questões cinematográficas

O cinema brasileiro no Carnegie Hall (IV)

O capítulo final da reconstituição dos eventos que levaram à exibição do primeiro filme brasileiro no Carnegie Hall

Eduardo Escorel
07dez2017_16h26
Cartão-postal do Strand Theatre, datado de 1914
Cartão-postal do Strand Theatre, datado de 1914 FOTO: DIVULGAÇÃO

“A fim de dar interesse quanto ao ponto de vista americano”, a parte das legendas de Os Sertões sobre os índios Pareci e Nhambiquara foi refeita pelo tenente Luiz Thomaz Reis, com a colaboração da jornalista Lilian Elwyn Elliot, usando frases de Through the Brazilian Wilderness, de Theodore Roosevelt, publicado em 1914 [Nas Selvas do Brasil, a primeira edição do livro feita no Brasil é de 1943]. A parte dos Coroado, por sua vez, conforme Reis escreveu em seu relatório, “foi de novo redigida de uma maneira que sem tirar o cunho de informação satisfazia por completo não só a curiosidade como havia mesmo muito de humorismo em certos títulos dentro dos limites que o programa comportava”.

Além dos obstáculos que já havia superado – apreensão do filme pela alfândega, ataque de malária sofrido e hospitalização de Roosevelt –, Reis teve ainda o dissabor de constatar que a impressão das novas legendas “ficou muito mal feita”. Mas teve que se conformar “por não sobrar tempo para mais, a conferência [de Roosevelt] devendo se realizar dentro de quatro dias”.  

Em 15 de maio de 1918, à noite, antes de Os Sertões ser exibido, após falar durante uma hora e meia, “transformando o discurso numa boa palestra entre amigos, a cada momento provocando gargalhadas de todos”, Roosevelt atribuiu ao Coronel Cândido Rondon o mérito de ter levado a expedição a bom termo. E dele próprio ter chegado “inteiro para àquela hora estar ali falando”, depois de ter vencido “perigosas travessias” de lagoas passando entre jacarés.

“No nosso país”, prosseguiu Roosevelt, “quando um homem se torna célebre por alguma qualidade superior ou algum ato de benemerência, dá-se-lhe um assento no Congresso Nacional; e que lugar poderíamos dar a um homem como o Coronel Rondon? Eis, pois, senhores, porque nós e a Sociedade Americana de Geografia, queremos pôr em destaque o extraordinário soldado de que estamos falando, entregando a ele a Medalha Livingstone, que a mesma Sociedade destinava a mim e que penso estará muito bem com o Coronel Rondon.”

Por volta de dez horas da noite, finalmente teve início a projeção de Os Sertões, “o teatro continuando cheio apesar da hora adiantada”, escreve Reis. No final, “tudo correndo perfeitamente bem”, recebeu os cumprimentos do diretor da Sociedade Americana de Geografia e de sua mulher, mas não menciona qual foi a reação de Roosevelt ao filme. Para a plateia, “a quinta e sexta partes, com os índios Coroado, e o melhor da parte musical” teriam sido de “grande interesse”.

Na manhã seguinte, o [New YorkHerald e o [New YorkTimes teriam se limitado a publicar “uma pequena notícia a respeito da conferência”. [Na data indicada por Reis, e nos dias posteriores, não encontramos no New York Times nenhuma notícia a respeito da conferência ou do filme.] A explicação dada a Reis para a falta de cobertura da imprensa foi que “os jornais de pouco se ocupavam a não ser da guerra”.

O desinteresse da mídia impressa, interpretado como sinal de que “pelo lado da popularidade o filme deixava a desejar”, influiu, segundo Reis, no ânimo das empresas distribuidoras e exibidoras. A proposta mais frequente feita a Reis, conforme ele escreve, era “detestável”. Como as companhias proponentes “tinham pequeno ou nenhum capital, queriam sempre começar por meter o negativo no prego, isto é, tomar dinheiro dando como penhor o negativo [do filme], que ficaria pertencendo ao capitalista até que as receitas cobrissem o capital com juros de 30%”.

Negociações com a Metro, que a princípio demonstrou interesse em distribuir Os Sertões, acabaram não se concretizando, sob alegação de que o filme poderia ser censurado em alguns estados, o que dificultaria sua distribuição.

Com objetivo apenas de tornar Os Sertões mais conhecido, Reis estava disposto a exibir o filme por até oito dias sem receber qualquer remuneração. Para tanto, conseguiu ser apresentado a Harold E. Edel, diretor administrativo do Strand Theatre, cinema aberto em 1914 na Times Square, esquina da Broadway com a rua 47. Apesar de interessado em programar as partes de Os Sertões que considerou “mais importantes”, Edel achou o filme longo demais, devendo ser cortados “os trechos onde os índios nus estavam em primeiro plano o que poderia causar alguma reclamação do público”.

Acordo assinado entre Reis e Edel, pelo qual Reis receberia 325 dólares (equivalente hoje a cerca de 5 700 dólares), cedia a Edel “a faculdade de reeditar o filme aproveitando o que julgasse mais conveniente contanto que fossem apresentados no começo algumas vistas do Rio e São Paulo”. Além disso, novas legendas que seriam feitas deveriam ser submetidas à aprovação de Reis para evitar “qualquer frase que pudesse” lhe causar desgosto, “o que felizmente não sucedeu”, segundo seu relatório. Para ele, “o pequeno programa [filme] de 40 minutos [ficou] muito bem redigido e propriamente honroso para nós”.

