ficção

A verdadeira viagem ao Brasil do arcabuzeiro Hans Staden

E como foi que de lá ele jamais saiu, ao contrário do que alardeia a história oficial

Reinaldo Moraes
Além de minar a força dos tupinambás, a prática do pité-na-taconha diminuiu o número de mulheres prenhes. Era uma espécie de canibalismo esclarecido: tratava-se de ingerir uma porção do organismo de outro humano, sem ter que matá-lo antes
Além de minar a força dos tupinambás, a prática do pité-na-taconha diminuiu o número de mulheres prenhes. Era uma espécie de canibalismo esclarecido: tratava-se de ingerir uma porção do organismo de outro humano, sem ter que matá-lo antes IMAGEM: ANDRÍCIO DE SOUZA_2017

1

Francês filho da puta.

Falou comigo e eu não entendi nada. Claro, não falo francês. Só tive essa ideia infeliz de dizer pros selvagens que eu era francês. Disse isso pra que não me matassem. E não me devorassem depois.

O francês deu risada na minha cara e falou pros selvagens que eu não era francês nem aqui nem na lua. Que eu era português. Inimigo deles. E eu achando que, por ele ser cristão, ia salvar minha pele. Em vez disso, olha só o que ele falou pros selvagens: “Ele é português. Nem sabe falar francês. Podem matar esse português nojento. E bon appétit!”

Filho da puta. Ele viu muito bem que eu não era português. Expliquei na língua dos selvagens que eu era alemão. Contei que tinha naufragado com os espanhóis ao largo da ilha de Jurumirim, que os portugueses chamam de ilha de Santa Catarina. Que, de lá, logramos ir em outro barco a Itanhaém, onde fomos acolhidos pelos portugueses que vivem lá. Que eles nos deram roupa e comida e nos levaram pra São Vicente, Upaû-nema, como falam os selvagens, que fica a poucas milhas de lá.

O francês me respondeu em bom tupi, versão nambá, que conhece Upaû-nema, terra dos tupiniquins, aliados dos portugueses, inimigos dele e dos tupinambás. Nunca pisou ali porque não é louco, mas sabe muito bem onde é.

Pelo jeito que o francês dominava a língua dos tupinambás, devia estar por aqui havia um bom tempo. Como eu, que aprendi tupi com os tupiniquins. Os franceses cobiçam essas terras. Não reconhecem o Tratado de Tordesilhas, pelo qual elas seriam do rei de Portugal, tanto quanto as da banda do Pacífico pertenceriam aos espanhóis.

Mas, e eu com isso?

Foi o que eu disse lá pro francês, em tupi. E disse também que eu tenho amigos franceses. E que nunca me dei mal com nenhum francês. “Pois vai se dar mal comigo”, ele respondeu. “Porque você tá mentindo. Você é português.”

E deu risada. Os selvagens também deram muita risada. Nhaêpepô-oaçu e Alkindar-miri, os irmãos que tinham me capturado em Bertioga, disseram que eu só contava mentiras, e que eu estava me cagando de medo de morrer, como todo português que eles já tinham capturado pra matar e comer. E que eles iam me matar e me comer pra vingar a morte do pai deles. Os portugueses tinham despedaçado o braço do pai deles com um tiro. E o pai deles tinha morrido por causa do ferimento.

Mas eu voltei a dizer que não era português, que tinha naufragado com os espanhóis, com quem, aliás, eu tinha vindo ao Brasil. Que os portugueses de São Vicente tinham me obrigado a ser o artilheiro-mor do forte que eles ergueram em Bertioga, porque nenhum português tinha cojones pra ficar tão perto da terra dos bravos guerreiros tupinambás.

Eu jurei pro francês que eu era alemão, de Homberg, em Hessen, súdito do ilustríssimo e glorioso príncipe e gracioso senhor Filipe, landgrave de Hessen, conde de Katzenelnbogen, Dietz, Ziegenhain e Nidda.

Era estranho. Dois cristãos brancos conversando em tupi, eu na versão niquim, ele na versão nambá. Um tupi é um pouco diferente do outro, mas eles se entendem. São inimigos mortais, se matam, se comem, se digerem, se cagam, mas se entendem muito bem. Ninguém está mais ligado ao destino de uma pessoa que o seu pior inimigo, sobretudo se eles têm o hábito de se comer.

Tão bem eu falava o tupiniquim que os tupinambás zombaram de mim, dizendo que, se eu não era português, devia ser tupiniquim. Um tupiniquim que pegou uma doença feia e ficou ruivo, de olhos azuis e pele vermelha. Vermelha das queimaduras de sol, mas isso os selvagens não entendem, pois já nascem com a pele escura que os protege. De todo jeito, ninguém diria que eu sou um homem branco. Já quase ninguém diria que eu era uma criatura humana naquele estado em que me encontrava depois da minha captura, espancado que fui, com muita brutalidade, ferido de lança na perna logo que me surpreenderam na mata, perto do forte. Sangueira desatada. Quase que eu ia ficando vazio de sangue.

Francês filho da puta. Cristão de merda, que não tem misericórdia no coração. Me deixar na pior desse jeito. O francês, que os selvagens chamam de Caruatá-uára, foi-se embora rindo. Os selvagens também riram muito.

2

Maldita dor de dente. Mil vezes maldita. Desgraça pouca é bobagem, diz o povo. Não posso acreditar. Um filho da puta de um dente resolve me torturar enquanto espero o ibira-pema descer com força na minha cabeça. Pelo menos a dor de dente vai passar.

Esse dente começou a me incomodar faz uns dias, logo que Alkindar-miri me deu de presente pra Ipiru-guaçu. Isso porque Ipiru-guaçu tinha, em outros tempos, aprisionado um tupiniquim e dado ele pro Alkindar-miri em sinal de amizade. E Alkindar-miri tinha, então, prometido dar pra Ipiru-guaçu o primeiro inimigo que ele capturasse – eu, no caso –, conforme o costume dos selvagens.

Era um presente generoso, pois Alkindar-miri estava louco pra me matar e me comer. Mas, como promessa é promessa, ele delegou a Ipiru-guaçu o prazer de esmagar meu crânio e me oferecer em banquete pra aldeia toda. Ganhará o direito de adicionar mais um nome ao seu, pois é assim que eles fazem: quando matam e comem um inimigo, adicionam o nome do sacrificado ao deles.

Aiaiaiaiaiaiai… Dente filho da puta…

Ibotira veio me consolar. A beleza de Ibotira me ilumina, sua doçura me apascenta. Ela faz parte da minha escolta, junto com Iara, Maíra e Tainara. Nesta aldeia, como em outras que eu vi, do lado dos tupiniquins, cabe às mulheres cuidar dos prisioneiros que vão ser abatidos. Cuidam e vigiam. E fazem mais que isso.

Tainara, por exemplo, já tinha se desdobrado em carícias rupestres pra ver se me animava. Foi em vão. Antes uma dor na alma que no dente, diria Camões com dor de dente.

Maíra é a mais velha. Já deve ter uns 30, calculo. Já é avó. Iara parece ter 15, mas pode ter 13. Tainara talvez tenha uns 16. Iara acabou de parir, peitos túrgidos pingando leite. Tainara tem dois filhos, e está no começo da gravidez do terceiro. Só uma barriguinha do tamanho de uma bala de canhão.

Agora, Ibotira é um caso sério. Fêmea plena em seus sólidos 18 anos. É uma das mulheres de Ipiru-guaçu. Tem dois filhos com ele. Peitos petulantes, se impõem como canhões de proa, todos se rendem diante deles. E feroz, corajosa. Peleja do lado dos guerreiros. Tem uma galeria de feridas pelo corpo. Maneja o arco e flecha tão bem quanto o mais hábil caçador macho da aldeia.

Já falei que, por aqui, as mulheres é que se ocupam dos prisioneiros que vão ser sacrificados. Os chefes e subchefes tupinambás costumam encarregar suas esposas, filhas e irmãs de alimentar, entreter e vigiar os prisioneiros que serão o futuro jantar deles. Acham que carne humana boa é carne de homem feliz, bem cevado na melhor comida, no melhor cauim, e no regaço das melhores mulheres da aldeia. E se durante esse convívio uma que outra cuidadora engravidar, o filho do inimigo também será muito bem tratado e alimentado até atingir certa idade e compleição. Aí será abatido e devorado como seu involuntário pai.

Ibotira trouxe cauim e mingau de peixe com pimenta-verde. Insistiu muito pra eu comer, embora a dor de dente me tivesse feito perder o apetite. Mas tenho que engordar pro abate. Ipiru-guaçu mandou me dizer que, se eu continuar a emagrecer, ele vai me matar é já. Então, é melhor eu comer direito. Não posso mastigar, mas posso tomar os caldos fortes que a Ibotira me faz.

