anais de Brasília

Um cadáver político

O começo e o fim de Aécio Neves

Julia Duailibi
18maio2017_10h14

BANNERMARATONADezenove dias após o segundo turno da eleição presidencial de 2014, o senador Aécio Neves, do PSDB de Minas Gerais, foi aclamado vencedor por políticos de diferentes partidos e centenas de pessoas que se espremeram numa sala de cinema no Conjunto Nacional, na Avenida Paulista, em novembro daquele ano, para ouvir o tucano falar pela primeira vez, desde a derrota para a petista Dilma Rousseff.

Aécio dizia sentir-se vitorioso. Tinha o rosto descansado e mostrava-se animado quando começou a discursar para a plateia, na frente de uma imagem gigante dele mesmo, que ocupava toda a tela do cinema. A foto trazia em segundo plano um símbolo turístico de São Paulo, o estado que se consolidava como o bastião do antipetismo e onde ele ganhara a eleição. Apesar da vitória dada pelos paulistas, Aécio perdeu a cadeira do Palácio do Planalto por pouco mais de 3 milhões de votos, na disputa mais acirrada desde a redemocratização do país.

“Na vida, o mais importante não é a largada. Tampouco a chegada. É a caminhada. A luta continua”, gritou, sob aplausos, ao citar o conterrâneo Guimarães Rosa. O recém-reeleito governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, que, à época, perdera espaço no partido para o mineiro, ficou como papagaio de pirata do senador, assim como o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Aécio foi ovacionado e teve dificuldade de deixar o local. Na saída, precisou de seguranças para avançar alguns metros até o carro, cercado por pessoas que gritavam  seu nome e tentavam se aproximar. Apesar da derrota, ele emanava poder.

Dois anos e meio depois, Aécio tornou-se um cadáver político. A aura daquele encontro na Paulista foi-se esvaindo, e ele não conseguiu deixar a “chama acesa”, mencionada durante aquele discurso. Nos meses seguintes, Aécio, presidente do PSDB, lideraria uma oposição titubeante, que inicialmente teve receio de apostar no impeachment de Dilma Rousseff, preferindo a cassação da chapa presidencial no Tribunal Superior Eleitoral. Seu partido impetrou os processos de cassação Dilma Temer dias depois da derrota e eles tramitam até hoje – ironicamente, as ações estão agora prestes a ser julgadas e, em tese, podem cassar também o presidente Michel Temer, apoiado, agora, pelo próprio Aécio. A avenida Paulista, que o recebeu tão bem em 2014, vaiou o tucano em 2016. Aécio foi chamado de “bundão” durante as manifestações pela deposição de Dilma.  

Mas foram as delações da Odebrecht, que citavam caixa dois e propina para Aécio e levaram à abertura de inquéritos pelo Supremo Tribunal Federal, que complicaram os planos do tucano. Aécio abateu-se e viu sua intenção de voto nas pesquisas eleitorais derreter. O tiro de misericórdia, no entanto, veio nesta quarta com a divulgação, pelo jornal O Globo, da delação do empresário Joesley Batista da JBS, segundo a qual Aécio teria pedido 2 milhões de reais para, supostamente, pagar um advogado. Nesta quinta, pela manhã, ele foi afastado do cargo de senador pelo ministro Luiz Edson Fachin, do Supremo Tribunal Federal; sua irmã, Andrea Neves, que sempre cuidou dos negócios da família, foi presa em casa, em Belo Horizonte; e a prisão de Aécio será definida pelos demais ministros da Corte.

Aécio Neves foi para a lona, e agora os próprios tucanos, focados na sobrevivência do partido, falam na sua saída da presidência do PSDB, que oficialmente iria até 2018. Os disparos vêm de São Paulo, justamente o estado que o acolheu tão bem em 2014. “Chegou a hora de você sair da presidência nacional do PSDB”, disse nessa quarta o vereador paulistano Mario Covas Neto. “Precisamos de uma liderança. Estamos como um barco à deriva”, comentou um líder do partido no Congresso.

Com a derrocada de Aécio, Geraldo Alckmin e o prefeito paulistano João Doria Jr passam a representar o novo o eixo da disputa pelo Palácio do Planalto no PSDB. O mineiro ainda tem o controle da cúpula partidária, mas isso é uma questão de tempo. Nos próximos meses, Aécio estará às voltas com sua defesa, e o partido começará a se aglutinar em torno de quem representa perspectiva de poder. Diferentemente de 2014, essa perspectiva não é mais representada por ele.

Aécio costumava dizer que “a Presidência da República não é desejo, mas destino”. Aos interlocutores dava a entender que era ele o predestinado. Não contava com a Lava Jato no meio do seu caminho. Aécio perdeu a sua vez.

Julia Duailibi

Julia Duailibi trabalhou na piauí, na TV Bandeirantes, na Folha de S.Paulo, na Veja e n’O Estado de S. Paulo

Leia também

Últimas Mais Lidas

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

Passarinho vira radar de poluição

Pesquisadores usam sangue de pardais para medir estrago de fumaça de carros e caminhões em seres vivos

Foro de Teresina #68: Censura na Bienal, segredos da Lava Jato e um retrato da violência brasileira

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

O maestro e sua orquestra – andamento lento e músicos desafinados

Governo se julga no direito de “filtrar” projetos incentivados com verba pública, mas filtrar é eufemismo para censurar

Quando a violência vem de quem deveria proteger

Quatro meninas são estupradas por hora, a maior parte dentro de casa, e 17 pessoas são mortas pela polícia por dia, revelam dados do Anuário de Segurança Pública

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

Traídas pela Renata

Deputada acusada de usar candidatas laranjas agora quer flexibilizar cotas eleitorais para mulheres; bancada feminina entra em guerra contra “lei da maridocracia”

Mais textos
1

Léros Léros em Itaipu

Brasil se recusa a pagar prejuízo de US$ 54 milhões; presença de suplente do PSL em reuniões binacionais aumenta crise e atrapalha renegociação para 2023

2

“Poderia ter sido eu a morrer ali no ponto de ônibus”

Como a morte espreita a juventude negra no Rio de Janeiro, estado com maior taxa de homicídios em ações policiais

3

Vítimas de Mariana cobram R$ 25 bi de mineradora BHP na Inglaterra

Juiz deve decidir em junho se vai julgar o processo, o maior em número de vítimas da história do Reino Unido

4

Presos da Lava Jato unidos contra os ratos e o tédio

Condenados por crimes de colarinho-branco já caçaram roedores e fizeram faxina em complexo penal; transferidos para hospital penitenciário e sem ter o que fazer, gastam o tempo com dominó  

6

A guerra contra o termômetro

Quando chegam más notícias sobre o desmatamento, os governos atacam o emissário

9

Bacurau – celebração da barbárie

Filme exalta de modo inquietante parceria entre povo desassistido e bandidos

10

Cortes de Bolsonaro emperram pesquisa para deter câncer incurável no cérebro

Sem bolsas federais, pesquisadora aprovada em primeiro lugar na UFRJ atrasa estudo sobre vírus da zika como arma contra tumor