esquina

Yes, eles têm banana

Um museu tropical na Califórnia

Fernanda Ezabella
ILUSTRAÇÃO: ANDRÉS SANDOVAL_2017

Pintado sobre uma pera de plástico, o rosto masculino não é nada amistoso. Parece destilar mau humor por todos os poros. Um tanto desbotada, a fruta que o exibe descansa numa prateleira repleta de outras frutas igualmente falsas, mas vibrantes. “Quando vi a pera zangada para vender no eBay, logo me lembrei de meu irmão, Frank, e a comprei”, conta Fred Garbutt, entre irônico e carinhoso. “Ele não parava de reclamar e tinha o mesmo semblante. Quis prestar uma homenagem.”

Natural de Coachella Valley, nos Estados Unidos, Garbutt vivia de construir quadras de tênis em clubes da região. Há seis anos, porém, cismou de transformar o bar da família num inusitado museu. O rabugento Frank, que tocava o negócio, detestou o projeto. Garbutt também enfrentou o azedume da mulher, que julgou a iniciativa um bocado ridícula. “Pensei que a crise da meia-idade lhe traria um rabinho de cavalo, uma barba e um carro esportivo”, diz Kym. No lugar, veio o International Banana Museum.

Localizado em Mecca, à beira de uma estrada que corta o deserto no sul da Califórnia, o acervo reúne mais de 20 mil bugigangas relacionadas à fruta e à ideia que os gringos tendem a fazer de “tropical”. São brinquedos, luminárias, relógios de pulso e de parede, bonés, chaveiros, uma profusão de macaquinhos e outros bonecos de pelúcia, vasos, pôsteres, camisetas, ímãs de geladeira, telefones sem fio e o que mais se consiga imaginar. O bar – que continua funcionando, agora com banquetas verde-amarelas – serve refrigerantes, milk-shakes e doces de “sabor temático”. Uma bananeira de plástico, quase do tamanho de uma real, também integra a coleção, assim como a pera zangada. Os visitantes podem vestir fantasias de banana e tirar fotos perto da árvore fake.

 

Pelo menos uma pessoa deu apoio incondicional à empreitada de Garbutt. Foi sua mãe, Virginia, proprietária do bar e de três mercadinhos. Ela havia lido que alguém decidira vender 17 mil “artefatos de bananas” e pediu para o filho checar a história. O improvável acervo não apenas existia como seu dono, Ken Bannister, já figurou no Guinness, o livro dos recordes. As tranqueiras se encontravam num prédio público de Hesperia, uma cidade próxima. Passaram um tempão por lá, até que o prefeito solicitou de volta o espaço que as abrigava. Bannister resolveu, então, se livrar do abacaxi em forma de banana.

Mal avistou as quinquilharias, Garbutt se empolgou. “Percebi de imediato que poderia usá-las como chamariz para o bar”, relembra. Bannister chegou a pedir 45 mil dólares pelo conjunto, mas a falta de compradores o forçou a baixar a bola. Quando Garbutt apareceu, o preço já havia diminuído consideravelmente. “Quanto paguei? Não posso revelar. Exigência do contrato.” Ele tampouco gosta de falar sobre Bannister. “Tivemos uma relação estranha…” Também faz mistério em torno da própria idade. “Digamos que estou na fase perfeita da banana: nem muito verde, nem muito passado.”

Obsessivo, segue acrescentando itens à coleção. Um dos artigos recentes que mais o agrada é uma vitrola amarela que se transforma numa maleta em formato de… adivinhe! A engenhoca fica exposta ao lado de LPs antigos como Samba É Isso, que o Milton Banana Trio gravou em 1977.

 

O simpático bigode de Garbutt – um sujeito alto e boa-pinta – combina perfeitamente com a irreverência do museu. “Se não fosse uma coleção de bananas, não teria comprado”, afirma, enquanto cuida do bar. “Você visitaria um acervo de laranjas? Ou de maçãs? Mas de bananas, sim! É divertido.” Em português, o substantivo “banana” pode designar um homem frouxo. Já em inglês remete a algo muito louco. That’s bananas! Isso é uma loucura! Daí a aposta de Garbutt na graça do empreendimento.

O colecionador de Coachella Valley não ignora a conotação sexual da fruta. Faz questão, contudo, de manter a parafernália erótica do museu longe dos olhares infantis. “Pode abri-la”, autoriza, indicando uma caixa pequena escondida no balcão do bar. “Agora descasque”, sugere, às gargalhadas, quando um pênis ereto e amarelado aparece. De outra caixa, saca uma banana de silicone meio grudenta. “Esta é mais perturbadora”, adverte, ligando o “brinquedinho” para fazê-lo vibrar.

Embora o acervo careça de informações históricas sobre o fruto originário do sudeste asiático, Garbutt se mostra diligente em responder perguntas. Não por acaso, tem sempre à mão um livro de Dan Koeppel – Banana: The Fate of the Fruit that Changed the World [Banana: O Destino da Fruta que Mudou o Mundo]. “Procuro expandir meus horizontes”, explica. “Outro dia, comi uma banana-vermelha, bem rara por aqui. Gostei bastante.” Nos Estados Unidos, reina suprema a banana-d’água, e é dificílimo achar outras, como a prata ou a da terra.

Um casal de amigos está visitando o museu pela primeira vez. “É o lugar mais gracioso em que já pisei”, comenta a moça, fascinada pelas balinhas Tic Tac sabor banana. Kym – que, desde abril de 2016, deixou a implicância de lado e aderiu à “maluquice” do marido, com quem gerou três filhas – recebe amistosamente a dupla. Já Frank não viveu para presenciar (e maldizer) a inauguração do acervo. Sofreu um ataque cardíaco pouco antes.

Kym só baixou a guarda quando finalmente topou conhecer o museu – por muito tempo, negou-se a dar as caras. “Fiquei encantada. Trabalhei quinze anos num emprego público e passava o dia escutando reclamações. Aqui o clima é outro. Felizmente.” Garbutt garante que o movimento aumentou após a chegada da mulher. “Me estresso demais se entra muita gente. Ela toma conta do lugar e de mim.” No final do expediente, ambos costumam se sentir gratificados. “É ótimo saber que divertimos tantas pessoas”, resume Garbutt. “E tudo por causa de bananas. Imagine…”

Fernanda Ezabella

Fernanda Ezabella, jornalista, é correspondente da Folha de S.Paulo em Los Angeles

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