questões político-literárias

“O patrulheiro é um covarde”

Um encontro com Ricardo Lísias, o autor de Diário da Cadeia, e seu pendor por ardidas polêmicas literárias

Mateus Baldi
04jul2017_16h14
“Eu tenho direito ao meu pseudônimo, à minha criação. Por que a juíza decidiu que não? Para mim fica bem claro: ela diz que eu tenho que dizer só porque ela quer saber. Uma só pessoa é superior à arte?”
“Eu tenho direito ao meu pseudônimo, à minha criação. Por que a juíza decidiu que não? Para mim fica bem claro: ela diz que eu tenho que dizer só porque ela quer saber. Uma só pessoa é superior à arte?” FOTO: MATEUS BALDI

Tempo firme
Brasília – 15º / 29ºC
São Paulo – 17º / 30ºC

 

Na noite do dia 12 de setembro do ano passado, logo após perder o mandato de deputado federal, Eduardo Cunha concedeu entrevista coletiva no salão da Câmara. Relativamente sereno, o homem responsável pela articulação do que derrubou a ex-presidente Dilma Rousseff afirmou que não faria delação premiada; antes, escreveria um livro intitulado Impeachment.

Longe dali, em São Paulo, Ricardo Lísias se preparava para lançar A Vista Particular. Publicado pela Alfaguara, o livro seria uma dura crítica ao mercado de artes plásticas e ao estado calamitoso do Rio de Janeiro após as Olimpíadas. Com alguns projetos em mente, o escritor paulista ainda não sabia muito bem qual caminho seguir. A notícia de que Eduardo Cunha pretendia revelar o que sabia para “pacificar os ânimos” caiu como uma luva na mente inventiva de Lísias. Aos 41 anos, o autor paulistano enxergou uma boa oportunidade de diversão. Nos 38 dias seguintes, dedicou-se a escrever o que seria o tal livro do Cunha.

Em 19 de outubro, por decisão do juiz Sérgio Moro, Eduardo Cunha foi preso numa garagem de Brasília e levado até Curitiba. Era uma quarta-feira. Dois dias depois, à noite, Ricardo Lísias metamorfoseou seu Impeachment em algo muito maior, cujas proporções e consequências, quase 300 dias depois, ainda não estavam bem definidas. Começava ali a feitura de Diário da Cadeia.

 

 

Frente fria
Brasília – 20º / 31ºC
Rio de Janeiro – 21ºC / 36ºC

 

Em 12 de março, um domingo, o jornalista Lauro Jardim divulgou nota avisando que a editora Record publicaria no final daquele mês um livro chamado Diário da Cadeia – Com trechos da obra inédita Impeachment, assinado por Eduardo Cunha (Pseudônimo). A nota, publicada no site do jornal O Globo, mencionava que “o livro foi escrito por um autor secreto. A Record, por contrato, não divulgará o seu nome. Em princípio, apenas o editor Carlos Andreazza e a dona da Record, Sonia Jardim, sabem a identidade do autor verdadeiro.”

A reação nas redes sociais foi turbulenta. Alguns ficaram verdadeiramente atiçados pela desfaçatez de uma editora consagrada publicar o livro de um político como Cunha; outros, mais atentos, perceberam a ironia da jogada e tiveram certeza de que não se tratava do próprio peemedebista por trás da história. Mas o estrago já estava feito. Nos dias que se seguiram, os advogados de Eduardo Cunha entraram com uma ação na Justiça do Rio de Janeiro. O objetivo era censurar a obra. Alegando “conteúdo sarcástico, ardil e afrontoso”, a peça foi julgada procedente em primeira instância pela juíza Ledir Dias de Araújo. A magistrada aceitou em caráter liminar os argumentos da defesa de Eduardo Cunha e estipulou uma multa diária de 400 mil reais caso a obra fosse distribuída ou comercializada.

A estratégia da Record, que já havia fornecido o livro para diversas livrarias do Brasil, foi sumariamente interrompida. No despacho, a juíza obrigava a editora a fornecer os dados do verdadeiro autor por trás de Diário da Cadeia. A intenção era que o ex-deputado tivesse acesso às informações para iniciar um processo na esfera criminal.

