questões político-eleitorais

Namorando Huck

O Partido Novo flerta com o apresentador de tevê para lançá-lo candidato à Presidência

Julia Duailibi
09maio2017_23h09
“Quem entrou na faculdade em 1990 está chegando agora aos espaços de poder. Faço parte desta geração”, disse Huck,  em março, à <i>Folha de S.Paulo</i>
“Quem entrou na faculdade em 1990 está chegando agora aos espaços de poder. Faço parte desta geração”, disse Huck, em março, à Folha de S.Paulo FOTO: ADRIANO VIZONI_FOLHAPRESS

Em meados de abril, durante o feriado da Páscoa, um iate de 120 pés, quatro andares, quatro suítes e duas cozinhas atracou na Lagoa Azul, em Angra dos Reis, litoral do Rio de Janeiro. Uma lancha menor foi ao encontro da embarcação, entre famílias em veraneio e turistas com boias em formato de espaguete. Elas emparelharam para que o engenheiro e administrador de empresas João Amoedo e sua mulher pudessem entrar no barco maior. Ali, Amoedo teve um encontro reservado sobre a conjuntura política do país e o NOVO, partido do qual é fundador e presidente. Novo, por sinal, foi o adjetivo usado por Fernando Henrique Cardoso, em uma entrevista à Folha de S.Paulo no começo da semana, para qualificar o dono do iate com quem Amoedo conversou: o apresentador de tevê Luciano Huck, apontado pelo ex-presidente como uma das novidades para a eleição presidencial de 2018.

Era o terceiro encontro entre o apresentador e Amoedo. Os dois se conheceram no primeiro semestre de 2016, quando o engenheiro procurou Huck para falar do partido de viés liberal que fundara, seis anos antes, com um grupo de economistas, empresários e administradores de dez diferentes estados. A partir dali, mantiveram contato por WhatsApp, por meio do qual trocaram impressões sobre a eleição de 2016, até que se esbarraram no começo de abril deste ano, em Cambridge, durante a Brazil Conference, evento organizado pelos alunos do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts) e de Harvard no qual Huck foi aplaudido de pé. No rápido encontro nos Estados Unidos, marcaram a conversa de Angra, que não durou mais de 40 minutos, o suficiente para se tornar um marco no jogo eleitoral do ano que vem.

O flerte de Huck com o NOVO pode culminar na entrada do apresentador na política. Num momento em que os partidos tradicionais estão na berlinda por envolvimento na Lava Jato, colecionando críticas do eleitor, o NOVO, que estreou na eleição do ano passado emplacando quatro vereadores, é a opção menos radiativa do mercado – principalmente para quem quer aparecer como uma novidade na política numa eleição em que não ser político será um ativo.

O PSDB era o destino mais provável para a estreia de Huck. O seu padrasto, o economista Andrea Calabi, é um tradicional quadro técnico tucano, e Huck tem ótima relação com FHC e com o presidente do partido – o senador Aécio Neves, de Minas Gerais –, de quem é amigo. O mineiro já chegou a dizer que Huck poderia personificar a renovação do PSDB, inclusive numa disputa majoritária em que Aécio, é claro, seria o candidato a presidente.



Mas aí veio a Lava Jato, e o strike foi feito no PSDB. Hoje, Aécio é alvo de inquéritos no Supremo Tribunal Federal, assim como o senador José Serra, de São Paulo. O outro presidenciável do partido, o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que assistia à queimação dos rivais tucanos, também foi atingido por delação da Odebrecht. Além disso, se o partido optar por uma novidade eleitoral, tudo indica que ela não será Huck, mas sim o próximo da fila, o prefeito de São Paulo, João Doria Jr. “É muito difícil lançar uma candidatura presidencial do zero com Huck. Doria, pelo menos, já tem a prefeitura para mostrar e é bem avaliado. Huck vai mostrar o quê? Sorteio de casa nova ou arrumação de carro velho?”, afirmou um líder tucano sobre as atrações populares do programa do apresentador, aos sábados, na Rede Globo.

Nesse cenário, o NOVO aparece como a opção mais provável para Huck, caso ele decida se aventurar na disputa pela Presidência – quando questionado, ele desconversa sobre o assunto. “Não foi feito nenhum convite. Nós apenas conversamos, e eu apresentei as ideias do NOVO. A gente quer reunir pessoas em torno de ideias e não de uma única figura de ‘salvador da pátria’”, disse Amoedo. Ele, porém, não descarta que as conversas caminhem para a filiação de Huck. “Se ele vier, é para se engajar no projeto, nas nossas propostas. Sem engajamento, corremos o risco de ter um ‘Tiririca de Luxo’, e não é isso que o NOVO quer”, completou sobre o comediante, ator, palhaço e deputado federal Tiririca (SP), que entrou na política com a missão de puxar voto para a bancada de parlamentares do seu partido, o PR.

