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No início de fevereiro, em cadeia nacional de rádio e tevê Dilma Rousseff declarou guerra ao Aedes aegypti, mosquito que transmite a zika, a dengue e a chikungunya. À presidente, no entanto, faltou colocar a questão em perspectiva histórica:

Bernardo Esteves
06abr2016_19h34
Ilustração: Roberto Negreiros
Ilustração: Roberto Negreiros

No início de fevereiro, em cadeia nacional de rádio e tevê Dilma Rousseff declarou  guerra ao Aedes aegypti, mosquito que transmite a zika, a dengue e a chikungunya. À presidente, no entanto, faltou colocar a questão em perspectiva histórica: a batalha contra o mosquito convocada por ela é apenas mais um capítulo de uma luta que se arrasta desde os primeiros anos do século XX, quando se descobriu que o Aedes aegypti era capaz de transmitir a febre amarela. Combater o mosquito era a forma mais eficiente de conter a doença.

O Brasil está perdendo essa guerra, como reconheceu o ministro da Saúde (Marcelo Castro, do PMDB, sabe-se lá até quando), e isso há pelo menos trinta anos, desde que a dengue voltou para ficar. Mas já vencemos batalhas expressivas, como a eliminação do Aedes aegypti do Rio de Janeiro – sob o comando de Oswaldo Cruz, na primeira década do século XX – e a erradicação do mosquito em todo o território brasileiro nos anos 1950.

A reportagem de capa da piauí 115 (abril de 2016), intitulada “A guerra dos cem anos”, traz a história desse longo conflito, as batalhas vitoriosas contra o mosquito e as estratégias adotadas na tentativa de virar o jogo. Ao lado das técnicas de combate convencionais usadas desde Oswaldo Cruz, o Brasil aposta também novas armas químicas e biológicas, como a liberação no ambiente de Aedes aegypti geneticamente modificados, esterilizados por radiação nuclear ou infectados por uma bactéria (a Wolbachia pipientis) que impede a replicação dos vírus.

A ciência brasileira teve papel importante no desenvolvimento de algumas dessas armas. Os pesquisadores que estudam o Aedes aegypti no país e as doenças transmitidas por ele têm produção acadêmica significativa, como atesta uma busca feita no fim de março no PubMed, banco de dados de estudos na área biomédica usado como referência. Cientistas de instituições brasileiras são autores de 9,5% dos estudos sobre Aedes aegypti publicados nos últimos dez anos; de 7,3% dos artigos sobre dengue; e de 9,2% dos trabalhos sobre zika. Considerado o conjunto das disciplinas científicas, a participação do Brasil na ciência mundial é de apenas 2,5%.

A comunidade científica brasileira reagiu com rapidez à epidemia de zika iniciada no ano passado. Virologistas da USP, como Paolo Zanotto e Edison Durigon, redirecionaram seus esforços de pesquisa tão logo perceberam a seriedade da ameaça. No mês passado, eles anunciaram o desenvolvimento de um teste laboratorial capaz de identificar se o paciente contraiu zika mesmo depois de passada a fase aguda da infecção, que não dura mais que uma semana – até então, só era possível fazer o diagnóstico durante essa curta janela.

Biólogo da UFRJ e do Instituto D’Or. Rehen, Stevens Rehen – um neurocientista que nunca tinha se enveredado pela virologia – decidiu aproveitar a infraestrutura de seu laboratório para estudar o efeito do vírus zika sobre “minicérebros” que sua equipe cultiva a partir de células-tronco. Os resultados – divulgados primeiro na forma de preprint antes da avaliação por pares e já aceitos para publicação num periódico especializado – mostram que o vírus ataca as células neuronais humanas e reforçam a associação causal entre a doença e a microcefalia e outras malformações.

A mobilização dos cientistas teve contrapartida institucional. No fim de 2015, a Fapesp, a fundação paulista de amparo à pesquisa, patrocinou uma rede de pesquisadores paulistas – coordenados por Paolo Zanotto – para investigar vários aspectos da zika e de sua relação com a microcefalia, a síndrome de Guillain-Barré e outras complicações neurológicas. Agências de fomento federais e de outros estados também reagiram com medidas parecidas. No Rio de Janeiro, a Faperj anunciou a criação de uma rede envolvendo 379 pesquisadores.

“Os pesquisadores brasileiros dessa área são vistos como referência pelos colegas estrangeiros”, disse o biólogo Jerson Lima Silva, diretor científico da Faperj, numa entrevista em fevereiro. As razões, completou ele, não são difíceis de entender: doenças negligenciadas como dengue e zika afetam menos os países responsáveis pela maior parte da ciência mundial.

Para Lima Silva, a relevância mundial do Brasil na área reflete um período de vacas gordas, com mais recursos para a ciência no país. Mas o vento virou, sobretudo no estado do Rio de Janeiro, que atravessa uma crise fiscal aguda, com salários atrasados e dívidas milionárias (os impactos da crise estadual sobre o sistema de ciência e tecnologia foram tratados em um post publicado em dezembro). Bolsistas vêm reclamando de atraso no pagamento e a Faperj enfrenta a ameaça de ter seu orçamento reduzido pela metade. “Temos uma missão de Estado, mas com os cortes ela simplesmente acaba”, lamentou o diretor.

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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