordar o motorista de táxi, como X. Y. fizera em seu surto. Corria-se a Belo Horizonte; levavam-na à Clínica Pinel. Começava então uma nova fase, em que aos Nemer cabia assisti-la na tomada de pequenas providências. A internação tinha sido feita na urgência, ela precisava agora de artigos que a ajudariam a levar a vida no hospital. Nemer guarda um bilhete em que ela pede “camisola, desodorante, sabonete, máquina de escrever” (assim mesmo, sublinhado) e ainda “uma caixa de Hilton, fósforos”, e que providenciassem “carne para Suzuki” (o gato). Linda era encarregada de comprar livros americanos descartáveis no aeroporto – “paperback qualquer, mas não faroeste”, especificava.

 

O poeta James Merrill, grande amigo de Elizabeth – artista de muitos méritos, ganhador do prêmio Pulitzer e filho de um dos fundadores da financeira Merrill Lynch –, veio visitá-la em julho de 1970. Finalmente encontrara um meio de atender aos insistentes convites da amiga. Ficou hospedado na Casa Mariana. Em julho também José Alberto se hospedava na casa; era época do Festival de Inverno, durante o qual dava aulas. Na noite da chegada de James Merrill, ao entrar na sala, José Alberto deu com os dois sentados no sofá e Elizabeth a chorar. José Alberto ensaiou um recuo, Elizabeth o deteve. “Não se preocupe, José Alberto. Estou chorando em inglês.”

A tirada correu o mundo. James Merrill a relatou num texto e o editor Robert Giroux repetiu-a na introdução de Uma Arte, o livro que enfeixa a correspondência de Elizabeth. Menos poético transcorreu o restante da visita de Merrill. Cozinheiro de bons dotes, ele se dispusera a preparar um frango ao curry no dia seguinte. Elizabeth lhe dissera que estava com saudades de seu frango ao curry. Merrill trouxera os temperos. Juntou-os, providenciou o frango e se pôs ao trabalho. Elizabeth continuava no quarto. Chegou a hora do almoço e nada de ela sair do quarto. O frango foi melancolicamente deglutido sem a presença da dona da casa, que também não saiu do quarto no dia seguinte, nem no outro. “James Merrill passou aqui três ou quatro dias praticamente sem vê-la”, conta José Alberto. Sua impressão é de que o choro daquela noite era porque ela falava de Lota. Pode ser também que falasse de X. Y., cujo surto atingira o auge fazia apenas dois meses. Fosse qual fosse o motivo, o choro era prenúncio de estado depressivo, e estado depressivo de mergulho na bebida.

Seguiram-se a internação e um período em que esteve hospedada na casa dos Nemer, em Belo Horizonte. “Você deve estar pensando que eu não sou apenas a pior anfitriã (e dona de casa) do mundo como também a pior correspondente”, escreveu ela a James Merrill, no dia 24 de agosto. Só então, passado mais de um mês, tomara coragem de se dirigir ao amigo. Na mesma carta, fala da temporada de repouso com a família de Linda e José Alberto. “Ficar na casa dos Nemer é uma experiência estranha – uma visita ao Líbano deve ser mais ou menos assim. Azeitonas pretas e um iogurte fantástico feito em casa no café da manhã, quibe, pilan – montanhas de comida árabe o dia inteiro – e sete pessoas entrando e saindo, todos os mais jovens ganhando dinheiro.” As “sete pessoas” eram os sete irmãos Nemer: Linda, José Alberto e mais cinco, duas mulheres e três homens. “À noite eles soltam um cachorrão enorme, preto, terrível, para devorar qualquer intruso, e ele fica uivando em volta da casa.” A mãe viúva, dona Najla – informa Elizabeth a Merrill –, nunca aprendeu o alfabeto latino, só o árabe. “Ela se achava na obrigação de passar um bom tempo à minha cabeceira e nossas conversas eram muito estranhas, porque nós duas éramos muito educadas uma com a outra, mas uma não entendia nada que a outra dizia.”

