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Visita improvável

Um tubarão se dá mal
Mônica Manir
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Esperavam um bagre. Ou um surubim, uma pirapema, um peixe-de-prata, um tralhoto ou até uma sardinha-de-gato. Mas um tubarão não estava no script dos pescadores do rio Mearim naquele dia. Ainda mais do jeito que aconteceu. Eram umas cinco da tarde quando o bichão, afoito para abocanhar um vira-lata que brincava na água turva, se aproximou demais da margem e encalhou. Churrinho, o cachorro, foi esperto e livrou a pelagem bege do ataque. Já o tubarão-cabeça-chata amargou um destino cruel. O dono do cão, que chegava do mato com um facão a tiracolo, desferiu um golpe na coluna vertebral do predador. O cabeça-chata saiu da vida e entrou para a história como o primeiro tubarão a subir o Mearim, um dos principais rios maranhenses.

O fato se deu em setembro de 2015. E só ganhou certa notoriedade um ano depois, na revista científica britânica Marine Biodiversity Records, em artigo escrito por Leonardo Feitosa, Ana Paula Martins e Jorge Nunes, todos da Universidade Federal do Maranhão, a UFMA. Os dois primeiros são da biologia e o terceiro, da oceanografia. Embora surpresos com a súbita aparição no Mearim, os pesquisadores já sabiam que o Carcharhinus leucas, vulgo cabeça-chata ou tubarão-touro, às vezes abandona a água salgada para invadir a doce. Há notificações de sua presença no Mississippi e no Amazonas, por exemplo. Não à toa, também é chamado de tubarão-do-zambeze, rio que atravessa seis países africanos até desembocar no Índico.

O C. leucas conta com características muito próprias para conseguir navegar em águas fluviais. Graças a adaptações no sistema de equilíbrio osmótico, essa espécie nativa do mar consegue não se desidratar no rio. “A gente chama isso de ‘plasticidade fisiológica’”, diz Leonardo Feitosa. É uma baita vantagem. O mar tá ruim? Toca pro rio.

 

O tubarão encontrado no Mearim havia vencido 80 quilômetros de águas doces quando sucumbiu na região de Arari. Era uma fêmea jovem de aproximadamente 1,30 metro e 35 quilos (há registro de C. leucas com 130 quilos). Depois do golpe fatal, o pescador a levou para o seco e, dali, seguiu até sua casa de taipa no Aranha, comunidade que abriga umas 100 famílias. Talhado em pedaços, o tubarão foi distribuído entre os moradores. Antes, porém, os convivas tiraram algumas fotos do peixe, que se multiplicaram nas redes sociais. Uma equipe da Prefeitura de Arari resolveu averiguar o caso, e a história acabou chegando ao grupo de estudo da ufma.

“Oficialmente, é mesmo o primeiro a aparecer no Mearim. Mas acredito que deva ter ocorrido mais óbito de tubarão naquela área”, afirma Jocei Jardim Ribeiro, secretário de Meio Ambiente de Arari. Segundo ele, “o pessoal toma o cuidado de não ostentar a caça com medo de punição”. É que, na lista vermelha da União Internacional para Conservação da Natureza, o peixe figura como espécie prestes a se tornar ameaçada de extinção. “O cabeça-chata exibe baixa fecundidade e uma resiliência muito pequena”, explica Rosângela Lessa, professora na Universidade Federal Rural de Pernambuco. “Quando sofrem algum impacto, as populações declinam rapidamente.”

De tartaruga, golfinho e afins, “o pessoal” costuma ter mais piedade. Algumas semanas após a morte do tubarão, um golfinho despontou no rio e ficou engalfinhado numa rede. Houve um esforço coletivo para soltá-lo, mas o mamífero acabou morrendo. Botos também acorrem à região, assim como raias e meros.

 

O Baixo Mearim dispõe de bons motivos para ser um cais de espécies marinhas. Primeiro, está perto da foz, o que aumenta seus níveis de salinização. Depois, sua pororoca é das grandes – tanto que Arari ficou conhecida como a Terra da Melancia e da Pororoca. Naquele setembro de 2015, uma onda se levantou ruidosamente no estuário, a zona de transição entre o mar e o rio, o que complicou a navegação. Talvez o cabeça-chata tenha aproveitado a crista para “pegar um jacaré” até o Mearim.

“Espécies como o C. leucas instalam seus berçários justamente em áreas de menor salinidade, como os estuários, para onde retornam por fidelidade ambiental”, lembra a professora Rosângela Lessa. A gaúcha, que mora no Recife, está habituada a lidar com o cabeça-chata, um dos tipos que de vez em quando ataca turistas ou surfistas na capital pernambucana. O outro é o tubarão-tigre. Aliás, há quem diga que o protagonista do filme de Steven Spielberg não deveria ser o branco, mas o C. leucas, mais agressivo. E há quem afirme que não deveria ser nenhum. Após o longa-metragem de 1975, ficou difícil dissociar o tubarão de um assassino contumaz. “Morre-se mais de ataque de vaca que de tubarão”, costumam rebater os cientistas. Eles usam como base de argumentação uma pesquisa americana segundo a qual essas fêmeas ruminantes matam 22 pessoas por ano nos Estados Unidos, enquanto as vítimas fatais dos elasmobrânquios – podíamos também ter dito peixes condrictes, mas deixa pra lá – não passam de uma.

A imagem do Mearim, por sua vez, é sempre positiva. Serpenteando ao longo de 930 quilômetros, o rio divide com o Itapecuru a fama de principal via de acesso ao interior durante a colonização e de artéria vital para o escoamento da produção econômica maranhense. Não bastasse, na foz do Mearim se encontra a maior área contínua de mangues do Brasil, com quase 30 mil hectares. Em função dos dejetos recebidos das indústrias e cidades ribeirinhas, porém, alguns trechos do rio cheiram muito mal.

 

Estudando em Coimbra no século retrasado, o poeta Gonçalves Dias não sentia saudade apenas das palmeiras e das aves que aqui gorjeiam. Em carta, também manifestou o desejo de rever o Maranhão natal e o Mearim. Mas, à semelhança do que se passou com o tubarão pioneiro, o destino preferiu lhe ser madrasto. O literato morreu no naufrágio do Ville de Boulogne, nas costas do estado, em 1864.

Como a língua salina do rio está aumentando, tudo indica que os cabeças-chatas voltarão. Que tenham mais sorte.

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