anais da ciência

O bebê que liga o zika à cura de câncer

João Lucas conecta dois achados da medicina brasileira: o zika como causa da microcefalia, e o uso do mesmo vírus para destruir o câncer que mais mata crianças no mundo

Mônica Manir
05jun2018_15h27
Valéria Gomes Ribeiro segura o filho adotivo João Lucas da Silva Araújo na frente da casa deles, no Recife, em maio de 2018
Valéria Gomes Ribeiro segura o filho adotivo João Lucas da Silva Araújo na frente da casa deles, no Recife, em maio de 2018 FOTO: LEO CALDAS

João Lucas olha de banda, mas não emite nenhum som. Aos 2 anos e 9 meses, ele também não anda, não aponta o dedo, não engole comida. Um leite especial chega via sonda, que a mãe adotiva, Valéria Gomes Ribeiro, acaba de ajustar no abdômen dele. O pequeno recifense nasceu com microcefalia em 2015, no auge do surto de zika e, como outros 2.653 casos oficiais da doença no Brasil, sofre os efeitos disso na saúde. Não somente por esse motivo é um bebê especial. Como resultado de uma descoberta inovadora da medicina brasileira, o vírus que comprometeu o cérebro de João Lucas pode um dia salvar o cérebro de outra criança. O menino é um dos elos entre a pesquisa que elucidou uma tragédia da saúde pública no país – a correlação do zika com a microcefalia – e um avanço crucial na cura do câncer que mais mata crianças no mundo.

O protagonismo de João Lucas neste enredo começa aos 5 meses de idade, quando ele teve o sangue coletado no Recife, para uma pesquisa que vasculhava a origem genética da microcefalia no Brasil. O trabalho era capitaneado pela geneticista Mayana Zatz, do Instituto de Biociências da Universidade de São Paulo. O bebê também era paciente de Vanessa Van Der Linden, neuropediatra que investigava no Recife a relação do vírus da zika com os casos de microcefalia que se multiplicavam no Nordeste do país.

Dois anos depois de ser examinado pelas duas cientistas, a equipe de Zatz teve um insight revelador: se o zika destrói células saudáveis do cérebro, ele poderia também ser usado para atacar células cancerosas que estivessem comprometendo esse órgão?

Após testes com camundongos, os primeiros resultados foram publicados em fevereiro: o vírus da zika, de fato, destruiu tumores do sistema nervoso central e eliminou a doença de alguns animais. Chegou a eliminar a metástase que avançava pela medula de alguns roedores. A cada camundongo livre do câncer, os pesquisadores – equipes da USP, do Instituto Butantan, da Unicamp e da Unifesp – se abraçavam. Nos testes, relembrou Zatz, o zika era atraído pelos tumores e passava a ignorar os neurônios sadios. “Foi como se o vírus olhasse o tumor e dissesse: ‘Eu tenho a minha comida preferida’”, comparou a geneticista.

O interesse dos pesquisadores nos genes de João Lucas tem origem no fato de que ele é gêmeo de uma menina não afetada pelo zika. Idênticos ou fraternos, vindos da mesma placenta ou de placentas diferentes, gêmeos costumam ser foco de atenção de pesquisadores. Ajudam a mapear se aquilo que estudam tem raiz no DNA dos pacientes analisados, no ambiente ou em ambos.

Por essa razão, gêmeos foram o público-alvo do estudo de Zatz, diretora do Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano e Células-Tronco da USP, quando foi para o Nordeste em 2016. Ela queria entender se no epicentro do surto de zika algum fator genético protegia ou vulnerabilizava os bebês. Um de seus destinos, Recife, contava com casos de gêmeos discordantes – quando um nasceu com a doença, e o outro não. As crianças foram indicadas por Vanessa Van Der Linden, que atendia pacientes em seu consultório particular e no Barão de Lucena, hospital público de atendimento materno-infantil. No começo do surto do zika, ainda em 2015, Vanessa teve papel crucial na correlação entre o vírus e a incidência de microcefalia em crianças.