Entre as propostas do NOVO, estão a queda dos impostos (possível, segundo eles, com melhor uso dos recursos públicos) e um Estado mais enxuto, ideias que são música para os ouvidos dos críticos da gestão petista. Menos convencionais são a recusa do partido ao uso do dinheiro do Fundo Partidário (o NOVO é financiado pela colaboração de filiados) e a seleção de candidatos ao Congresso por meio de um processo interno. Candidatos a governador e presidente, no entanto, não precisam se submeter à seleção (se o projeto Huck der certo, portanto, ele não corre o risco de tomar bomba na prova do NOVO, assim como Bernardinho, ex-técnico da seleção masculina de Vôlei, que se filiou ao partido e é cotado para disputar o governo do Rio – ou, quem sabe, até a Presidência).

Contra o NOVO pesa o fato de o partido não poder oferecer a seus candidatos tempo de televisão na propaganda eleitoral, um “detalhe” nada desprezível no modelo brasileiro. O partido ainda não tem bancada de deputados federais, critério usado pela Justiça para fazer a divisão dos minutos no horário eleitoral no rádio e na tevê. O NOVO entraria no rateio geral que o Tribunal Superior Eleitoral confere a todos os partidos com candidatos, o que daria a Huck minguados segundos de exposição. Entusiastas de Huck-candidato minimizam o fato. Lembram que o empresário e “não político” Alexandre Kalil, eleito prefeito de Belo Horizonte pelo nanico PHS no ano passado, tinha 23 segundos no horário eleitoral.

É verdade que Huck também tem mecanismos próprios de acesso ao eleitor: são 16 milhões de seguidores no Facebook, 12,7 milhões no Twitter e 11,7 milhões no Instagram. O NOVO também tem entrada considerável nas redes, com seu 1,33 milhão de seguidores no Facebook, mais que o PT (1,2 milhão) e o PSDB (1,31 milhão). As mídias sociais ainda não substituem a propaganda no rádio e na tevê, principalmente nas inserções (ou comerciais) durante a programação normal das emissoras. Mas já rivalizam com ela, catalisadas por um cenário de desconfiança com a classe política e com os seus marqueteiros.

“Quem entrou na faculdade em 1990 está chegando agora aos espaços de poder. Faço parte desta geração”, disse Huck, em março, à Folha de S.Paulo. Se depender dos iates, a parceria deslancha.

Julia Duailibi

Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

Leia também

Relacionadas Últimas

O neófito

As ambições e hesitações do quase-candidato Luciano Huck

Estupro não é sobre desejo, é sobre poder

Em 70% das ocorrências de violência sexual no Brasil em 2019, vítimas eram crianças ou pessoas incapazes de consentir ou resistir - como na acusação contra Robinho na Itália

“Meu pai foi agente da ditadura. Quero uma história diferente pra mim”

Jovem cria projeto para reunir parentes de militares que atuaram na repressão

Engarrafamento de candidatos

Partidos lançam 35% mais candidaturas a prefeito nas cidades médias sem segundo turno para tentar sobreviver

Bons de meme, ruins de voto

Nomes bizarros viralizam, mas têm fraco desempenho nas urnas

Perigo à vista! – razões de sobra para nos preocuparmos

Ancine atravessa a crise como se navegasse em águas tranquilas, com medidas insuficientes sobre os efeitos da pandemia

Retrato Narrado #4: A construção do mito

De atacante dos militares a goleiro dos conservadores: Bolsonaro constrói sua história política

A renda básica, o teto de gastos e o silêncio das elites

Desafio é fazer caber no orçamento de 2021 um programa mais robusto que o Bolsa Família e mais viável em termos fiscais que o auxílio emergencial

A culpa é de Saturno e Capricórnio, tá ok?

Como Maricy Vogel se tornou a astróloga preferida dos bolsonaristas 

Mais textos
4

A metástase

O assassinato de Marielle Franco e o avanço das milícias no Rio

6

Do Einstein para o SUS: a rota letal da covid-19

Epidemia se espalha para a periferia de São Paulo justamente quando paulistanos começam a abandonar isolamento social

8

Assista a um trecho da mesa com Nikil Saval no Festival Piauí de Jornalismo

Nikil Saval é editor e membro da mesa diretora da revista literária n+1, revista de literatura, cultura e política, publicada em versão impressa três vezes ao ano.
Saval esteve em novembro no Festival Piauí de Jornalismo e conversou com os jornalistas Fernando de Barros e Silva e Flávio Pinheiro. 

9

Histórias da Rússia

Uma viagem pelo país da revolução bolchevique, cem anos depois

10

Em duas estratégias, um êxito e uma ópera trágica

Como a China barrou a transmissão do coronavírus enquanto a Itália tem mais mortes em metade do tempo de epidemia