Iniciou-se uma corrida contra o tempo. Com prazo apertado, o editor Carlos Andreazza acionou os advogados da Record e partiu para a segunda instância. A primeira desembargadora sorteada rejeitou o processo, alegando razões de foro íntimo. Quando o   desembargador Augusto Alves Moreira aceitou, pediu que lhe fosse enviado um exemplar – só julgaria a obra após lê-la. Todo esse tempo fez com que o prazo se perdesse e Ricardo Lísias tivesse que divulgar seus dados. Na tarde do dia 21 de abril, sexta-feira, o jornalista Maurício Meireles, da Folha de S.Paulo, antecipou a coluna do dia seguinte: “O autor do livro Diário da Cadeia (Record), assinado com o pseudônimo Eduardo Cunha, que teve sua circulação proibida por uma liminar e foi liberado nesta quinta (20), é o escritor paulista Ricardo Lísias.” Os advogados do jornal estavam de olho no site da Justiça, e foram os primeiros a perceber quando a juíza do caso decretou que o nome fosse revelado.

Pelo mesmo Facebook em que travara o primeiro contato com Andreazza, Lísias publicou em seu perfil uma breve nota. Não falaria sobre o livro, não daria entrevistas. Seguindo os princípios estéticos que nortearam a criação, Diário da Cadeia, assinado por Eduardo Cunha (Pseudônimo), se encerrava no exato instante em que a narrativa fora concluída.

Mas não foi bem isso o que aconteceu.

Imediatamente, uma enxurrada de críticas tomou de assalto email, telefone, caixa de mensagens e o próprio post do escritor. Pessoas que até então eram consideradas amigas se voltaram ferozmente à confirmação de que um autor tido como de esquerda havia publicado com um editor assumidamente de direita.

Três dias após a divulgação do pseudônimo, o desembargador rejeitou a ação movida por Eduardo Cunha, liberou a distribuição e comercialização de Diário da Cadeia e estabeleceu que o dono do pseudônimo deveria ser mantido em sigilo. Cunha recorreu. A ação chegou ao Supremo e foi julgada com rapidez surpreendente pela ministra Rosa Weber: Diário da Cadeia era, sim, legítimo e poderia sim ser comercializado.

 

 

Friagem
Brasília – 14º / 26ºC
São Paulo – 4º / 11ºC

 

Ricardo Lísias me encontrou em São Paulo em uma manhã gelada do começo de junho, na saída do metrô Saúde. De calça jeans e all-star desbotado, Lísias chegou com sua habitual mochila e camisa de flanela xadrez por cima dos ombros. Alto, ele vestia camisa de mangas pretas e estampa do jogador Sócrates em 8-bit contra um fundo branco.

Com estrada na literatura nacional – seu primeiro livro foi publicado em 1999 –, ele já enfrentou duas situações polêmicas antes do imbróglio envolvendo Eduardo Cunha. A primeira, que se alastra até hoje e contribuiu para concebê-lo como sinônimo de controvérsia, se iniciou com a publicação do romance Divórcio. Nele, o personagem Ricardo Lísias encontra o diário da ex-mulher, jornalista de cultura, e o divulga. Atacado de todos os lados por profissionais da imprensa e da teoria literária, o verdadeiro Lísias se viu acuado. Pouco tempo depois, um segundo evento: sua série Família Tobias, publicada na Amazon pelo selo Formas Breves, foi acusada de falsificar documentos oficiais. Protagonizado por um delegado, os volumes utilizavam-se de imagens e textos jurídicos (fictícios) para contar uma história. A Polícia Federal não entendeu e o autor teve que prestar depoimento. O caso foi arquivado, mas o debate prosseguiu. Em resposta aos acontecimentos, em 2015 a editora Lote 42 lançou um romance chamado Inquérito Policial – Família Tobias. Ponto de contato entre artes plásticas e literatura, o livro tem formato de inquérito (fictício), texto (fictício) de inquérito e espírito de inquérito (verdadeiro). Dessa vez, ninguém protestou.

