esquina

Uma sacada contra o impeachment

O barulhento vizinho do Maracanã

Tiago Coelho
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Na noite do dia 5 de agosto, uma voz rouca ecoou no Maracanã: “Após esse maravilhoso espetáculo, declaro abertos os Jogos Olímpicos do Rio.” A frase curta, dita de maneira apressada, não impediu que o presidente interino Michel Temer fosse alvo, por parte do público presente à cerimônia inaugural da Olimpíada, de uma sonora e inequívoca vaia.

Na varanda de seu apartamento, no penúltimo dos doze andares de um edifício de classe média bem em frente ao estádio, o engenheiro elétrico Nélio Sampaio de Faria, de 60 anos, testemunhou satisfeito o protesto de seus concidadãos. Naquela mesma noite, começava a montar ali a sua trincheira olímpica particular, pendurando na sacada de casa duas grandes faixas onde pedia, em letras garrafais, o fim de um mandato que considera ilegítimo: “Fora Temer.”

O alarido dentro do Maracanã não durou muito, é verdade – cerca de dez segundos. Mas, do lado de fora, o grito e o apitaço solitários de Faria continuariam a se fazer ouvir durante todos os dezenove dias de competição.

Futebol, vôlei, polo aquático: sempre que uma competição acontecia no Maracanã ou no Maracanãzinho, Faria mal esperava os torcedores se aglomerarem nas cercanias do estádio para assoprar o seu apito “profissional”, prateado, e berrar lá de cima: “Fora Temer!” Muitos, ele diz, respondiam positivamente, às vezes acenavam, alguns replicavam o brado. Outros nem tanto. “Me xingavam de ‘petralha’, de ‘vagabundo’, mandavam eu trabalhar.” Faria não deixava por menos: “Coxinha!”, respondia. Insistia no apitaço. Alguns gaiatos batiam palmas e clamavam em coro: “Pula! Pula!”

Faria avalia que os Jogos Olímpicos podem funcionar, em alguma medida, como uma cortina de fumaça para os reais problemas do país. Apesar da percepção crítica, o vascaíno e fã de esportes não conseguiu se desligar das competições. Quando não permanecia na varanda de casa, gritando e apitando, dava um jeito de comparecer a algum evento olímpico. “Estava ali, nos jogos, mas com o senso crítico ligado”, advertiu. Além disso, lembrou, havia a oportunidade única de protestar in loco.

Na competição de polo aquático, por exemplo, Faria estava lá, na arquibancada, com o senso crítico ligado. Também compareceu ao Engenhão, nas provas de atletismo, e acompanhou a disputa de ginástica rítmica, no Parque Olímpico.

Na impossibilidade de carregar a imensa faixa da sacada, usava cartolinas de papel, pintadas pela filha, para pedir nos estádios a saída do presidente interino. Na disputa do atletismo, Faria inovou, levantando um cartaz de alcance planetário, trilíngue: “Fuck Temer; Casse-toi, Temer; Vete de Aquí, Temer.” Acabou levando um pito de um torcedor mais velho, segundo o qual ali não era lugar de protesto. “Já não basta terem golpeado a Dilma, agora querem me calar”, Faria disse ter respondido.

Ocorre que, mesmo calado, ele dava o recado. Aparecer atrás dos repórteres nas transmissões ao vivo das tevês, empunhando sua mensagem, se transformou numa das trincheiras favoritas do engenheiro. Sua preferência, admitiu, era por câmeras da TV Globo e do SporTV. “A audiência é maior, né? E é a Globo.”

 

Era dia de futebol feminino entre Brasil e Suécia no Maracanã. O engenheiro sessentão, magrinho e de estatura mediana, decidiu dar uma volta no entorno do estádio. Gritava seu mantra para os torcedores e a gente da tevê quando, de repente, se viu interpelado por um grupo de jovens “fortões” vestidos de verde e amarelo.

Num clima nada amistoso, aquela meia dúzia de Alexandres Frotas queria saber se Faria era petista e, depois, qual a razão para ele insistir em defender corruptos. O engenheiro não se intimidou. “E vocês, com essa camisa da CBF, falando em corrupção?” Seguiu-se um bate-boca acalorado, que por sorte não passou disso. No sofá de seu apartamento de dois quartos e poucos móveis, onde mora sozinho desde que se separou da mulher, Faria avaliou o risco que vinha correndo: “Os meus cabelos brancos e a minha idade aliviam minha barra, caso contrário acho que já teria apanhado na rua.”

Refiz a pergunta dos torcedores. Afinal, ele era petista? “Voto no PT desde 89, mas não sou petista como sou vascaíno”, explicou. “Vascaíno eu vou ser sempre, petista é uma questão circunstancial. O PT é o único partido de massa capaz de enfrentar o outro lado. Mas se tiver um outro partido de esquerda que consiga isso, eu repenso. É preciso pensar no futuro da esquerda no Brasil.”

A militância de Faria não encontra resistências apenas nas ruas. Em sua família – “lacerdista”, ele diz – nem sempre suas posições políticas são bem-vindas. Em maio, justo no almoço de domingo do Dia das Mães, Faria acabou se envolvendo numa discussão acalorada com o irmão mais novo, para quem “o PT só tem corrupto”.

Faria argumentou na linha dos “avanços sociais” alcançados sob Lula e Dilma, mas o irmão devolveu mencionando os casos de corrupção e a crise econômica. O engenheiro respondeu que Dilma não era a única culpada pela crise. “Tchau, querida”, gritava o irmão. O clima azedou. A mãe, homenageada do dia, havia preparado uma bacalhoada. Nervosa, chorava sobre o prato com peixe e batata. O almoço acabou antes da hora. “Foi uma coisa triste”, lembrou Faria. “Meu irmão tem uma raiva visceral do Lula.”

O militante narrava a história do almoço na sacada de sua casa, dois dias depois do encerramento dos Jogos Olímpicos. De chinelos e calça jeans, observava sem muito ânimo o Maracanã do outro lado da rua, as luzes coloridas ainda acesas. Mais dois dias e teria início, no Senado, a votação do impeachment de Dilma. “É uma luta inglória, nesse momento. Dá vontade de deixar de lado”, admitiu. “É claro que o interino vai continuar onde está, ainda que sem a legitimidade do voto.”

Olhou para a rua vazia. “Estou mal: sou vascaíno, a presidente que escolhi caiu.” Ensaiou soprar o apito, meio sem força. De repente, pareceu ter um insight. “Daqui a pouco, vem a Paralimpíada”, constatou. “O público será menor, mas vou continuar aqui”, disse, como quem faz planos. “Na minha sacada, com o meu apito e a minha faixa.”

Tiago Coelho

Tiago Coelho é repórter da piauí e roteirista

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