anais da violência

A vida e a morte de uma voz inconformada

Os últimos momentos de Marielle Franco, a vereadora do PSOL executada no meio da rua no Rio de Janeiro sob intervenção

José Roberto de Toledo
15mar2018_09h39
FOTO: DIVULGAÇÃO

  English version

Os bares de Copacabana e da Zona Sul do Rio de Janeiro estavam lotados de torcedores que acompanhavam, pela tevê, a virada do Flamengo sobre o Emelec na Taça Libertadores. Também nas redes sociais o time carioca provava-se popular liderando o Twitter Trends Brasil na noite de quarta-feira. Em meio aos milhares de tuítes sobre os jogadores que decidiram a partida, um nome que nada tinha a ver com o jogo começou a subir no ranking de assuntos do momento: Marielle Franco. Aos poucos, o drama futebolístico dava lugar a uma tragédia emblemática.

Líder em uma das maiores comunidades pobres do Rio – a Maré, um aglomerado de 16 favelas espremidas entre a Linha Vermelha e a avenida Brasil onde moram 130 mil pessoas –, Marielle foi a quinta mais votada entre os 51 vereadores eleitos na cidade em 2016. Recebeu 46,5 mil votos logo na primeira eleição que disputou. Usava o mandato para denunciar a violência policial e para cuidar dos interesses e preocupações de mulheres negras como ela. Eleita pelo PSOL, a socióloga pós-graduada em administração pública acabara de ser nomeada relatora da comissão da Câmara Municipal que deveria fiscalizar a intervenção militar na segurança do estado do Rio. Não teve chance de cumprir a missão.

Por volta das 21h30, enquanto o Flamengo entrava em campo no Equador, o Chevrolet Agile quatro portas branco em que Marielle estava foi alcançado por outro veículo na esquina das ruas Joaquim Palhares e João Paulo I, no bairro do Estácio, perto do Centro da cidade. Foram pelo menos nove disparos. Oito projéteis atravessaram o vidro da porta traseira direita, bem no local onde Marielle estava sentada. O nono perfurou a lataria. Quatro atingiram a cabeça da vereadora. Marielle morreu aos 38 anos. Faria 39 em julho.

As balas traçaram uma diagonal dentro do Agile e três delas acabaram alcançando e matando o motorista do carro, Anderson Pedro Gomes. A trajetória que percorreram sugere que o atirador estava ao lado direito e atrás do Agile. Se Marielle estivesse no centro do mostrador de um relógio, o ponteiro indicaria que o assassino ficou entre as marcas das quatro e das cinco horas. Não é a posição de quem anuncia um assalto, talvez a de alguém que planeja uma execução. Nada foi roubado. O ângulo e a precisão dos disparos pouparam a assessora que viajava no banco do carona, à frente de Marielle.

Antes que a tevê noticiasse o atentado à vida da vereadora e de seus acompanhantes, múltiplos polegares se encarregaram de espalhar a história do crime por meio do WhatsApp. De lá, a notícia multiplicou-se pelo Twitter e pelo Facebook. À meia-noite e meia, “marielle franco vereadora” já era líder das “Tendências do Momento” do Google no Rio de Janeiro. A essa altura, nada provocava mais interesse entre internautas cariocas do que a morte da favelada negra que transformara a militância católica da adolescência em mandato eletivo por um partido socialista na meia-idade.

Grávida aos 18 anos, Marielle contou à Revista Subjetiva dez meses atrás que teve que interromper os estudos para cuidar da filha. Concluíra o ensino médio no turno da noite de uma escola pública, o Colégio Estadual Professor Clóvis Monteiro, e pretendia cursar uma faculdade. Matriculou-se em um curso pré-vestibular, mas a gravidez inesperada mudou seus planos. Era 1997, e ela estava numa fase de “fugir da igreja pra ir pro baile” – conforme disse na entrevista. Engravidou. Com o apoio da mãe mas sem o do pai da criança, Marielle tratou de dedicar-se à filha. Só pode retomar os estudos anos depois. Conseguiu entrar no curso de ciências sociais da PUC do Rio em 2002. Recebeu bolsa de estudos integral da universidade.

Já na madrugada desta quinta-feira, a morte da vereadora extravasou das mídias sociais para a mídia internacional. Correspondentes estrangeiros baseados no Rio de Janeiro publicaram notícias sobre o crime em inglês, espanhol e outros idiomas. A morte de Marielle deu no New York Times. Atos de homenagem e de protesto foram marcados pela internet para esta quinta-feira.

Com o assassinato monopolizando o noticiário e ameaçando a popularidade da intervenção militar no Rio, políticos e governantes se apressaram em lamentar a morte da vereadora do PSOL, decretar luto oficial e prometer a solução do crime. As circunstâncias indicam um homicídio premeditado: o atirador sabia exatamente onde mirar para atingir Marielle, apesar de os vidros do Agile estarem fechados e serem escurecidos por uma película colante. Isso sugere que o carro onde estava o atirador seguiu o da vereadora talvez desde a Lapa, onde ela embarcara após participar de um evento com outras mulheres.