Caminhando pela avenida Jabaquara, onde um homem vendia tangerinas enegrecidas junto à estação do metrô e velhinhos japoneses andavam puxando carrinhos de feira, Ricardo Lísias se mantém tranquilo. Com as mãos nos bolsos da calça, ele anda no mesmo ritmo até o edifício onde mora e escreve seu próximo projeto, o livro A Literatura no Banco dos Réus. No trajeto, fazendo uma piada aqui e ali, me explica que o bairro é famoso pela quantidade de ricos, japoneses e reacionários – às vezes tudo junto.

– Quando tinha protesto contra a Dilma, você só escutava panela. Mas na rua ninguém fala nada. Fica todo mundo quieto, na sua. É uma direita silenciosa.

O edifício cor de creme, à direita da praça, é definido pelo próprio Lísias como um lugar de classe-média alta. Com dez andares recheados de varandinhas quadradas, o prédio abriga moradores que “adoram” o vizinho famoso.

– Eles acham chique ter um escritor morando aqui, quando fui no Bial todos assistiram à entrevista e depois comentaram comigo.

A primeira parada é o arquivo. Há três anos, desde que o filho nasceu, ele passou a alugar uma sala no playground do edifício. Ali, no espaço exíguo, acumulam-se mais de 100 caixas contendo todos os jornais lançados a partir da crise que se instaurou em 2013. Além dos periódicos, livros dos mais variados temas e autores. Nas brechas de luz entre as caixas, Laurent Binet, Leyla Perrone-Moisés, Bauman e Jonathan Safran Foer.

– Sempre fui obcecado por colecionar. Essa sala é uma espécie de fetiche. No final das contas eu acabo consultando os jornais pela internet, mas aqui tem de tudo.

Ele enfia a mão embaixo de uma pilha de livros e retira uma revista Manchete de junho de 1982. Na capa, o mesmo Sócrates que estampa sua camisa.

– Eu tinha sete anos naquela época. Me lembro bem da Copa. Sempre que posso vou comprando essas revistas.

Ele tira uma pilha de Caras y Caretas sobre as Malvinas.

– Minha memória começa a partir daí, dos anos 80. Eu tenho uma enorme curiosidade pelas questões contemporâneas, desde a filosofia até a geopolítica.

– E você escreve onde, nessa zona toda?

– Em casa, pela manhã. E de noite. De tarde eu leio, trabalho, faço minhas coisas. Preciso de concentração.

Saímos do hall e damos num estacionamento amplo. Metros à frente, sobre um platô mal pintado, a piscina. O caminho é acidentado. Ele diz que o condomínio está sempre em obras. Subimos degraus de madeira, giramos à esquerda num patamar empoeirado e subimos a escadinha de pedra lascada que dá acesso à área da piscina. Ali, lado a lado, três cadeiras de sol defrontam-se com uma mesa de ferro sujo e suas quatro cadeiras que parecem ter sido lavadas pela última vez quando Eduardo Cunha era da Telerj.

O vento forma ondas delgadas na superfície da água e o escritor decide abotoar a blusa de flanela. De vez em quando, ele traz suas folhas de papel almaço para a mesa e revisa ali mesmo os livros que escreve.

– Faço tudo a lápis, digitar é a última coisa.

– O livro do Cunha foi revisado aqui também?

Lísias confirma.

– E por que você decidiu escrevê-lo?

Ele se ajeita na cadeira e conta a história do primeiro rascunho de Diário.  

– Quando o Eduardo Cunha foi preso eu não tive dúvida de que precisava escrever algo maior. Fiz todo o planejamento e escrevi. O problema foi a Justiça.

– Mas o livro em si, por que escrevê-lo?

