questões eleitorais

O racismo como razão de voto

Um roteiro para entender a pesquisa mais reveladora feita sobre a eleição de Trump – e o que ela diz sobre o pleito no Brasil em 2018

Lucas de Abreu Maia
17maio2018_10h59
IMAGEM: PAULA CARDOSO

Desde o fim da Segunda Guerra, criou-se, nos países mais ou menos democráticos, um conjunto de regras informais sobre o que era aceitável para um candidato a cargo majoritário (com pretensão de ganhar) dizer em público. Foi uma resposta ao nazismo. Em 1932, um candidato democraticamente eleito com uma plataforma racista pôs em curso uma política pública que matou seis milhões de pessoas – sobretudo judeus, e também ciganos, comunistas e LGBTs. Desde então, tornou-se suicídio político incitar a violência explicitamente e ofender minorias sem papas na língua. Claro que apelava-se a preconceitos do eleitorado, mas era preciso cuidado para que os apelos fossem ambíguos e pudessem ser negados quando o próximo repórter trouxesse a polêmica à tona.

Em 2016, um homem lançou-se candidato a presidente da principal democracia no mundo acusando o país vizinho mais pobre de exportar “estupradores”. Ele já começara a carreira política inaugurando uma teoria da conspiração de que o primeiro presidente negro daquele país não era um cidadão de verdade. Agarrando-se às regras informais estabelecidas no pós-Guerra, jornalistas e cientistas políticos bradaram que ele jamais ganharia a nomeação do seu partido. Ele ganhou e, durante a campanha, as tais regras informais foram rasgadas de vez. Num comício, ele usou o palavrão mais censurado no seu idioma para referir-se a um adversário político. Noutro, imitou no palanque um repórter com deficiência física. Declarou que um juiz não era capacitado para julgá-lo por ter ascendência mexicana. Por fim, menos de um mês antes da eleição, vazou um vídeo em que ele gabava-se de assediar mulheres. Mas Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos. Por quê?

A pergunta não é retórica. Séculos de invasões e colonizações europeias, escravidão e, recentemente, globalização tornaram as populações de grande parte das democracias muito mais heterogêneas do que previa o conceito de nação-Estado, surgido no século XVII. Se grande parte da população de um país diverso como os Estados Unidos mostra-se disposta a eleger um racista bem mal disfarçado, será que podemos viver juntos? Não sabemos ainda a resposta para essa pergunta. Mas a resposta ao porquê da eleição de Trump é quase definitiva.

Nos meses que se seguiram à eleição presidencial americana de 2016, uma narrativa preponderante ganhou forma: Trump chegou à Casa Branca graças à recuperação econômica incompleta da grande recessão de 2008. Muita gente que perdeu o emprego naquela época teria votado no candidato que prometeu fortalecer a indústria nacional por meio de políticas protecionistas. A narrativa era reconfortante: se a eleição de uma anomalia política como Trump podia ser explicada por variáveis econômicas, a solução era mais ou menos simples. Quando a economia voltasse a crescer – se a desigualdade de renda voltasse a cair – estaríamos protegidos do populismo racista, xenofóbico e misógino de gente como Donald Trump.

Só que, infelizmente, a realidade esqueceu de seguir esse roteiro. Em 2016, a economia americana vivia o sétimo ano de recuperação. O desemprego já era menor que no pré-crise, a inflação estava baixíssima e os juros eram quase zero.

Para piorar, a evidência de décadas de ciência política aponta para um papel relativamente baixo da economia no voto para presidente nos Estados Unidos. Não é que ela não importe, é claro. O crescimento econômico nos dois trimestres anteriores à eleição é um bom indicativo de quem vai ganhá-la. Mais para trás que isso, contudo, o desempenho econômico parece não importar. Ainda mais consistentes são os resultados que indicam que o bolso do eleitor não tem correlação com o voto dele. Quem perdeu o emprego não tem mais chances de votar no candidato da oposição e aqueles cuja renda estagnou não costumam culpar o presidente pelo arrocho. Ou seja, embora, no agregado, a economia recente pareça importar, no nível individual ela não é suficiente. Por mais desconfortável que seja, talvez precisemos considerar motivos menos nobres para a eleição de Trump: xenofobia, misoginia e, sobretudo, racismo.