 

A carta contém um pedido de desculpas “por você ter chegado aqui quando eu estava tendo um pequeno – ou grande – colapso nervoso”. Para José Alberto, Elizabeth apresentava uma fragilidade emocional que a fazia viver num fio de navalha. “Quando a conheci, parecia um animal ferido de morte. Estava com uma chaga aberta, que era o suicídio de Lota.” Sempre que era internada – e nem sempre pelo álcool, havia também as crises de asma e os problemas gástricos –, achava que ia morrer. Levava um caderno em que, suspeita José Alberto, alinhava as últimas vontades. Às vezes chorava antes mesmo de abrir uma carta, ou demorava a abri-la de medo do que pudesse conter. José Alberto não encontra melhor palavra para defini-la do que a francesa catastrophée. Era uma pessoa “catastrofada”.

Os menores incidentes a desestabilizavam. Certo dia – agora é julho de 1971 –, ela perguntou a José Alberto o que significava “tia”. “Ora, tia é tia – a irmã do pai, ou da mãe. Aunt”, responde ele. “E na gíria, o que é tia?” “Na gíria, é uma mulher de mais idade.” José Alberto percebeu pelo jeito de ela falar, e de rir de modo que não lhe era habitual, que tinha bebido. “Ô, tiiiaaa, tiiiaaa”, repetia. “Porrr que tia? Porrr que tia?” (Ela tinha o hábito de dizer “Porrr quê? Porrr quê?”, diante de tudo que a intrigava ou a infelicitava.) À noite, José Alberto se encontrou com a namorada e ela lhe contou que havia passado de carro, com uns amigos, na Casa Mariana, à sua procura. Atendeu à porta Elizabeth, e informou que ele não estava. Despediram-se e, quando o carro arrancava, o amigo que estava no banco de trás esticou a cabeça para fora e gritou: “Obrigado, hein, tia.” Foi o bastante para ativar o turbilhão interno que tanto a maltratava.

 

José Alberto faz questão de lembrar, no entanto, que Elizabeth não lhe era um peso. Muito ao contrário, proporcionava-lhe uma convivência da qual extraía prazer e ensinamento. À tarde, iam a Mariana comer os apreciados salgadinhos de uma lanchonete local. Se não lia inglês e por isso não lhe conhecia a obra, em compensação convivia com os momentos de poesia viva que a amiga lhe proporcionava. Um desses momentos foi o de “chorar em inglês”. Outro ocorreu a propósito de um objeto que ela guardava em cima da lareira, uma rudimentar lamparina feita com uma lâmpada elétrica envolvida em restos de lata de cerveja e tampinha de garrafa. Era um dos produtos que a Pinga Fogo, uma mendiga de Ouro Preto, costumava vender pelas ruas. O marido funileiro os fabricava e ela os vendia, para comprar a sagrada cachaça de cada dia do casal.

Um dia, Elizabeth olhava para a lamparina (que José Alberto guarda até hoje) e comentou: “Eu sempre gostei desse objeto e não sabia por que. Agora sei. Quem fez isso quis ressuscitar a luz da lâmpada.” José Alberto encantou-se. “Que coisa bonita você disse, Elizabeth.” Para ele, o comentário da amiga eleva a lamparina ao status do readymade de Marcel Duchamp. “Uma frase dessas equivale a um tratado de estética.” José Alberto, que, lembremos, estava nos vinte e poucos anos, atribui a Elizabeth papel decisivo em sua formação. “Ela me valorizava. Gostava da minha companhia, me achava inteligente, ria do que eu dizia. Lacan diz que a autoestima da criança nasce com o olhar da mãe. Para mim, Elizabeth foi uma mãe intelectual.”

