anais do transporte

R$ 0,46 no tanque dos outros

Agora, caminhoneiros grevistas usam WhatsApp para defender queda da gasolina, de Temer e da democracia

Josette Goulart
28maio2018_17h33
IMAGEM: PAULA CARDOSO

Com a publicação de três medidas provisórias do governo para atender os caminhoneiros, a paralisação nas estradas começou a dar sinais de enfraquecimento. Pouco a pouco, as centenas de bloqueios em rodovias do país começaram a passar para o acostamento – de 1 200 pontos na sexta-feira, restavam 557, segundo o governo. Muitos desses resistentes, porém, estão mais inflamados. Em grupos de caminhoneiros no WhatsApp acompanhados pela piauí desde quinta-feira, o discurso se tornou ainda mais radical após o anúncio de Temer. Nesses grupos, o movimento deixou de ser pelos 46 centavos do diesel e ganhou novos contornos: agora, caminhoneiros pedem redução dos preços da gasolina, do gás de cozinha, a renúncia do presidente Michel Temer e uma intervenção militar.

Os que resistem nos piquetes e nos grupos de WhatsApp passaram a adicionar informações de data, horário e local nos vídeos encaminhados, para mostrar que o movimento continua. “Isso é Régis. Vinte e oito do cinco. 2018. Segunda-feira. Onze e trinta e cinco. Isso é Régis sentido São Paulo. Tudo parado. Não passa um caminhão”, diz um caminhoneiro no vídeo que chegou na manhã desta segunda ao grupo Brasileiros/Caminhoneiros, de um telefone de São Paulo. Uma das principais rodovias do país, a Régis Bittencourt liga São Paulo ao sul do Brasil e ao Mercosul, e é um dos pontos de resistência do movimento.

“Rodovia Anchieta. Vinte e oito do cinco. 12 horas. Pista sentido Santos. Só ônibus e carros”, mostrou outro vídeo logo depois, no grupo “Lutar pelo Melhor”. As pistas estão desobstruídas, mas caminhoneiros seguem parados no acostamento. Debaixo de chuva, um caminhoneiro na Bahia também informa, no mesmo grupo: “Vinte e oito do cinco. 2018. Dez e dez. BR-116. Santo Estevão, Bahia. Nada mudou aqui. Paralisação continua.” Os vídeos e áudios também mostram um movimento de maior resistência no Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Paraná, Ceará e Santa Catarina.

Após o anúncio da redução de 46 centavos, a pauta de reivindicações se diversificou. Integrantes desses grupos de WhatsApp, muitos deles líderes de pontos de paralisação, passaram a afirmar que o movimento “não é só dos caminhoneiros” e que não podem abandonar a população neste momento. Eles pedem redução nos preços da gasolina e do gás de cozinha. “Gente, precisa baixar a gasolina também. Não é só o diesel. Compartilhem essa ideia”, disse um caminhoneiro no grupo #somostodoscaminheiros. “Não esqueçam do gás de cozinha porque é um absurdo um pai de família pagar 96 reais por uma botija, muito das vezes tem que deixar de comprar o seu alimento para ter esse produto tão valioso”, escreveu outro no grupo “Acorda Brasil”. No grupo “Lutar pelo Melhor”, de caminhoneiros de São Paulo, um vídeo de dez minutos feito por dois representantes de federações de autônomos – que pediam o fim da paralisação pelas condições do acordo – era qualificado como “lavagem cerebral” por outros integrantes.

Nos grupos de caminhoneiros que permanecem nos bloqueios, as mensagens sobre política ficaram mais exaltadas, com referência contínua à intervenção militar. Entre os integrantes do “Lutar para Melhor”, muitos usam em seu perfil frases como “Eu apoio intervenção militar já”. No grupo “#somostodoscaminhoneiros”, de Santa Catarina, um vídeo, com data desta segunda, mostrava caminhoneiros numa rodovia segurando cartazes de “Queremos intervenção”. “Não tem acordo com bandido. Queremos intervenção militar. Não é só pelo diesel. É por tudo”, dizia o caminhoneiro no vídeo.

Na manhã desta segunda, alguns caminhoneiros testaram as medidas anunciadas por Temer, como a isenção do pedágio para eixo suspenso. Um deles filmou a chegada ao pedágio próximo ao Porto de Suape, em Pernambuco, e mostrou o momento em que o funcionário da concessionária cobrou pelos quatro eixos, desconsiderando o fato de um deles estar suspenso – o que contraria a medida provisória recém-publicada. Por outro lado, alguns grupos de caminhoneiros começaram a silenciar no WhatsApp, como os de Mato Grosso. A reserva de 30% do frete contratado pela Companhia Nacional de Abastecimento, a Conab, para cooperativas de transporte autônomos prevista em uma das medidas provisórias parece ter surtido efeito naquela região.

