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Uma outra Dilma

A candidata com apenas dois votos
Tiago Coelho
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Dilma abriu mão da vida pública há poucos meses – e contra a sua vontade. No fim de outubro, encontrei-a em seu escritório e logo indaguei se preferia que a tratasse de presidente ou presidenta. “Presidente, claro. Sei que presidenta está correto, mas não soa bem”, respondeu, empertigada, atrás de uma grande mesa de vidro. Em seguida, pôs-se a explicar por que teve só dois votos nas últimas eleições municipais.

Loura, baixinha, pragmática e sem papas na língua, a Dilma em questão se chama Dilma Lessa. Ela almejava o cargo de vereadora no Rio de Janeiro, onde nasceu e mora há 59 anos. Nunca exerceu funções políticas, mas é presidente, sim – numa empresa de sinalização e segurança industriais, localizada num modesto prédio do Méier, bairro da Zona Norte. A Dilma do subúrbio sempre implicou com o nome escolhido pelos pais. Uma birra que se transformou em desconforto quando a Dilma de Brasília ascendeu à Presidência da República e, mais ainda, quando amargou a ruidosa crise que culminou no impeachment.

Formada em pedagogia, a carioca fundou seu negócio há onze anos. Para enfrentar as instabilidades econômicas dos últimos tempos, adotou medidas austeras e demitiu dois dos cinco funcionários. Em 2015, apesar das intempéries, estava satisfeita com sua carreira quando o mosquito da política a mordeu. Até então, ela enxergava o ambiente partidário com pessimismo e desconfiança. Ainda assim, uma amiga lhe sugeriu candidatar-se a vereadora. Era a chance de Dilma lutar mais efetivamente por uma bandeira de toda a vida: a proteção aos animais.

 

Habituada a acolher cães e gatos abandonados desde menina, mesmo sob o risco das sovas maternas, a empresária acredita que as escolas públicas deveriam ensinar o respeito aos bichos. Se eleita, tentaria aprovar uma lei nesse sentido. No início de 2016, filiou-se ao Partido Humanista da Solidariedade, o PHS, mas percebeu que seu prenome gerou certo mal-estar entre os correligionários. “Ingressei no WhatsApp e alguns integrantes do grupo chiaram.” A postulante a vereadora chegou a discutir com dirigentes da legenda a possibilidade de usar o apelido que lhe puseram na faculdade: Dile, uma junção de Dilma e Lessa. No final das contas, porém, resolveu encarar o nome de batismo. “Na minha vida, sempre dei a cara a tapa.”

Mal iniciou a campanha, viu-se às voltas com um sério problema de saúde. Duas veias safenas comprometidas lhe causavam dores e dormências nas pernas, impedindo-a de andar por muito tempo. Como levar adiante as ambições legislativas se não tinha condições físicas de pedir votos pelas ruas? Só lhe restou largar mão da candidatura e se submeter a duas cirurgias.

Ela comunicou a decisão aos possíveis eleitores via mala direta. Para sua surpresa, entretanto, conseguiu dois votos. “Será que não receberam o meu aviso? Quem teria votado em mim? Eu não fui.”

 

No pouco tempo de campanha, a Dilma do PHS evitou defender a do PT. Não queria meter-se em polêmicas. Mas no ano passado se mostrou solidária à xará mineira. Quando o processo de impeachment começou a se desenhar no Congresso, enviou uma correspondência ao Planalto, apoiando a mandatária em quem votou. “Não havia nenhuma intenção política na carta. As pessoas estavam com sangue nos olhos contra ela e eu quis animá-la”, explicou. “Apagaram tudo o que ela fez de bom. Só focavam no lado ruim de sua gestão. Agora a gente está vendo que tem podridão muito maior em todo canto.” Como resposta, a empresária recebeu uma mensagem assinada pelo diretor de Documentação Histórica do governo, Claudio Soares Rocha: “Agradecemos as palavras de encorajamento e incentivo dirigidas à presidenta. Saiba que é de palavras como a sua que ela tira forças para exercer o cargo.”

Trabalhando num ramo dominado por homens, Dilma disse saber perfeitamente o que a petista passou em Brasília. “Existe muito machismo no país. Vários clientes chegam aqui e pedem para falar com o dono. Quando me apresento, se espantam: ‘Mas é a senhora?’ Por isso, não tenho dúvidas: houve, sim, um golpe contra a presidente.”

Caso entrasse na política, a empresária sustenta que estaria preparada para peitar embates parecidos: “Tiraria de letra. Nunca me faltou garra.” Embora lamente não poder lutar na Câmara pelos bichos desamparados, mantém a militância em sua espaçosa casa na Freguesia, uma região arborizada de Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio. Lá abriga cinco cães resgatados da rua e quatro gatos, além de recepcionar diariamente uma família de gambás à procura de frutas.

Em seu escritório do Méier, corações espelhados decoram a porta e bichos de pelúcia se acomodam sobre os móveis. Um deles é o gorila Nestor. Perguntei se Dilma estava ciente de que um Nestor, o Cerveró, trouxera muitos problemas para a homônima afastada do poder. A empresária assentiu com a cabeça, abraçou o boneco e assegurou: “Mas este Nestor aqui, não. É meu amigo inseparável.”

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