Ela e a mãe, Ana Van Der Linden, também neuropediatra de outro hospital de referência para a população pobre pernambucana, o Instituto de Medicina Integral Professor Fernando Figueira, estavam às voltas com um número de pacientes microcefálicos totalmente fora do padrão. “Se aparecia um a cada três meses na cidade, de repente havia quinze nos berçários em menos de um mês”, relembrou Ana. Dois dos bebês analisados nessa época foram justamente os gêmeos João Lucas e a irmã, Ana Vitória da Silva Araújo. Ainda no Recife, em paralelo, o clínico geral Carlos Brito, professor da Universidade Federal de Pernambuco, se debruçava nos relatos de manchas vermelhas na pele das mães de bebês afetados pela microcefalia durante a gestação. Ele descartava tanto a dengue, por não haver febre, como a rubéola, cuja contaminação depende da proximidade – e as mães vinham de diferentes cidades. “Só podia ser um vetor para ter essa alta taxa de dispersão, só podia ser o Aedes”, relembrou. A aposta de Brito era o vírus da zika, que já tinha causado problemas neurológicos em adultos, meses antes, em um surto da síndrome de Guillain-Barré no Recife. “Aquela causalidade de fenômenos provocou na gente uma perplexidade, mas precisava ter rapidez.”

Moradores de Paulista, na região metropolitana do Recife, os gêmeos João Lucas e Ana Vitória foram examinados por Vanessa em 2015. Ainda não se sabia que era a zika a causadora do surto de crianças com microcefalia no Nordeste do país. A mãe biológica, Neide Maria Ferreira da Silva, relatou que no sétimo mês de gestação sentiu coceira no corpo e percebeu o branco dos olhos avermelhado, típico de conjuntivite. Não ligou muito para os sintomas, que passaram rápido. Mas, em outubro de 2015, ela juntou aos seus dez filhos anteriores mais dois, um deles, como disse uma vizinha, “meio esquisitinho”, de cabeça pequena, testa chanfrada e dono de um choro tão contínuo e intenso que lhe saltavam os olhos e o umbigo.

Ainda sem planos de que adotaria o bebê, Valéria foi convidada a conhecer João Lucas. “Como eu sou mãe de filho especial, acham que eu sei de tudo”, disse a mulher de 47 anos, cabelos vermelhos amarrados num rabo curto que deixam ver o nome “Gildo” tatuado no dorso das costas. Há vinte anos, Valéria pegou para criar um menino com deficiência mental, Gildinho. Doze anos depois, passou a cuidar do filho de um primo, hoje com 35 anos, também com retardo. “E nesse dia estava lá o João chorando, né, João?”, recordou Valéria, observando as gotas de leite que pingam de uma garrafinha, presa a um suporte de soro, até o estômago do filho adotivo. Foi Valéria pegar o bebê no colo na casa de Neide e ele se acalmar. A partir de então, os próprios irmãos de João, a pedido dos pais biológicos ou à sua revelia, passaram a levar a criança nos braços até a casa de Valéria, que vivia na quadra de baixo.

Entre idas e vindas, ela conquistou a guarda provisória do bebê e espera para breve a definitiva. Fechou a lojinha na varanda de casa na qual vendia uns confeitos e, mal amparada pelos benefícios que João e Gildo recebem do estado, hoje passa os dias acompanhando o caçula em sessões de fisioterapia e consultas multidisciplinares.

Na manhã de uma terça-feira de maio, João se balançava sobre um rolinho, de barriga para baixo, quando a piauí o encontrou na Fundação Altino Ventura, no bairro recifense de Iputinga. Fundada em 1986, a instituição tem foco na oftalmologia e atua também na reabilitação e inclusão de pacientes com deficiências. Atende atualmente 129 crianças com a síndrome congênita do zika vírus.

