questões político-jurídicas

“Substituir Lula seria como roubar a namorada do melhor amigo”, diz Jaques Wagner

Antes de julgamento no TRF-4, ex-governador da Bahia nega ser “plano B” do PT à Presidência, mas deixa brecha: “Se Lula for impedido, aí teremos um plano E, de emergencial”

Fabio Victor
24jan2018_07h00
O ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner, aliado de Lula
O ex-ministro e ex-governador da Bahia Jaques Wagner, aliado de Lula FOTO: JOSÉ CRUZ/AGÊNCIA BRASIL

Apontado como alternativa petista caso o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva não possa concorrer na eleição presidencial deste ano, o ex-governador da Bahia Jaques Wagner disse que, qualquer que seja o resultado do julgamento desta quarta-feira, 24 de janeiro, em Porto Alegre, seu projeto será de se candidatar ao Senado pelo estado.

Wagner, hoje secretário de Desenvolvimento Econômico do governo baiano (do também petista Rui Costa), negou que o partido tenha um “plano B” caso Lula seja impedido judicialmente de concorrer. Mas deixou uma fresta aberta à possibilidade. “Lula vai registrar a candidatura dele aconteça o que acontecer em Porto Alegre e vai caminhar, como já está caminhando. Vou registrar minha candidatura a senador no mesmo tempo em que ele for registrar a dele a presidente. Estamos todos lutando juntos para provar a inocência dele. Essa história de plano B joga água no moinho dos acusadores. Não tem plano B. Se ele for impedido, interditado, aí o que teremos é um plano E, emergencial”, disse Wagner, em entrevista à piauí.

Pois o “plano E” preferido por uma parcela significativa de dirigentes do PT, neste momento, é o próprio Jaques Wagner, mais do que o ex-prefeito paulistano Fernando Haddad, outro nome cotado. Os defensores do ex-governador argumentam que, diferentemente de Haddad – derrotado pelo tucano João Doria em sua tentativa de se reeleger em 2016 –, Wagner tem força eleitoral (conquistou duas vezes seguidas o governo da Bahia e em seguida fez seu sucessor, Rui Costa).

Ex-deputado federal, ex-ministro do Trabalho e das Relações Institucionais no Governo Lula e ex-ministro da Casa Civil e da Defesa no Governo Dilma, Wagner é tido como articulador habilidoso. Seguindo o mesmo raciocínio, teria como trunfo adicional, em relação a Haddad, um maior traquejo político e mais penetração no Nordeste, região onde Lula é mais forte.

O ex-governador da Bahia afirma que essa tese não o seduz e compara a eventual substituição de Lula por ele a uma traição amorosa. “Pensar em ser presidente seria corroborar com a usurpação do direito do Lula, não tem como ter tesão nisso aí. É como você namorar a namorada do melhor amigo teu. Pode até acontecer, mas não é a melhor recomendação. Não dá para desejar o que pertence a uma pessoa com quem tenho uma ligação tão forte.”

Segundo Wagner, ele e Lula são amigos há quarenta anos e, nos últimos dias, têm conversado com frequência. “Conheço Lula desde 78, e só o conheci morando em duas casas, uma em São Bernardo, em que ele pagava aluguel, e o apartamento em que ele mora hoje [também na cidade do ABC paulista]. Lula não é ligado em patrimônio, a paixão dele é a política, a progressão social das pessoas.”

O ex-governador está em Porto Alegre, participando das manifestações em solidariedade a Lula na cidade. Nesta quarta pela manhã, embarca para São Paulo, onde haverá um ato na Praça da República, seguido de passeata até a Avenida Paulista.

Wagner não quis arriscar um palpite sobre o resultado do julgamento, mas se mostrou esperançoso. Sou daqueles que ainda querem aguardar o julgamento, não faço tábula rasa, do tipo ‘obrigatoriamente vão condená-lo’. Prefiro ficar com as palavras do Flávio Dino [governador do Maranhão], que também é juiz federal e, diferentemente do presidente do TRF-4 [Carlos Eduardo Thompson Flores], que disse que a sentença era um primor antes de ter lido, o Dino a leu várias vezes e acha totalmente inconsistente.”

O petista criticou os adversários de Lula e do PT e sugeriu que, caso não tivesse havido o impeachment de Dilma, eles teriam chegado mais fortes à próxima campanha. “Perderam as eleições quatro vezes, e olhando para 2018, vislumbraram perder de novo, por isso interditaram a Dilma. Como estratégia política foi uma burrice, porque ela não estava tão bem. Aí fazem dela a vítima e acabam jogando luzes em tudo o que fizemos de bom em doze anos.”

Na avaliação de Wagner, o candidato do PSDB será o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin. “A política não tem melhor caminho que a naturalidade. Inventaram Doria, mas o candidato natural do PSDB é Alckmin, que em tese é a maior expressão do partido. Aí ficam inventando jogador de futebol, cantor, apresentador de televisão. Ser candidato todo mundo pode, mas não é por aí. Política é para quem se dedicou à política, tevê é para quem se dedicou à tevê. O sucesso de um cantor tem a ver com a voz. O sucesso na política tem a ver com o que você consegue realizar na vida pública.”

Para o ex-ministro, seu nome passou a ser lembrado porque a Bahia é o quarto colégio eleitoral brasileiro (atrás de São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro) e pelos governos que fez e eleições que venceu. “Mas temos outros bons exemplos em colégios menores, como Jorge Viana no Acre, Wellington Dias no Piauí.”

“Minha vaidade está absolutamente preenchida. Tive de sair do Rio [onde nasceu] por causa do governo militar, fui para Minas, para São Paulo, para a Bahia. Isso não bole comigo. Emocionalmente, minha paixão é provar a inocência do Lula e vê-lo chegar de novo à Presidência. Não dá para compartilhar esses dois sentimentos.”

Tanto Wagner quanto Haddad têm como obstáculo, numa eventual corrida presidencial, acusações relacionadas a financiamento ilegal de campanhas. O ex-governador da Bahia foi citado por delatores da Odebrecht como destinatário de 12 milhões de reais em propina e caixa dois. Um delator contou que Wagner recebeu da empreiteira um relógio avaliado em 20 mil dólares. O petista nega irregularidades nas doações e disse que de fato recebeu um relógio, mas nunca o usou. Haddad foi indiciado pela Polícia Federal por suspeita de caixa dois na sua campanha à Prefeitura de São Paulo em 2012. Ele apontou parcialidade do delegado da PF que o indiciou e disse confiar que a ação será bloqueada na Justiça.

Uma candidatura ao Senado seria uma opção mais segura para Wagner. Pelas pesquisas divulgadas até agora, ele lidera com cerca de 40% das intenções de voto – duas vagas estarão em disputa. Eleito, ele assegura foro privilegiado. No caso de substituir Lula e perder a eleição, ficaria sem foro e poderia cair nas mãos de Sérgio Moro.

Fabio Victor (siga @fabiopvictor no Twitter)

Fabio Victor é repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, onde trabalhou por 20 anos, foi repórter especial e correspondente em Londres

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