Ela disse que, se eu comer todo o mingau de peixe, ela vai me presentear com um pité-na-taconha tão caprichado que vai aliviar minha dor de dente. Eu ia comentar, só de pirraça, que o pité-na-taconha da Tainara também é de soar as trombetas e, mesmo assim, de muito pouco me adiantou. Mas tive o bom senso de me calar. Não é boa ideia provocar ciúmes numa rapariga tupinambá. A vingança delas é amarga, dolorosa, e tantas vezes surpreendente. E elas jantam você no final.

3

Pité-na-taconha vem de pitér, que na língua tupi é chupar. Taconha é o membro masculino. O pité-na-taconha é um hábito novo entre os tupinambás, pelo que disseram minhas guardiãs. Eu já tinha visto de relance casais praticando o pité-na-taconha aqui e ali, pelas palhoças, matas e praias. O ato em si não difere muito do felattio latino tão apreciado nos bordéis e conventos da cristandade.

Mas não se pense que isto aqui é o terreal paraíso da mais animalesca libertinagem. De fato, não se vê com frequência os selvagens fazendo uso intensivo de suas partes pudendas. Eles são muito reservados, embora andem nus o tempo inteiro, mulheres e homens. Você vê amiúde um selvagem de rosto coberto por pintura, máscara, adornos. Mas o membro do homem tá lá, mole ou duro, sempre ao léu. O mesmo ocorre com a concha pelada do sexo das mulheres e de suas nádegas e mamas, sempre à mostra, ao contrário do rosto pesadamente pintado ou coberto por algum tipo de máscara ou atavio. É como se entre os selvagens só o rosto fosse indecente. O resto do corpo lhes parece de uma banalidade tamanha que não requer qualquer tipo de cobertura ou resguardo.

Quem introduziu o pité-na-taconha por essas bandas, segundo me disse Ibotira, foi um náufrago jesuíta que um guerreiro tupinambá capturou quase morto na praia. Reavivado e bem tratado, o homem logo pegou intimidade com seus algozes, que pretendiam jantá-lo tão logo ele recuperasse as forças e o ânimo, de modo a se tornar uma boa refeição. Pouco interessado nos favores sexuais das mulheres que o cortejavam, o jesuíta passou o período de ceva demandando a companhia de meninos púberes, em quem aplicava o pité-na-taconha, tanto indo à taconha deles, quanto fazendo-os vir à sua. Entre um pité e outro, o jesuíta tentava ensinar às crianças sobre o deus dos católicos romanos.

Verdadeiro catequista sexual, o jesuíta se esbaldava com a meninada, garantindo que isso faria deles guerreiros mais fortes e valentes quando crescessem, além de mais protegidos por Deus Todo-Poderoso. Ele advertia, porém, que Deus só outorgara a ele e aos seus irmãos da Companhia de Jesus a graça de oficiar esse rito oral. Isto porque ele era um sacerdote católico, que é assim como um pajé que fala direto com Deus.

O libidinoso padre, pensando, sem dúvida, em ganhar tempo de vida, tratou de espalhar novidades entre os selvagens, de modo a obter alguma liderança entre eles. Disse, por exemplo, que, se as jovens mulheres da aldeia também aplicassem um pité caprichado na taconha dos valentes guerreiros da nação Tupinambá, os filhos homens que viessem a nascer haveriam de herdar as mais altas virtudes viris dos taconhudos varões que elas haviam pitezado, digamos assim. E foi o que elas logo se prontificaram a fazer, não sem o típico assanhamento feminino das jovens tupinambás.

As seis mulheres de Alkindar-miri e as quatro de Ipiru-guaçu não lhes deram sossego. A ponto de ambos mandarem que buscassem outras taconhas pitezáveis na seara alheia. Sobrou até pros inimigos cativos, que passaram a receber o mesmo tratamento. Sou o testemunho vivo disso – ainda vivo, digo. Ah, pobre de mim. Maíra, Tainara, Iara e Ibotira me sugam a alma através da minha taconha. E eu vi que é bom, muito bom, o pité-na-taconha, sobretudo quando é Ibotira que me “paga um pité”, como elas dizem, graciosas.

Ah, Ibotira e seus lábios de mel… Ave Maria, cheia de graça!

O chefe máximo dos tupinambás, o já lendário Cunhambebe, a quem deverei ser apresentado a qualquer momento e que tem mais mulheres que qualquer outro chefe da nação Tupinambá, esse teve sérios problemas. Quando o pité-na-taconha se estabeleceu na aldeia como prática mito-recreativa compulsória e compulsiva, Cunhambebe correu sério risco de morrer de exaustão aguda de suas energias. Praticamente todas as mulheres tupinambás em idade procriativa, muitas vindas de lugares distantes, formavam interminável fila diante de sua rede, na oca principal da aldeia, pois as mulheres que tinham acabado de pitezá-lo com grande afinco e devoção voltavam insidiosamente a se postar no fim da fila, ansiando por mais uma dose, por pequena que fosse, da seiva vital do grande morubixaba.

O mesmo passou a suceder com os mais bravos guerreiros de todas as aldeias tupinambás. Viciados e exauridos, muitos já não tinham forças nem para se levantar da rede, quanto mais para ir pelejar contra os inimigos. Alarmado, Cunhambebe teve que disciplinar a prática do pité-na-taconha em seus domínios, pois, não só a prática desarvorada do pité-na-taconha estava minando a força de seus guerreiros, como também começava a provocar uma queda sensível no número de mulheres prenhes. Do jeito que a coisa ia, a poderosa nação Tupinambá logo seria reduzida a um punhado de ex-guerreiros exangues largados em suas redes, sendo sugados com avidez por mulheres de bucho entupido de seiva vital. E já não se veriam mais curumins brincando e crescendo nas aldeias.

Ficou estabelecido, destarte, que cada mulher teria direito a praticar um único pité-na-taconha entre o primeiro e o último dia de suas regras – a cada 28 dias, portanto. E sem prejuízo do costumeiro fornicatio procriativo, com a taconha do guerreiro devidamente introduzida na jura da mulher. Jura é o nome que os selvagens dão às vergonhas femininas, que as selvagens trazem totalmente desprovidas de pelos, conforme notou o primeiro escrivão de bordo que por estas costas aportou, só que bem mais a nordeste de onde estávamos. Era um português, esse escrivão, e chamou de “saradas” as ditas vergonhas glabras das selvagens.

O que penso sobre isso tudo? Nada mais civilizado, eis o que eu penso. A deleitável prática do pité-na-taconha, se você for ver, é apenas uma variante bem mais amena do mesmo canibalismo que os selvagens, homens e mulheres, já praticam por estes pagos. E do qual devo ser, em breve, esquartejada e assada testemunha. Afinal, trata-se de ingerir uma porção do organismo de outro ser humano, sem ter que matá-lo antes. É o que eu chamaria de canibalismo esclarecido. E com a vantagem de tornar a mulher apta às práticas amorosas mesmo quando está incomodada, período em que os próprios homens evitam ir-lhes à jura, por mais que lhes jurem amor eterno, de modo a evitar contato com sangue impuro.

“Quem não tem jura, caça com pité-na-taconha” é o ditado que se ouve com frequência nas rodas masculinas aqui na aldeia, não sem risinhos abafados da mais deslavada sem-vergonhice, como se os machos nem sequer desconfiassem do regurgitante prazer que suas fêmeas derivam daquela prática da mais lúdica obscenidade.

Sem falar que o pité-na-taconha é o tipo do folguedo que vem a calhar para um povo, o Tupinambá, que ora vive em estreita aliança com os naturais da França, país célebre por seus grandes libertinos. Em qualquer bordel que se vá em toda a Europa, todas as putas loiras se dizem francesas e fazem biquinho pra dizer oui com os mesmos lábios com que logo felicitarão teu falo numa felattio. Os gauleses devem se sentir de fato em casa na companhia dos tupinambás, que, como eles, mostram-se grandes entusiastas do popular boquette.

Por uma ironia das palavras, o jesuíta espanhol que introduziu o boquette entre os selvagens acabou virando o prato principal de um banquete por eles celebrado. Contou-me Ibotira que Cunhambebe decidiu dar cabo do homem quando o pilharam introduzindo sua avantajada taconha vermelha no fiofó do mais miúdo curumim da aldeia, o qual veio a falecer em consequência de um inestancável sangramento.

Ouvindo essa história, tive um calafrio moral. Que terríveis desígnios pode abrigar a alma de um homem que diz falar diretamente com Deus, mas comete semelhante atrocidade com um curumim? O braseiro em que os selvagens churrasquearam seus membros e quartos foi pra ele o vestíbulo do inferno.

