Ver dados da foto ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Volta às origens

Depois do crime, o exílio
Tiago Coelho
Tamanho da letra
A- A+ A
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2016

Com um turbante colorido, salpicado de desenhos tribais africanos, Pedro Alvarenga desce o morro do Vidigal, no Leblon. São sete da manhã. Por volta das nove, precisa estar no outro lado da cidade para uma aula de estética. No sopé do morro, pega o primeiro dos dois ônibus que o levarão até a Ilha do Fundão, onde se localiza o campus da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a UFRJ. Enquanto faz o trajeto, observa a paisagem mudar drasticamente. Na orla da Zona Sul, as grades que rodeiam os prédios o incomodam. “O medo virou o principal afeto do Rio”, comenta um tanto aflito, talvez sentindo o peso de usar como sinônimo palavras quase antagônicas – medo e afeto. Depois de atravessar o túnel Santa Bárbara, desemboca no Centro e avalia a Zona Portuária, reconstruída para os Jogos Olímpicos. “Chamam de revitalização o que se deu aqui, só que as obras soterraram o passado.” Na Zona Norte, avista a favela da Maré e se impressiona com a imensidão da comunidade. “É precária, mas potente, viva.” Quando finalmente chega à Ilha do Fundão, desce em frente ao prédio modernista que abriga a Escola de Belas Artes e vai para o 7º andar.

Terminada a aula, caminha em silêncio até a janela da sala. “Foi ali que encontraram o Diego”, diz, enquanto aponta para a Baía de Guanabara. “Preto, pobre e viado, como eu. Quem o matou deve continuar por aí.”

Depois de receber uma denúncia, policiais militares acharam o corpo de Diego Vieira Machado dentro do campus, às margens da baía, num sábado de julho. Exibia sinais de espancamento e estava sem as calças. O caso segue sob investigação, mas tudo indica que se tratou de um crime homofóbico. Paraense de Belém, o rapaz tinha 29 anos – sete a mais do que Alvarenga – e fazia letras. Mudou-se para o Rio em 2011, na mesma época que o estudante da Belas Artes. Os dois, porém, só se conheciam de vista.

Na segunda-feira após o homicídio, Alvarenga deparou-se com carros de polícia, cartazes de protesto e muita comoção ao longo do campus. Poucos dias depois, no entanto, as coisas retomaram a normalidade. “Ou seja, a cultura que possibilitou o assassinato permanece intacta”, conclui o jovem. Aluno do terceiro período, ele acaba de trancar matrícula na faculdade e retornar para sua terra natal, Divinópolis, em Minas Gerais. Deve ficar ali pelos próximos seis meses, no mínimo. “Preciso pensar em mim, reforçar minha capacidade de resistência. Sinto que o Rio está cada vez mais hostil a pessoas como eu. Virou um lugar de pavor. Aconteceu com o Diego, mas poderia ter sido comigo.”

 

Quando decidiu trocar Divinópolis pela capital fluminense, aos 17 anos, Alvarenga procurava cultura, diversão e liberdade. Queria vivenciar sua sexualidade com mais desembaraço e usufruir da cena artística carioca. Seus pais – um técnico em eletrônica e uma advogada, que fingiam não perceber as preferências homoafetivas do adolescente – logo desaprovaram a ideia. Consideravam a cidade muito perigosa e não dispunham de condições financeiras para bancar o caçula numa das metrópoles mais caras do mundo (o casal tem outros dois filhos). Mesmo assim, o rapaz pleiteou em segredo uma bolsa integral na Pontifícia Universidade Católica (PUC) e acabou conquistando uma vaga no curso de cinema. Mal tomou conhecimento da notícia, sua mãe se trancou no quarto e chorou por horas. Ao sair, indagou se o garoto estava certo da escolha. Ele respondeu que sim. A família, então, pediu dinheiro emprestado a parentes e o mandou de ônibus para o Rio.

Cruzando a avenida Brasil, na entrada da cidade, Alvarenga viu pela primeira vez uma favela de grandes proporções. Em Divinópolis, havia pobreza, claro, mas nada como aquilo. Ele se criara na periferia do município mineiro, uma área meio rural, com vacas e cavalos pastando em terrenos baldios. Quando o ônibus passou pela Zona Norte, o adolescente divisou o dorso esquerdo do Cristo Redentor. Nas ruas arborizadas da Zona Sul, contemplou o dorso direito e, mais adiante, o oceano. “Em Minas, eu vivia rodeado de montanhas. Demorei bastante para compreender a vastidão do mar.”

Assim que desembarcou na rodoviária, deslocou-se até o Leblon, onde alugara um quarto a preço acessível. O anúncio que selecionara ainda em Divinópolis só não informava que o dormitório era numa favela, a Chácara do Céu. Embora assustado, resolveu se instalar ali, mas não contou nada à família, que prometera lhe enviar 500 reais por mês. Caso soubessem onde morava, os pais poderiam exigir que retornasse a Minas.

Num primeiro momento, diferentemente do que imaginara, Alvarenga enfrentou dificuldades para se reconhecer como “preto, pobre e viado”. Tinha vergonha de ser quem é em meio à juventude branca, abastada e heteronormativa que imperava na PUC. Raspava o cabelo crespo ou escondia-o sob uma boina. Em vez de negro, dizia-se pardo. Revelava-se gay apenas entre iguais e só exercia a sexualidade clandestinamente, em pegações noturnas na praia do Arpoador.

Tão logo arrumou um estágio na faculdade e engordou um pouco a mesada recebida dos familiares, deixou a Chácara do Céu e migrou para uma república na Gávea. Mais tarde, com uma amiga, alugou um pequeno apartamento numa rua badalada de Ipanema. Como as despesas aumentaram bastante, ficou sem grana para se divertir ou mesmo comer direito e caiu em depressão. “Compensa?”, perguntou-se quando entendeu que estava levando “uma vida de aparências”. Não compensava.

 

Certo dia, na PUC, assistiu à palestra de uma líder comunitária. Ela defendia que morar em favelas não significa apenas amargar uma série de problemas. Tais aglomerados também oferecem vantagens para as populações de baixa renda, como a menor especulação imobiliária e a possibilidade de conviver com manifestações culturais populares. Aquelas reflexões incentivaram o estudante a abandonar o asfalto e voltar ao morro, desta vez o do Vidigal. Pouco a pouco, aprendeu a gostar da favela e se irmanou com a vizinhança. Mais confiante, assumiu a homossexualidade para a família – “um alívio” –, deixou crescer os cabelos crespos, formou-se na PUC, prestou novo vestibular e ingressou na UFRJ.

“Foi muito difícil me sentir confortável comigo mesmo”, constatou algumas semanas antes de retornar para Divinópolis. “Fugir de quem sou já não está nos meus planos. Nunca mais agirei assim. Mas, agora, preciso de um refúgio para recarregar minhas forças.”

ASSINANTE PIAUÍ

Use o mesmo e-mail e senha cadastrados no site da Ed. Abril no ato da assinatura. Esqueceu a senha ou o e-mail ?