Depois de uma sessão de fisioterapia – a profissional abria os dedos das mãos de João, que insistem em se fechar –, era a vez da fonoaudióloga. Monica Miranda explicava a Valéria como usar a escova de dentes para que o menino não perca a sensibilidade na boca, que vive aberta. E perguntava se a mãe adotiva havia colocado um naco de alimento azedo na língua do filho. A preocupação é que ele não perca a percepção gustativa por causa da sonda. Naquele dia, Valéria ainda respondeu a um questionário sobre o filho, um acompanhamento psicológico realizado com familiares. “Você acha que João tem condições de algum dia se inserir no mercado de trabalho?”, perguntou a fonoaudióloga. Valéria segurou o choro. “A gente como mãe reconhece que esse problema no cérebro compromete ele para o resto da vida, mas eu quero ver João homem, que seja numa cadeira de rodas, só não vou aguentar ver esse menino morrer.”

Em relação às pesquisas científicas no filho, Valéria lembra que colheram sangue de João Lucas no começo da epidemia, mas nunca soube no que deu. “Esses meninos da ‘micro’ são muito furados. É muita injeção, nem os médicos descobrem o que eles têm”, afirmou Valéria.


O material genético colhido de João e da irmã e de outros dois pares de gêmeos discordantes de São Paulo foi usado em um estudo co-coordenado por Zatz e publicado bem mais tarde, em 2 de fevereiro de 2018, na revista inglesa Nature Communications. Ali registrou que a suscetibilidade ao vírus da zika não pode ser explicada por um único gene, e sim por diferenças em 64 deles. Mas o fato de um bebê ter essa suscetibilidade não significa que nasça com microcefalia, a não ser que seja infectado pelo vírus da zika. “É a combinação entre gene de risco e fator ambiental”, explicou a geneticista. “Quem sabe, no futuro, a gente consiga identificar pais em risco de conceber filhos com esse padrão e priorizá-los em uma campanha de vacinação, por exemplo.”

Mas o mergulho na ação da zika usando o DNA dos gêmeos fez com que a geneticista atentasse para outro aspecto: a predileção do vírus por células progenitoras dos fetos, aquelas que darão origem ao sistema nervoso central. “Aprendemos muito sobre o comportamento do vírus nessas células, como quais vias cerebrais são alteradas.” Tempos depois, Zatz teve um estalo. Chamou um colega de departamento, o geneticista Oswaldo Keith Okamoto, e apresentou o desafio: e se estudassem a atuação do vírus em cânceres que afetam exatamente esse sistema?

Aos 50 anos, Okamoto coordena um grupo no Centro de Pesquisa sobre o Genoma Humano cujo maior interesse são os tumores de origem embrionária, em geral resistentes à quimioterapia e que afetam muito a vida dos pacientes. Segundo levantamento do Grupo de Apoio ao Adolescente e à Criança com Câncer, o Graacc, feito com 3.724 pacientes atendidos em 2017, os tumores do sistema nervoso central foram os que mais acometeram as crianças (27%). Em seguida, as leucemias (15%).

A equipe de Okamoto pesquisou seis linhagens do vírus da zika: duas delas em meduloblastoma (um dos tumores no cérebro mais comuns), uma em um TTRA, um tumor cerebral raro, e as outras três em tumores de mama, intestino e próstata. Conseguiu confirmar que poucas quantidades de vírus rapidamente infectaram as placas com células neuroprogenitoras, enquanto nas de mama e intestino ele não sobreviveu. Na de próstata, agiu como se lá não estivesse, o que para os cientistas reforça a afirmação de que pode ficar até nove meses no sêmen sem destruir as células locais e, assim, a zika ser transmitida sexualmente.

A etapa seguinte foi a pesquisa em animais. Os pesquisadores instalaram o tumor no cérebro de camundongos nude (sem sistema imune) e os infectaram com pequenas doses de zika. Compararam essas cobaias com dois outros grupos de animais, também sem sistema imunológico: um levava somente células de tumor humano, outro fora contaminado apenas com o vírus. Os membros desses dois últimos grupos morreram em duas semanas, enquanto aqueles com as células tumorosas infectadas sobreviveram por oitenta dias. “A morte em oitenta dias ocorreu em virtude das complicações da doença”, afirmou Okamoto. “Isso nos leva a supor que a sobrevida talvez pudesse ser maior se o tratamento fosse mais precoce.”