4

Meus dias se passam por aqui em amenidades e diversões, como as animadas tertúlias com os guerreiros selvagens dentro da oca principal, todos fumando suas pipas de canudo de taquara com cratera de barro, onde ardem ervas que o pajé recolhe na floresta e mistura segundo seus secretos procedimentos, para o deleite dos maiorais da tribo. Os tupiniquins fumam coisas semelhantes quando vão à luta, pra lhes dar coragem, e quando voltam, pra que descansem e se recontem suas façanhas bélicas, sem dispensar o cauim, uma espécie de aqua vitae extraída do sumo da mandioca, que induz a um estado de excitação mental com frequentes desdobramentos sexuais. “Por causa do cauim, muita suruba, de Bertioga a Ubatuba!”, disse-me Ibotira, se rindo toda, no mais cândido despudor.

Tive a curiosidade de experimentar a tal erva e devo dizer que os macaquinhos me ficaram assaz ouriçados no sótão, como dizem os portugueses. Se um dia aprouver ao meu bom Deus que eu volte pra Hessen, hei de levar umas sementes desse prodígio natural. Deve harmonizar bem com a inigualável Bier da minha terra, inebriante e espumante prodígio que me faz chorar de saudade.

Sob o efeito da erva e do cauim, e numa total disponibilidade de tempo, os selvagens se regozijam ouvindo e contando histórias vividas, sonhadas, os feitos seus e os de seus antepassados em combates ferozes. Instado por eles, dei-lhes notícia dos hábitos e gentes da minha saudosa e longínqua terra europeia, e das rudes batalhas que enfrentei no mar e na terra, a despejar ferro e fogo no inimigo, e sendo por ele retribuído na mesma moeda pesada e mortal. Dos mores europeus, o que eles mais estranharam foi a monogamia. Não lhes passa pela cabeça como um homem pode ter uma só mulher e as mulheres conhecerem apenas um homem na vida.

Tem dia que Ipiru-guaçu, meu dono, me convida para caçar junto com outros guerreiros. Aprendi a manejar o arco e flecha, não sem antes ter acertado acidentalmente a nádega de um de nossos companheiros que defecava agachado no mato. O selvagem, urrando de dor e humilhação, jurou que seria o primeiro a provar da minha carne assada. E que, por ele, me assaria vivo naquele mesmo instante. Os selvagens são muito eloquentes em suas demonstrações de amor e ódio.

O resto do tempo se passa aqui entre libações e festas e conclaves e rituais onde não falta a carne de caça, não raro humana, e demais iguarias da culinária rupestre dos selvagens.

E não posso esquecer de mencionar os deleitáveis passeios de ubá pelos rios ao redor da aldeia, em companhia da minha seleta escolta feminina, elas no remo, nuas, o suor em suas peles perfeitas, descontando as escarificações rituais, eu só pegando a brisa amena do mar, nu como vim ao mundo, o corpo untado de óleo de urucum. Sempre tentamos pescar alguma coisa, elas com rede, eu com vara, linha e anzol improvisados. Mas o que fazemos de melhor durante esses passeios é a arte amatória à moda dos selvagens, tudo muito rápido, curto e com escasso refinamento. A grande exceção é o pité-na-taconha, que essas garotas do mato adentro aprenderam a dominar como ninguém.

Um desses passeios, outro dia mesmo, mostrou-se deveras especial, por conta de uma lembrança que me ocorreu ao passar minha mão distraída na vergonha saradinha da Ibotira, minha preférée, como diria aquele francês dos diabos que muito se divertiu ao me jogar nessa fogueira, que em breve deixará de ser apenas força de expressão. Deixei a ponta do dedo médio brincar um pouco na curiosa e sensibilíssima protuberância que as mulheres, tanto as selvagens quanto as civilizadas, trazem nos altiplanos da fenda sexual. Ibotira dava miados de gata do mato, arrancando risadinhas de suas companheiras. E foi bem aí, cotucando o negocinho da Ibotira, que me veio a tal lembrança. E não de mulher nenhuma, como seria recomendável, mas sim de um personagem bem masculino que conheci a bordo de um galeón que me trouxe às costas brasileiras, pela segunda vez, faz, o quê? Uns dois anos, quase três.

Era um médico italiano, Matteo Realdo Colombo, nascido em Cremona, mas que vivia em Pádua, onde era lente em anatomia na prestigiosa escola de medicina daquela antiga cidade. Foi o que o ouvi contar, quando nos conhecemos. Mas já tinha ouvido os vagalhões do Atlântico e o ar parado das calmarias cochicharem a bordo que o tal Matteo embarcara de afogadilho em nossa frota espanhola na ilha da Madeira, fugindo de alguma séria encrenca.

Mais tarde ele mesmo me confessou que fora se acoitar tão longe de Pádua e da bota itálica por causa das perseguições que lhe moviam na Universidade de Pádua, onde um tal de Gabriele Falloppio, protegido do Vaticano, disputava com ele a primazia nos estudos empíricos sobre o corpo humano, em especial o da mulher.

Falloppio tinha feito circular o boato de que Matteo Colombo, em uma aula sobre himens, aventara a hipótese de que Maria, a Virgem Mãe de Deus, seria portadora de um hímen complacente e esgarçado, do tipo que deixaria passar a semente do homem, caso ela fosse depositada na portinhola do sexo da mulher, prática até hoje muito comum entre virgens de toda cristandade que se deleitam nuas em jogos amorosos com primos e noivos e menestréis disponíveis, mas evitam o consumatum est deflorador. Ejaculatio, só mesmo na portinhola. Vai daí que a própria Maria teria se julgado deveras virgem, e seu marido também. Quando ela emprenhou e lhes nasceu a cria, o casal teria acreditado que um milagre se produzira, claro sinal de que o bebê era uma divindade. Ou, pelo menos, filho de uma.

Falloppio fez chegar tamanha calúnia, como a classificou o sábio esculápio, aos ouvidos da Congregação do Santo Ofício, no Vaticano, e Colombo viu-se alvo de um inquérito que poderia terminar com ele ardendo numa fogueira em Roma como herege. Em vista disso, e seguindo prudentes conselhos, achou melhor dar às de Vila Diogo, como dizem os portugueses, até as coisas se aclararem, com a graciosa ajuda de intermediários influentes na Santa Sé. Inflamado quando me fez tais revelações, il dottore Colombo não conteve sua ira praguejadora e apostrofou o finório Falloppio: “Que as trompas de Belzebu o convoquem para o inferno!”

Matteo Colombo me disse que falava com absoluta correção oito línguas, inclusive o alemão crivado de expressões e palavras italianas com que se comunicava comigo nas várias ocasiões em que privei da instantânea intimidade del dottore, justo eu, um reles e jovem arcabuzeiro, bombardeiro e artilheiro, especializado em destroçar pessoas, embarcações, fortes e o que mais me aparecer pela frente. Nada podia ser mais contrário a um esculápio que jurara por Hipócrates se dedicar à cura das enfermidades que assolam a raça humana. Mas reza a sabedoria popular que os contrários às vezes se atraem: eu pobre, ele rico, eu jovem, ele já entrado na quarentanidade, eu destruindo gente, ele consertando.

Esse Colombo que ele carregava de sobrenome nada tinha a ver com o célebre Cristoforo de Gênova, como ele mesmo se apressou a informar, embora modestamente também tivesse protagonizado um descobrimento histórico. Numa de nossas conversas, nas longas noites de calmaria em alto-mar, il dottore ufanou-se de ter descoberto e descrito com rigor científico um calombinho situado no complexo sexual das mulheres, algo como um pseudopênis, ao qual deu o estranho nome de clítoris ou clitóris; das duas formas ele pronunciava, com fortíssimo sotaque italiano. Segundo meu companheiro de viagem, o clítoris era até então considerado um capricho da anatomia feminina, sem nenhuma serventia. O anatomista de Pádua mostrou, ao contrário, o quão ricamente enervado é aquele apêndice e toda a complexidade de sua estrutura anatômica. Nada falou, porém, do quanto ele é responsável por grande parte do prazer que uma mulher pode sentir durante o ato sexual, conforme um observador atento e dedicado pode muito bem atestar. Matteo ressaltou que suas pesquisas sobre o clitóris eram ainda mantidas em segredo, devido à sua complicada situação na universidade e junto ao papa Paulo iv. Mas, assim que seus emissários lograssem reverter as acusações de heresia que pesavam contra ele, il dottore Colombo revelaria ao mundo sua espetacular descoberta.