O mesmo julho de 1971 do episódio da “tia” foi ocasião de um evento que abalou Ouro Preto e ecoou mundo afora. “Dona Elizabeth, seu Júlio foi preso, seu Júlio foi preso”, informou-lhe a empregada. “Júlio” era Julian Beck, líder do Living Theatre, grupo americano teatral de vanguarda que se apresentava no Festival de Inverno. Não só “Júlio”, mas toda a trupe – 21 pessoas – fora presa na casa em que se hospedava, acusada de porte de maconha. Naquele mesmo dia, Elizabeth daria um jantar a um grupo de amigos, e ficou preocupada. Ela abrigava em casa um americano que servia de secretário ao Living Theatre, e que contratara para ajudá-la na correspondência. “Você acha que ele também tem maconha entre suas coisas?”, perguntou a José Alberto. Sim, era possível. Elizabeth decidiu fuçar nos pertences do americano e realmente achou maconha. “Que faço com isso?” “Joga no rio”, sugeriu José Alberto, referindo-se ao córrego ao lado da casa. “Não, eles têm cães farejadores, não é uma boa ideia.” “Então esconde entre os livros.” “Não, é fácil de achar.”

Elizabeth preparava um frango ao curry para os convidados – de novo frango ao curry, agora com outro mestre-cuca. Veio-lhe então a solução. Jogou a maconha no panelão, para fazer companhia ao frango, ao curry e aos demais ingredientes. Linda, que estava entre os convidados, comeu e sentiu-se mal. Terminado o jantar, os convidados ainda reunidos na sala, tocou a campainha. “Ó, é a polícia!!! Enfim chegou a polícia!!!”, disse Elizabeth, rindo. José Alberto encantava-se com o humor da poeta. Quem tocara a campainha na verdade era um dos moleques de rua que tantas vezes tocavam e saíam correndo. Dias depois, no entanto, quando bateram à porta para colher-lhe a assinatura num manifesto em favor da liberação da turma do Living Theatre, o humor tinha ido embora. “Não assino. Traíram a minha confiança. Não assino.”

Se foi protegida pelos Nemer, Elizabeth também os protegeu. Não cansou de recomendar José Alberto – “o rapaz mais encantador que já conheci”, diz numa carta a James Merrill – aos amigos americanos. Um dia, José Alberto comentou que gostava de uma casa então à venda, um sobradinho que até chamara a atenção de Manuel Bandeira e fora descrito pelo poeta, em seu Guia de Ouro Preto, como “dos mais interessantes da cidade”. “Por que você não o compra?”, sugeriu Elizabeth. “Não posso, não tenho o dinheiro.” “Eu empresto”, replicou a amiga. José Alberto concordou, desde que fizessem um contrato estipulando as condições em que ele pagaria o empréstimo. Assim foi feito. Elizabeth emprestou-lhe 7 mil cruzeiros, equivalentes a 2 mil dólares, e ele adquiriu a casa.

Em outra ocasião, Elizabeth apareceu a Linda, na sala da Casa Mariana, trazendo uma caixa de sapato. Disse-lhe, séria: “Você não faz muita ideia, mas sou uma pessoa famosa.” Estendeu-lhe a caixa. Parecia cerimônia de entrega de prêmio. “Você fica com isto. Um dia, se precisar de dinheiro, vende.” A caixa, amarrada com elástico largo, do tipo usado nas ligas das meias femininas, não fazia jus a tanta formalidade. Já o conteúdo… Dentro, havia manuscritos em folhas soltas de fichário. A cerimônia fora mesmo de entrega de prêmio. Pelos anos seguintes, Linda tomaria muito cuidado com a tosca caixa de sapatos. “Mamãe, atenção, é de Elizabeth”, dizia, quando saía de viagem. Dona Najla, pelo respeito que devotava a “dona Beth”, como a chamava, excluía a caixa da ânsia de jogar fora as caixas e os papéis velhos. Linda reforçou a segurança comprando um cofre de metal, no qual introduziu a caixa.