Nenhuma variável explica tão bem a política dos Estados Unidos quanto o racismo. Embora a Declaração de Independência americana afirme que “todos os homens são criados iguais”, a Constituição daquele país foi escrita por meia centena de homens brancos, todos fazendeiros e a maioria deles dona de escravos. As instituições americanas foram desenhadas para favorecer interesses rurais sobre urbanos. No Senado, todos os estados têm a mesma representação, independentemente da população e mesmo na Câmara dos Deputados essa relação não é perfeita. O presidente nem sequer é eleito pelo voto popular. Na última eleição, um voto no Wyoming – o estado americano mais rural e menos populoso – teve um poder 3,6 vezes maior que um na Califórnia – o mais urbano e com maior número de habitantes. O sistema funciona tão bem que, nos últimos vinte anos, por duas vezes o vencedor do voto popular perdeu para o interior branco do país.

Oitenta e cinco anos depois da sua fundação, os Estados Unidos dividiram-se em dois, numa guerra civil que matou mais de 800 mil pessoas. O consenso de historiadores, hoje, é de que a principal causa foi a falta de acordo sobre a continuidade da escravidão. Estados do norte queriam aboli-la, enquanto toda a sociedade sulina dependia dela. O norte ganhou e o resultado foi a reestruturação do sul em uma sociedade segregada. Os negros foram proibidos de frequentar as mesmas escolas e universidades, usar os mesmos banheiros ou sentar-se nos mesmos assentos dos brancos. Foram criados mecanismos legais para impedir o voto dos negros, por meio de testes de alfabetização ou de “conhecimentos políticos”.

Enquanto isso, a política partidária americana seguia, ela própria, uma lógica racializada. Democratas e Republicanos disputavam os votos nas metrópoles racialmente diversas do norte americano, mas, no sul, só o Partido Democrata tinha chances. Era uma herança da Guerra de Secessão, em que os Republicanos de Abraham Lincoln foram o partido do norte vencedor.

Essa lógica só se reverteu com o movimento pelos direitos civis dos negros, na década de 50. Lentamente, de olho na enorme população negra de Nova York, Detroit e Chicago, o Partido Democrata passou a apoiar o fim da segregação racial. Os Republicanos sentiram a oportunidade aberta pela frustração dos racistas do sul, abandonados pelos Democratas. Em 1968, a campanha presidencial de Richard Nixon fez apelos mal disfarçados ao racismo, estampando rostos negros em propagandas que atacavam a criminalidade em alta no país. Resultado: pela primeira vez em cem anos o candidato presidencial Republicano saiu-se vencedor em estados do sul.

A eleição de Barack Obama, em 2008, parecia prometer o fim da era de política racial nos Estados Unidos. Não foi. No ano seguinte, foi criado o Tea Party, movimento que, embora  vendesse uma pauta de conservadorismo econômico, reunia a mesma população branca e rural do sul americano que, desde a fundação do país, opusera-se à emancipação dos negros. Em 2011, Donald Trump veio a público exigir a certidão de nascimento do primeiro ocupante negro da Casa Branca. Ele argumentava que Obama não nascera no país e que, portanto, não poderia exercer a presidência. A teoria da conspiração ecoava uma tradição antiga nos Estados Unidos – o argumento de que só brancos eram cidadãos americanos e que, portanto, os negros deviam ser deportados. Essa ideia foi tão popular no século XIX que o governo americano chegou a criar um país na África para deportar ex-escravos: a Libéria.

E, por causa das suas visões conspiratórias ou a despeito delas, foi Trump o eleito a suceder Obama.

Para a alegria dos cientistas políticos, é relativamente fácil analisar o eleitorado americano. O país tem, desde sempre, dois partidos políticos. Dois terços da população é absolutamente leal a eles e votará no candidato da sua legenda independentemente de quem seja. Para entender o resultado de uma eleição presidencial americana, basta, portanto, entender o que acontece com o terço restante.

Foram precisamente os eleitores que votaram para a reeleição de Obama, em 2012, mas que migraram para Trump em 2016 os motivadores da narrativa econômica. Se essa turma quis um candidato negro no pleito anterior, como poderia escolher um racista agora? Esse mistério recebeu uma resposta no mês passado.

