O Selvagem da Glória

Para inaugurar nossa cozinha chique, uma receita que é o puro espírito da Cozinha Transcendental: um doce de bananas muito perigoso

POR Maria Cecilia Marra

Depois do último post, datado da época em que os dinossauros caminhavam sobre a Terra, um silêncio absoluto desceu sobre a Cozinha Transcendental. Era a tristeza: a redação estava de mudança, mas nosso enorme e indomável fogão industrial, não. A perda foi grande.

O Selvagem da Glória estava para a Cozinha Transcendental como Lucille para BB King, Blackie para Eric Clapton e Lucy para George Harrison.

Viemos para Ipanema, Selvagem ficou na Glória. Como continuar a Cozinha sem seu coração? Inicialmente tínhamos apenas um fogão de balcão, bonito mas muito delicado em comparação, o que ofereceu a desculpa perfeita para um mergulho em queda livre no luto. Sem forno, seria desonesto tratar de questões de forno e fogão.

Felizmente o tempo passa e tudo se ajeita. No caso da Cozinha Transcendental, fez isso lindamente. Nossa cozinha fica na cobertura e seria, digamos, o fascinator que coroa o prédio elegantemente vestido de cobogós.

O teto da nova Cozinha T. é um toldo pantográfico que permite cozinhar a céu aberto ou jantar sob as estrelas. O understudy versão Ipanema de Selvagem é uma maquininha de gelo que resmunga sem parar enquanto produz anéis gelados em quantidade suficiente para interromper de sopetão o cozimento de caldas à beira do desastre. Evidentemente, ela não tem a estatura de Selvagem, mas como personalidade não faz feio. Na verdade, a maquininha de gelo orna com o novo endereço e estreou junto com um forno, que também é delicado mas cumpre a sua função. Enquanto isso, Selvagem aguarda na Glória a sua nova encarnação.

E para inaugurar nossa cozinha chique, uma receita que é o puro espírito da Cozinha Transcendental: um doce de bananas muito perigoso. É facil de fazer, delicioso, fica pronto no máximo em 20 minutos e dá para mentir que deu um trabalhão.

Paula Cardoso, que se considera totalmente inexperiente em assuntos de cozinha, se ofereceu para preparar o doce e testar se de fato é facil:

“Realmente, essa receita não tem mistério. Eu, que sou uma negação na cozinha, consegui fazer e ficou maravilhoso! Tirei onda com o povo aqui da redação dizendo que foi super trabalhoso, mas a verdade é que foi super fácil!”

DOCE DE BANANAS PERIGOSÍSSIMO

Ingredientes:

BANANAS

• 1 xícara muito comedida de açúcar cristal;
• 1 kg de bananas (d’água ou nanicas) mais ou menos;
• 1/2 casca de limão ralada.

Antes de mais nada, ligue o forno na temperatura máxima.

Descasque e corte as bananas em rodelas, acomode as rodelas de modo a cobrir todo o fundo do refratário em que o doce vai ser servido, espalhe o açúcar por cima e dê uma chacoalhada para garantir que os cristais de açúcar envolvam todos os pedaços. Acrescente um pouco de água (4 ou 5 colheres de sopa), cubra com papel alumínio e leve ao forno bem quente até borbulhar. Retire o papel alumínio e espere amorenar. Mas atenção, depois de retirar o papel, olho no forno: açúcar queima muito rápido.

Enquanto as bananas assam:

CREME

• 1 lata de leite condensado;
• 1/2 litro de leite;
• 2 gemas;
• 1 colher de sopa rasa de essência de baunilha;
• 1 colher de sopa rasa de maisena;
• 1 colher de sopa de manteiga (entra só no final).

Bata tudo – exceto a manteiga – no liquidificador, transfira para um refratário e leve ao microondas na temperatura máxima por 10 minutos. Claro que depende da potência, mas o creme deve parecer um mingau grosso e borbulhante. Se necessário, aumente mais 1 ou 2 minutos.

O creme vai sair do microondas com aparência péssima, todo empelotado e fosco. Tudo certo. Acrescente uma colher de sopa de manteiga e com o fouet bata vigorosamente até que o desastre se transforme em um creme acetinado, homogêneo. Aqui cabe uma observação importante: como a receita é muito fácil, repetimos algumas vezes e a aparência do creme variou – inexplicavelmente – de crepe de seda a cetim. O gosto se manteve sempre excelente. É um mistério.

A esta altura as bananas já assaram. Espalhe sobre elas a casca ralada de 1/2 limão. Cubra tudo com o creme, borrife a superfície com canela em pó. Espere esfriar, leve à geladeira. Até no congelador chegamos a colocar, para atender aos mais afoitos. É um doce infalível.

Comentário da Raquel, nossa editora de sobremesa:

“Bem, do alto de minha fama de sobremeseira, posso dizer que esse doce de banana leva o meu selo de qualidade. É delicioso, não é açucarado, e não dá vontade de parar até que acabe. Foi preciso sair correndo depois do terceiro pedaço pra não dar vexame, afinal tinha mais gente na fila pra provar. O toque do limão, marca registrada da Cecília, deixa esse doce com um sabor fenomenal.”

 

Ritmo recomendado para fazer este atentado à dieta:

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