questões ambientais

Sem ratos à vista

Em operação inédita no Brasil, pesquisadores dizem ter eliminado infestação que ameaçava aves nativas na ilha do Meio, em Fernando de Noronha

Bernardo Esteves
30abr2018_10h53
O extermínio de cerca de 10 mil ratos-pretos (<i>Rattus rattus</i>) na ilha do Meio deve beneficiar os atobás-marrons que se reproduziam ali
O extermínio de cerca de 10 mil ratos-pretos (Rattus rattus) na ilha do Meio deve beneficiar os atobás-marrons que se reproduziam ali FOTO: JAMES RUSSELL_2017

Pesquisadores brasileiros acreditam ter erradicado os ratos de uma ilha de Fernando de Noronha, uma medida que deve beneficiar a biodiversidade local. O alvo da operação – inédita no país – foi a ilha do Meio, uma das menores do arquipélago, inabitada e com 16 hectares (o equivalente a dezesseis campos de futebol). Os cerca de 10 mil roedores da espécie Rattus rattus que infestavam a ilha representavam uma ameaça para as aves que se reproduzem ali, sobretudo os atobás-marrons, que põem seus ovos no chão e não oferecem resistência aos predadores.

Os ratos não ocorriam originalmente na ilha do Meio – e em nenhuma outra de Fernando de Noronha – e, por isso, eram considerados forasteiros indesejados que traziam impactos ambientais nocivos para o ecossistema local. As espécies invasoras são um problema ambiental especialmente sério em ilhas, onde elas frequentemente não encontram predadores naturais e dispõem de alimento à vontade.

Em outros países o extermínio de espécies exóticas é uma estratégia adotada há décadas para combatê-las. Na Nova Zelândia – uma nação-arquipélago que é líder mundial na luta contra os invasores biológicos –, ratos e outros mamíferos forasteiros já foram eliminados de 117 das 345 ilhas do país. No início deste século, o Brasil já tivera sucesso ao erradicar as cerca de 800 cabras que viviam na ilha de Trindade, a 1 200 quilômetros do litoral do Espírito Santo, mas não tinha tentado a estratégia contra mamíferos menores. Se confirmado o anúncio dos pesquisadores, será a primeira erradicação de ratos de uma ilha do país.

A erradicação foi planejada e executada por biólogos e veterinários ligados à Tríade – Instituto Brasileiro para Medicina da Conservação, que atua no arquipélago desde 2007. Para exterminar os ratos, os pesquisadores fizeram quatro campanhas para distribuir um veneno anticoagulante (o brodifacoum) em centenas de armadilhas espalhadas pela ilha do Meio. Em outubro passado, acompanhei a equipe da Tríade numa das campanhas de espalhamento de veneno. A história foi contada na reportagem “Estranhos no paraíso”, publicada na piauí_136, que agora está aberta para todos os leitores.

 

A confirmação da erradicação bem-sucedida veio de uma expedição feita em abril, quando uma equipe da Tríade passou três semanas no arquipélago e fez uma expedição de monitoramento à ilha do Meio. Espalharam vinte armadilhas com iscas para ratos em diversos pontos da ilha do Meio, e todas permaneceram intocadas, um indício forte de que os roedores foram eliminados. Na campanha anterior, feita entre o fim de janeiro e o início de fevereiro, as armadilhas deixadas na ilha também ficaram intactas.

No último fim de semana conversei por telefone com o coordenador do projeto, o médico-veterinário Paulo Rogerio Mangini, um dia depois de a equipe da Tríade voltar do arquipélago. “Acreditamos ter erradicado os ratos da ilha, mas só poderemos afirmar isso com segurança se monitorarmos o ambiente por um período maior de tempo”, disse Mangini. O pesquisador ressaltou que é possível que tenham sobrevivido indivíduos que a equipe não conseguiu detectar. “Em todo caso, a população de ratos foi controlada para um nível muito, muito baixo.”

Para se certificar de que os roedores de fato foram exterminados, os pesquisadores deixaram espalhadas pela ilha 55 armadilhas com iscas com veneno para ratos e montaram um protocolo de monitoramento que será executado por técnicos do ICMBio, a autoridade ambiental do governo federal. “O ideal seria monitorar a ilha a cada três meses ao longo dos próximos dois ou três anos”, disse Mangini.

O monitoramento é importante também para garantir que a ilha do Meio não voltará a ser colonizada pelos ratos. Como as ilhas vizinhas não tiveram suas populações de roedores eliminadas e esses animais são capazes de nadar por distâncias de pelo menos um quilômetro, há o risco de eles voltarem mais cedo ou mais tarde.

A equipe da Tríade já observou possíveis efeitos benéficos da eliminação dos ratos da ilha do Meio. “Dá para perceber de forma clara que os ninhais estão sendo repovoados, vimos mais aves e mais ninhos, todos com ovos”, disse-me por telefone o biólogo e veterinário Carlos Eduardo Verona. Mas o pesquisador ressaltou que são necessárias mais observações para caracterizar o fenômeno e estabelecer o vínculo com o extermínio dos roedores.

O projeto de pesquisa que executou a erradicação dos ratos foi financiado pelo braço brasileiro da ONG ambiental WWF e se encerra em maio. Seus resultados serão relatados num artigo científico a ser escrito pela equipe da Tríade. O know-how adquirido pelos pesquisadores – que contaram com a ajuda de James Russell, um biólogo neozelandês especializado no combate a ratos em arquipélagos – poderá no futuro ser aplicado a outras ilhas de Fernando de Noronha.

Paulo Rogerio Mangini disse que a Tríade deve elaborar um projeto de pesquisa para dar continuidade ao trabalho feito na ilha do Meio. Eles pretendem fazer estudos preliminares a fim de planejar a eliminação dos roedores da ilha Rata – cujo nome se deve provavelmente à presença indesejada dos roedores. Como ela é maior e mais heterogênea que a do Meio, erradicar os ratos dali será um desafio mais complexo. “Primeiro temos que ter uma noção do tamanho da população de roedores para traçar uma estratégia de manejo”, disse Mangini. “Vamos precisar de um pouco mais de preparação até de fato poder administrar o raticida.”

Bernardo Esteves (siga @besteves no Twitter)

Repórter da piauí desde 2010, é autor do livro Domingo é dia de ciência, da Azougue Editorial

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