A Vista Particular tinha ido para a gráfica e Eduardo Cunha disse que ia fazer o Impeachment dele pra pacificar a situação, pra explicar tudo. Mas a literatura não explica nada, um livro não pacifica nada. Eu tinha a intenção de gerar um debate estilístico, tentar trazer o debate literário pra forma, porque a coisa mais difícil na literatura brasileira é debater a forma artística. Quando Divórcio saiu, todo mundo me xingou e reagiu dizendo que eu tinha sido antiético por divulgar os diários da minha mulher, mas em momento algum ninguém me perguntou se eu era mesmo divorciado, se eu tinha visto os diários da minha mulher. As pessoas não estão interessadas nesse aspecto real da coisa.

Lísias fala o tempo todo com muita calma e gestos pouco expansivos. Seu sotaque paulistano é forte e sai por uma voz tênue que lembra um rádio antigo e distante. Com o joelho dobrado por cima da perna direita, ele explicou que a decisão de escrever sob o ponto de vista de Eduardo Cunha surgiu da já mencionada curiosidade pelo período que começa nos anos 80.

– Eu comecei a pesquisar as coisas da minha infância, da época que eu passei a ter um entendimento do mundo. E, pesquisando desde 2013 a história da Lava Jato e desse pessoal todo envolvido, me dei conta de que o Eduardo Cunha era um personagem fascinante. O cara surge do nada, na campanha do Collor, e vira o que virou. Ele era executivo da Telerj. Aliás, você sabia que foi o Cunha quem descobriu a brecha legal que impugnou a candidatura do Silvio Santos?

Com a possibilidade de eleições diretas ao término do mandato Sarney, o fundador do SBT se lançou candidato à Presidência, mas teve a candidatura impedida.

– Foi o Cunha – Lísias reforçou. – Aí ele vira membro da campanha do Collor e começa a fazer uma carreira política. É um cara que faz parte da história política do Rio de Janeiro. E é curioso um aspecto dessa reação toda que o livro gerou, porque mostra que ninguém conhece direito a história do país. No Diário da Cadeia, o Cunha diz que vai revelar quem matou PC Farias, ele se encontra com o PC em Londres, mas é lógico que era ficção. E a reação foi absolutamente desproporcional. Teve gente que veio na minha casa quando meu filho nasceu e agiu de forma absolutamente truculenta. Minha esposa ficou muito assustada.

A mulher é advogada tributarista e uma das três pessoas que sabiam do projeto Diário da Cadeia. Inserido num contexto ainda maior, uma série de livros cujo nome seria Pseudoliteratura, Diário em momento algum deixa dúvida quanto à autoria não ser de Eduardo Cunha (verdadeiro). Quando perguntei se, justamente por ser advogada, ela o advertira, Lísias foi taxativo:

– Todo mundo sabia que podia dar algum problema porque o Cunha tem obsessão por processar. A gente imaginou que poderia haver alguma possibilidade de ação envolvendo piada com o nome, mas nunca, em hipótese alguma, nem eu, nem minha mulher e nem os editores consideramos a possibilidade de uma ação ser aceita em primeira instância.

Não são poucas as suspeitas do mercado editorial e dos leitores de que Lísias trabalhe com polêmicas calculadas, o que ele nega. O discurso de defesa será reforçado em sua próxima obra. Ele já tem um rascunho avançado do livro A Literatura no Banco dos Réus.

– Preciso escrever isso para me colocar num lugar que eu me sinta menos agredido, onde eu possa dar a minha versão e construir minha base de argumentação jurídica. Vou processar o estado do Rio. Não quero indenização, mas um pedido formal de desculpas, porque eles me prejudicaram. Ficou absurdo, ridículo, eles me mandarem tirar e depois voltar com o pseudônimo.

Depois que a revelação do pseudônimo foi suspensa pelas sucessivas subidas de instância, o processo voltou a correr sem a menção de Ricardo Lísias. Para a Justiça, mesmo já tendo sido amplamente divulgado, o autor de Diário da Cadeia é Eduardo Cunha (Pseudônimo).

