questões arquitetônicas

O edifício maldito

Era para ser banheiro público e virou centro turístico. Por que o "prédio mais feio do Brasil" é uma crítica à vida de aparências e um elogio à gaiatice

Francesco Perrotta-Bosch
10nov2017_18h29
O prédio “Rainha da Sucata”, no centro de Belo Horizonte
O prédio “Rainha da Sucata”, no centro de Belo Horizonte FOTO ORIGINAL: ARQUIVO RUTH VERDE ZEIN_ACERVO DA BIBLIOTECA DA FAUUSP / ILUSTRAÇÃO: JOÃO BRIZZI

“Um horroroso projeto para o futuro Centro de Informação Turística, a se situar em frente ao Palácio dos Despachos, um verdadeiro terror ‘modernoso’.” As palavras duras da colunista social Anna Marina Siqueira no jornal belo-horizontino Diário da Tarde em 1985 se referiam ao novo edifício construído na Praça da Liberdade, então epicentro político de Minas Gerais. Foi inaugurado como Centro de Apoio Turístico Tancredo Neves e, por muitos anos, abrigou o Museu de Mineralogia Professor Djalma Guimarães. Em abril deste ano, foi reaberto após um restauro e se tornou o Centro de Informação ao Visitante do Circuito Liberdade e o Hub Minas Digital. Se, por estar fora do eixo Rio-São Paulo, ainda não foi possível ligar esses nomes ao prédio, a alcunha popular facilita a identificação: ele é conhecido como Rainha da Sucata, e também já foi chamado de o prédio mais feio do Brasil.

O apelido jocoso foi dado por alunos de uma escola das redondezas nos tempos da célebre novela da Rede Globo de 1990, por causa da diversidade de componentes do edifício, que remetem a material rejeitado ou jogado no lixo. A astúcia originou uma definição certeira tanto pela multiplicidade de seus elementos metálicos, quanto pelo fato de ser este um “prédio maldito” para Belo Horizonte e para a arquitetura brasileira.

Sua história já começa torta. A encomenda governamental era para a construção de banheiros públicos que dariam apoio às feiras de domingo na praça em frente. Foram os arquitetos mineiros Éolo Maia e Sylvio de Podestá que propuseram a expansão das funções: além dos sanitários, a dupla desenhou um edifício com três andares para o centro turístico, um foyer para recepção e exposições, e, como continuidade da calçada sem grades, um anfiteatro coberto. Aliás, é um edifício generosamente planejado para não ter grades, que por décadas foram lá colocadas a despeito do desejo dos autores, e foram felizmente retiradas na recente requalificação conduzida pela arquiteta Jô Vasconcellos. O prédio maldito voltou a se abrir à cidade que parece adorar odiá-lo.

A partir da despretensiosa demanda por banheiros de fácil acesso, Maia e Podestá projetaram um edifício com formas que têm algo de mirabolante. A fachada voltada para a praça tem uma protuberante quadrícula de placas metálicas posicionadas simetricamente – um conjunto acinzentado arrematado por um arco superior. A fachada para a outra avenida, com um grande volume azul arredondado e embutido no centro (ali fica a escada), é marcada pelo que parecem ser duas grandes estampas xadrez. Nada é mais chamativo, porém, que o cilindro amarelo, aparentemente pronto para suportar o mais alto dos edifícios e que, na verdade – cá estão eles –, é o abrigo dos sanitários. Difícil não reparar no provocativo edifício – e não rir, ou sorrir – ao circular por esse ponto da capital mineira.

Um crítico de arquitetura desinteressado poderia tachar o Rainha da Sucata como um edifício modista com tendências pós-modernas: com projetos que absorviam várias referências históricas em seus desenhos (um viés comum a arquitetos italianos nas décadas de 70 e 80) e se transfiguravam em soluções estéticas apelativas para espaços de consumo (muito usual para arquitetos americanos como na hilária Piazza d’Italia de New Orleans, e o que veio em seguida nos anos Reagan).

Entre as muitas críticas de viés nacionalista que o Rainha da Sucata recebeu está a do arquiteto José Carlos Laender, publicada no Estado de Minas em 1991: “É a arquitetura do Brasil com Z, desligada de uma cultura nacional (…), uma adaptação do modismo dos Estados Unidos.” Apesar de ser difícil medir juízos de valor, é provável que nenhum outro prédio tenha despertado reações tão negativas na arquitetura brasileira recente. As reprovações ocorrem em dois níveis: o local e o meio arquitetônico nacional.

Para a capital mineira, o Rainha da Sucata é um elemento estranho em sua praça cívica – isto é, no centro de um lugar de circulação de uma elite política cujas ambições aparentemente cosmopolitas eram representadas por edificações ecléticas e neoclássicas da época da fundação de Belo Horizonte, no fim do século XIX. O contraste com os prédios das antigas secretarias da Educação e de Interior e Justiça, com seus capitéis e frontões para todos os gostos, é evidente.

