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Wendell, o boleiro

Como nasce um campeão virtual
Leonardo Pujol
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ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

A carreira de Wendell Lira no futebol profissional não foi exatamente memorável. Como muitos outros, o rapaz nascido e criado em Goiânia, de estatura mediana e pele parda, até prometia. Chegou a vestir a camisa da Seleção Brasileira sub-20, mas nunca conseguiu emplacar nos grandes clubes do país.

Depois de ser revelado em 2006 pelo Goiás, aos 17 anos, Lira defendeu uma penca de equipes: Fortaleza, Novo Horizonte, Anapolina, Tombense, Goianésia, Vila Nova. Ao longo de uma década, sofreu quatro lesões relativamente graves, teve um ligamento rompido e um ombro deslocado. O que ganhava como atleta muitas vezes não era suficiente para manter a família. Por isso teve que se dividir, em alguns momentos, entre os gramados e o atendimento aos clientes na lanchonete Goiânia Bacana, que sua mãe comandava.

Mas o futebol, como se sabe, é um esporte de epifanias. O lampejo de Wendell Lira aconteceu em março de 2015, numa partida do campeonato estadual entre o Goianésia – equipe que ele defendia – e o Atlético Goianiense. O momento foi testemunhado, no Estádio Serra Dourada, por 342 pagantes. Durante uma tabelinha rápida entre dois outros companheiros de time, Lira correu para a pequena área. Ali recebeu a bola por cobertura, lançada de trás, quase às suas costas. Em alta velocidade, já na cara do goleiro, Lira ousou um giro acrobático: engendrou uma meia-bicicleta e chutou a pelota, ainda no ar, lançando-a para o fundo da rede.

Meses depois ele seria indicado ao Prêmio Puskás, concedido anualmente pela Fifa ao autor do gol mais bonito do mundo. O anúncio do vencedor, decidido por votação popular, ocorreu em janeiro de 2016 na sede da entidade, em Zurique. Além de Wendell Lira, concorriam o argentino Lionel Messi e o italiano Alessandro Florenzi. Para a surpresa de muita gente, o atacante goiano levou o prêmio.

Quando seu nome foi anunciado, o ilustre desconhecido caminhou trêmulo até o palco. Pela primeira vez na vida, usava um terno. Ao microfone, agradeceu a Deus por ter lhe dado a oportunidade de estar ali, ao lado de grandes jogadores, ídolos que antes ele conhecia “só do videogame”.

No hotel, depois da cerimônia, o brasileiro não se fez de rogado, tietou os astros e pediu fotos. Investida semelhante era feita, quase ao mesmo tempo, por Abdulaziz Alshehri. Campeão mundial do jogo eletrônico Fifa, que simula partidas de futebol, o saudita estava no evento a convite da desenvolvedora do produto, a EA Sports. Um console especial do PlayStation havia sido instalado no saguão do hotel, e Alshehri tentava, a todo custo, convencer os craques da bola a enfrentá-lo. Messi, Neymar e Cristiano Ronaldo – que naquela mesma noite haviam disputado o título de melhor jogador do mundo – não demonstraram interesse. O virtuose do game fez então o convite a Lira.

Diante de uma plateia pequena, composta sobretudo por funcionários da empresa desenvolvedora do jogo, o brasileiro surpreendeu. Bateu o saudita por 6 a 1. “Os caras ficaram doidos quando me viram jogar”, contou Lira.

 

Seis meses depois, o autor do gol mais bonito de 2015 abandonaria o futebol. A decisão foi motivada por uma oferta inusitada, que ele recebeu algum tempo depois de voltar ao Brasil com o Prêmio Puskás debaixo do braço. Uma dupla de empresários estudava uma maneira de investir em esportes virtuais. Souberam da premiação na Suíça. A vitória contra o saudita tinha virado notícia, e o mundo começou a conhecer o talento do jogador também nos videogames.

Soube-se, por exemplo, que naquele mesmo ano de 2015 o boleiro havia liderado brevemente o ranking sul-americano dos praticantes do jogo de futebol virtual. Embora não fosse profissional, já tinha disputado campeonatos promovidos por lojas em Goiânia – nessas pelejas amadoras, ganhara todo tipo de prêmio, incluindo um aparelho de tevê e um celular.

Os empresários procuraram o craque. Tinham um contrato com um time pequeno, da periferia de Porto Alegre, para oferecer a Lira. Propuseram que ele conciliasse os gramados com a atividade profissional de gamer. Apresentaram também a ideia de criar um canal de YouTube, onde o jogador ensinaria macetes do Fifa e receberia convidados. Lira gostou do que ouviu, mas fez uma contraproposta audaciosa: preferia pendurar as chuteiras de vez e, dali em diante, se dedicar só aos games.

A empreitada tem dado frutos. O jogador recebe pela audiência dos vídeos – valor que é pago pelo próprio YouTube – e conta também com o aporte de marcas pequenas e grandes, como a Nike, que já o contratou para ações promocionais. O dinheiro é administrado pelos sócios, que bancam casa, carro e um salário fixo para o jogador.

O desempenho em campeonatos tem sido impressionante. No Ultimate Team Championship Series, torneio online que reúne profissionais de PlayStation de todo o mundo, Lira venceu 192 das 200 partidas que disputou, em março deste ano. Na Weekend League, onde gamers de vários países disputam 120 jogos pela internet, ao longo de três fins de semana, foi vitorioso em 112 confrontos. Teve o terceiro melhor aproveitamento do continente americano

 

Depois de anos de dificuldades como profissional dos gramados, o boleiro afirma que não tem mais do que reclamar. Sem dar valores, garantiu que ganha mais do que quando era jogador de futebol. E sente pouca saudade da rotina de atleta. “Tinha muita cobrança, treino, viagem.” Agora pode sair da cama tarde, por volta das 11 horas da manhã. Depois do almoço, divide-se entre os treinos e as gravações para o YouTube. Livre da obrigação de manter a forma física, costuma se servir no jantar de um generoso x-salada, seu prato favorito. O que mais Wendell Lira poderia querer?

Um outro gol de placa. Ele diz que ainda não conseguiu fazer, no mundo virtual, algo tão bonito quanto aquilo que realizou no Serra Dourada, em 2015. “Estou treinando ainda”, admitiu. “Igual àquele, com aquela força, ainda não teve, não.”

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