E era justo aquele amável calombo que eu acarinhava na lisa e nua vergonha da Ibotira, o calombo de Colombo, também dito clítoris. Ou clitóris. Qual das duas pronúncias soaria mais excitante pra uma mulher? O de Ibotira, o exemplo mais à mão, me parecia um robusto clitóris, com algo de pequena tora no som da palavra. O calombinho de Tainara, ao contrário, tinha toda a sutileza cintilante de um clítoris. Ecco!

O dottore Colombo que me desculpe, mas creio que não poucos libertinos e tinas de todos os tempos e lugares já perceberam a presença do calombinho erétil e sua extrema sensibilidade a carícias e bulícios, sobretudo as efetuadas com a ponta do dedo ou da língua. Que jovem aluna de Safo não aprendeu isso em Creta? Difícil acreditar que Aretino, com a conhecida gula de sua língua chula, não tenha lavado de saliva quantos clítoris e clitóris encontrou pela frente em sua longa e devassa existência. E será que, com nenhuma daquelas oito línguas que dizia dominar, o dottore Matteo, ele mesmo, não chegou a praticar o cunnilingus latino, vindo daí seu interesse pela matéria? Em respeito à sua idade e condição social, não lhe fiz tal pergunta. Mas me parece um ato contra natura um homem só se interessar por clitóris mortos. Nem que sejam clítoris.

Sou homem de armas, vivi sempre entre exércitos e guarnições, e posso, pois, afirmar que as vivandeiras que sempre rondam as casernas têm plena consciência dos poderes mágicos de seu calombinho, e muito prezam os amantes que sabem abordá-lo com a necessária delicadeza, e também com habilidade, advinda da prática, fazendo com que elas sintam o paroxismo do gozo com muito mais intensidade e duração do que o ejaculatio fugaz tão perseguido pelos machos da espécie, seja por prazer pessoal, celebração da própria virilidade ou ato de dominação do macho sobre a fêmea. As vivandeiras são mulheres livres, donas de seu nariz e de seu sexo, mudam com facilidade de companheiro, pois que a vida do soldado é errática e sumamente arriscada, e com certeza sabem tudo sobre o calombinho sapeca que eu agora bolinava, com a doce Ibotira reclinada de costas sobre o meu peito.

O velho doutor me confessou que andava escrevendo um livro detalhando suas perquisições no campo da anatomia humana, entre as quais a que abordava o clitóris. De Re Anatomica, ele me disse, seria o título do seu livro. “Das coisas anatômicas”, como meu parco latim me permitiu entender. Eu lhe disse que também andava a garatujar minhas lembranças, a modo de preservá-las, e muito estimaria que elas se fizessem publicar na Europa. Matteo quis saber que título eu daria às minhas recordações, que incluiriam, como lhe disse, minha primeira visita àquela terra, poucos anos antes, e tudo que eu haveria de ver e viver na de agora. A verdade é que eu ainda não tinha pensado num título para um livro de memórias que sequer haviam se formado em minha mente, muito menos as palavras no papel. Mas arvorei-me em grande escritor e criei ali na hora o título do meu futuro livro: História Verídica e Descrição de uma Terra de Selvagens, Nus e Cruéis Comedores de Seres Humanos, Situada no Novo Mundo da América, Desconhecida Antes e Depois de Jesus Cristo nas Terras de Hessen até os Dois Últimos Anos, Visto que Hans Staden, de Homberg, em Hessen, a Conheceu por Experiência Própria, e Agora a Traz a Público com Essa Impressão.

Não sei que fim levou il dottore Matteo Colombo depois que desembarcou na escala seguinte, no cabo Ghir, nas costas do Marrocos. Espero que tenha escapado dos inquisidores do Vaticano e não tenha sido churrasqueado pelos carolas fanáticos. Torço para que ele passe a estudar também os clitóris vivos. As vivandeiras que rondam os quartéis seriam para ele os mais perfeitos objetos de estudo. Se porventura o reencontrar na Europa, faço questão de lhe apresentar algumas. Estão quase sempre com seus clitorinos franqueáveis, as vivandeiras.

5

Pois bem. Tendo destarte recordado de minhas conversas com o anatomista italiano, convim comigo mesmo dizer às minhas vigilantes e amantes selvagens que o mesmo princípio bucal aplicado por elas à taconha dos guerreiros, subjugando o varão, poderia ser empregado pelo homem às saradas vergonhas das mulheres. O reverso do pité-na-taconha era o pité-na-jura.

Adepto que sou do método empírico de ensino, elegi Ibotira como modelo para a minha ensinança, fazendo com que se deitasse de costas no fundo da canoa, joelhos pra cima, pernas abertas, e tratei de aplicar na sua saradíssima vergonha a chamada minette francesa, agora rebatizada de pité-na-jura, com ênfase succional no “calombo de Colombo”. Incrédula diante do que começava a sentir, e sob as vistas das outras três, Ibotira se desmilinguia num gozo interminável, e gritava, e chorava, e gemia, e guinchava, e tinha tremores e estertores de agonia terminal, e agarrava e puxava os meus cabelos até arrancar tufos, e fazia a canoa gingar, feito roca redonda rolando de lá pra cá, e só não virou porque Maíra, Tainara e Iara, habilidosas, cuidavam de contrabalançar o agito, já tão excitadas quanto eu mesmo, de sexo já bastante enristado, o que elas também não deixavam de contemplar.

Eu exercia com a máxima devoção aquela devoração canibal, fazendo minha refeição se acabar num gozo igualmente selvagem que, eu podia apostar, ela nunca experimentara em sua vida tribal, mesmo andando e dormindo nua em pelo daquele jeito, exposta a todos os olhares e desejos. E era como se a jura de Ibotira encadeasse um gozo no outro, levando sua dona ao delírio tão absoluto quão dissoluto.

A horas tantas, esticando uma perna e sentindo com o pé que a minha taconha se mostrava medonha de tão hirta, Ibotira, de pernas abertas, me puxou pelos quadris pra cima dela, tomando a providência de encaixar o madeiro rijo na entrada de sua vergonha principal, que minava aquele sempre admirável líquido lubrificante feito fosse a nascente de um ribeirão dos suaves prazeres. Minha taconha avermelhada, que tantos risinhos de malícia provoca nas fêmeas cá da terra, modestamente, não deve nada à do mais gárrulo guerreiro da aldeia, como se pode constatar apenas volteando pela aldeia, pois, como já tenho dito, todos andam perfeitamente nus, dentro e fora de suas ocas, debaixo do sol ou da lua, e eu aqui igualzinho a eles.

Deslizando por aquele túnel aquoso, tépido, acolhedor, tive a certeza de ser o homem mais feliz deste planeta outrora considerado plano e chato, mas que desde Galileu se sabe que é redondo e, como eu podia constatar agora, nada chato.

Ibotira tinha agora paroxismos de prazer gozoso que eu nunca vira em mulher alguma, fossem criadinhas atrevidas, rameiras embriagadas, cortesãs em chamas, as vivandeiras que rondam os bivaques da Europa ou as selvagens tupiniquins de Bertioga que iam me distrair das minhas solidões no Forte de São Felipe, onde os portugueses me haviam coagido a assumir as funções de artilheiro-chefe. Il dottore Matteo Colombo ia gostar de ver isso. Certamente voltaria sua atenção de homem de ciência para os clitorildos vivos.

Quando a canoa por fim parou de oscilar sobre a mansidão do mar, vi-me subitamente em maus lençóis, a despeito de lençol não haver nenhum. Mal saía de dentro do sexo de uma desfalecente Ibotira, exaurido, e já Iara, Maíra e Tainara me assediavam com veemência e alguma violência, exigindo que dispensasse a cada uma delas o pité-na-jura, seguido do coito clássico, taconha tesa na jura, como eu tinha acabado de fazer com Ibotira.

Foi quando o bom Senhor das Alturas, que tudo sabe e em Sua bondade infinita tem o dom de insuflar de gênio redentor o espírito humano, soprou-me uma ideia das mais simples que se poderia ter, e das mais eficazes, pois me poupou de um esforço físico digno de um Hércules priápico do qual eu talvez não estivesse à altura, vazio de sêmen e desejo como de momento me encontrava ali.