Porém, não há registro de que Marielle viesse sofrendo ameaças. Seus companheiros de partido fizeram questão de repetir isso em entrevistas ao longo da noite, argumentando que se ela tivesse sido ameaçada o PSOL teria denunciado, como forma de proteção. Qual teria sido, então, a motivação dos assassinos? Por ora, não há respostas, só especulações. Quatro dias antes de ser morta, a vereadora denunciara o assassinato de dois jovens em Acari, na Zona Norte do Rio. Em post no Facebook, afirmou que o batalhão da Polícia Militar que atua na região é conhecido como “batalhão da morte”. Pode ser uma pista, mas não é uma prova.

Denunciar a morte violenta de seus pares foi o que levou Marielle à política. Em 2005, uma amiga sua foi vítima de “bala perdida” durante um tiroteio entre policiais e traficantes na Maré. O engajamento em campanhas contra a violência policial em favelas aproximou-a de um ex-professor de História seu, do curso pré-vestibular. Em 2006, Marielle fez campanha para Marcelo Freixo, do PSOL. Eleito deputado estadual, o professor nomeou a ex-aluna para assessorá-lo na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Após dez anos de trabalho como assessora parlamentar, Marielle elegeu-se em 2016 para seu primeiro e último cargo eletivo. O sucesso logo de cara predizia uma carreira política longeva. Quatro balas anularam a previsão. Mas não seu legado: foram quatorze meses como vereadora, dezenove anos como mãe, e quase quatro décadas como voz inconformada contra a violência à sua volta.

José Roberto de Toledo (siga @zerotoledo no Twitter)

Editor-executivo da piauí (site), foi repórter e colunista de política na Folha e no Estado de S. Paulo e presidente da Abraji

Leia também

Relacionadas Últimas

Longe do centro

Quem é e o que pensa a adolescente que protagonizou o debate que tomou o Twitter após o assassinato de Marielle Franco no Rio de Janeiro

Marielle bate impeachment no Twitter

Três mulheres cariocas, periféricas e negras são os principais nós da rede de 3,6 milhões de tuítes que produziu o maior acontecimento político da mídia social no país

Aos “Bastardos da PUC”, com carinho

A carta de Marielle Franco para os bolsistas da universidade privada

Sem polícia à vista, mulheres velam Marielle

A PM ficou longe dos protestos contra o assassinato da vereadora do PSOL no Rio; cortejo fúnebre foi liderado por cordão de mulheres negras

Os podcasts que eles ouvem

Quais os programas queridinhos dos participantes do evento

Fogo na Amazônia apaga o Sol no Sul

Fumaça de queimadas combinadas em Rondônia, Bolívia e Paraguai cobre o Sol no norte do Paraná, a mais de 2 mil km de distância

Maria Vai Com as Outras #1: Poder

A prefeita Márcia Lucena e a delegada Cristiana Bento contam como exercem o poder em profissões quase sempre ocupadas por homens

Foro de Teresina especial: aguarde

O programa, que contou com a participação da jornalista Maria Cristina Fernandes, foi gravado ao vivo durante o evento que reuniu os melhores podcasters do país

Entre gargalhadas, cotidiano e estratégia: os podcasts de humor

Linguagem politicamente incorreta e medo da repetição estão entre as preocupações dos realizadores 

Em podcasts jornalísticos, muito planejamento e pouco improviso

Produção diversificada e roteiro bem construído ajudam a resumir informação e análise

Um podcast pra chamar de seu: os temas de cada tribo

Futebol, feminismo e história motivam conteúdos produzidos para grupos específicos; para realizadores, nem todo patrocínio é bom

Podcast, um novo modelo de negócio

Mesa de abertura da segunda edição do evento discutiu estratégias de financiamento 

Mais textos
1

A vovó fashion

Uma influencer e seus looks ousados

2

A imprevidência chilena

Elogiado por Bolsonaro e Guedes, regime de capitalização implantado no Chile tem aposentadoria média inferior ao salário mínimo

3

Acordo de WhatsApp para manter Frota no PSL não resiste a canetada de Bolsonaro

Bancada selou em grupo de aplicativo permanência do deputado, que acabou expulso depois de criticar Eduardo; outros parlamentares devem ser enquadrados

4

Sem saúde nem plano

Por que os planos de saúde privados se tornam inviáveis a partir dos 60 anos e como algumas operadoras conseguem cobrar menos

5

Foro de Teresina #64: A fritura de Moro, a expulsão de Frota e o acordo de Itaipu

O podcast de política da piauí discute os principais fatos da semana

6

O pit bull do papai

Os tormentos e as brigas de Carlos Bolsonaro, o filho mais próximo do presidente

7

Um novo epílogo para Eike Batista

Investigação que levou empresário de volta à cadeia mostra como ele enganou investidores e manipulou preço das ações

8

Operação zangão

O combate ao furto de abelhas no interior de Minas Gerais

9

Por que João Gilberto é João Gilberto

Diretor artístico da Orquestra Sinfônica do Estado de São Paulo comenta, ao violão, legado do inventor da bossa nova; veja os vídeos

10

Fogo na Amazônia apaga o Sol no Sul

Fumaça de queimadas combinadas em Rondônia, Bolívia e Paraguai cobre o Sol no norte do Paraná, a mais de 2 mil km de distância