 

Elizabeth morou em Ouro Preto seguidamente de julho de 1969 a setembro de 1970. Em outubro de 1970, suas cartas já são de Harvard. Em 1971, passará uns poucos meses em Ouro Preto e, nos anos seguintes, voltará por menos tempo ainda. Em 1972 ela escreve a Ashley Brown que tem saudades de Ouro Preto, mas teme se sentir só e entediada na cidade. “Se a Lili, coitada (o “coitada” em português), não tivesse comprado aquela tevê enorme e terrível e ficado viciada, minha situação em O. P. talvez não fosse tão má!” Em 1973 adquiriu um apartamento em Boston, junto ao porto. Em 1974 contratou o transporte de todos os livros para Boston, sinal definitivo de que o lar mudava de sede. Nesse mesmo ano fez a última visita a Ouro Preto.

Nos anos de escassa presença, ou de presença alguma, a relação com os Nemer se fará por cartas, cartões-postais e bilhetes, com exceção de um encontro com Linda nos Estados Unidos, em 1972. Nas cartas, o mau português é temperado pelo humor. “Eu vou agora escrever sem ajuda do diccionário. Seja preparada”, diz numa carta a Linda. Em outra, a José Alberto: “Desculpe meus verbos, preposições, pronomes, tudo.” Numa carta a José Alberto de 1972, enviada de Harvard, conta que no dia anterior fora esquiar em Vermont, e que em seu apartamento na universidade tem uma mesa de pingue-pongue. Conclui: “Sou muito atleta na velhidade.” Em outra, anexa o recorte de um anúncio de máquina detetora de metais numa revista americana e faz ironia com o tesouro da Casa Mariana: “Devo comprar esta máquina?” Às vezes, o humor é mudo. Numa viagem à Finlândia, manda a José Alberto um cartão-postal em que não está escrito nada – vale pela estampa: uma foto de finlandesas nuas na sauna.

 

O cachorrão que tomava conta da casa dos Nemer era na verdade uma cachorra, a pastora-alemã Tula. Elizabeth manda um presente dos Estados Unidos para Tula – uma coleira antipulgas. Metódica, anexa um bilhete em que traduz as instruções de uso da coleira (que ela chama de “colar”). Transcrição literal, com todos os erros e hesitações: “Pus (?) no pescoço dela – não apertado. Deixa espaço para botar dois ou três dedos dentro. CORTE o restinho, e bote no lixo – ou queme – immediatamente (E VENENOSO para as crianças ou para chupar etc.). O colar começa immediatamente a matar as pulgas – e continua matando as pulgas para três meses.”

Mas a preocupação central, obsessiva, nas cartas, é com a casa. Os Nemer estão incumbidos de cuidar dela, na medida em que lhes permitam o trabalho e as próprias viagens. Elizabeth manda dinheiro e cheques em branco para fazer face às despesas. Desespera-se quando o dinheiro não chega. Desespera-se mais ainda com as notícias de que a empregada encarregada de manter e guardar a casa não cumpre a contento seus deveres. “Por favor, fala muito [sublinhado] com Vitória e manda ela assar uma galinha etc. de vez em quando. Provavelmente ela está fazendo nada, só olhando a televisão dos vizinhos”, escreve. E também: “Espero que Vitória estar trabalhando, não passando todo dia a olhar televisão na casa dos vizinhos.” A casa mais bonita do mundo virara um fardo. Impossível administrá-la à distância. Queria livrar-se dela. Consolidou a decisão de vendê-la e expressou-a seguidas vezes aos Nemer e a amigos americanos. A venda casava com outra de suas obsessões: a de o dinheiro vir a faltar-lhe na velhice. Escreveu a José Alberto: “A casa representa a minha futura. Tenho que guardar bem, pintar etc. porque sem vender eu vou ficar na lona aqui. É serioso isso.”