– Quer dizer – prossegue –, eu tenho direito ao meu pseudônimo, à minha criação, mas agora todo mundo já sabe porque a Justiça mandou falar. E até agora ninguém me processou em esfera criminal nenhuma, então que argumento é esse que a juíza deu? Porque para mim fica bem claro que ela diz – Olha só, você tem que dizer quem é o autor porque eu quero saber. E isso gera um debate ainda maior, que é por que uma juíza de primeira instância, uma só pessoa, tem de ser superior à arte?

E complementa:

– Eu quero que haja uma jurisprudência, a Justiça não pode botar a mão pesada dela acima de qualquer coisa. Não defendo que a arte seja acima da Justiça, são instâncias sociais, mas a Justiça também não pode prevalecer sobre a arte. Por que uma juíza tem que saber o pseudônimo? Só porque é juíza? Defendo que haja uma questão social, um debate, que se argumente.

E o debate que existe tem sido acirrado. De acordo com o autor, os maiores críticos ao romance Diário da Cadeia foram aqueles que se dizem de esquerda.

– Se eles são mesmo de esquerda, isso aí já é outra coisa – ri. – A direita, por exemplo, não fez nada. A direita apoiou o livro e a liberdade de criação, isso que é o mais incrível. A veja publicou um texto excelente da advogada do Paulo César Araújo [autor de Roberto Carlos em Detalhes, pivô de um célebre debate sobre a censura prévia às biografias]. Nesse texto ela me defende. A Globo me chamou no programa do Bial, a gente também discutiu isso lá.  Ou seja, as pessoas que ficam o dia inteiro na internet patrulhando umas às outras, apontando o dedo na cara de todo mundo, são as que vieram me patrulhar e dizer que eu estava errado só porque tinha publicado por um editor de direita. Isso é muito perigoso, acaba abrindo precedente para acontecer o inverso. Imagina se essa gente, que também escreve, resolve publicar e os editores passam a exigir questionário ideológico para publicar ou não? É isso que ninguém se dá conta, pode acontecer o inverso. Eu fiquei muito, muito chateado com tudo isso que aconteceu.

– Mas agora acalmou?

– Acalmou. E acalmou porque chegou uma hora que eu disse no Facebook que ia falar o nome de todo mundo que estava sendo hipócrita, não ia sobrar ninguém. Aí eles ficaram com medo.

Lísias explica que em São Paulo a questão social envolvendo as esferas públicas é muito mais explícita.

– Tem uma favela aqui atrás, os playboys vão todos lá comprar droga, e a polícia só funciona pra eles. Eu caminho todo dia, já vi polícia ajudando a atravessar a rua, ajudando a cuidar de criança, aqui o policial é realmente funcionário público. Mas só se você for branco. Se você for preto, não tem nada. E a esquerda só contribuiu pra isso.

– Como assim?

– A Marta e a Erundina foram ótimas, excelentes pras classes mais baixas. Aí veio o Haddad e foi horrível. Fechou a Paulista, ok, legal, mas o cara que mora lá no Capão Redondo, do outro lado da cidade, não tá interessado na Paulista fechada aos domingos. Haddad fez ciclovia na cidade toda e você vai ver e são umas ciclovias horríveis, bizarras, numas subidas que ninguém vai conseguir subir, as pistas são estreitas, não tem funcionalidade nenhuma. É uma coisa só pro intelectual da USP ver e bater palma.

– Essa coisa dos intelectuais mexeu muito contigo, né?

Lísias revira os olhos.

– Mexeu porque foi um negócio violento. Eu vou escrever esse livro [A Literatura no Banco dos Réus] até pra falar um pouco disso. Porque é quase que a anatomia da patrulha, né? E é curioso você notar que ela mesma vai se esvaziando. Com o Divórcio foi a mesma coisa. Começou com todo mundo caindo de pau em cima de mim e aí a crítica especializada, o pessoal que realmente entende das coisas, apareceu e disse que o livro era bom. Aí os covardes somem. Porque o patrulheiro é, acima de tudo, um covarde. Ele te ataca no momento de fraqueza.

– E o debate do Diário da Cadeia, você acha que está esvaziando?