Eu disse, então, às minhas outras três pupilas desnudas que se acalmassem um pouco, porque eu ia lhes apontar o caminho para se satisfazerem elas mesmas, com grande eficácia, naquela exata hora, e ao mesmo tempo, todas as três, se assim o desejassem. Dessa maneira, eu me encarregaria de só uma delas, de Tainara, no caso, enquanto Maíra e Iara se ocupariam uma da outra, no mesmo simultâneo ato, bastando que se deitassem invertidas, amó rupi, como eles dizem pra expressar a ideia de ao contrário, fosse lado a lado, ou uma em cima da outra, valendo-se inicialmente de suas línguas, como eu fizera com Ibotira, e, para finalizar, à falta de duas taconhas disponíveis para penetrá-las, as duas podiam muito bem se valer das pacobas que levávamos na ubá, mor de nos saciar a fome. As pacobas, ou pacovas, ou mesmo pacovás, são idênticas às bananas, como dizem os portugueses, valendo-se da palavra africana. E assim fiz eu com Tainara, e elas entre si e com as bananas, e todos fomos muito felizes. Estava fundado o pité-na-jura-cunhã-cunhã-amó-rupi: chupança mútua das conas de duas mulheres com seus corpos invertidos. E também o pacová-na-jura, se bem que esse me pareceu não ser grande novidade pras selváticas raparigas.

Disse a elas, na canoagem de volta, muito mais lenta que a de ida por estarem as canoeiras experimentando a costumeira lassidão gozosa do pós-coito, que o bestial prazer experimentado por minhas diligentes companheiras em muito contribuiria para a maior assimilação do caldo hereditário que ingeriam quando aplicavam o pité-na-taconha dos guerreiros. Os filhos homens que viessem a ter seriam os mais bravos e valorosos guerreiros que jamais pisaram a terra Tupinambá, disso não tivessem dúvida.

Temendo, porém, que a notícia de tais expedientes pudesse desagradar aos chefes da aldeia, pedi a todas elas a máxima discrição, pois, como podiam ver, eu bem mais lhes valia vivo que morto.

E disse mais às meninas: que se tempo eu tivesse antes de me matarem, eu lhes apresentaria uma importantíssima variante das volúpias do medium-novem inter pares que elas tinham acabado de conhecer. Era o velho e bom neunundsechzig, como se diz em alemão. Ou também meia-nove como falam os desabusados portugueses, referindo-se sobretudo à variante heteróclita de tal prática. Ou seja, uma junção do pité-na-taconha com o pité-na-jura, tudo ao mesmo tempo agora.

As selvagens explodiram de excitação, e só não tiraram toda a roupa no mesmo instante porque já estavam sem roupa, como sempre.

Mas, calma, calma, eu pedi, também tão pelado quanto vim ao mundo. Cada coisa a seu tempo. Primeiro, aprenderam o meia, lá com o finado e digerido padre. Depois o nove, comigo. A seguir, e sempre comigo, hão de aprender o meia-nove. Todas se assanharam muito e juraram o mais absoluto sigilo. Queriam iniciar as lições ali mesmo na nossa ubá. Mas achei perigoso e incômodo. Ficou pra depois.

6

O cauim e o mingau de peixe com pimenta-verde me trouxeram de volta um pouco do vigor abatido pela fraqueza a que me levou a dor de dente. Pude, então, aceder ao desejo de Ibotira de produzir-me um pité-na-pila, como também dizem os portugueses de São Vicente, num amálgama do calão reinol com a língua inocente dos selvagens.

Iara, Maíra e Tainara estavam sempre por ali, cacarejando seus risinhos de malícia quase infantil. Nesta terra, o prisioneiro fica numa palhoça privativa, em geral com uma corda amarrada no pescoço e a outra ponta atada a uma trave. Como um cachorro. Mas Ibotira, que é a líder do pequeno destacamento de mulheres à minha disposição, liberou de tão humilhante incômodo este cachorrão que vos fala. Mas que eu não tentasse fugir, pois seria morto na hora. Ela mesma se encarregaria disso me acertando uma flechada no coração. Eu disse pra Ibotira que o amor que eu sentia por ela já tinha flechado meu coração. Demorou, mas ela acabou entendendo o que eu queria dizer. E sorriu, contente por ter descoberto a metáfora.

Suave Ibotira. A mais linda selvagem tupinambá desta selva sem fim. Até onde me é dado ver, pelo menos. Quando a conheci, ela estava possessa de raiva contra o “português”, o invasor branco aliado de seus arqui-inimigos tupiniquins, que tanto estrago haviam causado a seu povo. Ela me chutava, me esmurrava, me arranhava todo, me arrancava tufos da barba e do cabelo. Ela e mais uma dúzia de mulheres alteradas. Isso foi logo que cheguei aqui na aldeia, três dias depois da minha captura perto do forte de Bertioga. Ibotira, no paroxismo de um prazer quase uterino, me torturava gritando no meu ouvido: Chê reimbaba indé. Você é meu animal aprisionado. E: Xe nama poepika aé! Com este golpe vingo o homem que foi morto pelos teus amigos.

Eu estava ferido, derreado, quase morto, depois de uma tormentosa viagem de ubá por uma dezena de milhas ao longo da costa. No meio dessa viagem, quase fui resgatado pelos portugueses e seus aliados tupiniquins, num ataque tão fulminante quanto frustrado. Quase deu. Quase. Os tupiniquins eram muito lentos, remando sozinhos com os portugueses armados a bordo. Os tupinambás, que só carregavam a mim, que não peso muito mais que uma mulher jovem e não parida, esses foram muito mais rápidos.

Depois da surra que as mulheres me deram no terreiro da aldeia, elas mesmas me levaram, trôpego moribundo, à palhoça do chefe Paraguá, pra me apresentar. Não paravam de zombar do pobre de mim, me dando tapas e cascudos na cabeça, e pontapés nas nádegas. Na palhoça, o filho do chefe me atou as pernas dando três voltas com a corda em torno delas. Preso dessa forma, tive que pular pela palhoça. Eles se urinavam de rir e gritavam: “Lá vem a nossa comida pulando!”

Muito engraçado.

Outro dia, apareceu por aqui um branco meio gorducho que dizia viver na Terra da Garoa, que fica lá em cima da serra, no planalto de Piratininga. Explodiu de rir quando lhe contei esse episódio da comida pulando. Falamos em português, porque ele não sabia tupi nem alemão. Tinha sido capturado pelos selvagens. Teve sorte de não ter sido muito espancado. Mas foi logo posto nu, como é a regra desse povo. E adorou andar pelado diante de gente igualmente nua.

Esse homem, que, se ouvi bem, chamava-se Dandrade, disse que era poeta e que, se fosse poupado de integrar o cardápio dos selvagens, ia fundar um movimento literário baseado na “antropofagia cultural”, seja lá o que isso significasse. E aquele seria o lema do movimento antropofágico: “Lá vem a nossa comida pulando!”

E ele ria, ria, ria, o poeta da garoa. Ria e falava pelos cotovelos. Dizia coisas absurdas. Falou por exemplo que no Brasil tinha havido um erro de português. Lembro de suas palavras: “Quando o português chegou, debaixo de uma bruta chuva, vestiu o índio. Que pena! Fosse uma manhã de sol, o índio tinha despido o português.”

O sujeito se esbaldou até o último minuto com as jovens da aldeia que o vigiavam. Não queria outra vida. Perguntou se por acaso eu não sabia pintar e desenhar. Eu não sabia e continuo não sabendo. Pena, ele disse. Porque ele queria muito posar na rede com “as suas meninas”, como ele dizia. O quadro se chamaria Peladão e Suas Evas.

Esse homem, nascido lá no planalto, pretendia tomar um galeão para Paris, onde iria difundir o cauim e ver se descobria o Brasil na Place Clichy. Era meio louco, o sujeito. Dizia que, se fosse mesmo comido pelos tupinambás, seria uma grande honra. E que, ao virar adubo, daria início a um longo ciclo de nascimento e morte dos mais variados seres orgânicos. E que esse ciclo vital iria culminar com o seu renascimento dali a três séculos e meio, lá na sua Terra da Garoa.

Não me deixaram sair pra assistir à sua morte cerimonial. Mas ouvi suas últimas palavras antes do baque surdo do ibira-pema sobre seu crânio coalhado de ideias bizarras:“Tupi or not tupi!”

Depois, senti o cheiro gorduroso das suas carnes e banhas assando no moquém.

E depois, mais nada.

7

Outro dia me apareceu aqui um mameluco que vivia em São Vicente e caiu nas mãos dos tupinambás. Ele me conhecia e veio falar comigo num patuá que misturava tupi com português, a tal de língua geral. Os selvagens viram nisso mais um sinal de que eu era de fato português. Além disso, o mameluco, tentando salvar sua pele, disse que eu era um artilheiro muito bom e tinha matado muitos tupinambás lá em Bertioga. Mameluco desgraçado. No que depender de mim, ele e aquele francês filho da puta podem ir pros quintos dos infernos e por lá ficar até o fim dos tempos.