Não encontrou comprador – até o fim da vida a conservaria –, mas ganhou algum alívio quando surgiram interessados em alugá-la. Um dos locatários, em 1977, foi um jovem pintor inglês e a mulher. O pintor era um admirador de Elizabeth, ardoroso a ponto de querer que o filho nascesse não apenas na casa, mas no quarto dela. Uma das atrações até hoje oferecidas pela Casa Mariana é a inscrição que o artista deixou gravada no vidro da janela da poeta, aqui reproduzida no alinhamento original:

In this room
in the house of Elizabeth Bishop,
poet of Boston, Massachussets,
on the night 22 october 1977
was born
Jesse Dunford Wood,
an Englishman and son of
Hugh Diarmid Dunford Wood,
painter,
and Emma Stacey Dunford Wood,
silversmith of
Oxfordshire, England
Thanks be to God  [2]

Enfeixam a inscrição, como a cercá-la entre parênteses e enobrecendo-a como aos atletas e poetas da Antiguidade, dois pares de louro. Pai e filho voltaram a Ouro Preto quando o rapaz fez 18 anos e ficaram hospedados na casa, àquela altura já de Linda. O filho dormiu no quarto em que nascera. O pai é hoje um requisitado pintor, designer e gravador. O filho, um premiado chefe de cozinha conhecido nacionalmente na Inglaterra pelas aparições em programas culinários da televisão.

Numa noite do começo de outubro de 1979, José Alberto sonhou com Elizabeth. Há tempos não a via nem tinha notícia dela. A poeta lhe surgia sem uma perna, numa imagem parada e semelhante a uma emissão holográfica. Ele virava de um lado, via a imagem. Virava de outro, vinha-lhe a mesma imagem. Segue-se uma cena em movimento: ao abrir uma porta, dois gatos avançam em sua direção e lhe rasgam a roupa. “Eram gatos-doberman”, diz ele a alguém. No dia seguinte, veio a saber que Elizabeth morrera, na mesma noite do sonho, 6 de outubro. O sonho colou-lhe fundo na memória. Para ele, aposto ao primeiro encontro, em que os gatos de Elizabeth lhe pulam no colo, “fecha uma gestalt”. Ainda mais o impressiona o fato de a poeta aparecer no sonho sem perna. De certa forma, combina com as circunstâncias de sua morte. Elizabeth preparava-se para ir a um concerto, no apartamento de Boston. Já tinha calçado e amarrado um sapato, faltava amarrar o outro. Debruçou-se para fazê-lo e caiu fulminada. Aneurisma. Tinha 68 anos.

 

Tanto a poeta se afeiçoara aos Nemer que os contemplou no testamento. A Linda, para sua grande surpresa, deixou cinco salas de escritório na avenida Presidente Vargas, no Rio. Haviam pertencido ao pai de Lota, que as legara à filha, que as legara à companheira. Em favor de José Alberto, dispôs que a dívida contraída para a compra do sobradinho de Ouro Preto estava perdoada. (Não lhe valeu: ele a quitara dois anos antes.) A Casa Mariana foi destinada a Alice Methfessel, a última companheira, que morava com Elizabeth em Boston. Quando soube que Alice queria vender a casa, Linda entrou em contato com seu advogado e fechou o negócio.

Alguns anos depois, ao receber uma americana estudiosa de Elizabeth Bishop, Linda mostrou-lhe os papéis guardados na caixa de sapatos. Para a americana foi como deparar com uma pepita de ouro. Ela levou a notícia aos Estados Unidos. Pouco tempo depois Linda recebeu telefonema do Vassar College, a faculdade de elite em que Elizabeth estudara e que guarda a maior parte de seu acervo. Estavam interessados em adquirir os manuscritos. Combinou-se que Linda iria pessoalmente aos Estados Unidos, e lá foi ela levando a surrada caixa de sapatos a esta altura corroída pelos anos. Foi recebida num “carrão” (é como ela o descreve) no aeroporto em Nova York e conduzida a Vassar, cento e poucos quilômetros ao norte. Hospedaram-na num “apartamentão”, no prédio destinado a alojar ex-alunos.