– Acho que a patrulha diminuiu, mas o debate tá só começando. No segundo semestre eu vou em vários eventos, faculdades de direito andam me chamando… virou uma coisa obrigatória, né. Mas isso é porque são mais específicos. Nas livrarias, o livro parece que nem existe. A Saraiva só vende pelo site, nem bota nas lojas porque tem medo da Justiça mandar apreender e ela tomar uma multa.

– Mas o Supremo já não julgou?

– Sim, exatamente. Já julgou. Mas é tanta boataria, tanta invenção, que ninguém se dá nem o trabalho de pesquisar e ver que a ação já foi julgada e o Eduardo Cunha perdeu.

Até o dia 3 de junho, quando João Cezar de Castro Rocha publicou na Folha, a única crítica de Diário da Cadeia era a do site Resenha de Bolso. Ricardo Lísias diz que o professor foi um dos poucos que entendeu o romance.

– Tem muita gente me defendendo, mas não fazendo resenha. Há muitos artigos de juristas e advogados defendendo o direito ao pseudônimo, escancarando o completo absurdo que é isso tudo.

 

 

Geada
São Paulo – 10ºC / 19ºC
Curitiba – 8º / 4ºC

 

Cobertor de Estrelas, o primeiro livro de Ricardo Lísias, foi escrito em julho de 1997, enquanto ele morava numa república na Unicamp. Por questões burocráticas, Lísias precisou ficar na faculdade durante as férias de inverno. Angustiado com a ausência de pessoas na cidade universitária, resolveu escrever. Finalizou o manuscrito e deixou em cima da mesa da sala. Partiu para São Paulo. Quando retornou, um amigo havia lido e lhe deu algumas dicas. Lísias trabalhou furiosamente no original durante o segundo semestre inteiro. Não conhecia nada de mercado editorial. Enviou o manuscrito à Rocco simplesmente porque estava lendo um livro da editora e numa das páginas constava o endereço. Elogiado pela crítica, Cobertor de Estrelas conseguiu emplacar o então jovem escritor na editora Globo. Ali ele lançaria Duas Praças, terceiro lugar no prêmio Portugal Telecom (atual Oceanos). Foi na editora Globo que Lísias e Marcelo Ferroni ficaram amigos. Quando o editor foi para a Alfaguara, levou-o consigo. A Literatura no Banco dos Réus é dedicado a ele.

– O Marcelo sempre participou dos meus projetos, é uma forma de agradecimento. Não carrego nenhuma culpa de ter escondido o Diário da Cadeia e publicado pela Record. Fazia parte de um projeto artístico, de uma interferência da literatura na realidade. Não podia sair pela Alfaguara, eu tinha acabado de lançar A Vista Particular.

Ricardo Lísias começou a se envolver com as artes plásticas como autodidata. Em 2005, comprou um aquário e colocou-o no centro da sala de casa. Encheu de água e jogou uma edição espanhola do Manifesto Comunista lá dentro. Em um caderno, ia anotando o que acontecia com o papel conforme a água e o tempo agiam.

– Foi um fracasso – admitiu. – Não durou nem dez dias. Era época do surto de dengue e o síndico revistou os apartamentos para alertar os moradores. Chegou no meu, viu aquele negócio cheio de água e falou que era um absurdo, eu fiquei puto, no início me recusei a desfazer, mas aí ele disse que ia levar à reunião de condomínio e eu não queria ninguém me enchendo mais o saco, resolvi encerrar a experiência.

No final da década surgiram os primeiros contos da família Tobias, típicos paulistanos. Durante dois Natais consecutivos, Lísias imprimiu cinquenta exemplares das histórias e distribuiu aos amigos. A publicação em e-book se deu somente em 2014. Em 2012 chegou às livrarias O Céu dos Suicidas, que lhe valeu o prêmio da Associação Paulista de Críticos de Arte. Era a primeira vez que o personagem Ricardo Lísias aparecia numa obra de Ricardo Lísias.

– Mas eu já havia escrito outras histórias – explicou. – Só não tinha publicado. Reuni todas elas no meu livro Concentração & Outros Contos.