O próximo passo, explica Okamoto, é bolar estratégias de continuidade com o foco no desenvolvimento de medicamentos. Ele não descarta eventuais mutações no genoma do vírus: “Se acontecerem, podem tanto aumentar como diminuir sua afinidade com as células cancerígenas.” Já Mayana Zatz estava entusiasmada com uma mensagem que recebera em seu grupo da Veterinária. Talvez cachorros também fossem acometidos pelo meduloblastoma. “Poderíamos não apenas tratar os cães como fazer um estudo pré-clínico muito mais semelhante ao que faríamos no ser humano, já que, dependendo do animal, seu peso estaria mais próximo do de uma criança”, disse.

Depois de a pesquisa ter sido publicada na Cancer Research, em 26 de abril, e noticiada em jornais brasileiros, a caixa de entrada da pesquisadora ficou cheia de e-mails de pais querendo alistar os filhos com câncer em testes com o vírus. Ela responde às mensagens, lembrando aos pais da necessidade de seguir protocolos de pesquisa. Ainda não há previsão para o início dos testes em seres humanos. Mas ela mal pode conter a ansiedade. “Infelizmente, os testes de segurança já foram feitos em milhares de pessoas durante a epidemia, já sabemos como o vírus age.”

No Recife, entre os cientistas que descobriram a correlação entre zika e microcefalia, os resultados da pesquisa da USP reverberaram em diferentes gradações. Ana Van Der Linden, há 55 anos trabalhando com neurologia, disse não conhecer a fundo esse estudo e, por isso, preferia não opinar. E destacou o relacionamento estreito e único que se estabelece entre as mães e seus filhos com síndrome congênita, muitos deles com visão, audição, fala e desenvolvimento psicomotor comprometidos. “Essas crianças são a razão de ser dessas mães, isso é muito bonito.”

Celina Turchi, pesquisadora da Fundação Oswaldo Cruz, em Pernambuco, e reconhecida pela revista Nature como uma das dez cientistas mais importantes em 2016 por causa do trabalho como coordenadora de um rede de pesquisadores que correlacionou zika e a síndrome congênita, reconhece como “interessante” o experimento laboratorial. A médica, no entanto, acha que ainda há muito a apreender antes de usar o vírus da zika ou partes virais como ferramenta terapêutica. “Como epidemiologista, acho importante reconhecer o potencial dos arbovírus [vírus transmitidos por mosquitos] de causar epidemias urbanas explosivas em regiões tropicais”, afirmou.

Clínico geral e também epidemiologista, Carlos Brito vibra mais com o achado: “Pensar em utilizar o vírus do mal para levar a um benefício diante da ameaça é fantástico.” Esse patógeno, aponta Brito, tem levado cientistas a repensar procedimentos, nexos epidemiológicos, hipóteses, práticas, velocidade na ação. “O ineditismo do zika gerou instabilidade, veio para quebrar paradigmas.”

A mãe adotiva de João Lucas estava mais preocupada com um mosquito que tinha pousado na testa do menino. Ela se irrita. “A gente está numa época de muriçoca, esse governo pouco faz para combater isso”, disse Valéria, sentada em um banco num dos corredores da Fundação Altino Ventura. “Tenho medo do Aedes, João já foi afetado por esse maldito mosquito, vai que um pique ele de novo e piore a situação.” Quando volto a perguntar sobre o potencial do vírus de combater um câncer tão letal em crianças, a morena acaricia a cabeça do filho: “Que dê a vida a outras crianças é muito bom, mas esse vírus podia curar os meninos da microcefalia de volta, consertar o estrago. Já que é tão poderoso assim.”

 

Mônica Manir

Mônica Manir é jornalista.

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