questões da violência urbana

O terror como vingança

Repórter reconstitui a vida e a morte de adolescente grávida assassinada sem motivo junto com outras sete jovens mulheres em chacina no Ceará

Henrique Araújo
02fev2018_20h50
ILUSTRAÇÃO: JOÃO BRIZZI

Por volta das 21 horas de sexta-feira, 26 de janeiro, a estudante Maria Tatiana da Costa Ferreira, moradora de Cajazeiras, um bairro pobre na Região Central de Fortaleza, avisou à mãe que iria ao forró. Aos 17 anos e grávida de dois meses, Tatiana parecia satisfeita: dali a algumas semanas pretendia se casar, em uma festa pequena, provavelmente em casa mesmo. Agora iria ao forró para saber do vestido, que seria feito pela amiga Raquel, costureira do bairro. As duas se encontrariam no Forró do Gago, a quatro quarteirões dali. Tatiana caminhou pelas ruas de terra batida e parou no portão da casa de shows, no número 210 da rua Madre Tereza de Calcutá. Esperou a amiga cerca de 10 minutos. Como Raquel não aparecia, a estudante resolveu entrar.

Quatro horas depois, entre meia-noite e uma da manhã, a mãe de Tatiana despertou com um telefonema. Teresinha de Jesus, de 52 anos, estava sozinha na casa de 60 metros quadrados em que vivia com Tatiana, sua outra filha Tatilene e dois netos. Ainda se recuperando de uma cirurgia para retirar a vesícula, a dona de casa ouviu do outro lado da linha um relato desencontrado, com gritos e choro. Era a mãe de outra jovem que fora à festa onde Tatiana e Raquel se encontrariam. Teresinha distinguiu poucas palavras: tiroteio, baleada, forró. Ainda não se falava em morte.

Ela correu a pé até a casa de shows, onde deparou-se com um cenário desolador: corpos estirados no chão, sangue, chinelos e sapatos deixados para trás, garrafas de cerveja quebradas e muita gente filmando com o celular. Teresinha procurou rastros da filha no galpão abafado, onde horas antes cerca de 500 pessoas dançavam ao som de dois DJs. A dona de casa encontrou Tatiana caída no chão, as roupas empapadas. Estava abraçada à amiga Raquel.

Ela tentou ainda sacudir a filha, mas ela não se mexia. Junto com outras doze pessoas, Tatiana e Raquel foram mortas a tiros na maior chacina da história do Ceará, crime atribuído a uma das facções que disputam o comando do tráfico naquela região da cidade. Oito vítimas eram mulheres.

Os criminosos, segundo a investigação conduzida pela Divisão de Homicídios e Proteção à Pessoa da polícia cearense, chegaram em três carros. Eram cerca de 20 atiradores, a maioria homens – segundo uma hipótese de investigação, havia mulheres também empunhando fuzis e pistolas. Os tiros foram dados a esmo, de acordo com informações da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social. Do lado de fora do forró, um vendedor ambulante foi executado logo na entrada. Dentro da casa de shows, homens e mulheres tentaram fugir, muitos dos quais subindo pelos muros e saltando pelos telhados de casas vizinhas. Parte do público da festa tentou se esconder atrás de portas e do palco, mas, segundo relatos de testemunhas, os criminosos diziam que precisavam concluir o serviço. E atiravam em seguida.

Sob condição de anonimato, um dos médicos legistas que estiveram no Instituto Médico Legal nas primeiras horas após a chacina relatou à piauí o que sentiu ao trabalhar na noite do massacre em Cajazeiras. “Nunca tinha visto tantos corpos de mulheres dando entrada na unidade ao mesmo tempo”, disse.

