O beija-mão da propina

Para seduzir o Ministério Público a aceitar sua delação, o ex-governador do Rio Sérgio Cabral promete contar como foi o encontro entre ele, Lula e Eduardo Paes para comprar a Olimpíada do Rio

POR Malu Gaspar
Sérgio Cabral, Eduardo Paes e Lula em 2008, um ano antes da eleição que deu ao Rio o direito de sediar a Olimpíada. Investigadores franceses têm provas de que ao menos um dos 66 votos a favor da cidade foi comprado por 1,5 milhão de dólares
Revista Piauí Sérgio Cabral, Eduardo Paes e Lula em 2008, um ano antes da eleição que deu ao Rio o direito de sediar a Olimpíada. Investigadores franceses têm provas de que ao menos um dos 66 votos a favor da cidade foi comprado por 1,5 milhão de dólares FOTO: SERGIO LIMA_FOLHAPRESS
Sérgio Cabral, Eduardo Paes e Lula em 2008, um ano antes da eleição que deu ao Rio o direito de sediar a Olimpíada. Investigadores franceses têm provas de que ao menos um dos 66 votos a favor da cidade foi comprado por 1,5 milhão de dólares FOTO: SERGIO LIMA_FOLHAPRESS

Não são poucos os segredos que o ex-governador do Rio de Janeiro Sérgio Cabral guarda em sua cela no Batalhão Especial Prisional de Benfica, na capital fluminense. Uma parte deles – mais precisamente 96 – foi exposta por Cabral em forma de anexos de uma proposta de delação premiada feita ao Ministério Público Federal no início deste ano.

Entregue pelos advogados de Cabral a uma equipe formada por procuradores de Brasília e do Rio de Janeiro, a proposta reúne as histórias que o ex-governador está disposto a contar para diminuir sua pena – na semana passada, Sérgio Moro o condenou, em primeira instância, a 14 anos e dois meses de prisão por corrupção e lavagem de dinheiro. Há outras dez denúncias ainda por serem julgadas, e vários inquéritos em andamento.

O Ministério Público achou que Cabral falou pouco, e as negociações não foram adiante. Elas muito provavelmente continuarão hibernando nos escaninhos de Brasília, onde o time de Rodrigo Janot tem como prioridade os casos eletrizantes de Joesley Batista, Lúcio Funaro, Eduardo Cunha e companhia, todos mirando a cabeça do presidente Michel Temer.

Entre os episódios relatados por Cabral, porém, um em especial chamou a atenção dos procuradores. O ex-governador prometeu detalhar uma reunião, realizada em 2009, na qual ele, o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-prefeito Eduardo Paes teriam autorizado o empresário Arthur César Soares de Menezes, conhecido como “Rei Arthur”, a pagar propina a membros do Comitê Olímpico Internacional para que o Rio de Janeiro fosse escolhida cidade-sede dos Jogos de 2016.

O resumo apresentado por Cabral não fornece os meandros da conversa e nem dá os meios pelos quais o dinheiro foi pago. Mas confirma e acrescenta ingredientes à história publicada em março pelo jornal francês Le Monde, segundo a qual o Ministério Público daquele país descobriu que Arthur Soares pagou 1,5 milhão de dólares ao presidente da Associação Internacional de Federações de Atletismo, Lamine Diack, três dias antes da votação que consagrou a vitória do Rio para sediar os Jogos de 2016, acontecida em 2 de outubro de 2009, em Copenhague, na Dinamarca.

Mais 500 mil dólares teriam sido depositados em contas de Diack depois da escolha, como uma espécie de bonificação por resultados: o Rio derrotou Madri por 66 votos a 32. Diack, por sua vez, teria repassado 300 mil dólares ao ex-atleta da Namíbia Frankie Fredericks, também membro do COI, no dia da votação.

Pela ênfase dada pelos advogados de Cabral ao episódio nas negociações com os investigadores, presume-se que, caso a delação fosse adiante, os detalhes seriam saborosos. Nas conversas, esse anexo era tratado pelos defensores do ex-governador como a parte mais relevante do conjunto de histórias que ele promete contar em troca do arrefecimento da pena.

Para que seja aceita, no entanto, a delação de Cabral precisa trazer mais fatos comprometedores de altas instâncias, sobretudo do Judiciário. Embora caudalosa, a proposta de Cabral não expunha em detalhes sua relação com os togados, o que, para alguns procuradores, é fundamental. Sem isso, nada feito. E mesmo com isso, talvez haja problemas: parte do time do Ministério Público sempre é refratária a qualquer tipo de acordo com Sérgio Cabral, dada a extensão de seus crimes e do estrago feito por sua gestão nas finanças do Rio, em estado oficial de calamidade financeira ao menos até 2018.

A recusa em fazer acordo com o ex-governador tem uma dose razoável de cálculo. Os procuradores acreditam que podem descobrir, sozinhos, o que Cabral se propõe a contar. Nos últimos meses, a Operação Calicute, ramo fluminense da Lava Jato, já fechou acordos de delação com os doleiros de Cabral e com funcionários de empresas públicas e privadas que estão, aos poucos, expondo as engrenagens do esquema que dominou o governo do Rio nos últimos dez anos.

A força-tarefa conseguiu a prisão de Eike Batista que, além de ter pago propina ao ex-governador, também despejou 23 milhões de reais na campanha olímpica do Rio – memória de Batista pode ajudar a enfraquecer a moeda de troca de Cabral. A Calicute também deteve conselheiros do Tribunal de Contas do Estado, acusados de receber propina em contratos do governo estadual; apreendeu documentos nos escritórios do presidente da Assembleia Legislativa, Jorge Picciani, homem central no minhocário de propinas no Rio; e prendeu o ex-secretário de Saúde da época, Sérgio Côrtes, e seus fornecedores de serviços de saúde. Agora, prepara-se para avançar sobre ele, o Rei Arthur, o empresário mais poderoso do Rio de Janeiro na era Cabral.

Amigo e vizinho do governador no condomínio onde mantinham suas casas de praia em Mangaratiba, Soares é dono de uma miríade de empresas que fornecem de quentinhas a documentos, de segurança a veículos para o governo estadual. Nos anos de Cabral no poder, o Rei Arthur faturou cerca de 3 bilhões de reais. No mesmo período, arrebanhou contratos também no governo de Minas Gerais e no Senado Federal. A Calicute já descobriu que ele pagou 1 milhão de reais ao escritório da ex-primeira-dama Adriana Ancelmo, e mais 660 mil reais a um dos prepostos de Cabral, Carlos Miranda, por serviços até agora sem comprovação de que sequer tenham existido.

Discreto e desconfiado, Soares esteve no Ministério Público do Rio no início do ano e se dispôs a colaborar com as investigações, mas negou  todas as acusações e não acrescentou uma vírgula ao que já se sabia.  Nas próximas semanas, chegam às mãos dos procuradores no Rio de Janeiro os documentos obtidos pelo Ministério Público da França que comprovariam os pagamentos feitos por ele aos membros do COI.  O cerco se fecha, ao mesmo tempo em que Cabral começa a perceber que suas chances com os juízes da Lava Jato se achatam quase ao nível do chão. A tendência é Cabral acumular condenações – a menos que consiga convencer os procuradores de que vale a pena fechar um acordo com ele. Para isso, porém, será preciso revisar sua memória. Porque a história secreta da Olimpíada está prestes a ser desvendada.

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