Linda surpreendia-se cada vez mais com as atenções que lhe dispensavam e a solenidade emprestada pelos anfitriões à operação. Levaram-na a uma sala à prova de fogo, onde o conteúdo da caixa seria examinado por peritos vindos de Nova York. Os peritos não demoraram a dar o o.k. – os papéis eram autênticos. Cumpria agora negociar o preço. Quanto pedia pelo material? Ela não fazia ideia. Lembrou-se de alguns reparos necessários no telhado e em outras partes da Casa Mariana. Arriscou: 30 mil dólares. Os americanos não regatearam. Providenciaram o cheque, e ainda lhe fizeram a gentileza de fornecer-lhe uma cópia dos manuscritos.

 

Linda mostra-me a cópia. O conjunto é composto de duas séries de folhas numeradas, uma até 242, outra até 205. Somam, portanto, 447 páginas, em que se alternam poemas, esboços de poemas, sonhos, desenhos, ideias para contos ou ensaios, trechos de outros autores. Entre estes últimos, há transcrições de Os Cantos de Maldoror, de Lautréamont, e, mais surpreendentemente, uma passagem de Imperialismo, Último Estágio do Capitalismo, de Lênin, completada, na mesma página, por uma citação de Lincoln: “Quando o homem branco governa a si mesmo, isto é autogoverno; mas quando o homem branco governa a si mesmo e também outro homem, isto é mais que autogoverno, é despotismo.” Sucedem-se os poemas. Entre muitos outros, “The Museum”, “Blue Postman”, “A Red Kite”, “Money”, em que compara o dinheiro a pássaros que vão e vêm, seus hábitos migratórios afetando tanto sábios quanto ignorantes.

Outra pepita de ouro chegou às mãos de José Alberto quase um ano depois da morte de Elizabeth. Uma pessoa mostrou-lhe carta da poeta na qual constava um poema. José Alberto copiou-o em sua agenda, na página do dia – 24 de agosto de 1980. A pessoa pediu-lhe sigilo quanto à sua identidade. José Alberto o mantém. O poema, sem título, começa com o verso “Close, close all night”. Tanto se empolgou com a inesperada joia que José Alberto fez um desenho para ilustrá-la e o gravou em metal, com o poema. Dez anos mais tarde, mostrou a gravura ao poeta, crítico, amigo dos últimos anos de Elizabeth e organizador de alguns de seus livros póstumos Lloyd Schwartz, então em visita ao Brasil. Schwartz encantou-se e incluiu o poema, ainda mais precioso porque carregado de erotismo de explicitude rara na autora, num artigo para a revista New Yorker, de onde migrou para as antologias de inéditos e dispersos da autora. (O poema, com a gravura que o ilustra, está traduzido na página 56.) Se o tesouro da Casa Mariana teimava em não ser achado, o de Elizabeth Bishop continuava fecundo. J


[1] “Deixemos Shakespeare e Milton/ Ficar num Hilton./ Eu ficarei/ no Chico Rei.”

[2] “Neste quarto, na casa de Elizabeth Bishop, poeta de Boston, Massachusetts, na noite de 22 de outubro de 1977, nasceu Jesse Dunford Wood, inglês filho de Hugh Diarmid Dunford Wood, pintor, e de Emma Stacey Dunford Wood, ourives de Oxfordshire, Inglaterra. Graças sejam dadas a Deus.” (Bishop na verdade nasceu em Worcester, perto de Boston.)

Roberto Pompeu de Toledo

Roberto Pompeu de Toledo, jornalista e escritor, é colunista de Veja. Publicou A Capital da Solidão: Uma História de São Paulo das Origens a 1900 e o romance Leda, ambos pela Objetiva.

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