Em 9 de junho de 1918, Os Sertões estreou na Broadway. Segundo o relatório de Reis, o interesse em ver a Expedição Roosevelt assegurou “casa cheia” na estreia e nos dias seguintes. Embora a época fosse considerada ruim, por ser verão e período de férias, Edel teria dito que “o filme era um bom sucesso”. Mesmo assim, nas semanas seguintes, apesar de ter um agente contratado, Reis não encontrou outros interessados em exibir o filme que merecessem confiança.

No final de junho, tendo acumulado mais de 240 dólares (cerca de 4 200 dólares, hoje) em dívidas, Reis recebeu os 325 dólares previstos no acordo com Edel. Sem alternativa aceitável, assinou contrato de distribuição com a companhia Interocean, estabelecendo participação de 50% na receita e assegurando a fiscalização. Uma cópia do contrato foi depositada na Sociedade Americana de Geografia “por que tendo de embarcar para a América do Sul e estando os mares da Flórida frequentados pelos submarinos alemães, que diariamente metiam a pique quatro a cinco vapores, nós corríamos também o perigo de naufragar e o contrato poderia se perder”.

Passados seis meses desde sua chegada a Nova York, Reis partiu de volta ao Brasil, em 9 de agosto, a bordo do vapor Uberaba. Dois dias depois, enquanto conversava encostado no parapeito do convés, começaram a explodir granadas ao redor, atiradas de um submarino alemão. Sem ter sido atingido, o Uberaba conseguiu escapar, graças à providencial chegada de um torpedeiro americano que atendera ao chamado de socorro. O submarino mergulhou no oceano, “deixando-nos um susto terrível e duas noites de insônia”, escreve Reis.

Segundo o relatório de Reis, apresentado em 10 de dezembro de 1918, suas despesas em Nova York chegaram a 2 177,95 dólares (cerca de 38 300 dólares, hoje). A única receita da exibição de Os Sertões nos Estados Unidos teria sido os 325 dólares (cerca de 5 700 dólares, hoje) do acordo com Edel. Portanto, comparada à intenção declarada a Roosevelt por Reis de obter “ao menos uns cinquenta mil dólares” (cerca de 880 mil dólares, hoje), o resultado financeiro da viagem só pode ser considerado patético. Isso, sem esquecer o prejuízo de cerca de 32 000 dólares (a preços de hoje) causado pela diferença entre o custo da viagem e a receita, além da falta de qualquer repercussão artística ou cultural significativa, só permite concluir que a ida de Reis a Nova York foi uma missão fracassada.

Depois de ter percorrido Mato Grosso e Amazonas, em 1912, integrando a Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas; acompanhado a Expedição Científica Roosevelt – Rondon, entre 1913 e 1914; cruzado a Amazônia, em 1915, e escapado do ataque de um submarino alemão ao voltar dos Estados Unidos, Reis foi promovido a capitão, em 1922, e nesse mesmo ano percorreu o Nordeste com o General Rondon. Em 1924, acompanhou a exploração e o levantamento do rio Ronuro, em Mato Grosso, e em dezembro foi ao Paraná fotografar as forças federais que estavam em operações de guerra, sob comando de Rondon, enfrentando os rebeldes liderados por Luís Carlos Prestes e Miguel Costa.

Em 1927, nomeado encarregado do Serviço Cinematográfico do Estado Maior da Inspeção de Fronteiras, chefiado por Rondon, Reis percorreu o rio Oiapoque e participou da inspeção do monte Roraima. Ao serem encerrados os trabalhos naquele ano, foi elogiado por Rondon “pela perícia, tantas vezes posta em prova, com que executou a função técnica especializada de operador cinematográfico”.

No ano seguinte, aos 50 anos, foi reformado após ter completado mais de trinta anos de serviço. A vida aventurosa de Reis só chegaria ao fim, porém, em 1940, de forma imprevista. Conforme notícia publicada no Correio da Manhã de 3 de dezembro daquele ano, “absorvido na execução” da filmagem da demolição do antigo edifício do Quartel General do Exército, o major Luiz Thomaz Reis fora “atingido no pé esquerdo por uma pedra” em 11 de setembro. Recusando-se a interromper o trabalho, “terminou a tarefa do dia” e “por ter piorado, foi obrigado a hospitalizar-se. Sobrevindo uma complicação, deu-se ontem [2 de dezembro] o fatal desenlace [no Hospital da Cruz Vermelha Brasileira, onde estava internado], depois de longos dias de sofrimento. […] Era viúvo de uma filha do pintor José Boscagli e deixa órfãos a senhorita Argentina e os srs. Ticiano e Americo Reis. O enterramento será hoje, saindo o féretro às 4 horas da tarde, da rua Barão de Guaratiba nº 132, para o cemitério de São João Batista”.

Tanto o Correio da Manhã, como outros jornais da época, publicam avisos de falecimento e convites para o enterro de Reis, assim como convidam para a missa de sétimo dia, à qual compareceu “o sr. General Cândido Mariano da Silva Rondon […] e figuras de projeção em nossos círculos sociais”. (fim)

*

Nota: A principal fonte do relato acima é o relatório da viagem aos Estados Unidos, escrito pelo então tenente Luiz Thomaz Reis e apresentado, em dezembro de 1918, ao capitão Amílcar Armando Botelho de Magalhães, chefe do Escritório Central da Comissão de Linhas Telegráficas Estratégicas de Mato Grosso ao Amazonas, reproduzido nos anexos de Viagem ao Cinema Silencioso do Brasil, Samuel Paiva & Sheila Schvarzman (orgs.). Rio de Janeiro: Azougue, 2011.

*

Leia a primeira, a segunda e a terceira parte do texto de Eduardo Escorel

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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