“A Tatiana não tinha nada a ver com isso. Era uma menina vaidosa, feliz. E agora está morta”, disse a irmã mais velha da estudante, Tatilene da Costa Ferreira, de 28 anos. O apelido da irmã mais nova era “Sasha”, conta Tatilene, por ser muito vaidosa e bonita. Era magra, pele morena, estatura mediana, tinha cabelos escuros e lisos. Gostava de se vestir bem. Estudante da Escola Municipal Sino Pinheiro, localizada no bairro vizinho Jangurussu, Tatiana havia comentado certa vez com a irmã, após uma das idas ao Fórum Clóvis Beviláqua para acompanhar um processo de indenização por causa da morte do irmão num acidente de moto, que gostaria de se tornar defensora pública. “Ela ficava olhando as advogadas, se espelhava nelas. Um dia ela olhou e disse: quero ser assim, andar com essas bolsonas e papelada debaixo do braço, resolvendo as coisas para vocês”, contou Tatilene.

 

Das quatorze vítimas do massacre das Cajazeiras, duas tinham antecedentes criminais – e não três, como a polícia informou inicialmente. Eram dois homens: Wesley Brendo Santos Nascimento, 24 anos, por receptação de produto ilícito, tráfico de drogas e porte ilegal de arma, e Antonio Gilson Ribeiro Xavier, de 31 anos, por furto qualificado. Nenhuma das mulheres assassinadas devia algo à Justiça, nenhuma tinha nem sequer a pecha de “fichada” pela polícia. A maioria das oito mulheres baleadas mortalmente não completara 30 anos. Além de Tatiana e Raquel, foram assassinadas a estudante Maira Santos da Silva, de 15 anos, Brenda Oliveira de Menezes, de 19 anos, e Luana Ramos Silva, de 22. As outras vítimas da matança são Renata Nunes de Sousa, de 32 anos, Mariza Mara Nascimento da Silva, de 37, e Edneusa Pereira de Albuquerque, de 38 anos. Estavam no forró para se divertir e passar a noite com amigos.

A região onde ocorreu o massacre é disputada por grupos de traficantes rivais, principalmente entre o autointitulado Guardiões do Estado, GDE, e o Comando Vermelho, CV. Desde 2016, o Ceará vem registrando um número crescente de chacinas, causadas principalmente pelo domínio de territórios do tráfico de entorpecentes e comércio de armamento. Desta vez, porém, há características novas.

Para o chefe da Secretaria de Segurança Pública e Defesa Social do Ceará, o delegado André Costa, a matança foi uma “ação sem alvo fixo”, com “indícios claros” de ter sido realizada para causar medo no bairro disputado por facções do tráfico de drogas. O fato de a maioria dos mortos ser mulher e sem passagem pela polícia – fato inédito entre as chacinas no Ceará – é uma mostra dessa estratégia.

À piauí, o delegado afirmou ver semelhanças com atentados de grupos terroristas domésticos nos Estados Unidos e França. No ataque à boate Bataclan, em Paris, por exemplo, 89 pessoas foram mortas durante um show de rock, em novembro de 2015. Era um noite de sexta-feira, e mais de mil pessoas se divertiam ao som da banda americana Eagles of Death Metal, quando quatro terroristas armados com fuzis invadiram o local e atiraram contra a multidão. Em menos de uma hora, outros cinco ataques foram cometidos – assim como no Ceará, em pontos populares da vida noturna da cidade.

Pesquisador do Laboratório de Estudos da Violência da Universidade Federal do Ceará, o sociólogo Luiz Fábio Paiva considera haver uma “guerra nas ruas de Fortaleza que ultrapassa a disputa por mercado de drogas”. “É um cenário de vingança que se retroalimenta”, afirmou o pesquisador. “Os criminosos passaram a entender que pessoas que eles acreditem ser associadas a facções rivais, ou mesmo ter simpatia por esses outros grupos, se tornam alvos imediatamente. E um crime vai levando a outro”, disse Paiva.

O fato de a maioria dos mortos em Cajazeiras ser mulher, para o sociólogo, não é à toa. “A presença delas entre os alvos das facções, seja de tortura ou de assassinato, funcionaria como demonstração de poderio desses grupos organizados”, avaliou. “O maior medo de moradores de bairros disputados pelo tráfico em Fortaleza atualmente é que um integrante de facção diga a alguém conhecido: ‘essa menina agora é minha’”, disse o sociólogo, citando uma audiência pública na quarta-feira passada sobre a Chacina do Curió [num bairro próximo das Cajazeiras, com onze mortos e 44 policiais suspeitos, em 2015], em que a mãe de um dos mortos fez esse relato.

