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Van Damme sai de cena

Vai-se uma livraria em Belo Horizonte
Tarcísio Badaró
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Van Damme estava na lona e avisou que não iria se levantar. Ironicamente, porém, continuava de pé, atrás de um balcão de madeira, numa das mais antigas livrarias de Belo Horizonte. O comerciante não conseguia ler absolutamente nada havia dias – justo ele, que se gabava de ter vencido 4 500 livros. “Com a atual situação, não é possível”, justificou, melancólico, em dezembro do ano passado. Para piorar, fazia tempo que não negociava nem sequer um exemplar de Tuareg. Lançado em 1980, o romance preferido do livreiro narra as aventuras de um guerreiro nômade no deserto do Saara. “Umas 10 mil pessoas já o compraram das minhas mãos”, garantiu. Quando indicava o best-seller do espanhol Alberto Vázquez-Figueroa para um cliente, sempre apelava: “Se não gostar, pode devolver.” “Nunca devolveram”, exagerou.

“Boa tarde, senhor Van Damme!”, cumprimentou um homem que acabava de adentrar a loja, situada num prédio do Centro. “Eu li a notícia pela internet. Que pesar…”, lamentou. “O sentimento é recíproco, meu caro”, emendou o dono do negócio com seu jeito formal de se expressar. O homem quis saber o motivo de a livraria fechar após tantas décadas de sucesso. “Vou me aposentar. Estou completando 80 anos”, explicou o comerciante, que em nada lembra o marrento Jean-Claude van Damme, ator, fisiculturista e carateca belga. O Van Damme de BH é franzino, usa óculos e tem pouco cabelo.

Outro freguês perguntou como o livreiro estava. “Bem. E você?” “Triste”, respondeu o dentista Marcelo Drummond. “Frequento a livraria desde 1995”, contou. “O senhor Van Damme lê muito. Por isso, costuma sugerir coisas boas. Adivinhe qual o primeiro livro que me recomendou? Tuareg, claro. Eu adorei.” O advogado Flávio Morais, também cliente antigo, apareceu logo depois. “Certa ocasião”, recordou, “um  colega meu veio aqui e o senhor Van Damme lhe indicou Tuareg, ressaltando que o tinha lido quinze vezes. ‘É mesmo?’, rebateu meu colega, que já conhecia o romance. ‘Eu só li uma vez e entendi tudinho.’”

Figura lendária em Belo Horizonte, Johan van Damme nasceu em Elst, na Bélgica. Seu pai, um agrônomo, deixou a Europa junto com a mulher e os quatro filhos após a Segunda Guerra Mundial. Foi parar em Coronel Fabriciano, no interior de Minas Gerais, onde arranjou emprego na Companhia Siderúrgica Belgo-Mineira. À época, o futuro livreiro tinha 10 anos. Com 16, seguiu para bh. Estudou, casou-se, vendeu assinaturas de revistas e, em 6 de maio de 1971, inaugurou a livraria Van Damme.

Quando a notícia de que o negócio iria fechar ganhou a cidade, houve quem nutrisse a esperança de o folclórico proprietário mudar de ideia. Não mudou. No último dia de 2016, a loja cerrou definitivamente as portas.

 

O telefone tocou. Um quarentão de voz miúda atendeu: “Boa tarde. Sim, aqui é o Van Damme Júnior. Meu pai? Está ocupado agora.” No outro lado da linha, o jornalista insistiu – desejava muito trocar umas palavras com o velho livreiro. “Eu gostaria que você não o entrevistasse”, pediu o filho. “Ele anda bastante sentido.” Esclareceu, então, que as livrarias de rua vinham perdendo força por causa das megastores instaladas nos shoppings e das vendas pela internet. “Mas o mais importante é que chegou a hora de meu pai descansar.”

Júnior tem 48 anos e se formou em administração. Desde 1992, ajuda a tocar o negócio paterno. Assim que desligou o telefone, comentou: “A decisão de fechar partiu de toda a família. Não nos perdoaríamos se acontecesse com meu pai o que aconteceu com o dono da Livraria Amadeu. Ele morreu dentro da loja, sem ninguém para socorrer.”

No balcão, Van Damme não prestava atenção às argumentações do filho. Preferia observar um jovem cliente, que segurava um grande livro de fotografias. “Está barato. Preço simbólico”, adiantou-se o comerciante. Em seguida, deu instruções sobre como manejar o volume. O potencial comprador pareceu não escutar. “Meu caro…”, insistiu o livreiro, acenando. “Ô, gente boa…” O rapaz, um tanto desconcertado, finalmente o atendeu. “Tem que folhear com jeito”, ensinou Van Damme. “Abrir em, no máximo, 90 graus.”

O azedume que muitos lhe atribuem talvez seja apenas excesso de pragmatismo – ou consequência de sua aversão às promoções. Uma vez, um freguês se encantou por um livro importado, com 300 páginas e pôsteres da Revolução Comunista Chinesa. Arriscou pedir desconto. “O senhor dispõe da minha simpatia e do meu sorriso”, retrucou o comerciante. “Isso deve valer alguma coisa, não?”

Pior sorte amargou a única cliente que ousou devolver Tuareg. Despontou certa manhã, trazendo o livro embaixo do braço. “Não gostei”, afirmou, categórica. O negociante suspeitou e a encostou na parede. Exigiu que detalhasse a razão do desagrado. Ela não resistiu à sabatina e confessou: “Nem cheguei a ler…” Resolvera descartar o romance simplesmente por considerar a capa feia. Desmascarada, tentou voltar atrás. Mas Van Damme não permitiu. “Livro tem sentimentos. Tuareg não ia querer retornar para a casa de uma pessoa que o tratou daquela maneira.”

O livreiro indicava o best-seller desde a década de 80, quando o leu pela primeira vez. “A trama ensina o que é dignidade, honra, caráter”, resumiu. “Seu protagonista sempre faz jus à palavra empenhada.”

 

Caía a noite, e Van Damme se pegou sozinho na livraria, agora bem silenciosa. Procurou definir o que sentia. “Tem que aceitar, vamos dizer assim, a mudança das coisas, dos tempos.” Sua voz cavernosa, baixinha, estava embargada.

Enquanto falava, o comerciante arrumava uma prateleira. O livro da ponta teimava em não parar de pé. Ele o ergueu e o juntou à pilha, mas o volume tornou a cair. Van Damme suspirou, ajeitou o livro outra vez e novamente o viu desabar. Sem querer, metera-se num trabalho de Sísifo. Após insistir mais um pouco, abdicou da tarefa inútil e largou o livro caído. Era seu aniversário. Comemorava 78 anos, embora já anunciasse os 80.

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