questões cinematográficas

Últimos Dias em Havana – desespero e serenidade

Fernando Pérez segue a lição herdada do neorrealismo italiano, buscando articular tipos populares com autenticidade e algum humor

Eduardo Escorel
05set2017_19h11
A Cuba de “Últimos Dias em Havana” é a “mais representativa” embora não seja “a que mais se representa na mídia cubana, nem fora do país”, declarou o diretor e corroteirista Fernando Pérez
A Cuba de “Últimos Dias em Havana” é a “mais representativa” embora não seja “a que mais se representa na mídia cubana, nem fora do país”, declarou o diretor e corroteirista Fernando Pérez FOTO: DIVULGAÇÃO

“Ela não teme o fim do mundo, do que tem medo é que ele continue como está.” A declaração, feita olhando para a câmera no plano final de Últimos Dias em Havana, indica o grau de desespero de Yusisleydis (Gabriela Ramos), adolescente grávida e desaforada. Mesmo assim, ela diz ter se tornado serena e chora quando tem vontade.

Equilibrando desespero e serenidade, Últimos Dias em Havana é a crônica de pessoas comuns, vivendo próximas, em construções decadentes, que formam uma comunidade familiar na qual laços de sangue e de vizinhança se equivalem. A amizade que une Diego (Jorge Martínez) e Miguel (Patricio Wood) é o foco central do filme e o eixo da solidariedade que mantém o grupo unido.

Desde o início há uma ameaça que paira sobre a relação de Diego e Miguel. Como o título do filme indica, trata-se dos últimos dias em Havana – extrovertido e portador de HIV, Diego está em tratamento, enquanto o introvertido Miguel sonha emigrar para os Estados Unidos. A perspectiva da partida do amigo leva Miguel ao ato impensado que precipita sua morte. Para os demais personagens, a serenidade é condição de sobrevivência em um mundo que amedronta por continuar como sempre foi.

A Cuba de Últimos Dias em Havana é a “mais representativa” embora não seja “a que mais se representa na mídia cubana, nem fora do país”, declarou o diretor e corroteirista Fernando Pérez. Para ele, “essa é a Havana mais popular. Há muitas Havanas, naturalmente, mas é nessa paisagem que a maioria dos habaneros vive”. (A entrevista completa está disponível aqui.)

Pérez segue a lição herdada do neorrealismo italiano, buscando articular tipos populares com autenticidade e algum humor. Ele chega a dizer que filmou “em estilo documental, com o propósito de recolher o dia a dia com a maior fidelidade possível”.

Em algumas cenas, em especial diálogos mais longos entre dois personagens estáticos, com a câmera fixa e planos se alternando em campo e contracampo, a decupagem de Pérez se torna um tanto mecânica. Mas, de forma geral, o propósito deliberado de filmar de maneira simples, sem movimentos de câmera ou encenações elaboradas serve bem aos propósitos do filme.

O próprio Pérez resiste ao desespero. Para ele, “o mundo em que vivemos hoje é um mundo totalmente irracional. Não se consegue explicá-lo. E eu queria infiltrar uma reflexão como essa em um personagem tão fresco como Yusisleydis. É preciso encontrar uma solução para este mundo que não sabemos aonde vai e que cada vez se torna mais complexo. Eu, como indivíduo, não sou otimista nem pessimista. Trato de ser realista. E, sim, creio no aprimoramento humano. Creio que temos que seguir empenhando-nos em fazer filmes e em que a arte e a educação se desenvolvam, por que é a única coisa que pode aliviar essa situação e superar as diferenças cada vez maiores entre nós”.

Quem pensa assim ajuda a combater o desespero.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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