Quando pergunto sobre o futuro, Lísias não dá mostras de se preocupar. Na versão que me mostrou de A Literatura no Banco dos Réus há pelo menos outros dois projetos que prometem aumentar o burburinho e as polêmicas: Minhas Dívidas, criticando a indústria dos bancos, e o que seria a continuação de Diário da Cadeia, caso o pseudônimo não tivesse sido revelado: as cartas de José Dirceu a Fidel Castro.

– Já tenho uns trinta por cento prontos, de repente continuo, não sei, vamos ver.

A Literatura no Banco dos Réus está sendo negociado com duas editoras cujos nomes são mantidos em sigilo. Será “um livro pequeno, mas contundente”.

Ricardo Lísias se despediu após a longa caminhada que fizemos do seu prédio até o bairro de Moema. A última parada foi o muro da Escola de Princesas.

– Olha isso, que surreal. Eles ensinam as menininhas a virarem princesas. Esse é o nível a que a gente chegou.

No avião de volta para o Rio, o piloto pediu que olhássemos o lado esquerdo, onde uma lua gorda e amarela crescia acima dos prédios. Naquela madrugada, São Paulo registrou as menores temperaturas do ano. Durante o dia, mendigos com cobertores velhos se abrigavam debaixo de marquises sujas. Pessoas andavam pelas calçadas estreitas sem tirar as mãos dos bolsos. Ricardo Lísias voltou a pé para casa.

– Sou um andarilho, já fiz futebol e vôlei, mas hoje em dia o que eu mais faço é andar.

Na noite anterior, em Curitiba, a temperatura máxima foi de 2,4 graus. No Complexo Médico-Penal de Pinhais, 234 dias depois daquela coletiva na Câmara, humilhantemente derrotado pela arte, o ex-deputado Eduardo Cunha continuava preso.

 

LEIA TRECHOS INÉDITOS DE A LITERATURA NO BANCO DOS RÉUS

 

Acompanhei a Operação Lava Jato com interesse crescente. Comecei a me debruçar com mais profundidade apenas durante as eleições presidenciais do final de 2014. Hoje, e muito graças ao projeto que Diário da Cadeia inaugurava, posso dizer que conheço a história contemporânea brasileira nos menores detalhes. Sei os trejeitos de seus principais atores, boa parte da cronologia dos vazamentos seletivos que foram moldando a operação e, inclusive, os textos mais importantes do juiz Sérgio Moro e de alguns dos procuradores que estão deixando os políticos brasileiros com mais dor de barriga que o meu hobby com a pimenta.

 

****

 

Faltava apenas compor o meu narrador-personagem, Eduardo Cunha. Para afastá-lo do ex-deputado federal, tornei-o um pouco menos obcecado por códigos e leis e o aproximei de uma certa religiosidade destrambelhada, a partir de algumas notícias que encontrei na imprensa. Decidi que o meu Cunha teria um texto descuidado e confuso, para inclusive afastá-lo do meu próprio estilo. Eu tomaria até o cuidado de revisar tudo apenas uma vez. Reli A Vista Particular, último livro que assinei como Ricardo Lísias, no mínimo doze vezes.

 

****

Para mim era cristalino que eu precisava compor uma caricatura. Há já algum tempo tudo no Brasil é exagerado e deformado. O afastamento de Dilma Rousseff me parece excessivo, bem como são quase inacreditáveis os valores usados pela Odebrecht para o pagamento de caixa dois a campanhas políticas do partido dela. Michel Temer é desproporcionalmente horroroso; marcar uma manifestação contra as draconianas reformas trabalhistas que ele propõe para a véspera do 1ºde maio, conseguindo assim um feriadão, mostra como a oposição a ele se tornou ela mesma caricata. O gênero agrada bastante os adolescentes. Ontem, três promotores publicaram no Facebook uma espécie de jogral protestando contra o projeto que pretende coibir abuso de autoridade. Lembram mesmo um grupo colegial.

Mateus Baldi

Escritor e roteirista. Fundador da plataforma literária Resenha de Bolso, foi editor de cultura da revista Poleiro

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