questão de opinião

Temer vence 1ª batalha da longa guerra que começou no Rio

Dizendo-se contrário a como intervenção foi feita, Bolsonaro se posiciona para lucrar com sucesso ou fracasso da operação

José Roberto de Toledo
16fev2018_22h57
Traficantes fogem de ação policial na Vila Cruzeiro, em 2010
Traficantes fogem de ação policial na Vila Cruzeiro, em 2010 IMAGEM: REPRODUÇÃO

Oprimeiro dia da operação político-militar arquitetada por Michel Temer e seus generais sem farda foi vencido pelo governo. A cobertura de telejornais lhe foi francamente favorável. Raros contrapontos, quase nada de crítica. É tudo com que o presidente sonhava desde que Joesley Batista delatou-o há nove meses. A Lava Jato, para seu alívio, sumiu do noticiário da tevê. Mas a guerra que ele declarou não se resume à primeira batalha.

Para dobrar seu dígito solitário de popularidade e ter alguma chance na eleição de seu sucessor em outubro, Temer vai precisar de muito mais do que um Jornal Nacional a seu favor. As imagens de dezenas de traficantes cariocas em fuga da Vila Cruzeiro numa ação similar coordenada pelo governo Lula em 2010 ajudaram a melhorar a imagem do então presidente e de sua candidata, Dilma Rousseff, mas foi o bolso que motivou os eleitores, como sempre.

Desta vez, não é só o consumo que determinará o resultado das urnas. Outros temas entraram com força na agenda eleitoral.

Se a intervenção federal na segurança do Rio de Janeiro der certo, os militares, responsáveis pela operação, ganharão prestígio. Por tabela, o discurso que defende seu protagonismo em detrimento do poder civil também. Bom para Jair Bolsonaro e sua candidatura presidencial. Se der errado, melhor ainda para o militar reformado. Bolsonaro se declarou contra a intervenção nos termos decretados por Temer. Quer mais. Que o poder de fogo dos interventores não seja limitado pelo Judiciário.

Segundo o discurso do dublê de deputado e candidato, o eventual fracasso dos militares no Rio não será culpa deles, mas dos constrangimentos à sua atuação impostos pelos civis. É uma ideia que ecoa nas forças de segurança de modo geral. Chefe antinarcóticos da Polícia Federal no Rio, o delegado Carlos Eduardo Antunes Thomé disse à piauí que “será de extrema importância o apoio do Poder Judiciário na expedição de mandado de busca coletivo no interior das favelas[cariocas]“.

Percebem-se as complexas implicações que a intervenção militar na segurança do Rio acarreta. São tantas que nem o comandante do Exército, general Villas Boas, soa muito convicto sobre a operação. Ele não foi visto na entrevista coletiva que detalhou o que seria feito, nem participou das reuniões que a decidiram.

Parece ter pego o prato feito. Em sua conta no Twitter, contou: “Acabei de reunir-me com o General Braga Netto, nomeado interventor federal na segurança pública do RJ. Da análise, concluímos que a missão enlaça o general diretamente ao Sr PR (Presidente da República).“ Eximiu-se da cadeia de comando.

No tuíte seguinte, ponderou os limites da operação militar: “Os desafios enfrentados pelo estado do RJ ultrapassam o escopo de segurança pública, alcançando aspectos financeiros, psicossociais, de gestão e comportamentais. ​Verifica-se pois a necessidade de uma honesta e efetiva ação integrada dos poderes federais, estaduais e municipais.” Destaque para o “honesta”.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Jornalista da piauí, foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Últimas Mais Lidas

Fraturas no antipetismo

Bolsonaro não consegue unificar eleitorado que é contra Lula

Marina Silva, sem voto e sem dinheiro

Doações de pessoas físicas e crowdfunding para candidatura da Rede fracassam e campanha corta custos na reta final da disputa

Hungria, França e Brasil

Por que são críveis os acenos de Haddad ao centro

“São particulares”, diz Exército sobre caminhões usados em campanha

Veículos flagrados com propaganda de Bolsonaro e que viralizaram nas redes foram vendidos pela União, mas continuam com aparência militar

Plata o plomo

Bolsonaro depende de fisiologismo ou de autogolpe para governar

Maria vai com as outras #9: Sexo como ganha-pão

A prostituta de luxo Livia Rodrigues, a dona de uma sex shop para lésbicas e bissexuais Marcia Soares e a atriz pornô Monique Lopes falam sobre os prazeres e agruras que envolvem suas profissões

E se Bolsonaro ganhar?

A violência como plataforma de governo

Os mascates do Rio

A periferia sem crédito mantém a tradição do vendedor de porta em porta

EUA devolvem fortuna à família Hawilla

Com a morte do delator do escândalo Fifa, Justiça restitui à viúva e aos filhos patrimônio de R$ 59 milhões em dinheiro e apartamento em condomínio em ilha de Miami

Merval e a democracinha*

A polarização política, os cidadãos de bem e os inimigos da vida civilizada no país

Mais textos
1

Não foi você

Uma interpretação do bolsonarismo

2

Merval e a democracinha*

A polarização política, os cidadãos de bem e os inimigos da vida civilizada no país

3

A janela de Haddad

A vulnerabilidade de Bolsonaro e a chance do candidato do PT

4

Marcos Lisboa: “Me comparar a Paulo Guedes é demais”

Cotado como ministro da Fazenda em um governo do PT, economista responde a Ciro Gomes, que o chamou de “ultrarreacionário”

5

O fiador

A trajetória e as polêmicas do economista Paulo Guedes, o ultraliberal que se casou por conveniência com Jair Bolsonaro

6

Paulo Guedes contra o liberalismo

A história mostra que uma onda de ódio só chega ao poder quando normalizada

7

Sem a elite, sem (quase) nada

Em doze anos, Alckmin sai de 45% para 6% das intenções de voto no eleitorado que cursou universidade; eleitores migram principalmente para Bolsonaro

8

Bolsonaro não queria sair da Santa Casa

A história de como a família do presidenciável dispensou o Sírio-Libanês, contrariou a vontade do candidato de ficar em Juiz de Fora e aceitou a proposta do tesoureiro do PSL de levá-lo para o Einstein

9

Antipetismo e democracia

O candidato do PT e o candidato do PSL não são dois lados da mesma moeda

10

Ciro, a vela e o dane-se

Só ele impede segundo turno antecipado entre Bolsonaro e Haddad