Juntos, os bairros de Cajazeiras, Barroso, Jangurussu e Mata Galinha formam uma área habitacional depauperada que combina péssimas condições sanitárias, alta densidade demográfica, escassez de equipamentos públicos e índices crescentes de violência. O enclave de miséria, nascido a partir de ocupações às margens da BR-116, concentra parte dos homicídios na capital cearense, que, entre janeiro e novembro do ano passado, tiveram aumento de 96%.

Apenas em janeiro deste ano, o Ceará – que aparece em 9º lugar entre os estados com mais homicídios no país, segundo o Anuário do Fórum de Segurança Pública – registrou 469 assassinatos. Ao longo de todo o ano de 2017, foram 5 134 homicídios no estado, uma média de quatorze assassinatos por dia. Foi o pior índice da história do Ceará, superando em 50% as mortes registradas em 2016. Segundo a Secretaria de Segurança Pública do estado, o aumento relativo no número de assassinatos de mulheres foi maior: um crescimento de 73%, passando de 210 para 364 mortes – 172 delas apenas nos últimos quatro meses do ano, que terminou com uma escalada de violência.

 

Há duas linhas mestras na investigação do massacre de Cajazeiras: uma segue com a já conhecida tese da batalha por territórios do tráfico de drogas e comércio de armas. A outra remonta ao assassinato de um dos membros da facção GDE, por integrantes do CV, em meados de 2017. Na madrugada desta sexta-feira, equipes das Polícias Militar, Civil e Federal realizaram uma operação na tentativa de prender um dos comparsas do mentor das mortes de quatorze pessoas.

A matança é descrita como “tragédia anunciada” pelo advogado criminalista Cláudio Justa, presidente do Conselho Penitenciário do Ceará, vinculado ao governo estadual. “Todas as pessoas da comunidade sabiam. Havia um ‘salve’ para acabar com os ‘imundos’, que é como os membros da GDE se referem aos do CV”, disse. “O CV, por outro lado, chama os integrantes da GDE de ‘vermes’ porque quebram o código de ética do crime, com assaltos na própria comunidade, incêndio de ônibus e assassinatos de pessoas que não estão diretamente ligadas às facções.”

Para Justa, as circunstâncias do maior massacre do estado revelam uma alteração importante na atuação das facções, principalmente da GDE, um grupamento novo, ainda em formação. “O que acontece no caso da GDE é que ela é minoritária numericamente e tem tentado se manter pelo medo, com uma ação mais agressiva para autopreservação e expansão. Por isso seus membros impõem um terror maior nos atos de vingança.”

A mudança no perfil das chacinas levou a Defensoria Pública do Ceará a considerar o aumento dos programas de assistência a famílias de vítimas. “É uma situação nova para a Defensoria, por fugir do padrão de vítimas masculinas”, disse Gina Moura, defensora pública responsável pelo Núcleo de Assistência aos Presos Provisórios e às Vítimas de Violência. “Teremos de considerar aumentar os programas de assistência, porque envolvem também a guarda dos filhos.”

Ao longo da última semana, a mãe da costureira Raquel, a empregada doméstica Rosa Maria Galdino, passou a cuidar da neta de 4 anos, desde que a filha foi assassinada. Muito emocionada, ela relembra a noite da chacina e as mensagens enviadas para o celular da filha. “Ela chegou em casa depois do trabalho e avisou que iria sair um pouco. Eu respondi: ‘Pois tá bom, Deus te abençoe. Te cuida, filha’”, contou. “Mas a Raquel não respondeu mais.”

Durante todo o dia, na última quinta-feira, a polícia cearense montou campanas em quatro bairros em uma tentativa de prender quem acredita ser o mandante da Chacina das Cajazeiras. No manhã seguinte, a calçada em frente ao 22º Batalhão de Polícia Militar, no bairro Papicu, a 10 quilômetros do lugar do massacre, amanheceu pichada. “GDE 745. Tudo nosso.”

Henrique Araújo

Henrique Araújo é jornalista em Fortaleza e mestrando em Literatura pela Universidade Federal do Ceará

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