Mas é como são as coisas por aqui. Me vejo no meio do fogo cruzado de um sistema muito antigo e complicado de vinganças que alimentam vinganças, numa ciranda eterna de festins de sangue e carne humana assada e cauim a rodo, e dança que te quero dança, dia e noite sem parar. E isso tudo nessa terra paradisíaca. Pelo visto, o paraíso está em pé de guerra.

Me ocorre agora que essa matança sistemática talvez seja uma forma de controle populacional. Para haver um equilíbrio entre homem e natureza, é preciso que os humanos não se reproduzam demais. A natureza é sagrada, mas não é infinita. Tampouco magnânima.

8

Ouvi um forte alarido no terreiro em frente à minha palhoça. Brados de ódio de um grupo de mulheres em polvorosa. Risadas selvagens. Sons secos e surdos de corpo levando pancada. Gritos de júbilo pagão, gemidos de dor humana. Ao ouvir aquilo, Ibotira interrompeu o pité que prodigalizava na minha taconha, soltou um berro de onça e saltou pra fora da palhoça.

Um tempo depois, me entra um prisioneiro também selvagem, só que de uma tribo diferente. Com os braços amarrados atrás das costas, ele vertia sangue por uma coleção de chagas em seu corpo nu, da cara às pernas e aos pés. O infeliz vinha puxado por uma corda amarrada no pescoço. Quem manejava a corda era Ipiru-guaçu, meu dono e, agora, dono dele também.

Atrás deles vinham Nhaêpepô-oaçu, Alkindar-miri e outro guerreiro, muito jovem, chamado Cauã-tupiassu.

Cauã, mais um punhado de jovens como ele, vindos de outras aldeias tupinambás da região, tinha acabado de superar as provas e provações atrozes por que passam os rapazotes antes de serem declarados homens plenos. Os que sobrevivem sem grandes sequelas ganham nome de guerra, mulher, adereços vistosos e pinturas rituais pelo corpo.

Os dois grandes ofícios desses jovens serão a caça e a guerra. Matar ou morrer. Se esse garboso Cauã não morrer ou for capturado pelo inimigo, irá ele mesmo capturar e comer o maior número de inimigos que puder, acrescentando o nome de cada um ao dele, pra sua maior honra e glória.

Cauã ostentava uma espécie de adorno de palha e penas no seu membro masculino em bico-de-chaleira, como é próprio do gentio. Ele e seu pai eram muito jovens. Vejo aí muito garoto que é pai aqui aos 15, 14 anos. E a mãe aos 12, 13.

O prisioneiro, como vim a saber, era um maracajá, tribo inimiga dos tupinambás. Ipiru-guaçu forçou o infeliz a cair de bunda no chão e amarrou a corda no mastro central da palhoça. Ele não parecia desesperado, apesar das feridas que o atormentavam, e de saber que toda aquela cantoria que se ouvia lá fora era o início de um longo festim do qual ele seria o prato de honra.

Nhaêpepô-oaçu e Alkindar-miri discutiam com Ipiru-guaçu. Os dois primeiros queriam me matar no mesmo ritual em que sacrificariam o maracajá. Isso, em dois ou três dias, no máximo. Mas Ipiru-guaçu foi contra. Disse que eu estava trazendo boa fortuna pra eles todos, pois eu podia invocar a proteção de meu Deus. E meu Deus, como todos já tinham visto ali, era bem forte. Amainava tempestades, fazia os peixes saltarem do mar pra dentro das ubás, mantinha os inimigos ao largo, curava doenças.

Ipiru-guaçu se referia a vários episódios em que uma extrema sorte, aliada ao meu aguçado senso de oportunidade, tinha contribuído para que os selvagens se houvessem em bons termos com as condições climáticas nas viagens por mar e terra que fizemos juntos, na pesca e nos confrontos com os portugueses e os tupiniquins. Além disso, eu advertia os selvagens de que o meu Deus poderia ficar muito bravo e despejar terríveis vinganças sobre a aldeia se eu fosse molestado.

Os três saíram da palhoça discutindo. Mais uma vez senti o cheiro da minha própria carne assada. Ibotira e as outras gentis vigilantes mais uma vez entraram na palhoça, trazendo água numa cabaça grande, mais unguentos e mezinhas variadas em pequenas cuias e cumbucas. Depois de terem surrado com muito gosto o prisioneiro, vinham agora lavar e pensar seus ferimentos com suprema delicadeza.

Faziam com o maracajá, de nome Kaluanã, o que haviam feito comigo antes. E que era o mesmo que faziam com todos os prisioneiros. Embora sendo um selvagem, um bárbaro, um pagão, Kaluanã era um homem como eu. Um homem confrontado com a iminência da própria morte. Como eu. Ipira-pema na cachola – essa era a sina sinistra que nos aguardava.

Depois de tratado pelas mulheres, sem soltar um gemido, o prisioneiro maracajá permaneceu sentado, de pernas trançadas, sobre uma esteira que lhe arrumaram e que seria sua cama. Só havia uma rede disponível na palhoça, e era minha.

Quando não respondia às minhas perguntas com grunhidos, o maracajá se limitava a me ignorar. Não estava pra conversa, o que era compreensível. A certa altura, se ajeitou na esteira e dormiu numa poça de sangue com as melecas curativas que as selvagens tinham posto em suas feridas. Deixaram que ele dormisse. Nenhum selvagem teria a crueldade de impedir seu pior inimigo de sonhar à vontade na hora da morte.

9

Enquanto o maracajá dormia, Ibotira veio à minha rede disposta a dar sequência ao pité-na-taconha interrompido com a chegada do prisioneiro. Depois de umas pitezadas iniciais, acabamos nos envolvendo num conúbio bíblico, encaixados de colherinha na rede. Pensei que seria melhor eu não estar fazendo um filho naquela selvagem, pois em algum momento, depois de nascer, ele seria morto e comido também.

Dias antes, depois de muito brincarmos na rede, perguntei se Ibotira se sentia bem pulando da rede do marido pra minha. E da minha pra rede de outros homens. Que vida era aquela, pulando, assim, de rede em rede? Ela deu o sorriso mais branco e natural do mundo, e disse que se sentia muito bem. “Cunhã gosta de variar”, disse, com uma singeleza que lhe redimia de qualquer pecado.

Naquele dia, também perguntei se ela não achava estranho comer pedaços de um homem com quem tinha vivido uma grande troca de afetos e fluidos amorosos. E isso, muitas vezes, apenas algumas horas antes de espatifarem a cabeça do infeliz com o ibira-pema. Ibotira não entendeu por que deveria achar estranho, se era um costume do seu povo, ditado pelas divindades do céu, da terra e das águas. Ela só achava uns homens mais gostosos que os outros, tanto na rede quanto na cuia. E ainda explicou que seu jeito preferido de consumir a carne de seus amantes fugazes era mesmo na cuia, torradinhos e socados com farinha de mandioca. E sempre aos goles do santo cauim, é claro.

Durante essa conversa, perguntei-lhe à queima-roupa: “Você me comeria, Ibotira?” “Começaria pela sua taconha torradinha”, ela respondeu, com toda a candura.

10

No dia seguinte, trouxeram farinha, um pedaço de paca assada e muito cauim pro maracajá comer e beber à vontade. Pra ele, e pra mim também. Ainda com dor de dente, me forçaram a comer tanto quanto meu colega de infortúnio, que estava cheio de fome. Ipiru-guaçu apareceu com uma pedra lascada em forma de cunha e outra que usaria de martelo pra arrancar meu dente ruim. Eu disse que não precisava, que a dor já tinha passado, que eu ia comer tudo, ficar abirú, como eles dizem. Ele ia ver. Não estava nos meus planos enfrentar um dentista tupinambá naquele dia.

Perguntei se Ipiru-guaçu estava pensando em me matar em breve. Ele disse que ainda não, que eu estava muito magro. E ele também queria que eu pedisse ao meu Deus pra ajudar seus homens a vencer os tupiniquins na próxima batalha, que aconteceria por aqueles dias. Se os tupinambás vencessem e capturassem muitos tupiniquins e portugueses pra matar e comer e dar de presente pros amigos, aí, então, minha cabeça não conheceria tão logo o peso do ibira-pema.

E assim foi pelos três dias seguintes, comendo paca, tatu, cotia não. Sei lá por quê, mas cotia não. E bebendo muito cauim. Bem-disposto e se recuperando com enorme rapidez de suas feridas, Kaluanã elogiou o cauim que as meninas lhe ofertavam. Disse que era o melhor cauim que ele tinha provado na vida. Iara, Maíra, Tainara e Ibotira se derreteram com o elogio. Elas é que tinham feito aquele cauim, como é hábito entre os selvagens.