Aquele pós-moderno parecia uma afronta a um local tão cerimonioso. Aqui os argumentos patriotas e patrimonialistas se aproximam: o prédio era um desrespeito ao simbolismo das aspirações públicas – supostamente pródigas – que políticos da terra têm a tradição de carregar para além das fronteiras das Minas Gerais. Ao mesmo tempo, o Rainha da Sucata achincalharia um conjunto de prédios de presumido valor na herança arquitetônica belo-horizontina.

Contudo, a apropriação de elementos de outros projetos como estratégia (aliás, comum no pós-modernismo) é o princípio fundamental de uma inteligente subversão dos autores. Podemos entender isso no livro Éolo Maia – Complexidade e Contradição na Arquitetura Brasileira por meio da descrição do projeto feita por Bruno Santa Cecília: “Partiu de uma leitura tipológica dos edifícios públicos em estilo eclético e neoclássico que envolvem a Praça da Liberdade. Os arquitetos buscaram reproduzir a escala desses edifícios e incorporar alguns de seus elementos arquitetônicos mais proeminentes a partir de releituras livres. Em um procedimento de colagem, Éolo e Sylvio agregaram ao edifício elementos de outras arquiteturas, além de alegorias que contribuem para que ele destoe do aspecto rígido das Secretarias.” Em suma, os arquitetos apropriaram-se de características dos palacetes vizinhos justamente para contrapô-los. Ou provocá-los.

Aqui cabe relembrar uma célebre definição para a arquitetura, de Georges Bataille, em 1929: “A arquitetura é a expressão da verdadeira alma das sociedades, assim como a fisionomia humana é a expressão das almas dos indivíduos. No entanto, é particularmente para as fisionomias de personagens oficiais (…) que essa comparação pertence. Na verdade, é somente a alma ideal da sociedade, que tem autoridade para comandar e proibir, que se expressa em composições arquitetônicas propriamente ditas.” Ou seja, quando Maia e Podestá criticam os edifícios vizinhos por meio de seu próprio projeto, eles estão criticando as pessoas e o que aqueles aristocráticos palacetes da Praça da Liberdade representam da sociedade: uma falaciosa ambição cosmopolita da política mineira que é pura fachada para um conservadorismo, para a manutenção do status quo.

Interessante notar que não é só uma elite local que é profundamente incomodada por este projeto. O Rainha da Sucata é muito criticado por aqueles arquitetos que se dizem sábios portadores da “boa arquitetura”. Estes projetistas seguem os cânones espaciais, estruturais, materiais (a dita “verdade material” que no Brasil, em leigos termos, equivale ao uso ostensivo do concreto aparente) propagados como modelos a serem seguidos em escolas de arquitetura (um paradigma paulista que se alastra por outros estados). Os historiadores e os parcos críticos de arquitetura brasileiros analisam (em mesas de bares) o Rainha da Sucata como uma aberração e o ignoram em publicações, salvo raras e pouco aprofundadas exceções.

Afinal, o edifício é em tudo oposto ao que se define como atividade do “bom arquiteto”. A seriedade e a altivez da prática arquitetônica foi enxovalhada. A dita responsabilidade social não está vestida com a estética que comumente o arquiteto brasileiro provê a ela. Maia e Podestá entram desinibidamente no campo da gaiatice – algo praticamente desconhecido por arquitetos frente à folha em branco ou à tela de computador.

É mais fácil tachar o Rainha da Sucata como um projeto pós-moderno (isto é, fora de moda) e feio. Mais difícil é perceber que o prédio desnuda o conservadorismo de quem se diz portador da boa arquitetura brasileira, que não aceitam grandes desvios na trajetória dos heróis modernos (Lucio Costa, Oscar Niemeyer, João Vilanova Artigas, Paulo Mendes da Rocha, Lina Bo Bardi) e seus discípulos.

Essa elite, que não é econômica mas que se considera intelectual, ignora o afeto que aquele edifício estabelece com o cidadão comum e não doutrinado nas fileiras acadêmicas. Ignora o que tem de lúdico nos materiais e nas cores, os elementos engraçados como a pitoresca esfera de aço que se assemelha a uma fruta cortada e opera como uma saída da ventilação dos banheiros. Ignora o sarcasmo de dar protagonismo ao sanitário. Ignora o fato de que por meio de formas chamativas pode se estabelecer vínculos com aqueles menos familiarizados com o termo “arquitetura”. Afinal, a arquitetura não precisa ser austera para ter valor. Maia e Podestá conseguiram transmitir algo libertador: quem disse que o arquiteto precisa se exibir como uma pessoa séria?

É preciso uma reparação histórica. O Rainha da Sucata é um projeto relevante do final do século XX no Brasil, uma arquitetura que importa de verdade porque causa incômodo. Até hoje. O Rainha da Sucata representou um confronto à elite social mineira e à elite arquitetônica do país. E sem perder o bom humor.

Francesco Perrotta-Bosch

Arquiteto e ensaísta. Mestre pela FAU-USP, é vencedor do prêmio de ensaísmo Serrote 2013 com A arquitetura dos intervalos

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