questões cinematográficas

Uma Mulher Fantástica – filme transgênero

Grosseria, violência e arbitrariedade no filme de Sebastián Lelio

Eduardo Escorel
21set2017_12h59

No início, transbordando sensualidade, Marina (Daniela Vega) interpreta uma salsa em uma danceteria, diante de seu companheiro Orlando (Francisco Reyes). No final, como austera cantora lírica, ela está no palco da sala de concerto. De um extremo a outro, Uma Mulher Fantástica deixa claro que não se trata de escolher entre música popular e erudita, ou entre o bar e o teatro. Ao defender com brio sua dignidade pessoal e fazer valer seus direitos, no decurso do filme, Marina conquista a liberdade de ser como quiser.

Quando desrespeitada após a morte de Orlando, Marina resguarda o que considera ser de foro íntimo. Acaba, porém, sendo obrigada a esclarecer fatos, despir-se e ser fotografada nua diante de um médico e uma policial. Ainda assim, ela se mantém serena e extravasa sua agressividade em casa, dando socos em uma punching ball teto solo. Ela aguenta firme até ser constrangida a defender o direito humano básico de poder se despedir de seu ente querido.

Vítima de intolerância, agressão física e sequestro, Marina revela ser capaz de reagir com violência e não só consegue se despedir, como é a única pessoa presente quando o corpo do seu companheiro é cremado.

Dirigido por Sebastián Lelio, Uma Mulher Fantástica foi escrito por Lelio e Gonzalo Maza a partir da observação de Daniela Vega, cantora lírica e atriz transexual, contratada inicialmente apenas como consultora. Ao receber o prêmio de melhor roteiro no Festival de Berlim deste ano, Lelio e Maza pediram a Vega para subir ao palco com eles em reconhecimento a ter sido ela a fonte de inspiração da personagem. “Toda a aproximação dela no filme”, declarou Lelio, “e da personagem final foi muito orgânica e natural. Pouco a pouco a personagem de Marina foi se ‘danielizando’ como se fossem dois organismos, como uma fagocitose celular. Foi aí que conseguimos terminar o roteiro.” (Depoimento disponível aqui)

 

Em outra entrevista, Lelio diz que “secretamente queria Vega para o papel, mas a princípio não disse nada a ela. Para mim, ter um ator fazendo o papel dela parecia um anacronismo estético – eu considerava que seria como a ideia do rosto negro no início do cinema, quando atores negros não podiam participar de filmes”.

Embora conduzido com segurança, o roteiro não deixa de explorar uma pista falsa, como acontece em certos filmes de Hitchcock – a chave encontrada entre os pertences de Orlando que Marina identifica por acaso e de modo inverossímil. Pertencente ao armário da sauna que seu companheiro frequentava e que está vazio quando é aberto. Qual seria o propósito da sequência? Mostrar Marina nua, circulando com uma toalha amarrada na cintura?

Há também certa insistência numa situação fantástica – as aparições post mortem de Orlando que talvez não precisassem ocorrer tantas vezes.

Finalmente, chama a atenção o tom meio caricatural da grosseria, violência e arbitrariedade voltadas contra Marina.

Mas nenhum desses pequenos reparos, detalhes na verdade, chega a prejudicar o filme como um todo.

A direção de Lelio e o conjunto da realização revelam apuro e maturidade encontrável também em alguns filmes argentinos, mas raros em filmes brasileiros.

Para Lelio, “a identidade de Marina recusa ser rotulada em uma palavra e o filme também é assim. É um filme romântico, um filme de funeral, um filme sobre humilhação e vingança, um estudo de personalidade que tem um elemento documental no cerne, é um filme sobre um fantasma – mas nenhum desses ingredientes domina o filme completamente. Sua identidade muda, recusa ser reduzida a uma única ideia”. Em espanhol, ‘gênero’ significa gênero [categoria] e gênero [identidade], “então da mesma maneira que falamos sobre uma mulher transgênero, nós podemos descrever Uma Mulher Fantástica como um filme transgênero.”

E Lelio diz ainda: “Eu queria visitar novos territórios cinematográficos, para fazer um filme como um sonho [...]. Embora tenha elementos realistas, vai além do realismo. É algo que nós fazemos na América Latina, nós ousamos fazê-lo, mesmo se há também a tendência a cair repetidas vezes na armadilha do realismo social.” (Entrevista na íntegra disponível aqui)

Talvez fosse possível dizer que embora Uma Mulher Fantástica comece com a quimera de visitar as Quedas do Iguaçu, imperativos da realidade – morte e intolerância – se impõe e frustam os sonhos.

Eduardo Escorel

Eduardo Escorel, cineasta, diretor de Imagens do Estado Novo 1937-45

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