As mulheres cozinham raízes de mandioca numa grande panela de barro. Daí, sentam-se em roda pra mastigar a mandioca cozida. Mastigam e cospem a maçaroca num vaso, que enchem de água e levam de novo ao fogo. Depois, fecham o vaso e o enterram. Deixam fermentar por dois dias. E tá pronto o cauim pra beber. Suco de mandioca com cuspe de cunhã. É bebê, cantá, dançá e caí – na rede com a cunhã, de preferência.

Animado, Kaluanã aceitou conversar comigo. Disse que era de Ticoaripe, que fica a 6 milhas de Ubatuba. Os tupinambás tinham invadido sua aldeia e matado muitos guerreiros, velhos e curumins. Tinham feito vários prisioneiros também, homens e mulheres. Entre os selvagens, as mulheres prisioneiras são usadas como escravas pros serviços mais estafantes, como plantar mandioca, construir palhoças, limpar e preparar a caça abatida, dar conta das porcarias jogadas e defecadas pelos cantos da aldeia.

Os homens podem desfrutar à vontade das escravas. Quando se cansam das mulheres dos inimigos, ou se elas engravidam, eles simplesmente se livram delas. Se não lhes dão cacetadas até a morte, abandonam as infelizes no mato sem cachorro. Nunca ouvi falar que os selvagens comessem mulheres. Elas não são guerreiras. Não merecem ser comidas.

Antes que viessem buscar Kaluanã, perguntei: “E aí, maracajá? Preparado pra morrer?” Ele riu e respondeu: “Sim, só acho que a muçurana é muito curta. Em casa temos melhores.” Eles chamam de muçurana uma corda de algodão mais espessa que um dedo, com a qual amarram os prisioneiros. Ele falava como se estivesse indo a uma quermesse.

Eu disse ao índio que, tão prisioneiro quanto ele, eu não estava ali pra comê-lo. Kaluanã respondeu que sabia que caraíba não come carne humana. Daí eu disse que os tupinambás iam comer a carne dele, mas que seu espírito voaria livre prum jardim das delícias. Um lugar com regatos de água límpida, frutos suculentos, caça em abundância e as mais lindas e gentis cunhãs que ele poderia desejar.

Ele perguntou como eu sabia disso. Eu disse que essa era a vontade de Deus.

“Que deus?”, ele retrucou.

“O meu Deus”, respondi. “O único e verdadeiro Deus, senhor da vida e da morte.”

“Esse deus não existe pra mim. Nunca vi o seu deus.”

“Pois saiba que foi por obra e graça do meu bom Deus que ainda estou vivo. Com minha fé em Deus, fiz sair o sol depois de uma grande tempestade. Fiz o mar se encher de peixes na hora da pescaria. De arco e flecha nas mãos, ajudei os guerreiros desta aldeia a vencerem seus inimigos tupiniquins, que até outro dia eram amigos meus. Sem a todo-poderosa mão de Deus, eu já estaria morto, desmembrado, assado, comido, digerido e cagado, como você logo estará.”

Dito isso, dei a conversa por encerrada.

Tainara entrou na palhoça e se pôs a confabular aos cochichos e risadinhas com Iara, Maíra e Ibotira. Pelo que entendi daquela algaravia, Tainara tinha recebido de seu marido, Nhaêpepô-oaçu, a incumbência de fazer um pité-na-taconha do prisioneiro, de modo a deixar seu corpo relaxado e sua carne macia, pois logo viriam buscá-lo pra ter aquela conversinha com o ibira-pema.

Lá fora, flautas e cantorias, gritos, gargalhadas, alegria selvagem. Dentro da palhoça, Kaluanã urrava como um jaguar em êxtase animal com sua taconha sendo pitezada em grande estilo pela boca afanosa de Tainara.

11

Então, vieram buscar o prisioneiro. Fui junto, mas de plateia, com uma muçurana amarrada no pescoço e puxada por Ipiru-guaçu. Dancei com os selvagens em torno do maracajá no terreiro cercado de varapaus. Manietado por laçadas de muçurana, Kaluanã a tudo assistia sem demonstrar nenhum medo, apesar de saber que aquelas caveiras espetadas em paus na entrada daquele espaço fortificado pertenciam a seus parentes maracajás. E que em breve sua própria caveira se juntaria a elas, sorridente como todas. Notei que seu pênis ainda pingava sêmen, resquício do último pité-na-taconha de sua vida breve, mas gasta como se deve. Pensei comigo: há piores jeitos de se morrer, afinal de contas.

Cunhambebe em pessoa tinha vindo da aldeia Ariró para o festim. Ostentava um esplendor de plumas e penas coloridas que o adornavam dos pés à cabeça, com um hiato na região do membro viril e das nádegas, como todo bom selvagem nudista por natureza. Eu também estava nu, mas a única pena que eu ostentava era a que eu sentia de mim.

O grande tuxaua tupinambá estava cercado por todo um séquito de mulheres, filhos, parentes e guerreiros. Um deles se destacou do grupo para vir nos comunicar que Cunhambebe queria me conhecer. Imediatamente Ipiru-guaçu me puxou até o chefe máximo, que tinha agora entrado na maior palhoça da nossa aldeia, a do chefe Paraguá.

“Eis o escravo, eis o português!”, disse meu dono.

De acordo com os hábitos de sua gente, o grande guerreiro trazia uma pedra redonda de cor verde encravada no lábio. Além da plumagem colorida, portava uma corrente branca de conchas no pescoço, de umas 6 braças de comprimento, símbolo de seu grande poder.

Chegando mais perto, vi que Cunhambebe e sua turma já estavam com a moringa cheia de cauim, como é costume em festins canibais. Cumprimentei o grande chefe na bizarra forma protocolar daquele povo: “Você é Cunhambebe? Você ainda vive?”

“Sim, eu ainda vivo”, ele respondeu. Em seguida, me lançou um olhar feroz e disse: “Você veio como nosso inimigo?” Respondi: “Eu vim, mas não como vosso inimigo.” “Então beba com a gente!”, ele disse, erguendo sua cuia e sorvendo dela.

Já grogue, recebi uma cuia de cauim das mãos de uma linda cunhatã. Dei um largo gole na bebida azeda que eu tinha aprendido a apreciar com os tupiniquins, que a produzem do mesmo jeito que os tupinambás. A mandioca e a saliva das cunhãs de lá não diferem em nada das de cá. O sangue que corre nas batalhas rotineiras daqueles selvagens também tem a mesma cor vermelha e brilha sob a luz do mesmo sol daqueles tristes trópicos euforizantes.

Notando que Cunhambebe tinha um saco escrotal avantajado que lhe pendia caidaço entre as pernas, me inclinei diante dele, agarrei suas pelotas, sem espremê-las, e dei umas puxadinhas pra baixo, até o limite da elasticidade do dito saco.

Entre os tupinambás era costume os subordinados puxarem o saco do chefe daquele jeito. Cunhambebe aprovou com meneios de cabeça meu gesto de subserviência explícita. Então eu lhe disse: “Ouvi muito falar de você, grande morubixaba Cunhambebe. Ouvi que é um homem muito habilidoso.”

Cunhambebe fez menção de sentar, ao que uma escrava tupiniquim acorreu pra se pôr de quatro debaixo dele, fazendo-se de banquinho. O tuxaua sentou, bateu orgulhoso no barrigão, olhou prum lado, olhou pro outro, e logo pulou de pé de novo, de pernas abertas e braços cruzados no peito trançado de cicatrizes e pinturas rituais. Entre as pernas pendia aquele saco já laceado de tanto ser puxado. Aproveitei pra dar mais uma puxadinha, pois era isso mesmo que ele demandava de toda a gente. Da parte de um inimigo, então, aquilo era um cafuné dos deuses pra sua alma tirana.

Cunhambebe tornou a sentar sobre o dorso da escrava de quatro e me perguntou sobre os ataques que seus inimigos, os tupiniquins e os portugueses, andavam planejando. Mas antes que eu dissesse um A, entrou a me passar dura descompostura, cuspindo as palavras na minha cara, por eu ter atirado neles lá em Bertioga. Ele sabia que eu tinha sido contratado pelos portugueses como artilheiro contra os tupinambás e os franceses.

Achando que ia ser morto ali mesmo, respondi que eu era francês e que os portugueses haviam me obrigado a fazer meu trabalho de artilheiro no forte. Não tive escolha. Ele retrucou que era mentira, e que trabalhar para os portugueses contra o povo dele fazia de mim um inimigo. Pra ele, era como se eu fosse um português, um tupiniquim, um maracajá. Daí, desandou a contar como ele tinha capturado e comido cinco portugueses. E como tinham todos jurado serem franceses, e estavam mentindo.