A cientista política Diana Mutz publicou um artigo na prestigiosa revista científica Proceedings of the National Academy of Sciences em que analisa precisamente os 10% do eleitorado que votaram em Obama em 2012 e em Trump em 2016. O estudo é particularmente revelador porque Mutz entrevistou as mesmas pessoas nos dois anos eleitorais, a um mês da eleição. Ou seja, ela consegue atribuir qualquer mudança na opinião desses indivíduos a alterações na economia ou no cenário político – e não a uma nova amostragem.

E o que ela descobriu? A inversão no apoio político – de Democrata, em 2012, para Republicano, em 2016 – é estatisticamente associada a preocupações dos eleitores com imigração e à posição dos brancos na sociedade, que essa fatia da população julga estar ameaçada. Variáveis econômicas, como desemprego ou estagnação salarial, não explicam o apoio a Trump.

Mais interessante ainda: Mutz mostra que as opiniões dos eleitores sobre questões identitárias não mudaram nesse período. Mas, enquanto não havia quem vocalizasse essas opiniões no cenário político, os eleitores não as usavam como critério para escolher o candidato. Bastou que aparecesse alguém disposto a vender essas ideias, porém, para que também aparecessem eleitores dispostos a comprá-las.

A pesquisa de Mutz é só a última e mais convincente na coleção de artigos acadêmicos publicados sobre esse assunto desde 2016. Ainda durante a campanha, três cientistas políticos, liderados por Brenda Major, mostraram em um experimento que apenas lembrar eleitores brancos de que, em 25 anos, eles serão uma minoria no país causava um aumento no apoio a Trump. No ano passado, outros três acadêmicos, dessa vez da Universidade de Massachusetts, apresentaram evidência de que preconceito racial e de gênero explicavam dois terços da variância no voto do eleitorado branco em 2016.

Esses resultados não são reconfortantes. Racismo, xenofobia e misoginia parecem ser mais difíceis de combater do que uma economia estagnada. Eles exigem mudanças sociais que demoram décadas, não anos, para acontecer.

Em 2018, o Brasil provavelmente terá na urna uma versão própria de Donald Trump. Jair Bolsonaro declara abertamente que algumas mulheres são feias demais para ser estupradas, que não teria filho gay, que só teve uma filha porque fraquejou, que negros e índios atrapalham a economia do país, que quilombolas devem ser pesados como gado. Ainda assim – ou por causa disso – está em primeiro lugar nas pesquisas eleitorais nos principais cenários, com cerca de 20% das intenções de voto. Seria o Brasil de 2018 os Estados Unidos de 2016?

Talvez, mas vale lembrar que o complemento de 20% é 80%. Mesmo diante de toda a mídia gratuita que o Trump brasileiro recebe desde 2011, quando suas declarações homofóbicas e racistas no CQC começaram a chamar a atenção, 80% do eleitorado não se sentem tentados a apoiá-lo.

É importante considerar também que Trump não foi eleito pelo voto popular. Não fosse a idiossincrasia do colégio eleitoral americano, os Estados Unidos possivelmente louvariam uma vitória contra o sexismo na política.

Por fim, vale lembrar que o Brasil não tem a estrutura partidária ou eleitoral dos Estados Unidos. Nossa fragmentação política divide o voto do eleitor entre vários partidos e menos gente sente-se obrigada a votar no mesmo partido toda a eleição. Além disso, o segundo turno obriga a formação de alianças e a consolidação de apoios.

Nada disso serve muito como consolo. Que um quinto dos votantes apoiem um racista xenófobo, misógino e homofóbico para a Presidência é mais uma lembrança daquilo que Trump trouxe à tona e que tentávamos esquecer desde a eleição de Adolf Hitler em 1932: se houver gente disposta a vender racismo, xenofobia, homofobia e misoginia no mercado de ideias políticas, haverá gente para comprar.

Lucas de Abreu Maia (siga @lmaia no Twitter)

É jornalista e doutorando em ciência política na Universidade da Califórnia, San Diego. Foi repórter de O Estado de S. Paulo e Exame

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