O discurso do governo é o de que concedeu em todos os pontos pedidos pelos caminhoneiros, e que, se o movimento não se dissipar, é em razão de infiltrações para inflamar o movimento – a Polícia Rodoviária Federal foi orientada para identificar infiltrados. O governo anunciou ainda que para compensar a isenção fiscal com retirada da Cide e do PIS/Cofins do óleo diesel terá que ser equilibrado com elevação de impostos em outros setores da economia. No total, a redução do preço do diesel será de 46 centavos. Para que chegue à bomba nos postos, a ideia será usar o Procon para fiscalizar.

 

Como reforço às medidas anunciadas por Temer, os ministros Eliseu Padilha, da Casa Civil, Carlos Marun, da Secretaria de Governo, e Sérgio Etchegoyen, do Gabinete de Segurança Institucional, deram uma entrevista coletiva dizendo que o governo dá por encerrada as negociações com os caminhoneiros e que o movimento será extinto, como teriam garantido lideranças que estiveram em Brasília no domingo. Também afirmaram que a retomada será feita aos poucos, por questões logísticas. “A população antes apoiava a greve, agora quer ser abastecida”, disse Marun.

Em Barueri, um dos líderes que estava à frente do movimento, Claudinei Habacuque, afirmou à piauí que não são mais os caminhoneiros que fazem o bloqueio da distribuidora da Petrobras na região – e, sim, os moradores. “As pessoas dos arredores estão fazendo isso para demonstrar apoio à causa”, disse. Em um dia normal saem 300 caminhões de Barueri. Na manhã desta segunda, apenas seis saíram, sob escolta, e por causa de decisões judiciais.

Habacuque afirmou que esteve no domingo no Palácio dos Bandeirantes, em reunião com o governador do estado, Marcio França, e com a participação do ministro Carlos Marun por telefone. “Falamos na reunião sobre as condições oferecidas, mas 46 centavos é muito pouco”, disse Habacuque. Já era a segunda reunião com o ministro. Um dia antes, as lideranças em São Paulo já haviam se reunido pessoalmente com Marun e o governador França, que fez a intermediação da negociação entre os líderes dos pontos de paralisação no estado e prometeu em São Paulo eliminar a cobrança de pedágio do eixo suspenso.

No sábado, perto da meia-noite, Marun concedeu uma entrevista ao sair da reunião e chegou a afirmar que finalmente o governo estava falando com os “verdadeiros líderes do movimento”. Ele se referia ao fracassado acordo anunciado na quinta-feira passada, assinado com lideranças de sindicatos e confederações de transportes, que não tiveram sua legitimidade reconhecida pelos caminhoneiros.

Na reunião de domingo, porém, mais uma vez, o governo ignorou os líderes dos pontos de paralisação. Algumas horas depois de finalizada a reunião com os representantes paulistas, em que havia ficado definida uma nova rodada de negociação para quarta-feira, o governo surpreendeu anunciando as medidas, acertadas novamente com as lideranças de sindicatos e federações, em Brasília. O anúncio foi feito ao vivo, em rede nacional, por Temer.

Nas redes, mais uma vez a manifestação foi imediata. “Vamos manter a paralisação, bora derrubar Temer”, dizia um manifestante do Mato Grosso do Sul, no grupo “Brasileiros/Caminhoneiros”. “Galera o Temer jogo a isca, não caiam nessa. 60 dias congelado o valor. Mas nesses 60 dias eles podem fazer leis que inclusive poderão caracterizar como CRIME qualquer tipo de manifestação”, postou um integrante do grupo #somostodoscaminhoneiros, em referência ao período em que o governo prometeu manter fixo o preço do óleo diesel.

Uma ideia recorrente nos grupos era ter o apoio da população. Diversas mensagens marcavam manifestações e faziam convocações para uma greve geral nesta segunda-feira – o que não ocorreu. Desde sexta, circularam nos grupos vídeos de manifestantes fechando estradas junto com os caminhoneiros, tentando chamar a atenção de outras parcelas da população. O engajamento, no entanto, ficou aquém do que se esperava. “A ideia era tomar a avenida Paulista. Mas isso infelizmente não aconteceu”, disse Habacuque.

Josette Goulart (siga @JosetteGoulart no Twitter)

Repórter investigativa e documentarista. Trabalhou no Valor Econômico, O Estado de S.Paulo, entre outros

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