Dei minha vida por perdida e me recomendei à vontade de Deus. Mas Cunhambebe mais uma vez me perguntou o que os portugueses falavam dele, e se era verdade que lhe tinham muito medo. Cagando-me desse mesmo medo, respondi: “Sim, grande tuxaua, eles morrem de medo de você. Eles sabem tudo sobre as terríveis guerras que você lançou contra eles. Você é uma lenda. Você é muito temido.”

Ao ouvir isso, Cunhambebe levantou de seu banquinho humano, de modo a que eu pudesse dar mais uma puxadinha no saco dele. Acrescentei: “Mas é preciso ter cuidado com os portugueses agora. Eles fortificaram melhor Bertioga.” O morubixaba respondeu que estava pouco se cagando pro forte de Bertioga, e que caçaria todos os tupiniquins, um a um, e mataria e comeria todos eles, e plantaria seu mandiocão nas mulheres e nas filhas deles, antes de matá-las também.

Foi quando terminou a bebida e foram todos pra outra palhoça onde continuaram a beber. Ipiru-guaçu, porém, deixou-me do lado de fora, com a coleira amarrada com displicência numa estaca. Dali eu podia assistir ao festim que se armava no terreiro, com danças, beberagens e cantorias. O ponto alto seria a execução do maracajá.

12

Paraguá, o chefe da aldeia, exortava seu povo que dançava em torno do prisioneiro amarrado: “Venham todos e ajudem a comer vosso inimigo.” Circulando pelo terreiro, depois de ter desamarrado minha coleira, pude pela primeira vez ver o ibira-pema ornado de penas e pinturas com o qual iriam massacrar o rapaz. Estava dependurado numa espécie de altar-poleiro, em torno do qual as índias agitavam sua nudez numa dança de ritmo mecânico, exalando um canto monocórdico na mesma cadência das pisadas duras que davam no chão de terra. Era um culto ao grande cacete emplumado. Vi que o ibira-pema tem mais de 1 braça de comprimento. Vi e tremi.

Maíra, a mais velha das minhas vigilantes, se destacou da turba pra pintar o rosto do prisioneiro. Dois guerreiros puxavam a corda que envolvia Kaluanã, cada um prum lado. Perto dali ardia a fogueira cujas chamas logo lamberiam o corpo desmembrado de Kaluanã.

Neste momento, Paraguá pegou o ibira-pema e postou-se em frente ao prisioneiro exibindo o instrumento de sua execução. Ele disse: “Sim, eu estou aqui, e vou matar e comer você porque a sua gente também matou e comeu muitos dos nossos.” Kaluanã respondeu: “Tenho muitos amigos que saberão me vingar quando eu morrer.” Nisto, o algoz deu meia-volta em torno do prisioneiro e sentou-lhe uma porretada certeira na nuca que fez seu cérebro jorrar pra fora do crânio. Os selvagens urraram num uníssono de júbilo.

As mulheres acorreram pra arrastar o corpo até a fogueira. Elas arrancaram toda a sua pele nas chamas e brasas. Daí, taparam o orifício de seu traseiro com uma espécie de rolha pra que nada lhe escapasse por ali. Depois que a pele foi arrancada, um homem veio cortar as pernas do finado Kaluanã acima dos joelhos, e os braços rente ao tronco, com um facão presenteado pelos franceses. Vieram, então, quatro mulheres, pegaram os quatro pedaços e saíram pulando em grande algazarra. Dentre elas, a minha estimada Ibotira, por quem eu já corria o sério risco de me apaixonar.

A seguir, aquele mesmo homem separou o tronco em duas peças, seguindo a linha da coluna. E dividiram tudo entre eles. As vísceras couberam às mulheres e foram fervidas numa grande panela de barro que já borbulhava na fogueira. Com o caldo fizeram um mingau que elas mesmas sorviam e ofereciam às crianças. O cérebro e a língua também ficaram com os curumins.

Paraguá, que matou o prisioneiro, atribuiu-se mais um nome, e o próprio Cunhambebe lhe fez uma incisão no braço com um dente de paca afiado. A cicatriz teria o valor de uma medalha de honra.

Pra mim estava claro que cedo ou tarde chegaria minha vez de ser massacrado, esquartejado, assado e devorado numa celebração pagã como aquela. Como é que tão macabro espetáculo podia ser comemorado com tanta alegria e prazer? Como se podia celebrar a morte cruenta de um homem com tamanha explosão de vida? Aceitar isso era começar a entender a alma do selvagem. Troquei o escândalo pela compreensão e segui em frente, fruindo cada minuto que me restava.

Nesse meio-tempo, avistei Cunhambebe, sentado numa esteira, diante de um cesto cheio de carne humana. Vi que havia pelo menos três mãos lá dentro, sinal de que Kaluanã não tinha sido o único a fornecer as finas viandas do jantar.

Cunhambebe comia da carne de uma perna quando me aproximei. O chefe me ofereceu um naco. Recusei, claro, e não me contive: “Um animal irracional não come outro igual a si. Portanto, um homem, único ser racional entre os animais, não deveria comer outro homem.” Bêbado de cauim e indiferente ao meu argumento, Cunhambebe disse: “Jauára ichê. Não sou um homem. Sou um jaguar!”

Foi quando senti que me puxavam pela corda que se arrastava atrás de mim. Nem tive tempo de me despedir de Cunhambebe. Na outra ponta da corda, vi com imenso alívio que quem me levava pela coleira não era mais Ipiru-guaçu, e sim sua doce mulher, Ibotira.

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Inebriada ela também, e mais nua e bela e doida do que nunca, Ibotira me puxou pra junto de si. Pude sentir seu bafo quente e forte de comedora de carne humana e de bebedora de cauim. Por um momento achei que fosse dar um pité na minha boca com aqueles lábios grossos e úmidos. Mas os selvagens não conhecem essa forma de intercurso amoroso labial que os europeus chamam de beijo. E menos ainda do tipo que envolve um agônico embate de línguas.

“Venha, caraíba gostoso”, disse Ibotira. “Iara, Maíra e Tainara nos esperam na palhoça. Temos cauim e um cesto de cambucás maduros e mais doces que o favo da jati. Isso, pra você, que não come carne humana. Pra nós, peito de maracajá rôti, como falam os franceses.”

Ria Ibotira com desbragada alegria. E, como ouvi daquele poeta do planalto de Piratininga, a alegria é a prova dos nove. Espevitada que só, ela tomou minha mão e a pousou em cima da jura dela: “Pegue aqui, caraíba. Sente como tá inchadinha? Parece picada de tocandira!”

Sim, era verdade. Inchadinha e molhadinha. A jura da Ibotira tinha sido picada pela tocandira do desejo. “Venha, queremos aprender o pité-na-taconha-com-pité-na-jura! Venha já!”

E saiu aos pulos na minha frente, puxando seu cãozinho de estimação, que mal conseguia esconder sua cauda tesa entre as pernas. Eu ia ensinar de bom grado o meia-nove inter-sexos opostos praquelas trêfegas cunhãs aos goles do mais inebriante cauim jamais sorvido numa cerimônia canibal naquelas plagas.

Já não sentia mais dor de dente. E a angústia diante da morte iminente virou euforia por viver o momento presente. Já não me importava de ser assado e comido, desde que antes me matassem com uma pancada certeira de ibira-pema.

Vi de relance pedaços esquartejados do finado Kaluanã moqueando no jirau que tinham instalado em cima da fogueira. Uma menininha acabava de espetar a taconha do maracajá, e assoprava a carne antes de dar a primeira mordida. O formato, e, bem considerando, também o conteúdo daquele acepipe, em muito se assemelhava a uma Wurst lá da minha terra.

Eu já começava a me acostumar com o cheiro de carne humana assando na brasa. Ruim não era. Pecado, dizem que é. Mas dizem também que o papa publicou uma bula estabelecendo que não existe pecado do lado de baixo do Equador. É o que se comenta nas embarcações da Europa que singram os mares sob o Equador para explorar a riqueza das novas terras e escravizar seus povos.

O que aconteceu depois naquela palhoça, comigo e meu serralho de ébrias cunhãs, sob o alto comando de Ibotira, isso hei de contar algum dia, se meus dias não forem logo abreviados. E não hei de contar para ganhar fama e chamar a atenção sobre a minha pessoa, mas sim em louvor e honra a Deus Todo-Poderoso, que conhece todos os corações e pensamentos dos homens. Queira Ele sempre me proteger.

Porque daqui, meus irmãos, daqui não saio, daqui ninguém me tira!

Verbum Domini Manet In Aeternum!

Eterna é a Palavra de Deus!

Reinaldo Moraes

Reinaldo Moraes, escritor, roteirista e tradutor, é autor do romance Pornopopéia, da Objetiva

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